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Husserl (1859-1938), filósofo alemão, fundou a Fenomenologia. As obras mais relevantes de Husserl foram “Idéias para uma Fenomenologia Pura” (1913), Uma Filosofia Fenomenoló- gica (1913), e Investigações Lógicas. Ele preparou a Fenomenologia como uma nova ciência da percepção e das essências, cujos elementos essenciais são a intencionalidade (a consciência é intencional, direcionada e tem propósito), a redução fenomenológica (quaisquer pressuposi- ções devem ser suspendidas no exame da amplitude de diferentes dimensões da experiência) e a impossibilidade de apreensão da totalidade das propriedades do objeto. A complexidade da condição humana envolve a percepção da realidade em determinado ponto no tempo, no espaço, dentro de um contexto social e em determinado estado psicológico. O programa de Husserl é sobre uma ciência que pode resultar em conhecimento, com foco em Epistemologia.

Ele considerou que o objetivo da fenomenologia é descobrir os pré-requisitos da experiência em um estudo descritivo da consciência na primeira pessoa (HUSSERL,2001). Intencionalidade, ou “consciência de”, é a criação de sensos nos atos mentais que transcendem o que se oferece na experiência em si, podendo ser estudada em uma abstração da existência real das coisas. Assim, tanto a percepção verídica como a intencionalidade apresentam alucinação.

Em “Idéias”, sua principal obra, ele descreve a fenomenologia como uma ciência pura das essências, que se relaciona com a psicologia empírica, assim como a geometria se relaciona com as ciências naturais. A atitude fenomenológica envolve o exercício da “epoché”, i.e., a anulação sistemática de todos os pressupostos sobre a realidade externa, de modo que a redução fenomenológica possibilite revelar a essência pura dos processos mentais.

Segundo Rakova (2006), Husserl afirma que todo processo intencional um ato de auto- concessão que estrutura momentos hiléticos (causa material do objeto) por componentes noé- ticos (dados do objeto, antes de sua interpretação pelos sentidos, ou seja, sua compreensão

3.2. Fenomenologia 29

imediata). Paralelo à noesis temos o noema, que não é inerente aos processos mentais. O no- emade um processo intencional inclui um conteúdo ou matéria (o “que” noemático) e seu modo de “oferecimento” ou qualidade (obtido na percepção, gosto, julgamento e certeza).

O problema central de Husserl era, então, o mistério da subjetividade. Fink (1939) res- salta que a relação entre ser e pensar levou Husserl a uma profunda exploração dos mistérios da subjetividade e da questão de constituição da objetividade, i.e, a maneira como a consciên- cia atinge o conhecimento objetivo. Nesta exploração Husserl teria passado por três estágios: Psicologismo (1887-1901); Fenomenologia Descritiva (1901-1913); e Fenomenologia Trans- cendental (1913-1938). esse último seria um estágio residual, centrado nos objetos abstratos, em que teríamos uma redução transcendental (noemata), como sendo aquelas entidades abstra- tas ou sentidos que determinam objetos de possíveis experiências subjetivas. Esse idealismo transcendental foi rejeitado por outros fenomenólogos, e em seu trabalho posterior Husserl en- fatizou o papel da intersubjetividade na constituição dos objetos que compõem o nosso mundo peculiar na vida.

Pietersma(2000) reforça que “Husserl adota na epistemologia fenomenológica uma atitude cujo enfoque não está nos objetos, mas em sua experiência”.

Em sua fase de maturidade, Husserl resgatou um projeto que mantinha escondido, que re- conhecia a necessidade de uma fenomenologia genética.

Moran(2000) argumenta que Husserl escreveu muito sobre a natureza e propósito do que intitulou “redução” (latin reducere, “levar de volta”).

Nas Husserlianas (coleção de obras do autor compiladas em 1964), vemos que Husserl introduziu o conceito de redução fenomenológica para excluir tudo o que é posto como trans- cendentalmente existente, falando de uma redução epistemológica necessária para focar no fenômeno puro de atos da consciência (“cogitações”) para evitar suposições enganosas sobre a natureza delas. Husserl tem em mente um bracketing específico de uma interpretação psicoló- gica do que é dado no ato de conhecer algo, referindo-se a uma redução psicológica (HUSSERL, 1999). Ainda, em “Meditações Cartesianas” (1931),Husserl, Peiffer e Lévinas(1992) falam de uma redução transcendental fenomenológica. Em geral, fica difícil distinguir estes diferentes estágios e graus de redução.

Em 1954, Husserl (1970) considerou diferentes formas de redução: redução cartesiana, redução psicológica, redução de intencionalidade, redução de crítica às ciências naturais e re- dução ontológica, por exemplo. Em 1913, Husserl(1983) já via a necessidade de uma “teoria sistemática de reduções fenomenológicas”.

