2 Teori- metodetriangulering- empiri
2.2 Metodetriangulering
Porquanto então faz do mentir, do ficcionar, do fingir, do produzir erros ou aparências, outros signos para a atividade criadora da vontade de poder no homem, Nietzsche persuade-nos acerca da imperiosa necessidade deste em construir supertutelas a fim de lidar com o sofrimento, negando niilistamente a tragicidade existencial. Assim, constrói o humano toda espécie de consolos religiosos, metafísicos, ideais morais, políticos e a própria realidade científica. Ao fazê-lo instaura-se criador de verdade (no sentido daquilo que é posto como o
desde sempre dado – o ingênito) por tencionar livrar-se da ‘verdade’ (o saber trágico, o nonsense dionisíaco), sendo este processo reputado efetivamente artístico141. Entretanto, a arte a serviço da vontade de verdade (sinônimo de fixação, cristalização, mumificação, egipcismo, negação da fluidez cósmica, niilismo; destarte, ficção, mentira, ilusão, para fins de conservação de tipologias vitais fisiologicamente debilitadas) é, em nossa interpretação,
que trabalha, pressupondo-o: tal pressuposição (‘tal crença’ na verdade) é o seu amparo” (KSA 12, p. 385/386, af 9 [91] (65) do outono de 1887. Grifo do autor.).
139 COLLI, Giorgio. Scritti su Nietzsche. 5. ed. Milano: Adelphi Edizioni, 2008. p. 176. 140 COLLI, Giorgio. Op. cit. p. 177. Grifo nosso.
141 Além disso, Nietzsche dá-nos a entender que tal processo não seria reconhecido, ou, talvez, intencionalmente
mantido em segredo: “Metafísica, religião, moralidade, ciência – todas somente produtos de sua vontade de arte, de mentira, para escapar da ‘verdade’, para a negação da ‘verdade’. Esse caráter da existência não vem à tona – eis a intenção mais secreta e profunda da ciência, da devoção e dos artistas” (KSA 13, p. 193, af 11 [415] de novembro de 1887 – março de 1888. Grifo do autor.).
apenas um modo do exercer-se poiético das pulsões julgado por Nietzsche. A este interessa sua feição de contramovimento142.
Uma arte para além da arte de forjar valores e configurações prostradores porque mantenedores de tipos de vida decadentes é a única a estatuir-se em movimento inverso transvalorador. O artista no homem deve tomar à frente e não ser ocultado nos bastidores com vistas ao privilégio de interpretações petrificadas cujo objetivo coaduna com a farsa da sempiternização. Aqui defrontamo-nos com uma questão: há motivos para inferir que Nietzsche transfiguraria a própria noção de mentira, à medida que implode a tradicional dicotomia verdade-falsidade (mundo verdadeiro – mundo aparente) e reduz toda fala ou pensamento sobre o mundo a erros úteis à conformação e salvaguarda de determinados arranjos vitais? Num póstumo de 1888, o filósofo afirma ser a arte uma “função orgânica” encontrada “nos mais angelicais instintos da vida”, que, como o maior estimulante destes, é “sublime e conveniente também no fato de estar mentindo”143. A excelência da arte como atividade própria do orgânico vincula-se, à luz do argumento nietzschiano, à sua capacidade ínsita de falsear, de mentir. Ora, sob quais bases tal inferência obtém sentido, se em Ecce
Homo o filósofo sentencia: “os décadents necessitam da mentira – ela é uma de suas
condições de sobrevivência”144, alavancando certa dose de ambigüidade?
