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Metodisk refleksjon

A fragmentação do sujeito é um tema central na obra de Antonio Tabucchi. A perda da ideia de unicidade e totalidade do ser é enfocada pelo escritor italiano em vários de seus textos, os quais levam à reflexão sobre a questão da identidade no mundo contemporâneo. De acordo com Stuart Hall322

, o sujeito, na atualidade, está passando por um processo de “crise de identidade” devido à, cada vez maior, tomada de consciência de sua condição como um ser fragmentado.

Como ressaltado por Hall323, rápidas e profundas mudanças ocorridas na sociedade fazem com que esse sujeito se veja dividido entre várias identidades possíveis

322 Cf. HALL, 2011, p. 7.

com as quais poderia se identificar em um dado momento. Essa concepção contradiz a crença do senso comum, segundo a qual, possuímos uma identidade única, fixa e estável. De acordo com essa ideia, é possível perceber que, em diferentes contextos, nos posicionamos de maneiras igualmente diversas, de acordo com os papéis sociais que estamos desempenhando.

Segundo Hall324

, esse fenômeno pode ser compreendido de forma mais ampla a partir do conceito de deslocamento do sujeito, o qual é descentrado tanto de seu lugar no mundo social quanto de si mesmo, perdendo o sentido estável de si. Portanto, as múltiplas identidades do sujeito são, a todo o momento, deslocadas, o que faz da identidade “uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2011, p. 13).

Em O mal-estar da pós-modernidade, Zygmunt Bauman325

salienta que, do mundo moderno ao pós-moderno, a questão da identidade passa do problema de como construir a própria identidade, de forma coerente e universalmente reconhecível, para a dificuldade pós-moderna de estabelecer laços duradouros com uma identidade qualquer. De acordo com Bauman, na pós-modernidade, devido à “virtual impossibilidade de achar uma forma de expressão da identidade que tenha boa probabilidade de reconhecimento vitalício”, o sujeito prefere “não adotar nenhuma identidade com excessiva firmeza, a fim de poder abandoná-la de uma hora para outra, se for preciso” (BAUMAN, 2015, p. 155). Segundo Bauman, o mundo pós-moderno é marcado pelo excesso de fluidez, imprecisão e indefinição, o que leva o sujeito à maior das ansiedades: “a que se relaciona com a instabilidade da identidade da própria pessoa e a ausência de pontos de referência duradouros, fidedignos e sólidos que contribuiriam para tornar a identidade mais estável e segura” (BAUMAN, 2015, p. 155).

Na concepção de Bauman, o mundo moderno, com suas “leis duras, severas e ostensivamente inabaláveis, que deixa ao indivíduo exclusivamente o dever de se ajustar e se conformar” (BAUMAN, 2015, p. 156) é substituído pelo pós-moderno, em que o sujeito se vê aturdido “pela escassez de sentido, porosidade dos limites, incongruência das sequências, volubilidade da lógica e fragilidade das autoridades” (BAUMAN, 2015, p. 156-157).

324 Cf. HALL, 2011, p. 9.

Além disso, Bauman ressalta que, no mundo moderno, a arte do romance se mostra um meio de escape para “os mal-estares típicos de um gênero de sociedade que oferecia aos indivíduos um pouco de segurança à custa de um pouco de sua liberdade” (BAUMAN, 2015, p. 156). Por outro lado, segundo Bauman326, o mal-estar pós- moderno surge da forma de liberdade crescente experimentada nesse contexto, advinda “do gênero de sociedade que oferece cada vez mais liberdade individual ao preço de cada vez menos segurança” (BAUMAN, 2015, p. 156), o que acarreta nas aflições e sofrimentos experimentados na pós-modernidade, resultantes da perda de sentido e fragilidade das instituições.

Devido a esses fatores, Bauman conclui que, na pós-modernidade, a literatura procura “simplificar a desnorteante complexidade, selecionar um grupo finito de atos e personagens na infinda multiplicidade, reduzir o infinito caos da realidade a proporções intelectualmente manejáveis” (BAUMAN, 2015, p. 156), posicionamento o qual se parece mais adequado para lidar com os descontentamentos pós-modernos.

Nos escritos de Antonio Tabucchi, a crise do sujeito, experimentada na pós- modernidade, está, muitas vezes, relacionada à temática da procura pelo “outro” enquanto busca da própria identidade, a qual os personagens tabucchianos tentam delinear em meio a uma realidade fugidia e inconstante. Dessa forma, a conexão entre identidade e alteridade se dá de maneira intrínseca, como sugere Pia Lausten: “l’incontro con l’altro o l’assenza dell’altro vengono rappresentati come elementi costitutivi per l’identità”(LAUSTEN, 2005, p.11)327.