Husserl caracterizou a prática da epoché em diferentes formas: abstenção, deslocamento, desconexão ou exclusão do que está posto no mundo e nossa fé inquestionável normal da re- alidade que experimentamos. Ele fala em recusar, não dar atenção, abandonar, colocar entre parênteses, colocar fora de ação e deixar de lado todos os julgamentos sobre o mundo obser- vado. Mas a característica essencial é ter sempre uma “mudança de atitude” de tal maneira que deixemos de lado qualquer suposição naturalista sobre o mundo, muito comum em nosso

30 Capítulo 3. Revisão de Literatura e Fundamentos

comportamento diário.

Boudier(1986) explica que a mudança de orientação na prática da redução leva-nos a um “retorno” a um ponto de vista transcendental. A epoché é, então, apenas parte de uma estru- tura de redução. Para Husserl, experienciar uma redução é experienciar um enriquecimento da vida subjetiva que se abre infinitamente nessa ocasião. Os que mantêm uma atitude natural têm o pensamento firmado em um mundo pré-conhecido, ao invés de moverem-se para a es- fera da epoché. A experiência transcendental age constituindo o mundo para o observador, na consciência, embora desprovido do ato de reflexão ou juízo.

Na abordagem da redução cartesiana, Husserl frequentemente se refere a um primeiro pro- cedimento de bracketing ou epoché, significando “cessação”, o que viria a ser um tipo de ceti- cismo essencial para o conhecimento. Os antigos céticos recomendavam a suspensão de juízo diante de argumentos conflitantes, aparentemente de mesmo peso, ou seja, suportados pelo mesmo grau de evidência. Isso deixava a pessoa julgando em face de ambas alternativas com uma certa “indecidibilidade”. Daí a recomendação de praticar a abstenção de qualquer jul- gamento, i.e., a epoché cética. Sextus Empiricus diz em suas “Outlines of Pyrrhonism”: “A suspensão do intelecto é uma situação ou condição em que não há qualquer movimento ou ati- vidade do intelecto, porque não se rejeita nem se aceita nada”, visando a tolerância e uma mente aberta. Com um diferente propósito, Husserl recomenda a epoché fenomenológica objetivando atos de consciência que realizam o bracketing de certas estruturas fundamentais.

Husserl usou várias analogias matemáticas para articular o seu senso de epoché: é como colocar parênteses em partes de uma equação (por exemplo, 2+2=(8/4)+2), sustentando que não se deve calcular previamente o que está entre parênteses. Observemos na figura4, página31, um relógio excêntrico cujos elementos isolados exigem interpretação e raciocínio. Porém, por um ato voluntário, podemos recusar qualquer interpretação dos dados observados, sem fazer correlações intencionais de associação com conhecimento prévio, focando apenas na estrutura do ato, ou seja, no fenômeno de observação e não em termos de um mundo espaço-temporal existente.

A atitude natural sempre emprega um ato tético (gr. thesis, proposição), que é um ato de suposição (tomada de posição). Na epoché, inibe-se a aceitação desse mundo objetivo, que também inclui o espaço e o tempo (HUSSERL, 1983) (obra de 1913). Esta suspensão de julgamento é um ato livre da mente em escolher alterar o seu ponto de vista.

“Daí, nesse ponto, nós falamos de tais dados absolutos; mesmo que estes dados sejam rela- cionados à realidade objetiva via suas intenções, caracteres instrínsecos que estão dentro deles; nada se assume com respeito à existência ou não-existência da realidade.”.

Husserl explica que a consciência consiste de atos do ego e seus correlatos, as unidades de pensamento. Assim, temos uma tríade fenomenológica formada por ego, cogito e cogitata. O ego fenomenológico é o fluxo de consciência em que se adquire o significado e a realidade do meio em observação. Os atos do ego, denominados cogito são atos mentais de dúvida, compre- ensão, afirmação, recusa etc formados por unidades de pensamento, denominadas cogitata, que

3.2. Fenomenologia 31

Figura 4: Relógio Excêntrico (Ilustração do Bracketing)

se referem à representação dos objetos em observação.

Ele afirma que o seu tema é “mostrar que é possível e como é possível a tarefa da descrição de um método de redução fenomenológica”, processo em que a redução lida diretamente com a subjetividade transcendental. É um processo que parte de um ego individual empírico para o domínio de uma percepção profunda, i.e., parte do objeto dado à consciência para o conteúdo da consciência em si mesma. Ainda, “a redução parte de um mero julgamento empírico para aqueles que, por sua natureza, são corretos em si mesmos e apreendidos de forma adequada”.

Em um rascunho de artigo para a Encyclopaedia Brittanica, Husserl sugere que “a epoché é um primeiro passo na redução, sendo a segunda a identificação, compreensão e descrição das unidades ideais de significado que agora surgem, sendo estas a noemata e a noese”. Noemata (plural de noema) são os objetos do pensamento; e noese é a intuição ou forma de juízo.