Nietzsche agudiza a luta contra o pressuposto lógico-epistêmico da distinção entre o verdadeiro e o falso, declarando-o preconceito de fundo moral sob a óptica de uma hierarquização dos valores em que o segundo (o falso, o aparente, o erro) ajoelha-se perante o primeiro (o verdadeiro, o real, o certo)145. Logo, discursos ratificadores deste preconceito obnubilariam o ser-viver interpretante, introdutor de avaliações e valores e, por conseguinte, falseador, inscrito em todo acontecer existencial. A nosso ver, aqui ganha fôlego o chamado platonismo invertido nietzschiano: não somente enquanto encômio do erro e da aparência como posições valorativas desde sua filosofia de juventude146; mas, sobretudo, indício a uma
142 Nesse sentido, afinamo-nos inteiramente à visão de Franco Volpi quando este compreende que a arte é tida
por Nietzsche como processo criador e, enquanto tal, antídoto contra a decadência. Consoante tal intérprete, Nietzsche “pretende combatê-la mediante um ‘contramovimento’ que tem seu centro de gravidade na arte como vontade de poder, isto é, como criatividade, e não como gozo passivo” (VOLPI, Franco. O niilismo. Op. cit. p. 52.).
143 KSA 13, p. 299, af 14 [120] da primavera de 1888.
144 KSA 6, Ecce Homo. p. 312 (EH. p. 63, § 2 – O nascimento da tragédia. Grifo do autor.).
145 “Mas os juízos de valor lógicos não são os mais profundos e os mais fundamentais a que pode descer a
ousadia de nossa suspeita: a confiança na razão, com que se sustenta ou cai a validade desses juízos, é, sendo confiança, um fenômeno moral...” (KSA 3, Morgenröte. p. 15 [AU. p. 13, § 4, Prólogo. Grifo do autor.]).
146 Poder-se-ia dizer que no jovem Nietzsche há um profundo encômio da aparência no amplexo genésico de
Dionísio e Apolo, por oposição à tese platônica do desvirtuamento anticontemplativo da verdade significado pela aparência artística. Tal posição fica evidenciada à época mediante a seguinte asserção: “minha filosofia, um
completa assunção dos mesmos, após sua higienização de atributos gnoseológico-morais. Se, conforme escreve o filósofo, “com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo
aparente!”147, não se trata mais de uma simples inversão de pólos extremos, mas de uma profunda reinterpretação da mentira (do erro, da ilusão e da aparência) à luz da atmosfera própria da arte, onde é perfeitamente divinizada.
A errância inscrita no introduzir erros sob polifônicas determinações instintuais é o que há de intimamente artístico em nós; e, mediante tais erros, organizamos sempre de maneira volátil aquilo que designamos mundo. Prima facie, nenhuma carga moral é entregue à expressão erro em Nietzsche: nós mesmos somos o somatório plural e gigantesco destes inumeráveis erros148. Noutros termos, o filósofo de Röcken tenciona des-moralizar (retirar do horizonte moral de sentido) o valor da mentira, inoculando-o na dimensão da vontade de poder enquanto arte:
quanto triunfo artístico na sensação de poder! O homem foi novamente senhor sobre sua ‘matéria’ – senhor sobre a verdade!... E toda vez que um homem olha adiante, ele é sempre o mesmo em sua alegria: ele alegra-se tal como um artista, desfruta-se como poder. A mentira é o poder...149
Toda mentira (Lüge) revela-se então expressão de poder, consumação estética do sentimento de poder, epifenômeno visceralmente artístico porquanto reluzente dos processos de criação-destruição no humano. Todavia, em que sentido a necessidade de mentir é subjacente a conformações vitais degeneradas como acusa o filósofo em Ecce Homo, visto que parece louvá-la a partir do âmbito artístico?
enquanto alvo” (KSA 7, p. 199, af 7 [156] do final de 1870 – abril de 1871. Grifo do autor.). A esse respeito, Araldi corrobora ao garantir que “para a sua redenção, o Uno-Primordial precisa da aparência, da arte, portanto. Do ponto de vista de cada indivíduo, a vida só pode ser suportada e afirmada através das ilusões artísticas, do prazer apolíneo nas aparências” (ARALDI, Clademir Luís. As criações do gênio – ambivalências da ‘metafísica da arte’ nietzschiana. Kriterion. Belo Horizonte: UFMG, n° 119, junho, 2009. p. 127.).
