Aristóteles, no quarto livro de um conjunto de livros, que recebeu o título de Metafísica, postula a existência de uma ciência que estuda o “ser enquanto ser e todas as propriedades que lhe pertencem enquanto tal”. Teoria filosófica do ser e de tudo aquilo que lhe pertence.
Este ser, objeto da Metafísica, ou melhor, da Ontologia, “o ser enquanto ser” é isolado e abstraído das coisas sensíveis, e compreendido pela inteligência no seu conceito puro de ser, o ser inteligível, produto da abstração formal, que é uma técnica filosófica.
2.6.1 O ser vago
Assim convém distinguir o ser vago, de que falamos, há pouco, implicado nas coisas sensíveis, que toda pessoa confusamente apreende, e de que nem sempre tem consciência, e o ser enquanto ser, objeto da intuição abstrativa, proposto e estudado pela ciência filosófica criada por Aristóteles, a ciência do ser, a Ontologia, depois chamada Metafísica.
São duas maneiras de encarar o ser, a do homem comum e a do filósofo. Em todo caso, é o uso da mesma palavra “ser” (ente e essência) o ponto de partida da linguagem e do conhecimento, da linguagem filosófica e científica, e da linguagem do cotidiano.
61 2.6.2 Analogia do ser
A doutrina do ser já tinha uma longa história iniciada em Parmênides no poema filosófico Sobre a natureza. O ser para Parmênides é o puro ser positivo que se opõe ao puro ser negativo, ou não-ser. O ser é, e o não-ser não é, ensinava Parmênides, compreendendo o ser num conceito unívoco.
Aristóteles, porém, afirma no capítulo 2 do Livro IV da Metafísica que o ser não se diz de maneira unívoca e homônima, mas de muitas maneiras em relação a algo uno. Na tradução de Angioni, lemos:
O ente se diz de muitas maneiras, mas com relação a algo uno e a uma natureza única, isto é, não de maneira homônima, mas, pelo contrário, assim como todo e qualquer “saudável” se diz com relação à saúde – um, por preservá-la, outro, por produzi-la, outro, por ser sinal da saúde, outro, por ser capaz de recebê-la - ... (Angioni, 2001, p.15)
2.6.3 Homônimos e sinônimos
Dizer de maneira homônima é dar o mesmo nome ou formular a mesma expressão para diversas coisas. Para Aristóteles, no início das Categorias, homônimos são nomes comuns com significados diferentes. Sinônimos são nomes comuns com a mesma definição.
Conforme comentários de Angioni:
... para a relação de sinonímia, vale o mesmo que foi dito acima com respeito à homonímia: temos, novamente, uma relação entre coisas (na medida em que elas recebem uma denominação) e não uma relação entre nomes, ou entre sentidos de nome. Deve-se afastar qualquer aproximação com a nossa noção gramatical de “sinônimo”. (Angioni, 2000, p.167)
Então o ser não é homônimo, porque o significado compreendido não é diferente, o homônimo pressupõe o mesmo nome e coisas diferentes, o ser é sempre ser. Não é sinônimo porque, embora a mesma denominação, o sentido também não é o mesmo, em virtude da riqueza do conceito ser. As gramáticas, quando tratam da questão da sinonímia,
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também não resolvem com clareza, costuma-se aproximar o termo equívoco de homônimo, e unívoco de sinônimo.
O ser é, pois, análogo.
Uns seres são essências, outros são acidentes, afecções de essência. O ser se apresenta numa diversidade infinita e sempre será nomeado com a mesma palavra ser, embora o aspecto inteligível se modifique. Tudo é ser e tudo tem uma modalidade diferente, formas diferentes de ser.
O ser é o que existe, ou pode existir. Tudo nomeamos com a mesma palavra ser. A multiplicidade do ser não se dá por nenhuma característica que seja alheia à noção de ser, qualquer diferença que se acrescente a um ser é uma modalidade de ser.
Sob um mesmo conceito, que representa a total realidade de uma coisa, são representadas outras realidades totalmente diversas. Isto não poderia acontecer se o conceito de ser fosse unívoco.
O conceito de ser, por isso, é transcendente e o nome ser representa tudo, representa as mais diversas coisas, sob certa proporção ou analogia.
Esse nome ou conceito não é, pois, atribuído de maneira unívoca a todas as coisas que percebemos, como pensava Parmênides, mas de maneira análoga, analogia de proporcionalidade própria. Há semelhança com dessemelhança real e não se trata de simples metáfora. Tudo é ser em sentido próprio.
