2.1 Steven Lukes radikale maktperspektiv
2.1.6 Min perspektivering
Se cantar – e o que se canta – é uma forma de interagir com o jogo e uma demarcação de diferença, ela é também um modo de interação com os demais jogadores. Segundo o Setor Alvinegro, o direcionamento dos cânticos é uma das maneiras de se compreender e interpretar torcidas e torcedores. Para a equipe, a atuação do torcedor deve se direcionar ao que designa como “apoio incondicional ao time” – o que é traduzido no slogan do Setor: “Sou Ceará quando o time vai bem; sou Ceará quando o time vai mal”.
As músicas de alento devem, de acordo com o Setor, ser direcionadas para o time do Ceará. Músicas que contenham em suas letras incitações à violência ou que façam referência a outros times e torcidas não são entendidas de forma positiva pelos membros da equipe.
99 A música é uma paródia de “Diana”, popularizada pelo cantor Carlos Gonzaga.
100 Para Fromm (2015), o amor, ao longo do século XX passou por uma guinada da importância de sua função
para a de seu objeto de escolha. Essa escolha é o próprio processo de amar, entendido fundamentalmente como um ato de “vontade, de entrega”.
83 “A principal mensagem com certeza é de amor e apoio total ao clube, ao Ceará. A gente não procura colocar nas nossas letras citar o rival, insultar o rival. Nosso objetivo é somente cantar pra apoiar o clube”. (RICARDO)
Essas diferentes reverberações musicais criam uma atmosfera ao jogo. Em cada momento, há a incitação para se cantar determinadas músicas que dialoguem com ele. Por exemplo, logo que o time do Ceará faz um gol, a torcida Cearamor, geralmente, canta: “Uh, é Cearamor! Uh, é Cearamor!”. O cântico é entoado com os corpos pululando nas arquibancadas e braços e mãos jogados para o alto, numa coreografia embebida de felicidade.
No entanto, essa comemoração expõe também uma fissura. Em vários momentos, percebi que muitos membros do Setor não repetiam o cântico da Cearamor. Mesmo que com os mesmos gestos corporais, cantavam: “Uh, é Ceará! Uh, é Ceará!”. Questionados sobre essa diferença, responderam-me quase sempre que, quando o time faz um gol, deve se gritar e comemorar exaltando o time, não a torcida.
Essa dinâmica cria uma condição social de concorrência101. As equipes entoam seus cânticos numa situação em que parecem disputar a oportunidade de serem os representantes dos torcedores, de maneira geral, nas arquibancadas. Principalmente, neste caso, quando se trata de torcidas do mesmo time. Deste modo, cada uma das equipes, com
suas determinadas “ideologias” cantam no jogo e criam um jogo performativo entre elas. A
partir do direcionamento que é dado às músicas e performances, constrói-se ainda uma identidade dessas equipes, como na fala de alguns membros do Setor:
“Eu acho que a Cearamor canta pra TUF, os Cangaceiros cantam pra eles mesmos, porque eles são muito egocêntricos. E o Setor canta pro time. E a Ceará Chopp canta pra frescar. Tipo eles pegavam as músicas da Cearamor, faziam paródias de bebida, de mulher, dessas coisas.. e cantam pra frescar, não cantam pra apoiar. Esse é um dos diferenciais do Setor. Que o Setor canta muito pro time”. (LARA) Quando se trata de torcidas de times rivais, como num Clássico-Rei, por exemplo, a busca por distinção, visibilidade e reconhecimento parece se acentuar. Ao se colocarem no mesmo espaço de ação, as torcidas de Ceará e Fortaleza duelam em cânticos em referência ao outro em tentativas de representar ao seu rival que são “maiores” e “melhores” que o outro.
101 Para Weber (2012), a concorrência é uma relação social de luta, quando as ações se orientam pelo propósito
de impor a própria vontade contra a resistência do ou dos parceiros, desde que de forma pacífica (sem violência física efetiva). A concorrência se caracteriza ainda pela pretensão de obter para si o poder de disposição sobre oportunidades desejadas também por outras pessoas.
