6.4 Data Preprocessing
6.4.3 Missing Data
A fim de aproximarmos estilo individual, ethos discursivo e autoria, retomamos três aspectos da teoria enunciativa de contorno bakhtiniano. Em primeiro lugar, o entendimento de que o enunciado é a unidade concreta da comunicação. Em segundo lugar, o entendimento de que o enunciado traz o estilo funcional (do gênero) e o estilo individual (do enunciador) inscritos em si. Em terceiro lugar, o entendimento de que o enunciado é produzido por um sujeito capaz de manifestar, mesmo mergulhado no conglomerado da heteroglossia social, uma intenção ou vontade discursiva. E, estendendo esse cenário enunciativo a Maingueneau, ainda retomamos um quarto aspecto: o entendimento de que, para melhor gerenciar essa intenção do ponto de vista da eficácia comunicativa, o sujeito recorre, consciente ou inconscientemente, a um fiador, tanto construído na enunciação e manifesto, direta ou indiretamente, no enunciado (o caso específico que nos interessa nesta pesquisa) quanto construído previamente, fora do quadro enunciativo restrito.
Inicialmente nos interessa assinalar a inter-relação entre as marcas estilísticas individuais – aquilo que, de um modo ou de outro, termina por acrescentar, via entonações axiológicas específicas, singularidade formal e conteudística ao enunciado – e o ethos discursivo, matizado pelo fiador e desvelado na materialidade do enunciado. Não estamos considerando, dessa forma, que tão somente o estilo individual possa se constituir vestígio na arquitetação do jogo das imagens definidoras do ethos, o que se apresentaria como contradição diante dos posicionamentos já assumidos neste capítulo. Mas também não estamos deixando de considerar, nessa mesma compreensão, que, em se tratando de enunciados de natureza poética, o estilo individual se torna uma marca por demais relevante a ser levada em conta. Associemos a esse julgamento o fato de Bakhtin (2003) enxergar, na esfera artística, o terreno propício à manifestação do estilo individual, nunca reduzido, nesse espaço, como já afirmamos, a mero epifenômeno.
No sentido aqui focalizado, o estilo individual não é compreendido como mera recorrência formal, simples escolhas idiossincráticas e aleatórias do sujeito, uma vez que está associado a nuanças ideológicas as mais variadas no movimento contínuo das forças sociais centrípetas e centrífugas. Na babel das enunciações concretas e sob a tensão ético-cognitiva do enunciador, o estilo individual não somente está associado às visões de mundo mas também à constituição dos índices definidores do ethos discursivo, estes últimos de importância capital para a eficácia
comunicativa de todo enunciado. Não é independente, pois, nem do conteúdo nem da natureza do material (no caso, grosso modo, a palavra).
Em decorrência desse enfoque, acreditamos que investigar um estilo individual é também investigar o ethos discursivo ali manifesto, sobretudo em se tratando de enunciados representativos de gêneros da esfera artística. Portanto, o modo de dizer, em todo e qualquer nível de organização do enunciado (do nível das escolhas linguísticas ao das escolhas discursivas), associa-se ao que é dito. Estabelece-se uma relação de complementaridade recíproca em que as duas partes se tornam inseparáveis: o herói também é plasmado pelo estilo. E, se as recorrências de escolhas estilísticas individuais estão intrinsecamente relacionadas à adesão dos ouvintes/leitores, o ethos discursivo pode ser visto como um dos pontos para onde elas convergem. Esse inter-relacionamento justifica a focalização nas primeiras a fim de depreender o segundo.
A repercussão social dessa ressonância entre estilo individual e ethos discursivo depende da presença do outro, o co-enunciador, o ouvinte/leitor. Essa alteridade, que tem voz e interage, assumindo atitudes responsivas ativas, corresponde à comunidade discursiva. Entendamos mais claramente esta última, em estreita relação com a produção e a circulação de enunciados, como um conjunto determinado de produtores e de leitores de textos.