Arnou assim define análogo: “Dicitur autem analogus, quando pluribus convenit secundum rationem simul eandem et diversam, sicut sanum de animali et de medicina vel de regione campestri.” 1 (op.cit., p. 96)
Analogia é, portanto, proporcionalidade fundada numa relação de semelhança e dessemelhança. Uma idéia um tanto paradoxal, pois afirma que naquilo que é igual, é desigual. Tomemos o adjetivo saudável, que os dicionários definem como bom ou conveniente para a saúde. Seu emprego nos enunciados será de maneira analógica. Diz-se que um animal é sadio ou saudável por certo motivo ou razão (logos), o funcionamento orgânico, assim como dizemos, por uma mesma e diferente razão, que uma água é saudável, porque dá saúde e uma região é saudável, porque favorece a saúde. A comparação está próxima da analogia, pois só é possível comparar quando há ao mesmo tempo coincidência e diversidade.
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Diz-se análogo, quando algo convém a muitos segundo uma razão ao mesmo tempo a mesma e diversa, assim como sadio se diz do animal, do medicamento e de uma região campestre.
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Os seres, enquanto participantes da existência, são diferentes, mas coincidem no ser. Com freqüência ouvimos alguém dizer: “essas coisas não são iguais, são análogas”. A analogia fica entre os termos homônimos (ou equívocos) e os termos sinônimos (ou unívocos), pois o termo homônimo, equívoco, é polissêmico, manga pode designar uma fruta ou uma parte de vestuário, a mesma designação serve para conceitos ou objetos totalmente diversos, enquanto o termo sinônimo de sentido aproximado ou igual seria unívoco e apresenta coincidência de significado. Análogo está no meio, ou melhor, não é nem um, nem outro.
Costuma-se distinguir analogia de atribuição da analogia de proporcionalidade. A analogia é de atribuição quando um mesmo nome é atribuído a muitos por causa de uma razão que se realiza formalmente só num termo da relação. Nesse caso dizemos, por exemplo, que alguém apresenta uma cor saudável em relação à saúde, que se realiza formalmente só no corpo humano, designado por isso de principal analogado.
A analogia é de proporcionalidade quando o mesmo nome é aplicado a muitos em razão de algo intrínseco, isto é, uma semelhança proporcional, que está em todos. Não é apenas atribuição, mas participação no ser. Assim como os olhos vêem de seu modo, a inteligência “vê” de sua maneira. Há analogia de proporcionalidade entre ver e entender.
O ser não se predica de modo equívoco, como se fosse um termo homônimo, simples palavra de sentido diferente, assim como “manga/fruta” e “manga/parte de vestuário”, porque em cada coisa o mesmo conceito de ser se realiza real e proporcionalmente. O ser não se predica de modo unívoco, com sentido único e equivalente, como “homem/animal racional”, porque cada coisa é um ser, porém, de modo diferente.
A identidade do ser, enquanto tal, é uma identidade analógica, porque o ser é atribuído a todas as coisas de modo analógico. Toda predicação de ser é feita ao mesmo tempo de modo semelhante e de modo diverso. A substância é ser, a árvore é um ser, mas a cor da árvore é também um ser real.Um ser substancial ao lado do ser acidental, a identidade da substância não é a identidade do acidente, mas a realidade do ser está na árvore e na sua cor. A analogia do ser é a polivalência ou riqueza exuberante e inesgotável do ser. Nomeamos com uma só e mesma palavra uma diversidade infinita de coisas. A identidade do ser não é única, é infinita. Todos fomos arrancados do nada, existimos e somos, existimos com identidade própria.
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A riqueza do ser, só a conseguimos exprimir com a palavra “ser ou existência”. Maritain diz:
Ser, existência – não saio disto. Se sou interrogado sobre o conceito de ser, intimado a explicá-lo, direi – e só posso dizer isto (não se trata de uma definição, mas de uma simples designação) – que o ser é “o que existe ou pode existir”. O que só tem sentido porque remete a uma intuição primeira. (Maritain, 1996, p.70).
65 CAPÍTULO III - CONSTRUÇÃO TEÓRICA DO CONCEITO DE IDENTIDADE
Depois de ter encontrado as primeiras noções de identidade na linguagem do cotidiano e ter estudado nos autores as primeiras doutrinas sobre o ser e o princípio de identidade, é o momento de tentar construir nova apresentação do conceito de identidade a partir desses autores clássicos.