Da identidade, que define o que cada ser é o que é, em sentido geral, podemos passar para a ipseidade, que a identidade do indivíduo, o conjunto de características que definem o ente na sua singularidade. A identidade seria num primeiro momento a adequação de um ser consigo mesmo, a identidade do ser, a identidade do gênero, a identidade da espécie, enquanto a ipseidade se refere à identidade individual, do ser existente na sua singularidade, entidade incomunicável.
Uma essência (identidade), por exemplo, a natureza humana, existe ou se realiza de maneira concreta e singular num indivíduo (ipseidade), este homem. O que o identifica como sendo este? A questão já existia no século XIII, quando Tomás de Aquino e Duns Scotus tentaram definir a individualidade, analisando a característica única que identificasse o indivíduo. Da alteridade temos simplesmente o conceito de outro.
O sujeito (eu) tem uma identidade, e o outro (tu) tem outra identidade, alteridade. É preciso distinguir diferença numérica e diferença específica, e mostrar onde está a característica do individual ou ipseidade.
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O termo latino usado por Duns Scotus (1266-1308) para indicar individualidade era haecceitas. Os dicionários Aurélio e Michaelis trazem as variantes: ipseidade, ecceidade, e hecceidade, como termos de filosofia, para designar aquilo que faz com que uma essência se individualize.
Entende-se pelo termo latino haecceitas (ecceitas) tudo o que individualiza e torna possível o conhecimento do ser individual. Conhecer o indivíduo é o mais completo dos conhecimentos, porque associa o conhecimento sensorial ao conhecimento intelectual.
Duas maçãs não são diferentes pela espécie ou natureza, ainda que sejam diferentes pelo número, uma maçã não é a outra, na singularidade. A alteridade qualitativa ou intrínseca dificulta a numeração. Como numerar uma maçã e uma pêra?
Podemos numerar duas maçãs, porque não têm alteridade qualitativa, e numerar duas peras, mas se tivermos uma maçã e uma pêra, com alteridade qualitativa, temos que numerá-las como duas frutas. A diferença é geralmente uma característica que distingue uma espécie de outra, sob o mesmo gênero. Uma maçã difere de uma pêra por elementos próprios, é classificação sob um gênero comum de fruta.
A diferença específica implica diferença de conceitos. A diferença numérica, porém, é diferença entre indivíduos e não conceitual. O indivíduo singular é identificado por características reconhecidas pela percepção sensorial.
Desde os antigos sabemos que não existe ciência do singular, a ciência é do universal.
A ipseidade só se conhece na existência singular. Leibniz tem teoria própria, lembrada há pouco, sobre diferença numérica. Para ele a diferença entre indivíduos da mesma espécie é também diferença intrínseca e qualitativa, embora não seja específica. É o princípio dos indiscerníveis. A identidade completa de todos os determinantes de uma coisa faz a identidade real ou objetiva.
Segundo Leibniz é impossível haver duas coisas, duas gotas de água, por exemplo, com todos os elementos iguais. Pode haver uma identidade lógica, conceitual, como no exemplo de Pedro e Paulo, que são diferentes, e distintos numericamente, pela ipseidade.
3.9. Diferir, distinguir
Esses dois verbos podem oferecer curiosidade do ponto de vista etimológico. O verbo diferir, do qual se origina a palavra diferença, traz a idéia de
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dispersão. A diferença determinaria alteridade por dispersão, uma coisa não é a outra. Simples alteridade, mas sabemos que diferença é mais que alteridade.
Distinguir, porém, é derivado de um verbo latino que sugere a idéia de pintar para diferenciar.
Pintar com cores diferentes é distinguir e separar, por marcas, uma coisa de outra.
3.9.1 A distinção lógica
Reconhecer pelo conceito o diverso como diverso é fazer a operação mental da distinção lógica. A inteligência, por sua condição de imaterialidade, pode abstrair conceitos, estabelecer relações entre idéias, pode compreender, sob muitos aspectos distintos, aquilo que na realidade é uma só identidade. Há uma única e mesma realidade, que a inteligência apreende sob muitos aspectos inteligíveis.
A diferença ou riqueza objetiva implica múltipla distinção conceitual ou diversidade. O diverso é reconhecido como diverso, isto é, como outro. Cada coisa tem a sua identidade, e a identidade de uma não é a identidade de outra. Então diríamos que a distinção é o oposto da identidade, ou é a negação de identidade entre muitos.
A identidade de um conceito, quando há distinção, deve ter clareza, porque identidade significa unidade e diversidade. Podemos pensar na afirmação de Peirce: Uma idéia clara é definida como aquela apreendida de forma tal que se torna possível reconhecê-la em qualquer situação e não confundi-la com qualquer outra. Se não dotada dessa clareza, a idéia é dita obscura.
E mais abaixo:
Admito, porém, que, ao falarem de “clareza”, os lógicos pretendam significar uma familiaridade que por ser vista como qualidade de pequena monta, há de ser complementada por outra a que chamam distinção. Uma idéia distinta é definida como aquela em que não se contém coisa alguma que não seja clara. (Peirce, 1975, p.49, 50)
Aristóteles recomenda clareza nas definições e desaconselha o uso de metáforas.
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j’avais toujours un extrême désir d’apprendre à distinguer le vrai d’avec le faux, pour voir clair en mes actions, et marcher avec assurance en cette vie” 3 (Descartes, 1996, p.57).
Um dos preceitos de seu método era de aceitar somente aqueles juízos que se apresentassem ao seu espírito de modo claro e distinto e não deixassem ocasião para dúvida.
O conceito de idéia clara é mais intuitivo que racional, embora clareza possa estar relacionada com a evidência. Uma idéia é clara na medida em que se apresenta imediatamente ao entendimento, e seu conteúdo diretamente percebido. O contrário é a idéia obscura. Idéia clara, contudo, nem sempre é distinta.
As pessoas podem ter idéias claras, mas confusas, porque não distinguirem uma coisa de outra. Tudo pode ser denominado confusamente “ave” por alguém, que não é ornitólogo e não sabe classificar as aves.
A idéia distinta é aquela que é entendida com elementos próprios, excluindo outra idéia. É suficiente para reconhecer seu objeto entre outros. Há diferenças entre a linguagem cotidiana e a linguagem do cientista.
Trata-se de linguajar técnico; por conteúdo de uma idéia os lógicos entendem tudo aquilo que integra sua definição. Assim, segundo eles, uma idéia é distintamente apreendida quando dela podemos dar uma definição precisa, em termos abstratos. (Peirce, 1975 , p. 50)
Notamos em Peirce a preocupação com idéias distintas e, portanto, claras, e a importância da definição para compreender uma identidade. A definição é a capacidade mental de conhecer a identidade que se encontra na realidade das coisas. O mundo que percebemos apresenta uma infinidade de objetos. A diversidade desses objetos, numa primeira observação, pode ser caótica com unidades desconexas sem elemento genérico comum, que as organize, por exemplo, o que existiria de relação entre a vírgula e a chuva. A maior diversidade é a diversidade organizada sob o ser transcendental, porque toda a pluralidade de seres tem referência ao ser. A primeira denominação para tudo seria a existência, o ser.
Toda diversidade, em sentido próprio, tem um elemento comum, que une as coisas, e um elemento que as torna diversas, e, por isso, diferentes.
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Sempre tinha um extremo desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver com clareza em minhas ações, e andar com segurança nesta vida.
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Todo diferente para ser diferente deve ter algo em comum com o outro. Esse é o conceito de diversidade e origem da pluralidade.