3. Background
3.2. Feed Production
3.2.4. Mixing
“Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Ao iniciar esta seção com esta frase pretende-se fazer uma reflexão sobre aquilo que se acredita, afinal quantos brasileiros têm em seu senso comum que a mensagem da letra da música do cantor Jorge Ben Jor (1969) seja verdadeira? Qual a importância de se acreditar que realmente o Brasil é “um país tropical abençoado por Deus”? Serão estas palavras parte de um mito? E o que é mito? Como ele se forma? Há muitos anos os mitos fazem parte da história do homem. Muito do que se aprende desde criança vem cercada de mitos, que acompanham o desenvolvimento humano.
Etimologicamente falando o termo mito é derivado do grego mythos que significa “narração pública de feitos lendários de uma comunidade” (CHAUÍ, 2001OLIVEIRA et al, 2008). Marilena Chauí no Livro Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária (2001), fala que o termo mito não é entendido apenas no sentido etimológico, mas também em sentido antropológico, como se fosse uma narrativa de uma realidade que se quer explicar, entender, ou
ainda justificar. A autora diz que mito “é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade” (CHAUÍ, 2001 p. 9).
Diante do que diz a autora supracitada, seria o mito uma mentira? É muito comum ouvir a frase: “Isso é verdade ou é Mito?”. De acordo com Campbell (1990, p. 180) a mitologia não é uma mentira; e enfatiza que a considera como poesia, como algo metafórico. Rocha (1996) entende mito como:
“Uma narrativa. É um discurso, uma fala. É uma forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos, dúvidas e inquietações. Pode ser visto como uma possibilidade de se refletir sobre a existência, o cosmos, as situações de „estar no mundo‟ ou as relações sociais” (grifo do autor) (ROCHA, 1996 p. 3).
Na verdade, de acordo com a literatura existe uma grande dificuldade em definir o real significado de mito (ELIADE, 1962; ROCHA, 1996; CHAUÍ, 2001) já que existem vários estudos que apresentam leituras diferentes na forma de entender o mito, seja através da religião, cultura, história, entre outros. De acordo com esta idéia Kirk (1973, p. 8) afirma que mito “pode significar lenda, conto”, mas que também pode ter outros significados, isso dependerá da época, da cultura. O tema é assim também entendido por Rocha (1996, p. 3) que se refere à palavra mito como uma “[...] constelação, uma gama versificada de idéias”. O mesmo autor acrescenta que “O mito faz parte daquele conjunto de fenômenos cujo sentido é difuso, pouco nítido, múltiplo. Serve para significar muitas coisas, representar várias idéias, ser usado em diversos contextos” (ROCHA, 1996 p. 3).
Pode-se constatar que o mito permeia a vida social do homem, mas e quanto ao universo empresarial, como o mito pode ser estudado? Na concepção de Enriquez (1997)14 apud Fossá (2004, p.4) o mito pode ser estudado de várias formas, seja diante da sociedade ou de uma organização ele é entendido sempre como “o guardião dos valores mais importantes, sendo seu papel, evidentemente, complementado por vários outros atos simbólicos como rituais, cerimônias, discursos e símbolos.”
Já Ziemer (1996, p.45) considera que “Da mesma forma que os mitos coletivos orientam a vida de uma cultura, os mitos organizacionais o fazem para empresas e corporações, atribuindo
significado às ações e aos acontecimentos no ambiente de trabalho”. Para Thévenet (1989, p. 90) “Os mitos estão associados aos símbolos e remetem para os momentos especiais da vida da empresa”.
Dentro das organizações existem várias oportunidades de se encontrar mitos, já que estas são compostas por pessoas que trazem as mais diferentes experiências que combinadas às experiências da própria organização formam um mosaico, criando uma identificação e vínculo social (COLPO, 2010 p. 7). Nesse contexto Chauí (2001) considera o mito como gerador de representações da realidade organizacional, fazendo parte das fases da criação histórica da organização. A autora também defende que, desta forma:
“as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimenta-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente. (CHAUÍ, 2001 p. 6)
Colpo (2010) explica que assim como a cultura das sociedades são orientadas pelos mitos coletivos, também os mitos organizacionais atribuem significados às ações e acontecimentos no ambiente da organização, o que para a autora representa uma grande parte dos pressupostos subconscientes e elementos de senso comum que acontecem no contexto organizacional. Assim, segundo a mesma autora cabe ainda destacar que:
“Estes mitos, muitas vezes, são responsáveis por explicar rotinas e procedimentos dentro da cultura de uma organização, possibilitando a criação até de uma identidade cultural. Estes mitos tornam-se elementos simbólicos carregados de significação para os sujeitos de uma organização. Quanto mais se socializa o mito, entre os diferentes atores sociais, mais ele se consolida dentro da cultura organizacional”. (COLPO, 2010 p. 8)
Entretanto, Enriquez (1997 apud Colpo, 2010) enfatiza que os mitos podem sofrer um desgaste, quer na sociedade, quer nas organizações. Isso acontece, segundo o autor, à medida que eles são repetidos, sendo, portanto necessário haver uma reinvenção constante do mito, fazendo, com isso que ele se torne um elemento unificador, fazendo com que seu conteúdo mobilize os afetos das pessoas.
