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Avaluació de les segmentacions

Tal como afirmou Azevedo o tema deste capítulo deve ser “exposto e discutido com as competências da inteligência e do coração” (1986, p. XI). Isto por que falar de uma manifestação afetiva sobre a qual nos baseamos para identificar um parceiro ideal, tal como na escolha do cônjuge, é eleger um tema profundamente complexo e perigoso, com o qual temos de pensar e sentir antes de nos pronunciar.

Nele me remeto às discussões emanadas de minhas observações no campo literário, uma fonte de inspiração para minha discussão sobre o campo da intersubjetividade surgida no decorrer de minha etnografia junto ao curso de noivos.

Esta metodologia é de fundamental importância para minha iniciativa de análise das representações dos noivos sobre o processo de identificação do cônjuge ideal. Por meio dela pretendo também avaliar as implicações da literatura romântica no processo da seleção ritual contido nos casamentos modernos, assim como os elementos presentes neste gênero literário que me permita considerar os vários eixos de relação entre as estruturas sociais prevalecentes e as estratégias individuais contidas no cenário das transações sentimentais existentes nos dias de hoje.

Inicio tratando da discussão envolvendo a natureza das (se podemos dizer assim) estruturas que compõem o processo de constituição da escolha individual, com ênfase numa genealogia desse sentimento, para, em seguida, aprofundar-me na análise da obra de Jane Austen, romancista inglesa do século XVIII, que apresenta aspectos relevantes para se pensar o processo de elaboração da escolha enquanto valor na modernidade, advertindo-nos, também, para uma crítica da relação entre sujeito e sociedade, entre cultura e sentimentos.

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Segundo Viveiros de Castro e Araújo (1977), desde Malinowski, a antropologia vem se debatendo nos braços da dicotomia “direito” versus “afeto”, isto é, a estrutura social concebida como sistema de relações jurais entre pessoas aspectos da vida social não redutíveis a ela, consistindo em sentimentos e emoções, em condutas individualizadas e processos que transgridam as fronteiras da estrutura normativa (VIVEIROS DE CASTRO e ARAÚJO , 1977, p. 133). De um lado teríamos as

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relações marcadas pela 'obrigatoriedade, exterioridade e generalidade', onde as condutas humanas se especificam segundo uma rede de direitos e deveres e posições sociais hierarquizadas, representadas pelo parentesco. Este é o lado da autoridade e, num certo sentido, dos sentimentos de expressão obrigatória. Do outro lado estão as relações onde vigora a escolha individual, a livre opção quanto às linhas de conduta e aos parceiros possíveis, às afinidades eletivas que cortam as divisões internas. Este é o lado da indeterminação, do imponderável, complementar, mas residual em relação ao lado da generalidade.

Pode ser o lado sagrado, onde as fronteiras internas da sociedade são transcendidas por uma comunidade cósmica. O próprio ser humano pode ser concebido segundo este esquema dual: uma persona social, feixe de direitos e deveres, e um aspecto individual, ora alocado no nome que o indivíduo recebe através de um não-membro do grupo, ora no corpo enquanto oposto à alma, ora em uma parte da alma, etc. Este lado é o lado do amor e da amizade, dos sentimentos espontâneos e das atitudes ‘naturais’ (VIVEIROS DE CASTRO e ARAÚJO, idem, p. 135).

O principal problema dessa dicotomização “direito/afeto” é a tendência a se confundir com uma partição ontológica do mundo em um domínio submetido a regras e outro que a elas escapa. Neste sentido a oposição é reificada, padecendo de uma identificação entre regra “normativa” e regularidade social. Em segundo lugar, essa dicotomia oscila entre ser a expressão de certas concepções ideológicas sobre a sociedade e ser a constatação objetiva de uma alocação diferencial da norma e do afeto.

Em outros momentos, tal dicotomia se converte em distinção metodológica, chegando mesmo a exprimir modalidades alternativas de análise do objeto (e de identificação/classificação do pesquisador em seu processo de análise). Neste último caso, a dicotomia caracteriza um processo histórico que nos remete a Radcliffe-Brown, enquanto fundador do modelo normativo e universal de explicação do social. Na contramão temos Firth, Leach e muitos outros que se inscreveram entre os autores que privilegiam o desenvolvimento de modelos que dêem conta de estratégias individuais, incorporando o elemento “optativo” na análise dos sistemas sociais. Não necessariamente, convém lembrar, esta vertente teórica pensa a oposição referida em termos de “direito/afeto”. De todo modo, o que caracteriza esta vertente, de maneira mais geral é a progressiva relevância que o indivíduo vai tomando, como unidade de análise e/ou instrumento de explicação – seja o indivíduo como ser concreto cujas ações não seguem mecanicamente os padrões normativos, seja como categoria ou complexo

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de representações (e aqui é tanto o “indivíduo” quanto o “individual”) que escapam à geometria classificatório-normativa do sistema social.