No espaço social dessa comunidade, o ethos constrói-se, expande-se, mantém-se, transforma-se... Também nesse espaço, o estilo individual toma forma, repercute, permanece e passa por mudanças. Ainda nesse espaço, vinculam-se estilo individual e ethos discursivo em uma constante busca de dizeres e de adesões a esses mesmos dizeres.
Diante do entrelaçamento entre estilo individual e ethos discursivo, podemos pensar na constituição da autoria. Antes, porém, procedamos a um esclarecimento: a explicitação do que entendemos por autor-pessoa e por autor- criador. Quanto ao primeiro, trata-se do sujeito de existência histórica, empírica, situado em uma relação de tempo e de espaço extratextuais. É o sujeito inacabado, que se move no mundo em um eterno devir, em constante incompletude existencial, e que não possui álibis capazes de justificar seu estar nesse mesmo mundo. Ou, parafraseando Bakhtin (2003), é o sujeito que não pode viver, como pessoa, de seu
próprio acabamento51 e do acabamento dos acontecimentos. Para viver, ele precisa ser inacabado, aberto para si mesmo, somente podendo se constituir como herói no olhar do outro. Não é esse o sujeito inquirido por esta pesquisa.
Quanto ao segundo, abre-se, na perspectiva de Bakhtin (1988, 2003), novo dimensionamento que estabelece rigorosas diferenciações. Para entendê-las, centremo-nos na esfera artística em particular (o que, especialmente, nos interessa). Nessa esfera, o autor-criador é constituído por uma voz que fornece unidade ao objeto estético, pois representa a centralidade axiológica mantenedora da tensão ético-cognitiva que preside o todo da obra. Ele é uma posição verboaxiológica, não se tratando, portanto, de um ente físico. Assim se compreendendo, a voz do autor- criador será sempre uma voz segunda, nunca a voz do autor-pessoa, uma vez que se trata da apropriação refratada de uma voz social qualquer capaz de, por assumir uma posição axiológica determinada e centralizada, dar ordenação à totalidade do objeto estético. Para Bakhtin (2003), o autor-criador deve ser entendido, sobretudo, como uma função imanente ao todo estético, como um participante do objeto estético e um orientador autorizado para o leitor. Por visar ao conteúdo, “enforma-o e o conclui usando, para isso, um determinado material, no nosso caso verbalizado, subordinando esse material ao seu desígnio artístico, isto é, à tarefa de concluir uma dada tensão ético-cognitiva” (BAKHTIN, 2003, p. 177). Diferentemente do autor- pessoa, o autor-criador tem acabamento, já que se encontra limitado aos gradis da obra, sem mais devir.
No nosso entendimento, o exercício da autoria (e estamos nos limitando à esfera artística) é, portanto, em essência, assumir uma posição axiológica determinada, oriunda de uma voz social qualquer valorada, e torná-la o eixo da totalidade do objeto estético. Por ser o eixo axiológico da obra, o princípio basilar da unidade formal e ideológica, entendemos que a voz do autor-criador também se assenhora do ethos discursivo. E, como decorrência, o ethos leva o ouvinte/leitor a aderir à focalização dada ao herói e ao mundo desse mesmo herói.
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Na acepção bakhtiniana, entendemos acabamento (situado no âmbito de uma atividade estética sempre associada a um posicionamento ideológico) como o resultado de procedimentos (ativados por uma determinada vontade discursiva) que permitem, no enunciado, a modelagem dos heróis e do mundo dos heróis, fixando-os, enquadrando-os e não mais lhes permitindo um devenir. Para que tal ocorra, faz-se necessário o distanciamento entre o autor-criador e o herói. O autor-criador, mediante o excedente de visão que lhe é peculiar, dá acabamento, inclusive estilístico, ao herói e ao mundo próprio desse herói. A obra, assim, refrata a vida, oferecendo ao ouvinte/leitor uma determinada visão formal e conteudisticamente acabada.