147 KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 81 (CI. p. 32. § 6 – Como o ‘mundo verdadeiro’ se tornou finalmente uma
fábula. Grifo do autor).
148 Pierre Klossowski acentua com precisão cirúrgica a noção de erro em Nietzsche, tomando como premissa a
ideia de que frente ao acaso das combinações entre múltiplas forças (o caos originário do inorgânico) a vida orgânica é tão-somente um acontecimento acidental (não-apodítico) e, portanto, desde sempre um erro. Numa tensa oposição com relação ao inorgânico, a vida precisa acreditar-se necessária, acreditar-se como verdade, enganar-se a si mesma como erro, visando à conservação de suas condições de existência ao esquivar-se do acaso, da universal ausência de sentido. Para Klossowski, “esse é o duplo aspecto do erro em Nietzsche: a vida depende de uma ilusão (sua ‘necessidade’) – de onde a sentença: a verdade é um erro sem o qual uma certa
espécie de seres vivos não poderia subsistir” (KLOSSOWSKI, Pierre. Nietzsche e o círculo vicioso. Rio de
Janeiro: Pazulin, 2000. p. 65.).
3.2.3.2. Mentira hipócrita e mentira criativa
Nas cercanias desta questão, Colli supõe haverem duas nuanças da mentira na reflexão nietzschiana, dando-nos uma plausível distinção entre o que intitula mentira desejada e hipocrisia. Em sua análise, Nietzsche reconheceria “a hipocrisia como o princípio da moral”, o câncer nas entranhas das instituições ocidentais para as quais desfere sua crítica e “o princípio da mentira, como raiz universal do homem e de cada vida orgânica”, sucedendo que
a hipocrisia é de fato um aspecto da mentira, o aspecto aberrante, e por isso rejeitável, assim como qualquer atividade do homem, da arte à ciência, é mentira, criação ilusionística, onde reside o aspecto moral aberrante da mesma. Na hipocrisia uma coisa finge ser aprovada na medida em que esconde o que é desaprovado. No jogo, na mentira, finge-se sem qualquer amparo, criativamente, enquanto que na hipocrisia, aquela aprovação e desaprovação fundando-se num juízo gregário são como que cristalizações, e, portanto, a mentira não é criativa, primígena, florescida da natureza, mas repete um juízo já existente150.
Partindo da distinção operada por Colli, e usufruindo suas categorizações, haveria na percepção nietzschiana da tendência instintual para a criação de aparências (vontade de aparência), uma mentira hipócrita e uma mentira criativa. Esta, autêntica em sua concordância com a artisticidade envolvida na vontade de poder, jamais sendo tomada como
verdade; aquela, artificialmente engessadora, cuja inclinação se resume simultaneamente em arvorar-se como verdade mediante a produção de arrimos conceituais, e velar a dinâmica
inexorável da vontade de poder. Naturalmente, a preocupação essencial de Nietzsche estriba- se em deixar claro a quais tipos de vida as ficções e mentiras criadas atendem. Noutras palavras: a que demandas psicofisiológicas filiam-se. Com efeito, o arquétipo histórico- fisiológico emblemático da moralidade como palco privilegiado da mentira hipócrita e alvo da contumácia crítica nietzschiana é, sem dúvidas, o cristianismo.
No ambiente d’O Anticristo, o cristianismo é denominado a “arte de mentir santamente”, e o tipo cristão a “ultima ratio da mentira”, por levar às derradeiras
150 COLLI, Giorgio. Ibidem. p. 147. Grifo nosso. Em artigo sobre o tema, Gustavo B. N. Costa atina para a
necessidade de realizar semelhante distinção, partindo antes da noção mesma de hipocrisia, esclarecendo no início de seu trabalho que a compreende em dois registros: “sob um registro moral, como é usualmente concebida, remetemos à prática da dissimulação e astúcia; em última instância, ao fingimento e à mentira. Sob um registro estético, remetemos à etimologia do termo: a hypokrisía como a arte do ator. Mesmo sendo possível fundir estes dois registro em um só, parece-nos importante manter temporariamente esta distinção: hipocrisia
moral e hipocrisia artística – inclusive com o intuito de compreender melhor a transposição do termo de uma
esfera à outra” (COSTA, Gustavo B. N. Sobre hipocrisia, dissimulação e coisas afins – Nietzsche e a vontade de engano. Argumentos. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará – UFC, ano 1, n° 2, 2009. p. 44.).