Ainda seguindo o pensamento de Eugène Enriquez:
“a organização não pode viver sem segregar um ou alguns mitos unificadores, sem instituir ritos de iniciação, de passagem e de execução, sem formar os seus heróis tutelares (colhidos com freqüência entre os fundadores reais ou os fundadores imaginários da organização), sem narrar ou inventar uma saga que viverá na memória coletiva: mitos, ritos, heróis, que têm por função sedimentar a ação dos membros da
organização, de lhes servir de sistema de legitimação e de dar assim uma significação preestabelecida às suas práticas e à sua vida”. (ENRIQUEZ, 1997, p. 34 apud FOSSÁ, 2004).
Um dos mitos mais conhecidos dentro das organizações é o “mito da grande família”, onde se destaca a frequente utilização da imagem da grande família reforçando o clima de camaradagem e confiança que se pretende, bem como o comprometimento com os objetivos organizacionais (FLEURY, 1987 p.16). Porém, ainda segundo a autora, ao analisar a família por uma perspectiva histórica, nota-se o desenvolvimento de relações autoritárias, portanto para a autora: “O mito da grande família, revela, assim, as duas faces presentes nas relações de trabalho: a face visível de solidariedade, de cooperação e no outro eixo está a idéia relacionada à dominação e a submissão”.
E quanto aos profissionais que tenham alguma deficiência, existem manifestações mitológicas em relação a estas pessoas? Quais são os tipos? Positivos? Negativos? De acordo com Nambu (2003, p. 17) em um estudo feito para a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República existem vários mitos, em relação ao trabalhador com deficiência, que são freqüentemente encontrados no imaginário dos empregadores.
Em sua pesquisa a autora encontrou mitos que envolvem as pessoas com deficiência de forma geral e mitos por tipo de deficiência. No Quadro 3 tem uma pequena síntese dos mitos que foram identificados no estudo feito por Nambu (2003), o quadro está dividido em duas partes, no lado esquerdo estão os mitos encontrados durante a investigação e no lado direito a explicação sobre a realidade encontrada.
Os mitos apresentados no Quadro 3 são generalistas e têm características positivas e negativas.
Quadro 3 - Mitos sobre as pessoas com deficiência
O que as pessoas imaginam sobre as pessoas com deficiência...
A realidade...
... chegam atrasadas ao trabalho com freqüência
A falta de transporte público suficiente e adequado tem contribuído para que qualquer trabalhador chegue ao trabalho atrasado e cansado. No caso da pessoa com deficiência, especialmente as com deficiência física, isto pode se agravar, já que nem todos os municípios possuem veículos adaptados, nas empresas que servem os cidadãos. Assim, estes aspectos devem ser analisados, ao se empregar qualquer pessoa.
... são mais produtivas Todo trabalhador será mais ou menos produtivo, conforme as condições.
... são especiais
Ser especial não é uma característica inerente à pessoa com deficiência. A palavra “especial” passou a ser associada a pessoas com deficiência, na década de 80, com o intuito de substituir termos descritivos então usados, que adquiriram conotação depreciativa. Como o que realmente conta é a carga valorativa, associada ao termo, o termo especial, ainda carrega atualmente uma carga de desvalorização e de diminuição da pessoa com deficiência.
... são incapazes de roubar, de matar, de mentir.
Qualquer pessoa pode ou não apresentar comportamentos como roubar, matar, mentir, dependendo de sua história de construção de vida, de personalidade, de valores éticos e morais.
... são feias e sujas
Quando se fala sobre pessoas com deficiência, a maioria das pessoas as associa com pessoas “sujas e pedintes”. Isto tem uma explicação muito clara! Por centenas de anos, as pessoas com deficiência foram mantidas fechadas em seus lares, segregadas em instituições, ou esmolando nas ruas, condições determinadas pela prática social da exclusão dessa população. Poucas eram as oportunidades das pessoas se depararem com pessoas com deficiência bem sucedidas, “limpas e cheirosas”. Este quadro está em franca mudança. É interessante observar que, ao encaminhar um trabalhador com deficiência a uma empresa, é comum nos depararmos com o espanto dos empregadores com comentários do tipo “Puxa, como ela é bonita!”, “Como ele se veste bem e é cheiroso!” Fonte: NAMBU, 2003.
Diante do que foi exposto fica clara a importância de se conhecer este elemento cultural, e desta forma poder entender como ele é trabalhado na cultura das organizações hoteleiras, tendo em vista os trabalhadores com deficiência.
Em um estudo feito pela FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos) intitulado “A população com deficiência no Brasil fatos e percepções” resume o cuidado que se deve ter no
estudo dos mitos: “[...] é necessário tomar cuidado para não subestimar ou superestimar o desempenho deste colaborador, inventando mitos que, ao invés de contribuir para a inclusão, acentuam as diferenças e geram novas formas de preconceito e discriminação” (FEBRABAN, 2006 p. 39).