Os aphrodisia são os atos, gestos e relações que proporcionam prazer, que instigam o desejo. Diferente do que ocorre na idade média, em que a ideia de carne transforma o prazer em temor, objeto de repúdio, o desejo para os gregos não é necessariamente vil. O que se busca não é reprimi-lo, mas dar a ele uma forma que seja condizente com o status de homem livre. O tipo de questionamento que se faz diz respeito não ao ato em si, mas à sua dinâmica.
O que na ordem da conduta sexual parece, assim, constituir para os gregos objeto da reflexão moral não é, portanto, exatamente o próprio ato (visto sob as suas diferentes modalidades), nem o desejo (considerado segundo sua origem ou direção), nem mesmo o prazer (avaliado segundo os diferentes objetos ou práticas que podem provocá-lo); é sobretudo a dinâmica que une os três de maneira circular (o desejo que leva ao ato, o ato que é ligado ao prazer, e o prazer que suscita o desejo). A questão ética colocada não é: quais desejos? quais atos? quais prazeres? Mas: com que força se é levado “pelos prazeres e pelos desejos?” A ontologia a que se refere essa ética do comportamento sexual não é, pelo menos em sua forma geral, uma ontologia da falta e do desejo; não é a de uma natureza fixando a norma dos atos; mas sim a de uma força que liga entre si atos, prazeres e desejos. É essa relação dinâmica que constitui o que se poderia chamar o grão da experiência ética dos aphrodisia112.
A temperança é a palavra-chave. A maneira como se considerava esses atos, os questionamentos que são feitos, os regimes a serem adotados, tudo tinha como norte esse princípio. Não se trata de não ter desejos, portanto, mas de não deixar que esses desejos impeçam os homens de serem senhores de
si. Não poderia haver governo dos outros – dos escravos, das mulheres, da
cidade – sem o governo dos próprios desejos. O mandamento do oráculo de
Delfos conheça a ti mesmo objetivava integrar o indivíduo em totalidades
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sociais bem estruturadas113. Ao dirigir-se ao interior, era possível descobrir um
denominador comum entre o mundo e o eu. Da mesma forma, as relações sexuais estavam intrinsecamente relacionadas às relações sociais.
A dinâmica que une atos, prazeres e desejos possui duas variáveis: em relação à intensidade e à quantidade. Era sempre importante demonstrar comedimento. Além disso, a prática dos prazeres se referia também ao que Foucault chama de papel e de polaridade. O verbo que diz respeito aos aphrodisia possui um valor ativo, referindo basicamente ao papel masculino, à função ativa que é definida pela penetração. Era possível ser empregado também na forma passiva, referindo-se ao parceiro-objeto, papel feminino da relação.
Temos, sem dúvida, razão em dizer que não existe no vocabulário grego substantivo que agrupe numa noção comum o que pode haver de específico na sexualidade masculina e na sexualidade feminina. Mas é preciso sublinhar que, na prática dos prazeres sexuais, distingue-se claramente dois papéis e dois pólos, como também podem ser distinguidos na função generativa; são dois valores de posição – a do sujeito e a do objeto, a do agente e a do paciente: como diz Aristóteles, “a fêmea enquanto fêmea é de fato um elemento passivo, e o macho, enquanto macho, um elemento ativo. Enquanto que a experiência da “carne”, será considerada como uma experiência comum aos homens e às mulheres, mesmo se não toma a mesma forma em ambos, e enquanto que a “sexualidade” será marcada pela cesura entre sexualidade masculina e feminina, os aphrodisia são pensados como uma atividade implicando dois atores, cada qual com seu papel e função – aquele que exerce a atividade e aquele sobre o qual ela se exerce114.
O temor, a lei e a busca pela verdade constituem importantes instrumentos de controle da sexualidade. Homens livres e senhores de si que o eram, os aparelhos coercitivos não eram o do castigo e da punição, mas do controle consciente dos atos, por meio de todo um exercício de ascese, que visava um cuidado de si. A condição que se procura alcançar por meio de todos os cuidados com a temperança, pelo domínio dos atos de prazer, é entendida como uma busca de liberdade. Governar desejos e prazeres é o caminho para ser livre e se manter assim. Este talvez seja o elemento mais importante daquilo que Foucault chama de ars erotica: a constituição de um
113 SLOTERDIJK, Peter. Crítica da Razão Cínica. Lisboa: Relógio D’água Editores, 2011,
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66 poder que é imposto pelo indivíduo para si mesmo, não por meio da lei e do chicote, mas voluntária, por exercícios e cuidados. Estrutura semelhante existe, como veremos mais à frente, na sociedade industrial.
Se é preciso, como diz Platão, impor-lhe os três mais fortes freios – o temor, a lei e o discurso verdadeiro – se é preciso, segundo Aristóteles, que a faculdade de desejar obedeça à razão como a criança aos mandamentos de seu mestre, se o próprio Aristipo queria que, sem deixar-se de “servir-se” dos prazeres, se velasse a não se deixar levar por eles, a razão não é que a atividade sexual seja um mal; também não é porque ela arriscaria desviar-se em relação a um modelo canônico; mas sim porque ela depende de uma força, de uma energeia que é por si mesmo levada ao excesso. Na doutrina cristã da carne, a força excessiva do prazer encontra seu princípio na queda e na falta que marca desde então a natureza humana. Para o pensamento grego clássico essa força é por natureza virtualmente excessiva e a questão moral consistirá em saber de que maneira enfrentar essa força, de que maneira dominá-la e garantir a economia conveniente dessa mesma força115.