conseqüências a psicologia da decadência iniciada com o tipo judeu, “impondo-se à maneira de hipócritas”151. Eis o ‘verme na fruta’ – a metáfora serviria bem a Nietzsche para indicar a hipocrisia na moralidade cristã: ela é sua ‘condição de possibilidade’, travestida em ficções úteis à perpetuação de sua espécie: pecado, culpa, salvação, juízo final, apocalipse, reino dos céus, fantasmagorias com as quais se reveste e funda condutas. Com olhos de psicólogo, o filósofo parte da interpretação do cristianismo em direção à esmagadora sentença: “a melhor maneira de enganar a humanidade é com a moral”152. A leitura de Colli é inteiramente corroborada nesta proposição nietzschiana visto que a mentira hipócrita instilada na moral (e principalmente na cristã) é julgada aberrante em função de consolidar a permanência de um modo de vida declinante. O homem cristão, antípoda do homem trágico, nega em si mesmo o caráter contingente, contraditório e brutal da existência, negando torrencialmente a vida ao apoiar-se em invencionices estruturadas na tentativa quimérica de mortificação dos impulsos vitais. E ainda, “o fingimento por instinto, o prazer de mentir por mentir”153 é nele assíduo, faz dele, num tropo de inspiração nietzschiana, a encarnação da dissimulação.
Nisto encontra-se parasitária a antinatureza da moral: o aniquilamento das paixões, dos instintos de vida, mandamento à sombra do qual respira e se conserva a tipologia cristã. A atividade criadora de mentiras quando se acha à disposição da moral, é dizer, de debilitadas conformações vitais, constitui aberrante paradoxo da vida consigo mesma, arrefecimento de complexos pulsionais assertivos. Assim sendo, formas vitais doentias transfiguram as próprias exigências fisiológicas em ferramentas propícias ao depauperamento destas pulsões. Doravante, à rija destruição (Vernichtung) do pathos, escopo extenuante da moralidade, Nietzsche contrapõe a espiritualização (Vergeistigung) do pathos. Analisemos a constatação apresentada pelo filósofo em Crepúsculo dos Ídolos: “o conceito de ‘espiritualização da paixão’ não podia absolutamente ser concebido no solo do qual brotou o cristianismo”154. Espiritualização, sinônimo de transfiguração afirmativa, supõe uma estetização ou artisticização das paixões, criadora de aparências re-significadoras da existência, e por isso mesmo, embelezadora da vida.
O referido ‘solo’ onde medrou a moral cristã, o judaísmo, por ser radicalmente negativo, sustenta-se mediante simulacros em cuja base está uma pesada hostilização à vida. Na extremidade inversa, aquilo que Nietzsche entende positivamente como espiritualização
151 KSA 6, Der Antichrist. p. 219/220 (A. p. 51/52, § 44.). Outrossim, em Ecce Homo declara: “A moral cristã –
a mais maligna forma da vontade de mentira [Willens zur Lüge], a verdadeira Circe da humanidade: o que a
corrompeu” (KSA 6, Ecce Homo. p. 372 [EH. p. 115, § 7 – IV. Grifo do autor.]).
