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Hva påvirker våre forbrukshandlinger?

Noter til kapittel 2

3.1. Hva påvirker våre forbrukshandlinger?

A paleoantropologia mostra que o surgimento da bipedia foi o mais importante acontecimento do processo de hominização. Suas consequências foram inúmeras e determinantes, a começar pela liberação das mãos, agora disponíveis para a coleta e para a fabricação de objetos. O emparelhamento

entre mão e cérebro90 possibilitou o aumento da massa encefálica e a

assimetria funcional dos hemisférios cerebrais. Posteriormente, com o advento da linguagem, o aparelhamento se tornou tríplice: cérebro, mão e boca.

A bipedia também repercutiu estruturalmente na sexualidade. O psiquiatra francês André Bourguignon, autor de História natural do homem, destaca que “de fato, foi a bipedia que fez do homem o primeiro animal não somente sexuado, mas ‘sexual’, e da sexualidade um dos fundamentos da

hominização91”. Com o advento da postura ereta, o homem se distancia do

chão e o olfato perde espaço para a visão como o principal sentido de organização da vida. A desvalorização dos estímulos olfativos resultou na predominância dos estímulos visuais com os órgãos sexuais visíveis. A excitação sexual se torna contínua e não mais cíclica. Tem-se aí a transição de um modelo instintual para o modelo pulsional, como demonstra Freud em três ensaios sobre a teoria da sexualidade. O recalque orgânico é consequência desta transição.

A instituição da família, que representa o início da civilização humana, não seria possível sem o surgimento do modelo pulsional, que proporcionou uma demanda contínua da presença do parceiro. A postura bípede também foi responsável pela associação do sexual ao afetivo. O coito ventro-ventral, com a troca de olhares e de carícias, deu ao sexo componentes de afeição que antes só eram exibidos em contextos não-sexuais, como na relação mãe e filho. Bourguignon afirma ter sido esta nova forma de coito a mais importante influência da bipedia na sexualidade.

90 JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan, v.1: as

bases conceituais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, p. 165

91 Apud JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan,

49 O psicanalista francês também afirma que, com a bipedia, os órgãos sexuais masculinos e femininos adquirem uma posição diferente: a vulva, entre as coxas, foge da percepção visual e olfativa, enquanto o pênis e o escroto permanecem expostos e vulneráveis. Ele vê neste aspecto um elemento

filogenético central para se entender a angústia da castração92.

O modelo pulsional foi determinante para o estabelecimento da vida em sociedade, dada as suas possibilidades de desvio e ressignificações. A civilização, ensina Freud, nasce da renúncia e sob seu signo é mantida. É universal, portanto, a necessidade de culturalização dos impulsos sexuais e agressivos que constituem o homem. Estabelecer e impor formas de controle de impulsos são tarefas intrínsecas à sociedade, pois dizem respeito à possibilidade de emergência e constituição do sujeito. Renúncia e sublimação constituem pré-requisitos para o progresso.

Assim, a indicação de que, por intermédio da restrição da sexualidade e da agressividade, os homens se organizam e vivem em sociedade registra que a renúncia pulsional é um movimento, por assim dizer, de socialização, pois não há possibilidade de subjetivação se não há também limite de satisfação. As condições de emergência da cultura registram uma situação conflituosa, ou seja, ao mesmo tempo que para o homem o seu semelhante situa-se como meio de realização subjetiva, ele também se constitui como impedimento. Assim, têm-se uma condição paradoxal: a cultura erotiza a criança, para, em seguida, frustrá-la com inúmeras e necessárias interdições, a fim de diminuir a força das suas pulsões e, posteriormente, impor recalques à realização de seus impulsos sexuais e agressivos, constitutivos da condição humana93.

A repressão tem origens ontogenéticas e filogenéticas. Isso significa dizer que o indivíduo sofre a supressão dos seus impulsos primários que buscam prazer tanto em um duelo contra si mesmo como na sua relação com outros indivíduos. Ambas as origens correspondem à transformação do instinto do prazer em princípio de realidade. Essa transformação precisa garantir que o indivíduo não entenda a supressão como abandono do prazer, mas como um adiamento garantido do mesmo. Marcuse argumenta que toda forma do

92 Apud JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan,

v.1: as bases conceituais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, p.166.

93 GUIMARÃES, Vanessa Canezin. Eros na psicanálise freudiana: um destino culturante

50 princípio de realidade deve estar consubstanciada num sistema de instituições

e relações sociais que transmitam e imponham a modificação dos instintos94.

Como pode ser notado no pacto edípico e na alegoria totêmica, a existência de modelos identificatórios é indispensável para que indivíduos tenham com o que se identificar. Depende de cada sociedade, no entanto, definir quais e quantos serão tais modelos, se estarão ou não acessíveis a todos os seus membros e, em caso positivo, em que condições tal identificação

se dará95. Marcuse explica que a justificativa para e o determinante da

repressão é econômico: sociedades em que todos os membros trabalham normalmente pela vida exigirão modos de repressão diferentes dos de

sociedades em que o trabalho é exclusivo de um determinado grupo96. Com a

análise do modelo econômico, é possível ter uma visão mais estrutural dos artifícios de cada sociedade para culturalizar a sexualidade, tema do próximo capítulo.

94 MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Rio de Janeiro: LTC, 1999, p.35.

95 MEZAN, Renato. Interfaces da psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.

271.

51 O sexo é verdade, mas a verdade sobre o sexo é um demiurgo de mil faces: prazer e pecado, gozo e sofrimento, vida e morte.

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