Assim como já ressaltado, os psicoestimulantes trazem consigo vários efeitos colaterais tais como aumento da pressão arterial, possibilidade de desenvolver convulsões, batimentos cardíacos acelerados, alucinações e diminuição do apetite (Novartis, 2017). No entanto, apesar de notarem consequências negativas, alguns sujeitos, sob o efeito das anfetaminas, tentam encontrar justificativas positivas, que validem o seu uso, assim como ressaltado por Larissa,63 candidata ao vestibular que estava no setor de atendimento especial, quando relata a necessidade de mudar de medicamento: “[eu] tomava Concerta® mas acabou com meu apetite aí eu comecei a tomar
Ritalina® achando que ia melhorar algo, mas não adiantou nada, não consigo sentir fome. Mas, sabe? Me ajudou muito, você não tem noção”.
A que exatamente Larissa se referia com o termo “me ajudou muito”? Será que vale a pena deixar de sentir fome para poder ser mais atento e ter a possibilidade de ingressar no Ensino Superior? Quais valores estamos construindo em nossa sociedade?
A mesma candidata, Larissa, no final do primeiro dia de provas, ao se despedir solicita: “amanhã, você poderia chamar o candidato que fica rodando a caneta e pedir para ele parar,
porque me desconcentra”. Não é necessário supostamente ter TDA/H, ou qualquer outro transtorno,
para sentir-se incomodada por algum barulho, pois em meio ao silêncio de um local destinado à aplicação de uma prova com grande impacto na vida pessoal, “qualquer barulho mínimo chamava
atenção” (Diário de campo da pesquisadora).
Até quando as IES terão salas individuais suficientes para as pessoas que não suportam o barulho do outro? Quantas paredes neutras, tampões de ouvido, ledores e redatores serão
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necessários, visto o aumento de candidatos do setor especial a cada ano? Além disso, no levantamento dos requerimentos, encontramos um e-mail trocado entre uma candidata e a diretoria de processos seletivos, uma vez que aquela não havia enviado os laudos necessários para garantir seu atendimento especial na data prevista pelo edital do vestibular. Para justificar seu esquecimento, a candidata relata:
Peço excessiva e encarecidamente que considerem minha solicitação visto que não consegui enviar os documentos no dia de ontem, prazo final da solicitação, devido a problemas motivados pelo TDAH do qual sou acometida. [...] Acabei não me lembrando de enviá-la. Certa de que os senhores têm conhecimento de como os portadores de TDAH são prejudicados por, além de outros fatores, esquecimentos frequentes, e não me esquivando de minha total culpa e responsabilidade pela perda do prazo estipulado no Edital desta instituição, com humilde e sinceridade, faço minha solicitação.
É curioso constatar que a candidata lança mão do próprio transtorno para justificar o envio dos documentos fora do prazo estipulado institucionalmente. Neste sentido, quantos precedentes seriam abertos em processos seletivos, concursos e outros certames tendo os transtornos como explicação? É interessante pensarmos no quanto o diagnóstico pode revelar uma limitação para as pessoas, que se pautam no fato de ser/ter TDA/H ou Dislexia, para justificar não darem conta de determinada situação ou não poderem fazer algo. Massi (2007) aborda tal questão quando entende que a pessoa diagnosticada não acredita ser capaz, entra em ciclo vicioso, corroborando uma visão depreciativa sobre si. Neste sentido, percebe-se o quão impactante e perigoso é um diagnóstico, podendo inclusive mexer com a autoestima e a autoconfiança dos rotulados.
É intrigante, inclusive, o fato de que, nos laudos analisados (Apêndice A), grande parte destes continha somente o código da CID-10, sem fazer nenhuma menção aos recursos que seriam
necessários, como se já estivesse implícito que, só por ter TDA/H ou Dislexia, o sujeito deveria ter recursos diferenciados.
Apesar de se acreditar que depois da elaboração do diagnóstico não há nada para se questionar, Caliman e Rodrigues (2014) alegam que “o processo de apropriação ativa do conhecimento médico sobre o diagnóstico não implica necessariamente na aceitação total da descrição e explicação biomédica do transtorno” (p. 129). No entanto, embora percebendo as diferenças entre os candidatos que requerem o Atendimento Especial, Letícia ressalta que, perceptivelmente, alguns não precisam daqueles serviços tanto quanto os outros:
eu não posso deixar de perceber, lá na hora da aplicação da prova, que eu tenho vários tipos de TDAH... existem vários comportamentos, um que eu percebo que é extremamente ansioso, precisa de ficar em setor individual, porque caso contrário ele não vai conseguir fazer a prova. O outro pode o mundo cair que ele está lá fazendo a prova normalmente.
Assim como Letícia, os indivíduos que recebem diagnósticos destes pretensos transtornos lidam com eles de diversas maneiras. Dessa forma, como exposto pela pesquisa de Caliman e Rodrigues (2014), há aqueles se que identificam com o diagnóstico, outros que passam por um processo de sofrimento ao se verem carregando um transtorno mental que não tem cura, outros veem até certos benefícios em possuir um transtorno e há aqueles que se aliviam por não se julgarem os responsáveis por serem diferentes. Caliman (2012, p. 100) aponta:
Uma vez diagnosticado, parte do tratamento é o sujeito aceitar que o transtorno permanecerá para sempre com ele, e que a partir de agora seu estilo de vida será alterado, moldado de acordo com as descrições do transtorno e as exigências de tratamento [...] Trata–se aqui de uma forma de autoconstituição norteada pelo diagnóstico. Muitos sujeitos diagnosticados e pais de crianças TDAH relatam um sentimento de conforto e de alívio ao aderirem à
narrativa oferecida pelo transtorno. Nela, eles não mais são descritos como culpados, incapazes, preguiçosos, moralmente defeituosos e passam a não mais se descrever como tal.
Dentre as pessoas encontradas em nosso levantamento, quantas será que realmente acreditam na veracidade de seus diagnósticos? Quantas usufruem dos benefícios de tê-los? Quantas sofrem por possuírem estes transtornos? Quantas se aliviam por não serem culpadas pela sua falta de atenção? Neste momento não podemos responder a essas perguntas, mas deixamos aqui alguns questionamentos que podem suscitar pesquisas posteriores.
5.4. Deficiência, transtorno, disfunção ou “história pra boi dormir”? Afinal, o que são TDA/H