2.1 Steven Lukes radikale maktperspektiv
2.1.5 Bourdieu og makt
Cantar é uma das principais formas de interagir no jogo, seja com os atletas, com os profissionais, com a imprensa ou com torcidas adversárias. Durante boa parte da minha permanência em campo com o Setor Alvinegro, percebi que algumas de suas preocupações giravam em torno da criação, ensaio, execução e divulgação dessas músicas. De modo que a fala de Ygor resume um pouco desta percepção:
“Eu acho que todo torcedor deveria cantar o jogo inteiro porque é a única forma que ele tem de ajudar durante a partida. Porque depois não adianta chorar pelo que já passou, porque já passou. O papel do torcedor é cantar dentro do estádio”. (YGOR)
Ser torcedor – portanto um agente no jogo, conforme discuti no primeiro capítulo
– é também cantar no estádio, pois isso seria traduzido como a principal forma de apoiar o time. Tendo em vista a importância que se dá a essa maneira de atuação no jogo, o Setor Alvinegro utiliza as músicas como um modo de comunicar sua “ideologia”.
As torcidas consideradas pelo Setor como “tradicionais” têm ritmo e letras de músicas diferentes deles. Enquanto as organizadas já têm seus característicos funks, o Setor Alvinegro concentra-se em “levar para o jogo” um ritmo de batida mais cadenciado, mais lento, em referência aos cânticos, principalmente, de barras bravas argentinas e uruguaias. São as músicas conhecidas como “de alento”. Para Rodrigues (2012), a palavra pode designar
97 Goffman (2012a) entende que esses sistemas de práticas e convenções valem para interações cujos episódios
se caracterizam como unidades limitadas. “Essa unidade consiste da atividade total que ocorre durante o tempo em que um dado conjunto de participantes se ratificou para conversar e mantém um único foco de atenção em movimento” (GOFFMAN, 2012a, p. 41). No caso das torcidas, as equipes se mantém em jogo constante durante uma partida de futebol.
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uma canção (o “alento” em si), um verbo para cobrar maior incentivo quando a torcida
esmorece (“Vamo alentar!”), ou até mesmo uma disposição, um modo de torcer (“torcida de alento”).
Rodrigues (2012) percebeu em seu estudo com a torcida “Geral do Grêmio”, uma nova modalidade torcedora: as “torcidas de alento”. Essas torcidas começaram a surgir no país no início da década de 2000 trazendo uma série de características como os cânticos de apoio constantes ao time, com a presença de menos palavrões e mais declarações de amor ao
clube – construindo uma oposição aos modelos de músicas existentes anteriormente. Trabalho
similar realizou Menezes (2010) com duas torcidas do Botafogo Futebol e Regatas, a “Fúria
Jovem do Botafogo” e a “Loucos pelo Botafogo”.
No caso da “Loucos pelo Botafogo”, uma torcida de alento do clube, foram percebidas características semelhantes ao que fora levantado por Rodrigues, ou observadas também no Setor Alvinegro. Tais equipes
buscam um distanciamento da violência, atribuída às torcidas organizadas pelos meios de comunicação. Com o objetivo de diferenciação das torcidas organizadas e, logo, das práticas violentas institucionalizadas, esse grupos adotaram modelos de torcer que incluem práticas cada vez mais racionalizadas e organizadas (MENEZES, 2010, p. 59).
A interseção entre as condutas dessas torcidas implica uma problematização pertinente aos modos de “torcer”, de participar do jogo. Essa postura aparentemente pacífica e de declaração de amor incondicional ao time surgiria como uma opção “viável” e mais próxima da estética do futebol espetacularizado98, em oposição às práticas violentas de torcidas organizadas constantemente difundidas por meios de comunicação, o que colabora com o que discuti no Capítulo 1 ao falar sobre o fato de torcedores estarem “de saco cheio” das organizadas.
“Se você canta uma musica de amor ao clube, quem tá ali dentro vai sentir. Pelo menos essa é a intenção, né? Caralho essa torcida que tá aqui ama esse clube e a gente tem que dar o sangue por esse clube também. Agora, música de violência, tipo “Vamo dar porrada no Leão”, “expulsa, expulsa”, cresce é aquele sentimento de ódio, de sangue nos olhos e tal, e isso a gente vê muito no campo também, principalmente quando é Clássico. Se a galera tá cantando “expulsa, expulsa”, aí o jogador vai dar carrinho e derrubar todo mundo que tá na frente. Eu acho que o jogador que tá ali dentro de corpo e alma, ele sente o que é que a torcida tá querendo passar”. (LARA)
98 Principalmente no que concerne às arenas de futebol construídas a partir do anúncio do Brasil como sede da
Copa do Mundo. Tais arenas se caracterizam por um “padrão Fifa”, comercializando a ideia de mais conforto para os torcedores. Ao mesmo tempo, essas arenas possuem sistemas de vigilância mais sofisticados, interferindo diretamente sobre o comportamento de torcedores e torcidas.
82 Assim, parte da performance do Setor é no sentido de instituir uma modalidade de torcer, diferente do que eles conhecem tradicionalmente por torcida organizadas. As músicas constituem parte dessa identidade que tenta se marcar quase que o tempo todo nas arquibancadas (mas também fora delas, enquanto houver jogo a ser jogado). A marcação da diferença indica que o torcedor “deveria ser aquele que canta e declara seu amor ao time sem parar”, como na música abaixo:
Não te esqueças meu VOVÔ Que quem mais te ama sou eu
Sempre foi o teu AMOR Que minha alma aqueceu
E no estádio te APOIAR Viveremos a cantar
A caaaaaaaantar.... VOVÔ, TE AMO99
A principal relação que se faz entre jogadores e o time é da ordem do amor100.
Essa comunhão sentimental, conforme Maffesolli (2014), é o que mobiliza a “força do
contágio” e que auxilia na operacionalização das diferenças entre cantar no Setor e cantar em outras torcidas.