152 KSA 6, Der Antichrist. p. 220 (A. p. 52, § 44. Grifo do autor.). 153 KSA 6, Der Antichrist. p. 233 (A. p. 63, § 52.).
abarcaria um exercício experimental de criação-recriação da turba pulsional do Selbst e, mormente, do fatalismo trágico, sem alquebrá-los e negá-los. Esta mentira criativa recupera exatamente o sentido grego literal da hypokrisía (do fingidor, ator e artista da existência) à medida que redimensiona as lacerações da dor, o sofrimento e a finitude. Logo, contrapõe-se ao significado moral da hipocrisia mantido por Nietzsche na razão direta da probidade intelectual, virtude oriunda da tradição platônico-cristã, paradoxalmente responsável pela dissolvência dos fundamentos desta mesma tradição na clarividência da moderna consciência filosófica quanto à sua própria tarefa155.
Tanto a hipocrisia quanto a espiritualização, na distinção ora aventada, são falseamentos instaurados por expressões vitais diversas, em virtude de diferentes modos de “adorar a superfície”156. Ao passo que uma anui a ‘verdade’ trágica, remodelando-a mediante erros (significados, interpretações, valores) a outra a criminaliza e estigmatiza também à luz de erros, porém, erros corruptores. Se a farsa do homem morigerado exige de si a retroalimentação de mentiras úteis para fins de manutenção de suas condições existenciais, condições estas que interditam a transformação e obstruem a criação de outras possibilidades de ser-viver, apenas um tipo humano alternativo estaria apto a ultrapassá-lo. Este tipo atlante concomitantemente suporta, não rejeita; ornamenta, não desfigura; cria, não reproduz, reverberando assim sua máxima virtude: “a fortaleza de um espírito se mediria pelo quanto de ‘verdade’ ele ainda suportasse, ou mais claramente, pelo grau em que ele necessitasse vê-la diluída, edulcorada, encoberta, amortecida, falseada”157.
Nesse registro, sob a óptica nietzschiana, o humano seria pensado como artista na mais originária e autêntica acepção do termo, qual seja, o artífice demiúrgico cujas mãos remodelam o horrendo da existência mediante espiritualizações falseadoras permutáveis porquanto destituídas do peso do incondicionado. Ademais, por ser o lugar privilegiado do falso, do erro e da mentira, a arte haure assepticamente das mesmas todo conteúdo perverso
155 Segundo Giacoia Júnior, no fervor da virtude da probidade intelectual e sua ínsita vontade de verdade, a
consciência filosófica moderna extrapola seu projeto de busca de uma verdade incondicional, volvendo contra si mesma o veneno de seu próprio ímpeto: “ao fazer a prova de sua honestidade, tomando a si mesma como objeto, a moderna consciência filosófica vê-se assim colocada diante de sua derradeira virtude e seu derradeiro dever: o dever de retidão em relação à questão fundamental de sua própria origem, questão que a conduz à conseqüência de ter que se proibir toda mentira, inclusive a crença mentirosa na incondicionalidade do ideal de verdade a qualquer preço [...] a probidade intelectual, a incondicional vontade de verdade se revelou como sendo a própria crença no ideal moral” (GIACOIA JR., Oswaldo. Labirintos da alma. Op. cit. p. 143/144.). O pioneirismo de Nietzsche está no fato de que fora o primeiro pensador a estatuí-lo como um problema, conservando inclusive uma dupla significação no tocante ao mesmo: ele anuncia o esmorecimento do programa moderno de auto- vivissecção da verdade, e sobremaneira, reconhece a “‘vontade de verdade’ – como impotência da vontade de
criar [Willens zum Schaffen]” (KSA 12, p. 365, af 9 [60] 46 do inverno de 1887. Grifo do autor.).
156
KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 78 (BM. p. 62, § 59.).
nelas depositado pela filosofia e pela ciência, sob o fascínio da moral. Considerando tal compreensão, entendemos que em Nietzsche a mentira e/ou o erro assumem o caráter de valor, sendo frutos da atividade avaliadora-interpretante condicionada por distintas exigências psicofisiológicas. Sendo assim, um valor é desde sempre uma ficção cuja força e operância se fazem sentir na medida em que ele configura modos de existência, molda o viver como um viver. Todos os valores, por serem erros, são falsos – eis uma típica conclusão nietzschiana.
