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Aristóteles.

Assim argumentamos de acordo com o princípio de não-contradição que afirma ser impossível uma mesma coisa ser e não ser ao mesmo tempo e sob a mesma relação.

Aplicado ao silogismo, o princípio de identidade tem a seguinte formulação, conforme Maritain: “duas coisas idênticas a uma mesma terceira são idênticas entre si; e duas coisas das quais uma é idêntica e a outra não idêntica a uma mesma terceira são diferentes entre si”. (Maritain, 1994, p.201)

Conforme ainda Maritain, nessa página, esse é o “princípio da tríplice identidade” na forma positiva e “princípio de terceiro exclusivo” em sua forma negativa, ambos, uma expressão particular do princípio de identidade ou de contradição. Firmados no alicerce desse princípio, construímos a coerência dos discursos.

4.5. Identidade e tautologia

Há certa dificuldade na formulação desse princípio, que traduz a intuição intelectual e dá início a todo conhecimento e linguagem humana. Muitos a consideram tautologia.

O princípio de identidade encerra uma grandeza ontológica, todo o mistério do ser aí se encontra e, por isso, há dificuldade de sua expressão em palavras.

Mesmo que se empregue a mesma palavra “ser”, há diversidade de sentido entre o ser, sujeito, e o ser, predicado.

É a diversidade funcional da mesma palavra, ora empregada como sujeito, ora empregada como predicado. A proposição, ou o juízo, reconhece a identidade na coisa existente. É um ser só, reconhecido sob aspectos diferentes, segundo a noção de sujeito e de predicado.

Na linguagem coloquial encontramos muitos casos dessa aparente tautologia, para dar ênfase ao sentido. “O que está feito, está feito”. É conhecida a frase de Pilatos: “quod scripsi, scripsi” 5 (Jo, 19, 22).

Na linguagem do Corão, temos o conhecido: “Alá é Alá”. Na linguagem cristã, também podemos dizer “Deus é Deus”, onde Deus, no predicado, enriquece o conceito do sujeito, expresso pela mesma palavra Deus.

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Há diversidade dos conceitos, no sujeito aparece a noção do ser existente, e no predicado, a noção do ser essência. Não é simplesmente repetir a mesma essência, a mesma palavra ou noção, “pedra é pedra”, mas “isto (pedra - sujeito) é pedra (predicado - essência)”. O princípio de identidade apresenta uma distinção nos termos, são pontos de vista diferentes. Objetos, pensados como distintos, identificam-se no ser.

Reduzir o princípio de identidade à fórmula matemática A = A é empobrecer a fórmula. Essa formulação, em termos matemáticos, é inadequada e imprecisa para designar a intuição, que apreende alguma coisa (aliquid) na unidade do ser. Os objetos, que pensamos como distintos, existem num mesmo ser uno e idêntico. Essas noções nascem da experiência externa e interna, a experiência da identidade e do mesmo, a mais comum das experiências, uma coisa não é outra coisa, cada coisa é o que ela é. Essa experiência é traduzida em palavras na vida cotidiana, desde o uso infantil.

Já a criança expressa frases, onde manifesta que tem noção de identidade, quando deseja algo e afirma implicitamente que uma coisa é uma coisa.

Sob a forma abstrata e universal, o princípio de identidade, ou a noção de identidade, nada mais é que a expressão da experiência sensível de todo momento e que vem desde a linguagem da criança e permanece sempre como base de toda linguagem.

4.6. A relação de identidade

O juízo de identidade não é, pois, mera repetição de conceitos, como dá a entender a fórmula A = A, mas uma progressão no conhecimento. É (est), verbo de ligação, é a essência do juízo de identidade, que afirma uma descoberta com acréscimo de conhecimento. A identidade de alguma coisa é pensada como relação da coisa consigo mesma, ou seja, sua coerência interna.

Tautologia, conforme define Lalande no Vocabulário (1999), é uma proposição cujo sujeito e predicado são um só e mesmo conceito (expresso ou não por uma mesma palavra). Ou “Vício lógico que consiste em apresentar como significativa uma proposição cujo predicado não diz nada mais do que o sujeito”.

Comparando com Abbagnano em seu Dicionário (2007), lemos que “Tautologia significa, na terminologia filosófica tradicional, genericamente um discurso (em especial, uma definição) vicioso porquanto inútil, visto repetir na conseqüência, no predicado ou no definiens, o conceito já contido no primeiro membro.” Cita o interessante exemplo: “M.

91 de la Palisse quinze minutos antes de morrer ainda estava vivo”.

Uns aproximam tautologia de truísmo (true, verdadeiro), que é uma proposição demasiado evidente que não merece ser enunciada, ou do sofisma, petição de princípio, que parece demonstrar uma tese, repetindo-a com outras palavras.