Isso ocorre porque a única possibilidade que temos de construir nossa identidade é a partir do olhar do “outro”. Além disso, a ideia de um “eu” unificado não passa de uma ilusão, já que essa imagem que temos de um todo coerente e indivisível não é inerente ao sujeito, mas algo que é formado a partir de sua relação com os outros. Por esse motivo, é possível dizer que a identidade não consiste de uma instância plena que habita o indivíduo, sendo, ao contrário, caracterizada pela falta de completude. O sujeito busca, portanto, construir sua autoimagem a partir das formas pelas quais considera ser “visto” pelos outros.

É nesse sentido que o processo de formulação pelo sujeito da própria identidade tem como elemento crucial a questão da alteridade. Além de cindida e fragmentada em sua essência, a identidade é, ainda, constituída pela marca indispensável do “outro”.

326 Cf. BAUMAN, 2015, p. 156.

327 “o encontro com o outro ou a ausência do outro são representados como elementos constitutivos para a

Como nos lembra Silvana de Oliveira, “a identidade passa assim a ser vista como o lugar possível da inscrição da diferença. A alteridade é então aquilo que permite a problematização da identidade, que deixa de ser pensada como espaço reservado ao Uno, à semelhança” (OLIVEIRA, 1995, p.18-19).

Em O si-mesmo como outro, Paul Ricoeur328 trata da dialética entre ipseidade e alteridade. Para isso, inicia seu argumento estabelecendo uma distinção entre identidade-idem e identidade-ipse. Esses dois significados de identidade estão inscritos de maneira implícita no termo “mesmo” presente na expressão “si-mesmo” que aparece no título da obra de Ricoeur. Sendo assim, opondo dois termos do latim que podem indicar o “idêntico”, a saber, idem e ipse, o filósofo francês reconhece por um lado a identidade como “mesmidade” (associada ao termo latino idem) e, por outro, considera a identidade como “ipseidade” (derivada do latim ipse).

Em relação à identidade-idem, Ricoeur329 salienta que o conceito de mesmidade está atrelado à noção de identidade numérica e de identidade qualitativa. Na identidade numérica, está expressa a ideia de que, “de duas ocorrências de uma coisa designada por um nome invariável na linguagem ordinária, dizemos que não foram duas coisas diferentes, mas ‘uma única e mesma’ coisa” (RICOEUR, 2014, p. 115). A essa noção de identidade está relacionada a ideia de unicidade, em oposição à noção de multiplicidade, correspondendo à operação de “reidentificação do mesmo”, segundo a qual “conhecer é reconhecer” (RICOEUR, 2014, p. 115). Já a identidade qualitativa se refere à semelhança extrema, correspondendo à “operação de substituição sem perda semântica” (RICOEUR, 2014, p. 115). A identidade-idem está, portanto, vinculada à ideia de permanência no tempo. No entanto, devido à fragilidade do critério de semelhança, o qual não se sustenta se tomarmos um intervalo de tempo extenso, Ricoeur recorre à noção de “continuidade ininterrupta”, a qual é aplicada àqueles casos em que “o crescimento e o envelhecimento atuam como fatores de dessemelhança e, por implicação, de diversidade numérica” (RICOEUR, 2014, p.116). Segundo o filósofo francês,

a demonstração dessa continuidade funciona como critério anexo ou substitutivo da semelhança; a demonstração baseia-se na seriação ordenada de pequenas mudanças que, tomadas uma a uma, ameaçam a semelhança, mas não a destroem; é o que fazemos com fotografias que nos retratam em idades

328 Cf, RICOEUR, 2014, p. 114-126. 329 Cf. RICOEUR, 2014, p. 115.

sucessivas da vida; como se vê, o tempo é aqui fator de dessemelhança, divergência, diferença (RICOEUR, 2014, p. 116).

Para tecer seu argumento em relação à conceitualização da identidade-ipse, Ricoeur330 se detém sobre as noções de “caráter” e “palavra cumprida”. O filósofo francês define o “caráter” como “o conjunto das marcas distintivas que possibilitam reidentificar um indivíduo humano como sendo o mesmo. (...) Ele acumula a identidade numérica e qualitativa, a continuidade ininterrupta e a permanência no tempo” (RICOEUR, 2014, p. 118-119). É por esse motivo que, ao designar o “caráter” como “o conjunto das disposições duráveis pelas quais se reconhece uma pessoa” (RICOEUR, 2014, p. 121), Ricoeur assume-o como o ponto em que a problemática do idem e aquela do ipse se sobrepõem.