Todavia, a questão central para o filósofo de Röcken não diria respeito a essa percepção, mas à identificação do ‘para onde’, do ‘com que interesse’ determinados valores são criados. Numa indagação: a serviço de que organização vital a “superior potência da
falsidade”158 distribui ficções e qual o valor mesmo destas ficções para a vida em geral? Servem para abjurá-la? Ou para asseverá-la? À luz deste disjuntivo, acreditamos poder confirmar a preocupação nietzschiana em reclamar a composição de um modo de ser-viver no qual ficções funcionem com o mesmo prestígio que possuem na esfera da arte, prescindindo do salto catastrófico para a condição de verdade. Segundo entendemos, este é um projeto intra-uterino no pensamento de Nietzsche o qual alimenta o estabelecimento de um outro
ethos, legitimado por uma elastecida interpretação do fenômeno artístico. No mais, importa
saber se a singularidade criadora que lhe é característica seria extensível ao domínio do
socius.
3.3. Do indivíduo à cultura
No esteio desta possibilidade, indagamos: há uma política da criação em Nietzsche? Ou melhor: é possível cogitar um processo em que a atividade criadora, até agora interpretada sob o prisma de uma singularíssima experiência no vivente humano (à falta de uma expressão melhor, no indivíduo), se dê na dimensão sociopolítica? O trato destas questões envolve duas figuras centrais desenvolvidas por Nietzsche: a noção de ‘cultura’ e a ‘grande política’, cuja aparição está longe de constituir mera adjacência conceitual no intento propositivo do filósofo159. De início, acreditamos ser necessária uma distinção entre os sentidos que
158 KSA 13, p. 55, af 11 [115] (359) de novembro de 1887 – março de 1888. Grifo do autor.
159 Conforme Keith Ansell-Pearson, em Nietzsche, “a preocupação com a ‘grande política’ não é nem acidental
nem periférica em relação a seu projeto filosófico global, mas origina-se, em um sentido muito profundo, de suas preocupações mais fundamentais” (ANSELL-PEARSON, Keith. Nietzsche como pensador político. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. p. 162.).
assumem as noções de política e cultura no pensamento nietzschiano, inclusive, sua compreensão da necessidade da segunda em detrimento da primeira.
O antagonismo entre cultura e política é uma tônica da filosofia de Nietzsche, constatável em sentenças tais como: “todas as grandes épocas da cultura foram politicamente pobres”160. O significado nietzschiano da cultura é tomado de empréstimo aos antigos gregos. Isto fica patente em O Nascimento da Tragédia, onde o filósofo aduz o chamado pessimismo
da força161 (caro à Grécia homérica), à medida que realiza o exame da cultura grega à luz das categorias estético-ontológicas do apolíneo e do dionisíaco. Através da arte, os antigos gregos revestiam o mundo de sentido, tornando-o suportável em sua dor e sofrimento – é precisamente em razão desse exercício esteticizante e transfigurador, fabricador de mitos, que os gregos constituiriam o paradigma nietzschiano de uma cultura forte e pulsante.
Nesta mesma obra, há uma clara indicação da condição prototípica de Sócrates como homem teórico, exemplo otimista da crença ilusória de que o pensar tem acesso privilegiado às estruturas do real, conhecendo-o, e até mesmo corrigindo-o. Esse otimismo descomedido, sabotador do mito, da arte e da aparência como fortes condições de vida de um povo, é por ele divisado na esteira de seu tempo: “o nosso mundo moderno está preso na rede da cultura alexandrina e reconhece como ideal o homem teórico”162, portanto, “agora é mister não assustar-se, se os frutos desse otimismo amadurecem”163. Para Nietzsche, entre tais frutos destacam-se a sentimentalidade e uma fé de cunho moral na racionalidade. A primeira condiz à posição medular exercida pelo cristianismo na civilização ocidental, asfixiadora do