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1.4 Thesis Structure

3.1.10 Metal loss

A fim de discutirmos o que entendemos por coerção e por ruptura estilísticas no contexto desta pesquisa, partiremos de algumas asserções oriundas do quadro teórico já traçado neste capítulo. Em primeiro lugar, entendemos que o dialogismo é inerente à enunciação; em segundo lugar, acreditamos que o enunciado desvela marcas assinaladoras do dialogismo; em terceiro lugar, entendemos que o estilo está presente em todo e qualquer enunciado e se manifesta tanto na dimensão coletiva do gênero discursivo quanto na dimensão individual do enunciador; e, por fim, em quarto lugar, acreditamos que o estilo – e claro que não só ele – registra traços em que se ancoram índices sinalizadores do dialogismo.

Desdobrando-se essas asserções, podemos afirmar que o enunciador, ao construir o enunciado, necessariamente se estabelece, de modo consciente ou não, no entrecruzamento das vozes sociais. Entendemos que essas vozes não são constituídas apenas por uma dimensão semântica, uma vez que, em nosso entendimento, conteúdo e forma estão intrinsecamente relacionados na memória social discursiva dos heróis. Lembremo-nos de que, em conformidade com Bakhtin (1988), o discurso verbal é social em todos os fatores que o constituem: das imagens sonoras concretas mais simples aos mais elaborados campos de abstração semântica. Nessa constituição, inclui-se o estilo, entendido como resultado de escolhas que se associam ao tratamento dado ao herói e que remetem para os mais diversos níveis de organização do discurso.

A título de melhor esclarecermos, o dialogismo manifesta-se tanto nas escolhas decorrentes da relação entre enunciador e ouvinte/leitor externo (caso consideremos as atitudes responsivas ativas travadas entre ambos) quanto entre esses (enunciador e ouvinte/leitor) e os dizeres em circulação na sociedade, considerando-se toda a gradação axiológica das mais diversas entonações. Nesse caso, abre-se espaço para possibilidades bastante amplas de relações dialógicas, provocadoras das mais sutis às mais aguçadas atitudes responsivas ativas.

Conforme já explicitamos anteriormente, a linguagem, concebida como uma atividade sociointeracionista, é uma nau representativa dos mais diversos interesses, sem nunca se apresentar neutra, isolada apenas em sua condição de nau. Nesse entendimento, as forças sociais centrípetas, mantenedoras de um determinado status quo e tendenciosamente monologizantes, firmam âncora no império da linguagem tida como única e legítima, excluindo ou relativizando dizeres que, de algum modo, não escoam pelo canal centralizador e condutor das visões estabelecidas sobre o mundo. Assim, entonações axiológicas específicas em torno de heróis e de estilos, esses dois sempre atrelados em sua circulação social, estabelecem-se num enfrentamento a entonações que apontam para outras valorações.

Atuando em contraponto, as forças centrífugas da vida social permitem entonações axiológicas abonadoras de outros dizeres, desestabilizadores dos esforços de centralização discursiva. São forças que tendem para o enfraquecimento da base do estabelecido, mesmo que, em determinados contextos histórico-sociais, sejam pressionadas ao silêncio, provavelmente grávido de atitudes responsivas ativas. Assim, por exemplo, as variedades de vernáculo tidas como cultas substituíram o latim nos gêneros acadêmicos, científicos e filosóficos, na tradição medieval do Ocidente. Ou as variedades populares do vernáculo se infiltraram nos gêneros literários escritos tradicionais. São os enfrentamentos e os intercâmbios de valorações, estas últimas possibilitadoras de inserção e de releitura de heróis e de estilos.

Situado, pois, nessa heteroglossia dialogizada, o enunciador, entendido como um sujeito histórico a interagir com as mais diversas construções ideológicas em circulação na sociedade, faz escolhas axiológicas, ora permeando o enunciado de certos dizeres sociais ora excluindo, do enunciado, outros dizeres. Como resultado, surgem, por exemplo, dentre os mais diversos procedimentos estilísticos, as reelaborações parafrásticas ou paródicas e as estilizações. Desse modo, por exemplo, o herói que a tradição centrípeta mantivera no enfoque de um tratamento crivado pela seriedade passa a ser construído sob uma entonação jocosa, burlesca. Ou continua a ser mantido conforme reza a valoração das tradições estabelecidas. Em outras situações, cede simplesmente o lugar para outro herói. Essa é a simetria com a efervescência do mundo da vida, um contínuo vir-a-ser que flui em um jogo de forças semelhante ao que rege o fluxo das marés: uma força centrípeta tentando

reter o impulso da força centrífuga e esta última, simultaneamente, tentando refrear a retenção.

Mergulhado nessa heteroglossia, o enunciador faz escolhas que acabam definindo seu estilo individual. Sob a retenção das forças centrípetas, pode acabar sendo fiel às escolhas estilísticas da tradição, afastando-se de valorações entonacionais que não se coadunam com aquilo que fora convencionado como bom, adequado e correto em determinadas situações de enunciação; ou, ao menos, nesse caso, secundarizando-as, não permitindo que, de algum modo, possam ser vistas como referências para a configuração do estilo individual. Essa é, pois, em nosso entendimento, a deflagração do movimento da coerção estilística, o que torna clara uma sintonia com as convenções estabelecidas por certa tradição dominante para a focalização de um determinado herói. O enunciador, nessa situação específica, obedece aos ditames de um dizer já consagrado: sob a força da coerção estilística, ele, para manter sua vinculação com certos posicionamentos axiológicos, termina por ratificar o já dito.

Em outro polo, o enunciador, sob o impulso das forças centrífugas, afasta- se de valorações entonacionais associadas à permanência do tratamento dado aos heróis, sintonizando-se com dizeres não ocupantes do patamar da linguagem única, uma vez que se albergam em outras vias do plurilinguismo social. Nesse caso, o enunciador secundariza as escolhas das vozes ditas estabelecidas. Ele faz assomar, à superfície das valorações axiológicas, o que não se coaduna com o esperado, do ponto de vista estilístico, para uma determinada situação enunciativa. Ele já não obedece aos ditames dos dizeres consagrados. Essa é, pois, em nosso entendimento, a deflagração do movimento de ruptura estilística. As escolhas feitas desvelarão, na heteroglossia da babel social, vozes que, por se situarem no contrafluxo ou em vias não estandardizadas, se afastavam do dizer estabelecido.

O estilo individual, sempre presente nos enunciados, consolida-se, portanto, entre os extremos da coerção e da ruptura estilísticas, passando por todas as nuanças existentes entre cada um desses limites. Alicerça-se na heteroglossia da sociedade, o que nos faz pensar, em consonância com o entendimento de Bakhtin (1988), na constituição social do sujeito, mesmo nos terrenos tidos como mais fechados e intimistas. O estilo está associado à vida social e dela se nutre, caso consideremos, como verdadeira, a assertiva de Bakhtin (2003, p. 174): “[...] viver

significa ocupar uma posição axiológica em cada momento da vida, significa firmar-se axiologicamente”.