No entanto, segundo o filósofo francês 331 , ipseidade e mesmidade se desvencilham quando nos deparamos com a noção de “palavra cumprida”, a qual expressa o sentido de “manutenção de si”. A esse respeito, Ricoeur argumenta que, o cumprimento da promessa “parece realmente constituir um desafio ao tempo, uma negação de mudança: ainda que meu desejo mude, ainda que eu mude de opinião ou inclinação, ‘manterei’” (RICOEUR, 2014, p. 125). A justificação ética, segundo a qual devo preservar a confiança depositada em mim pelo outro, de acordo com Ricoeur, “desenrola suas próprias implicações temporais, a saber, uma modalidade de permanência no tempo capaz de ser polarmente oposta à do caráter. Aí, precisamente, ipseidade e mesmidade param de coincidir” (RICOEUR, 2014, p. 125).

Jeanne-Marie Gagnebin332, no texto “Entre eu e eu-mesmo”, aborda essa discussão estabelecida por Paul Ricoeur, enfatizando a criação, pelo filósofo francês, de um conceito de sujeito “simultaneamente dessubstancializado e radicalmente responsável: o ipse é aquele que pode reconhecer e assumir suas ações como também prometer” (GAGNEBIN, 2009, p. 136). Como atesta Gagnebin, ao pensar o sujeito como ipse, torna-se possível o deslocamento da questão o quê? para a questão quem?, sendo que “a ipseidade é própria da identidade de um sujeito que assume sua ação (...), mas que não precisa, para fazê-lo, recorrer a uma substância imutável através do tempo” (GAGNEBIN, 2009, p. 135-136).

Em sua discussão a respeito da identidade-ipse, Gagnebin tece um comentário que poderia ser aplicado à escrita de Antonio Tabucchi, ao afirmar que “as obras

330 Cf. RICOEUR, 2014, p. 118-125. 331 Cf. RICOEUR, 2014, p.125. 332 Cf. GAGNEBIN, 2009, p. 135-136.

literárias contemporâneas, com sua implosão da identidade estável tanto do narrador quanto das personagens, oferecem um prisma privilegiado da questão da ipseidade, justamente porque recusam a pretensa segurança de uma identidade substancial” (GAGNEBIN, 2009, p. 136).

Ao distinguir identidade-idem de identidade-ipse, Ricoeur333 estabelece a discussão sobre a alteridade, conforme assumida no título de seu trabalho O si-mesmo como outro. A esse respeito, Ricoeur explicita como a dialética entre ipseidade e alteridade resulta na correlação do si-mesmo com o outro de forma tão intrínseca que ambos não podem ser dissociados. Por outro lado, ressalta que ao se considerar a identidade-ipse, mantendo a discussão na esfera da mesmidade, identidade-idem e alteridade estabelecem entre si uma relação de oposição.

A identidade-ipse põe em jogo uma dialética complementar à dialética entre ipseidade e mesmidade, a saber, a dialética entre o si e o outro que não o si. Enquanto se permanecer nos círculos da identidade-mesmidade, a alteridade do outro que não o si não apresentará nada de original: “outro”, como foi possível observar de passagem, figura na lista dos antônimos de “mesmo”, ao lado de “contrário”, “distinto”, “diverso” etc. Não ocorrerá o mesmo se usarmos o par alteridade e ipseidade. Uma alteridade que não é – ou não é apenas – comparação é sugerida por nosso título, alteridade que possa ser constitutiva da própria ipseidade. O si-mesmo como outro sugere logo de saída que a ipseidade do si-mesmo implica a alteridade num grau tão íntimo que uma não pode ser pensada sem a outra, uma passa para dentro da outra, como se diria em linguagem hegeliana. Ao “como” gostaríamos de atribuir o significado forte, não só de comparação – si-mesmo semelhante a outro –, mas sim de implicação: si-mesmo na qualidade de... outro (RICOEUR, 2014, p. XIV-XV).

É o sentido de alteridade obtido pela dialética com a ipseidade, tendo como resultado a impossibilidade de dissociação entre o si-mesmo e o outro, que me parece ser de interesse para a discussão, na obra de Antonio Tabucchi, de aspectos referentes à relação entre o “eu” e o “outro” os quais, nos textos do escritor italiano, se dissolvem de tal forma uma na outra que passam a se associar de maneira intrínseca.