Podemos pensar em tautologia no “círculo vicioso”, quando se usa na definição (definiens), o que deve ser definido (definiendum). Exemplo apresentado por Lalande na obra citada: “A luz é um movimento luminar de corpos luminosos”.

O autor informa que essa curiosa definição foi dada por Pe. Noel e revelada por Pascal. Nem sempre há tautologia, em sentido estrito, nessas proposições, é preciso considerar a compreensão e extensão do conceito.

Em todo truísmo, em toda relação de identidade há um progresso na enunciação, a própria posição do predicado na cadeia falada mostra um tempo diferente em relação ao sujeito, é o elemento novo em relação a um dado.

4.7. A palavra coisa e o termo latino ens, ente

Vimos que a palavra nada nega toda e qualquer identidade, existe na linguagem comum, no entanto, outro termo, com o qual tudo identificamos. É a palavra coisa, equivalente a ser.

É importante fazer uma pequena digressão sobre a equivalência e uso da palavra coisa. A palavra coisa costuma ser usada como sinônimo de ser e, por isso, evoca os dois aspectos enumerados há pouco. Para uma tradição mais antiga, o termo “coisa”, em latim “res”, designava uma essência ou natureza. Uma coisa era, nesse caso, uma modalidade de ser, esta coisa e aquela coisa, enquanto para os modernos, esse mesmo termo designa antes de tudo o existente, o ser (ens), coisa é o que existe.

Assim tudo é coisa, até um sujeito ou indivíduo manifestado ao conhecimento. Quase sempre para nós uma coisa é simplesmente um ser existente, em seguida é que pensamos no modo de ser, na natureza.

Coisa é primeiramente isto que existe, depois isto que existe assim, com certa forma.

A filosofia escolástica distinguia, em termos latinos, o ens, tomado em dois aspectos diferentes, primeiro: ens ut existens, seu positum extra nihil, depois o ens ut quid essentiale, seu ponens in re. Com outras palavras, equivalentes: o ser posto fora do nada,

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Ou ainda: Ens, o ser, que existe. Ens, o ser, ou coisa, que existe deste modo, com esta essência (res), ou natureza.

A coisa que existe (ens), e a coisa que existe de modo determinado (res). A palavra “ser”, ou a palavra “coisa”, pode ser usada como sujeito (existens), ou como predicado (res), ou melhor, o ser é tomado como ens, (ente) no sujeito, e como res, (coisa) no predicado.

O latim clássico tinha o termo “res” (coisa), palavra feminina da quinta declinação, com vários empregos e sentidos: sentido de propriedade, de bens, posses, utilidade, interesse, realidade e outras possibilidades de uso.

Do emprego para bens concretos, passou o termo res a designar tudo que existe, a realidade, qualquer coisa.

A palavra portuguesa coisa, no entanto, tem outra etimologia. Veio do vocábulo latino causa, talvez por efeito de contágio entre os termos res e causa, usados em contextos semelhantes e por associação de idéias. Já no latim tardio o termo causa passou a ser usado no lugar de res.

Do latim causa veio para o espanhol e italiano o termo cosa, para o francês, chose, e para o português, a palavra coisa.

Causa, em latim, era termo usado para indicar motivo, causa ou razão, em sentido geral, e, às vezes, no uso forense, para designar o motivo ou a causa, isto é, os interesses nos processos jurídicos, onde já era usada a palavra res para designar as coisas ou os bens em litígio.

Desse contágio, a palavra causa toma o lugar de res, que desaparece no latim tardio e dá origem aos termos coisa, chose, cosa nas mencionadas línguas neolatinas. A palavra coisa passa a identificar tudo, como a palavra ser.

O português emprega o termo ente, derivado do latim, para designar o que existe ou pode existir.

Havia nos verbos latinos da voz ativa e nos depoentes um particípio presente formado com sufixo –nt, amans, amantis, amante. Literalmente, amans é aquele que ama, e desempenha a função verbal no enunciado. Em português, no entanto, é usado como substantivo, o amante, com função nominal.

O particípio presente do verbo sum (esse, ser) só aparecia nos derivados: absens, praesens, etc. Pela informação de Ernout (1953, p. 172), ficamos sabendo que César

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tinha criado pelo radical de es, est, formas do presente do indicativo, um particípio analógico ens, entis. Esta forma latina foi muito usada pela escolástica medieval e permaneceu no português atual como substantivo, o ente.

Em grego havia o particípio presente on, ontos do verbo ser (eimi, einai) que serve de radical para a palavra ontologia, ciência filosófica do ser em geral.