Viveiros de Castro e Araújo sublinham, portanto, a diferença existente entre as vertentes preocupadas em estabelecer o papel que os sentimentos desempenham na vida social e as que se interessam pelos afetos nas relações interpressoais. E, dentro destas últimas, assinala a distância entre a produção antropológica preocupada em explicar a causa social dos sentimentos individuais e os trabalhos que tentam verificar a função e os significados que pode assumir a manifestação socialmente prescrita dos sentimentos. Todavia, não podemos esquecer que o pioneiro nessa discussão é Durkheim. Foi ele quem discutiu pela primeira vez a dimensão social das emoções a partir de seus estudos sobre os fenômenos religiosos, contrariando assim, a versão corrente de incomunicabilidade entre intelecto e sentimento.

Em sua concepção, do mesmo modo que toda sociedade tem representações coletivas que se impõem aos indivíduos e através das quais eles organizam suas experiências, ela também produz sentimentos coletivos, necessários para a manutenção do consenso social. Assim, os rituais, muitas vezes de caráter religioso, teriam o papel de reafirmar regularmente os sentimentos coletivos que dão unidade à sociedade. Durkheim e Mauss, em trabalho já comentado (DURKHIEM e MAUSS, 2005), postula que a própria sociedade emana de “estados de alma coletiva”, estados estes que se caracterizam pela manifestação de sistemas afetivos:

[...] para aqueles que designamos como primitivos, uma espécie de coisas não é um simples objeto de conhecimento, mas corresponde antes de tudo a uma certa atitude sentimental. Toda sorte de elementos afetivos concorrem para a representação que se faz dela (2005, p. 453).

Neste sentido, a relação ambígua, mas complementar, entre intelecto e sentimento, entre norma e sensibilidade, decorre do sentido (ou significado/significação) produzido pelo indivíduo em sua interação com o seu meio social. Ora, a significação é uma relação entre termos, entre significantes e significados, o que significa dizer que, por exemplo, o pensamento científico, tomado como uma matriz, a da racionalidade, revela apenas uma adequação mais satisfatória sob certas circunstâncias ao pensamento mágico, associado com um modo de pensar e agir, “menos racional”, embora a natureza do processo que os engendra seja a mesma. Entretanto, há uma inadequação irredutível entre significantes e significados, pois, para compreender o mundo, o homem enfrenta sempre uma “superabundância de

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significantes em relação aos significados sobre os quais ela pode aplicar-se” (LÉVI- STRAUSS, 1974, p. 34). No limite, existe sempre um excedente de significação e o “progresso do espírito humano [...] só pode e só poderá sempre consistir em retificar fendas, proceder a reagrupamentos, definir pertinências e descobrir recursos novos, no seio de uma totalidade fechada e complementar de si mesmo” (LÉVI-STRAUSS, 1974, p. 33).

A classificação lógica seria, portanto, uma forma de ordenação do universo através destes significados, ao qual Mauss e Durkheim chamam conceitos, e que sob a ótica do primitivo, constituía um estágio mais complexo do que o estágio puramente afetivo, se opondo a ele. Desse modo, a classificação não passaria de uma categoria do entendimento e a história da classificação cientifica não seria senão a história das etapas no curso das quais se deu o enfraquecimento progressivo do elemento " em favor das categorias próprias do entendimento (MICELI, 2005, p. XIX-XX).

Aproximando-se dessa discussão, Lévi-Strauss, no que se refere à passagem da natureza para a cultura, considera que não haveria uma oposição entre o emotivo e o intelectivo. Para ele estas dimensões não se distinguem num primeiro momento.