Em Antonio Tabucchi, é possível perceber que essa questão é abordada como a busca de si a partir da procura pelo “outro”. É justamente esse o eixo em torno do qual se estrutura a narrativa de Notturno Indiano334. Nesse romance, o protagonista Roux

333 Cf. RICOEUR, 2014, p. XIV-XV.

334 Esse romance foi trabalhado por mim em Antonio Tabucchi: viagem, identidade e memória textual, o

qual se originou de minha dissertação de mestrado. Ao retomar esse romance, pretendo apenas, a título de exemplo, enfatizar como a questão da alteridade se coloca de forma incisiva na obra do escritor italiano. Ressalto que minha intenção em revisitar Notturno Indiano reside apenas no fato de que, em minha concepção, esse texto não poderia ser ignorado ao tratar de questões referentes à identidade e à alteridade na obra do escritor italiano.

parte para a Índia em busca de seu amigo Xavier, o qual julgava desaparecido naquele país. Na tentativa de alcançar o seu propósito, o protagonista segue pistas vagas e incongruentes, se embrenhando, cada vez mais, pelos mistérios da cultura indiana. No entanto, a busca pelo amigo perdido se revela como a procura de Roux por seu próprio “eu”.

No decorrer da narrativa, os dois personagens se mesclam, passando a se confundirem um com o outro. Uma evidência desse fenômeno é a semelhança física existente entre eles, o que é comprovado por Roux que, ao descrever o amigo perdido, parece descrever a si mesmo: “è un uomo alto quanto me, magro, con i capelli lisci, ha circa la mia età (...)” (TABUCCHI, 2006e, p. 25)335. Além disso, em um dado momento, Roux intui que Xavier estava usando uma nova identidade, passando a se chamar Mr. Nightingale. Dessa forma, os nomes de ambos os personagens passam a coincidir, já que Roux, apelido atribuído ao protagonista pelo próprio Xavier muitos anos antes do presente da narrativa, nada mais é que uma abreviação de “Rouxinol”, sendo que Xavier utiliza a mesma palavra para criar seu novo nome, Mr. Nightingale, o qual corresponde justamente à tradução de “rouxinol” para o inglês.

Nessa passagem, é possível perceber a ocorrência de um fato surpreendente, na medida em que Roux deduz a nova identidade de Xavier partindo de seu próprio nome: “Pensai a un nome, Roux, e subito a quelle parole di Xavier: sono diventato un uccello notturno; e allora tutto mi parve così evidente e perfino stupido, e poi pensai: perché non ci ho pensato prima?” (TABUCCHI, 2006e, p. 90)336. O fato de Roux partir de si mesmo para finalmente encontrar uma pista congruente que o levaria ao outro é uma das mais fortes evidências de que Roux e Xavier constituem o par único/duplo. Ambos os personagens consistem, portanto, em dois lados de uma mesma moeda, ou uma multiplicidade de lados, o que é evidenciado pelos jogos de espelhos que perpassam o romance de Antonio Tabucchi.

Il filo dell’orizzonte337 é outro romance de Antonio Tabucchi do qual é possível suscitar a discussão de questões semelhantes. A narrativa se desenvolve em torno do

335 “é um homem alto como eu, magro, de cabelos lisos, tem perto da minha idade (...)” (TABUCCHI,

1991, p. 22).

336 “Pensei num nome, Roux, e de repente naquelas palavras de Xavier: tornei-me um pássaro noturno; e

então tudo me pareceu tão evidente e até mesmo estúpido. E depois pensei: por que não pensei nisso antes?” (TABUCCHI, 1991, p. 80).

337 No primeiro capítulo desta tese, apresento o romance Il filo dell’orizzonte para demonstrar como o riso

do protagonista, ao final da narrativa, pode ser entendido em termos do humorismo pirandelliano. Por outro lado, neste capítulo, retomo esse romance para evidenciar a relação entre identidade e alteridade, bem como o tema da procura do “outro” enquanto busca do “eu” em Antonio Tabucchi.

esforço empreendido pelo protagonista Spino em revelar a identidade de um jovem morto em uma ação policial. Entretanto, ao investigar o passado de Carlo Nobody, o protagonista está à procura de si mesmo. Para isso, Spino segue pistas vagas e imprecisas, as quais parecem conduzi-lo a lugar algum. Sendo assim, da mesma forma como, em Notturno Indiano, Xavier parece estar sempre um passo a frente de Roux, tornando impossível ao protagonista alcançá-lo, também em Il filo dell’orizzonte, Spino se depara com a impossibilidade de encontrar as respostas que procura. É nesse sentido que, à maneira de Xavier, a linha do horizonte está sempre “um passo a frente” sendo, portanto, inalcançável.