84 “É como se fossem duas competições, uma que tá acontecendo dentro de campo, o futebol, e outra que acontece nas arquibancadas: quem é a maior, quem é a melhor, quem é a mais violenta, ou algo do tipo”. (YGOR)
Ao mesmo tempo em que cantam pelo time e pela equipe, as torcidas –
principalmente num Clássico-Rei – buscam firmar suas identidades a partir de signos de
força, virilidade, masculinidade e disposição em se auto afirmar. Como percebeu Toledo (1996), as músicas entoadas nas arquibancadas, geralmente, estão distribuídas em quatro categorias: as de incentivo ao time e jogadores; as de protestos (em virtude de situações diversas); as intimidadoras (contra adversários, árbitros, atletas); e as de auto afirmação das torcidas (principalmente em relação às organizadas tradicionais).
Podemos observar alguns desses exemplos em versos comumente presentes nas arquibancadas, como os selecionados abaixo:
a) Incentivo
“Ôooooooo, vai pra cima deles, Vovô!” b) Protesto
“Queremos raça! Time frouxo!” c) Intimidadores
“Ei, juiz, vai tomar no cú!”
d) Auto afirmação
“Maior da Capital é nós. Vê se não esquece. Uh, estremece, sou a maior do Nordeste!”
Incentivar, comumente, está ligado a gritar palavras de força (Vai pra cima deles!) ou de amor (Ceará, eu te amo!). Os gritos e cânticos de protesto e de intimidação são geralmente depreciadores da figura de algum outro participante do jogo (seja um atleta, um árbitro, um técnico, dentre outros). Já os de auto afirmação podem tanto ser uma referência negativa sobre o adversário, como também uma exaltação de características de sua própria equipe.
Vejamos a seguir alguns desses cânticos mais tradicionais entoados pela Cearamor:
Liga pro zoológico Chama o camburão Diz que a Cearamor Ela matou o leão Porque a Cearamor Não dispensa que eu sei
85 E come cu de TUF gay
A TUF é gay, é gay, é gay (4x) O funk é nosso ritmo
Aqui é só os loucos
Torcida organizada que estremece o estádio todo Alemão, meu papo é reto: sou da maior do Nordeste
Se tu não acredita, tá maluco, faz o teste Só moleque pesadão
Eita, que torcida massa!
A TOC é um caldeirão, sacode na arquibancada De agasalho bolado, de boné da Lacoste Minha beca é Cearamor, no estilo “a firma é forte”
Maior da Capital Isso já foi confirmado
Torcida Cearamor, dominando todo o estado Não importa o que aconteça, falo pra todo mundo
Seja em qualquer lugar, pelo Vozão vale tudo E pra aquela torcidinha, vou dizer como é que é Vou te dar um “tá ligado” pra deixar de ser mané
Tu só vive se gabando, dizendo que é a maior Que maior, porra nenhuma!
De vocês não tenho dó
Vou mandar a realidade que todo mundo já sabe A minha Cearamor é a maior dessa cidade Tenho orgulho em dizer nosso lema pra você
Vibração e União, se liga aí no Poder É o poder, a TOC é o poder
Torcida Cearamor faz os “comédia” tremer É o poder, a TOC é o poder
Quem fecha com os alvinegro tá tranquilo, pode crê .
Essa disputa é instaurada no espaço do jogo. A tensão e excitação, partes da atmosfera desse jogo, permitem o prolongamento da competição entre as equipes, de modo que as músicas acabam refletindo algumas oposições e estereótipos presentes também na sociedade – mesmo naquela que não está jogando. Por isso, uma das principais formas de tentar “rebaixar” o adversário é atacando sua honra e sua masculinidade. Assim, é comum as
músicas das torcidas mais tradicionais se referirem às adversárias como “gays”, aqueles que
vão “dar o cu”. No mesmo sentido, “o poder” da Cearamor a transforma na maior da Capital, do Ceará, do Nordeste, ainda que seja apenas no momento da performance na arquibancada.