Retomando os argumentos de Rousseau sobre 5 , o qual afirma que

não foram as necessidades físicas (fome ou sede) que levaram os homens à sociedade, Lévi-Strauss demonstra que as necessidades podem ter “ditado os primeiros gestos”, mas foram as paixões (amor, ódio, piedade) que “arrancaram as primeiras vozes” através das quais os homens se reconhecem uns nos outros: “Apresentam-nos a linguagem dos primeiros homens como línguas de geômetras e verificamos que são línguas de poetas (...). Não se começou raciocinando, mas sentindo” (ROUSSEAU,

1973 LÉVI-STRAUSS, 1976).

Assim, para Lévi-Strauss as condutas sociais não são desempenhadas espontaneamente por cada indivíduo, sob o efeito de emoções atuais. Para ele os homens não agem, enquanto membros de um grupo, de acordo com aquilo que cada um sente como indivíduo: cada homem sente em função da maneira pela qual lhe é permitido ou prescrito comportar-se, o que nos remete imediatamente a posição de

Mauss sobre & # (1981 [1921]).

Nesta obra, Mauss destaca que as emoções — tanto na sua expressão oral quanto gestual e corporal — formam uma linguagem, “signos de expressões compreendidas” (MAUSS, 1981, p. 62), que, em muitas situações, requer manifestação obrigatória (como nos ritos funerários que analisa). Compreende-se, pois, que as

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emoções, acima de tudo, são elementos da comunicação, logo elementos eminentemente sociais, onde os costumes seriam vistos como normas externas antes de engendrar sentimentos internos. Portanto, os constrangimentos sociais, positivos e negativos, não se explicam nem quanto à origem nem quanto à sua persistência, pelo efeito de pulsões ou de emoções que reapareceriam com as mesmas características no percurso dos séculos e dos milênios em indivíduos diferentes, pois, conforme Lévi-Strauss, “se a recorrência dos sentimentos explicasse a persistências dos costumes, a origem dos costumes deveria coincidir com a aparição dos sentimentos [...]” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 155).

Além disso, se as instituições e os costumes tiveram sua vitalidade no fato de serem continuamente refrescadas e revigoradas por sentimentos individuais semelhantes àqueles em que se encontrava sua primeira origem, elas deveriam encerrar uma riqueza afetiva continuamente renovada, que seria seu conteúdo positivo. Sabemos que não é assim, e que a fidelidade que se lhe atribui resulta, mais comumente, de uma atitude convencional. Qualquer que seja a sociedade a que pertença, o sujeito raramente é capaz de indicar uma causa para este conformismo: tudo o que sabe dizer é que as coisas sempre foram assim, e que age como se agiu antes dele. Este tipo de resposta nos parece perfeitamente verídico. O fervor não transparece na obediência e na prática, como deveria ser o caso se cada indivíduo assumisse as crenças sociais porque em tal ou tal momento de sua existência ele as teria vivido intima e pessoalmente. A emoção vem somente quando o costume, indiferente em si mesmo, é violado (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 156).

Meu estudo sobre escolhas parte, deste modo, do princípio de que as experiências emocionais singulares, sentidas e vividas por um ator social específico, emergem num contexto relacional como produto da interação entre os indivíduos e a cultura/sociedade na qual estão inscritos valores e representações sócio-afetivas. A emoção que envolve o sujeito que escolhe, enquanto objeto analítico das Ciências Sociais, pode ser definida, então, como uma teia de sentimentos dirigidos diretamente a outros e causado pela interação com outros em um contexto e situação social e cultural determinados. Em sua fundamentação analítica vai além do que um ator social sente em certas circunstâncias ou com relação às histórias de vida estritamente pessoal.

De todo modo, a natureza da distinção que separa (unindo paradoxalmente) sentimento e razão precisa ser compreendido enquanto referencial epistemológico que nos auxilia no entendimento da atividade humana, a qual é, concomitantemente, regida pela singularidade da vida social e pelas imponderabilidades da ação individual. De forma que, não é possível afirmar a existência de dois personagens num só, tão menos de um personagem que encarna papéis para seguir normas pré-estabelecidas, mas sim que há múltiplos roteiros de vida que se conformam se ajustando às singularidades

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subjetivas do papel que cada um de nós escolhe exercer. Daí talvez a minha preocupação em encarar a escolha como um processo sujeito a continuidades e descontinuidades, cujos atores não emitem verdades sobre a escolha que fazem, mas rememoram as experiências afetivas que os auxiliam em seu processo de racionalização sobre a escolha que deveriam fazer.

Não podemos esquecer que tratar disso é refletir sobre a evolução da “escolha” enquanto valor semântico, num primeiro momento definido pelas regras de funcionamento da organização social da qual o indivíduo faz parte, mas que progressivamente vai se alterando e se adaptando, num segundo momento, às transformações da intimidade, às novas formas de organização social e principalmente a novas formas de sentimentalidade, caracterizadas pela emergência do romantismo na Europa oitocentista.