No que diz respeito à investigação sobre a identidade do jovem morto, é possível perceber que o nome falso com que a vítima é identificada pela polícia, Carlo Nobody, provém do inglês “nobody”, ou seja, “ninguém”. Trata-se de um homem sem identidade ou passado, cuja morte parece não interessar a mais ninguém além de Spino, tendo a sua existência resumida à insignificância de sua morte: “Spino ha capito che quel morto a cui pensava non importava a nessuno, era una piccola morte nel grande ventre del mondo, un insignificante cadavere senza nome e senza storia, un detrito dell’architettura delle cose, un residuo” (TABUCCHI, 2008b, p. 35)338.

Em seu percurso ilógico, Spino parte da investigação de uma morte para a reflexão sobre o sentido profundo da existência. Com isso, acaba por, ainda que de forma tangencial, evocar seus próprios fantasmas ao revolver o passado do outro. Nisso consiste sua tarefa autoimposta: tentar encontrar um sentido para a vida e a morte de Carlo Nobody, não permitindo que sua história seja apagada e, assim, buscar uma razão para seu próprio estar no mundo. O propósito do protagonista se torna evidente durante uma conversa com o pianista Harpo339, o qual, supostamente, poderia lhe fornecer uma pista sobre o caso:

“(...) le persone che lo hanno conosciuto tacciono, niente, nemmeno una telefonata anonima, come se non fosse mai esistito, gli stanno cancellando il passato”.

“(...) Ma chi è lui per te?”, ha chiesto piano, “è uno sconosciuto, non conta niente nella tua vita”. (...)

338 “Spino percebeu que o morto em que estava a pensar não interessava a ninguém, era só uma morte no

grande ventre do mundo, um cadáver insignificante sem nome e sem história, um detrito da arquitectura das coisas, um resíduo” (TABUCCHI, 1994d, p. 30).

339 Nessa passagem, é possível perceber a busca de Antonio Tabucchi por referências à cultura pop

americana representada pelo personagem Harpo, o qual pode ser associado ao músico e comediante americano Harpo Marx, membro do grupo “Marx Brothers”, que fizeram sucesso nos Estados Unidos na primeira metade do século XX. No entanto, enquanto o personagem de Tabucchi é um pianista, Marx Harpo tocava harpa durante suas apresentações.

“E tu?”, gli ha detto Spino, “tu chi sei per te? Lo sai che se un giorno tu volessi saperlo dovresti cercarti in giro, ricostruirti, frugare in vecchi cassetti, recuperare testimonianze di altri, impronte disseminate qua e là e perdute? È tutto buio, bisogna andare a tentoni” (TABUCCHI, 2008b, p. 79-80).340

A conexão entre Spino e Carlo Nobody é evidenciada em um comentário fortuito de Sara, noiva do protagonista: “Restano un attimo assorti davanti alla fotografia dello sconosciuto, poi lei si lascia sfuggire una frase che gli provoca una specie di smarrimento. ‘Con la barba e venti anni di meno potresti essere tu’, dice” (TABUCCHI, 2008b, p. 31-32)341. O morto representa, portanto, uma parcela do passado e de si mesmo que Spino busca apreender. No entanto, como é recorrente nas obras de Antonio Tabucchi, várias questões permanecem em aberto ao final da narrativa.

O fato de ver a si mesmo em Carlo Nobody leva o protagonista de Il filo dell’orizzonte a se embrenhar por caminhos tortuosos e incongruentes na tentativa de compreender a razão de uma existência: “Ha pensato alla forza che hanno le cose di tornare e a quanto di noi stessi vediamo negli altri” (TABUCCHI, 2008b, p. 98)342. Essa reflexão de Spino remete à discussão a respeito da relação intrínseca que se estabelece entre o que Paul Ricoeur343 denomina identidade-ipse e alteridade. Partindo desse raciocínio do filósofo francês, pode-se compreender como Spino se mescla a Carlo Nobody de maneira indissociável, sendo capaz de ver a si mesmo no outro, já que segundo Ricoeur344, a dialética entre ipseidade e alteridade faz com que a correlação do si-mesmo com o outro se dê de forma tão intrínseca que ambos não podem ser dissociados. A alteridade faz parte da constituição da própria ipseidade, sendo que uma não pode existir sem a outra. Tais reflexões nos convidam a enfocar a problemática tabucchiana sobre as relações entre identidade e alteridade no diálogo com a poética de Fernando Pessoa.

340 “(...) as pessoas que o conheceram calam-se, nada, nem sequer um telefonema anónimo, como se

nunca tivesse existido, estão a apagar-lhe o passado”. “(...) Mas quem é ele para ti?”, perguntou baixinho,