Nessa compreensão, o estilo individual e o ethos discursivo, como traços manifestos da presença do autor-criador, acabam, do ponto de vista da comunidade discursiva, compondo uma imagem social. Para fazer jus, mais uma vez, à etimologia grega da palavra, o ethos discursivo finda criando um personagem que passa a transitar no imaginário social. As imagens sociais da singularização da assinatura, do virtuosismo estilístico e da individualização personalizada, todas associadas à autoria, passam, portanto, pela trama tecida pelo estilo individual e pelo ethos discursivo, mas gerenciada pelo autor-criador. É esse, portanto, o sujeito inquirido por esta pesquisa.
Para entendermos todos esses inter-relacionamentos no contorno conceitual bakhtiniano, recorremos à perspectiva exotópica52. Aqui nos interessa focalizá-la no âmbito da criação estética, em que há uma diferença e uma tensão bastante nítidas entre a posição ocupada pelo autor-criador e a ocupada pelo herói. O primeiro está necessariamente distanciado do segundo. Pode, por isso, dar-lhe acabamento, pois tem excedente de visão. Nessa compreensão, Bakhtin (2003, p. 23) elucida:
O excedente de visão é o broto em que repousa a forma e de onde ela desabrocha como uma flor. Mas para que esse broto efetivamente desabroche na flor da forma concludente, urge que o excedente da minha visão complete o horizonte do outro indivíduo contemplado sem perder a originalidade deste. Eu devo entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele, convertê-lo, criar para ele um ambiente concludente a partir desse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha vontade e do meu sentimento.
Esse excedente de visão permite, diante do movimento ideológico permanente das forças sociais centrípetas e centrífugas, a manifestação de um determinado eixo axiológico desvelador do herói.
Ainda de acordo com Bakhtin (1988, p. 33),
52
Grosso modo, entendemos exotopia, em conformidade com Bakhtin, como o posicionamento necessário para que se possa falar, com o devido acabamento, a respeito de todo e qualquer herói. Nesse sentido, só o outro, dentro de uma visão exotópica, pode nos dar acabamento. Voltamos, com mais incisão, ao conceito de exotopia neste mesmo capítulo, quando da abordagem das diretrizes metodológicas que regem a pesquisa.
[...] a arte celebra, orna, evoca [...] a natureza e a humanidade social – enriquece-as e completa-as, e sobretudo [...] cria a unidade concreta e intuitiva desses dois mundos, coloca o homem na natureza, compreendida como seu ambiente estético, humaniza a natureza e naturaliza o homem.
Sem dispor do excedente de visão (possibilitador, por exemplo, de humanizar a natureza e naturalizar o homem) manifesto na relação exotópica, o autor-criador não daria forma à vontade discursiva em relação a um dado herói nem elegeria um eixo axiológico capaz de responder pela tensão ético-cognitiva da obra. Sem o excedente de visão, a voz do autor-criador, voz segunda, já filtrada e refratada, seria silenciada. Sem o excedente de visão, também não haveria acabamento formal53 e ideológico do herói e do mundo que rodeia esse mesmo herói.
Também acreditamos ser a posição exotópica do ouvinte/leitor (aqui situado no posicionamento assumido pela comunidade discursiva) que permite a ele resgatar os índices estilísticos individuais desveladores do ethos discursivo. Até mesmo porque, no seu lugar social de ouvinte/leitor, ele dá acabamento aos mais diversos ethé. É ele quem, mediante uma posição axiológica, termina por exaltar, relativizar ou depreciar um perfil depreendido. Nesse sentido, acaba, em uma angulação mais aberta, enquadrando e fixando uma imagem do autor-criador. Por fim, sem esse posicionamento exotópico do ouvinte/leitor, um determinado ethos discursivo não conseguiria habitar o imaginário de uma comunidade discursiva.