3 Utviklinga av skriftforminga
3.1 Eit kort historisk tilbakeblikk
Humano Escasso Humano: Quem é o Homem Criador?
“Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”1
4.1. Antropologia nietzschiana?!
A crítica nietzschiana à metafísica tem entre suas fundamentais linhas de frente a inadmissão de uma natureza humana universal e supratemporal. Logo, não é possível assegurar haver nesta filosofia a construção de um discurso sobre o homem que esteja em condições de propor-se como antropologia filosófica, isto é, enquanto “tarefa de elaboração, no nível da conceptualização filosófica, da idéia do homem”2. Claramente, no tentame de contribuir para ‘a história natural da moral’, ao invés de uma abordagem antropológica nos moldes do compromisso com o método e os pressupostos da tradicional ‘ciência da moral’, Nietzsche opta por uma perscrutação tipológica do homem, tal como descreve e pretende em
Além do Bem e do Mal:
deveríamos, com todo rigor, o que se faz necessário por muito tempo, o que unicamente se justifica por enquanto: reunião de material, formulação e ordenamento conceitual de um imenso domínio de delicadas diferenças e sentimentos de valor que vivem, crescem, procriam [zeugen] e morrem – e talvez tentativas de tornar evidentes as configurações mais assíduas e sempre recorrentes dessa cristalização viva – como preparação para uma tipologia da moral3.
Nesse sentido, a tencionada tipologia se estabelece como averiguação que se confunde com o próprio exame genealógico da moral, o qual parte exatamente do “cinza, isto é, da coisa documentada, o efetivamente constatável, o realmente havido, numa palavra, a longa, quase indecifrável escrita hieroglífica do passado moral humano!”4. O recurso à
1 LEMINSKI, Paulo. Incenso fosse música. In: Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 93. 2 VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p. 6. Grifo do autor. 3 KSA 5, Jenseits von Gut und Böse, p. 105 (BM. p. 85, § 186. Grifo do autor.).
4 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 254 (GM. p. 13, Prólogo, § 7. Grifo do autor.). Em Crepúsculo dos
história, à análise das culturas, e, mormente, das condições psicofisiológicas dos existentes humanos nas paisagens da temporalidade, compõem um horizonte de imanência desde onde a investigação se move.
Todavia, a questão sobre a inexistência de uma antropologia nietzschiana não está fechada. Conforme a afirmação de Alberto Onate, “a perspectiva tipológica está a serviço da perspectiva antropológica, não o contrário, e isto ao longo de toda meditação nietzschiana”5. Para esse intérprete, a visada moral e tipológica não circunscreve in totum a questão do humano em Nietzsche, mas acha-se submetida no itinerário de seu pensamento à preocupação antropológica que acaba por exibir-se na consideração do caráter finito do humano. Noutro corrimão, precisamente de viés metodológico, Arthur Danto revolve-se especificamente à
Genealogia da Moral concluindo que “em Nietzsche lidamos com uma antropologia especulativa, um modelo idealizado que ilustra a atividade de certas forças e mostra como a
mesma coisa pode ser diferentemente avaliada em termos de variação de circunstâncias”6. Outrossim, Robert Solomon chega mesmo a se referir a Nietzsche “como um antropólogo que não toma uma posição acerca do valor das perspectivas que descreve”7, isentando-o talvez de qualquer ‘tomada de partido’ – o que nos parece bastante discutível.
Temos nestas posições um retrato hermenêutico da própria tensão inerente ao trato nietzschiano da questão humana. Ao passo que explicitamente se impede quaisquer empreitadas a-históricas de investigação deste problema8, pondo-se na perspectiva de uma imanência radical, o filósofo de Röcken deixa rastos no sentido de prescrever ao homem uma
condição existencial não menos ‘ontológica’. Naturalmente, tal atestação não se pretende
redutora: não visa à defesa de uma filiação à acepção de uma natureza humana ou de uma
aeterna veritas do homem. Tampouco almeja inseri-lo no segmento da história da filosofia
que, alçando vôos supramundanos, apregoa a existência de uma substância perene e inabalável que circunscreve o ser humano, podendo servir de fio condutor mediante o qual seu mostra uma fascinante riqueza de tipos, a opulência de um pródigo jogo e alternância de formas” (KSA 6,
Götzen-Dämmerung. p. 86 [CI. p. 37, § 6 – Moral como antinatureza. Grifo do autor.]).
5 ONATE, Alberto Marcos. Entre eu e si ou a questão do humano na filosofia de Nietzsche. Rio de Janeiro: 7
Letras, 2003. Nota n° 69, p. 349. Do ponto de vista das razões de ordem metodológica ínsitas ao trato nietzschiano do homem, Onate esclarece que, “a rigor, a noção de humanidade e de indivíduos humanos não constituem caminhos eficazes para se pensar o humano, função que é melhor preenchida pela noção de
manifestações típicas. É só por meio delas e nelas que o filósofo detecta a continuidade temporal capaz de
propiciar uma análise consistente, inviável seja na generalização do conceito de humanidade, seja na tênue efemeridade dos exemplares humanos individuais” (ONATE, Alberto Marcos. Entre eu e si ou a questão do
humano na filosofia de Nietzsche. Op. cit. p. 205. Grifo do autor.).
6 DANTO, Arthur Coleman. Nietzsche as philosopher. New York: Columbia University Press, 2005. p. 135/136.
Grifo nosso.
7 SOLOMON, Robert C. Living with Nietzsche: what the great “immoralist” has to teach us. New York: Oxford
University Press, 2003. p. 62.
edifício filosófico ganha concreção. Estes rastos são instantes da filosofia nietzschiana cujo traço está no fato de não serem necessariamente comunicantes e, sobretudo, não consumarem uma posição privilegiada do homem ante os outros seres. A nosso ver, é por estes meandros que a defesa de uma antropologia filosófica nietzschiana, à maneira da tradição, pode significar um disparate.
Sem dúvida, no conjunto de seus escritos Nietzsche nos oferta algumas suposições à compreensão da condição humana em geral, ligeiramente consonantes com interpretações prevalecentes em cada período de sua filosofia. Por nos dispormos a enfatizar o último destes períodos, reconhecemos nele claras tentativas nessa direção. Neste âmbito, constatamos que o homem é indicado pelo filósofo como ponte, animal doente, pluralidade de forças, animal
indeterminado, e, mormente, animal avaliador e criador. Conjeturamos as duas últimas
concepções como principais porque suspeitamos haver certa insistência no pensamento de Nietzsche quanto às mesmas no tangente às demandas propositivas que dele emergem. Evidentemente, ambas participam de um caráter assertivo típico de suas proposições, para o qual nossa pesquisa se direciona e nele acha o esteio julgado suficiente à estético-ética ora sustentada, pleiteante de uma tipologia humana que lhe honre e lhe seja compatível. Coloquemo-nos a discuti-las.
4.1.1 Do homem-ponte ao animal indeterminado
No prólogo de Assim falou Zaratustra, a emblemática asserção “o que há de grande, no homem, é ser ponte [Brücke], e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma
transição e um ocaso”9, situa o destino da condição humana no bojo do projeto de sua superação em nome do além-do-homem, posto que a mesma se encontra encerrada nas chagas do niilismo. O homem-ponte é unicamente passagem, ligação entre uma e outra margem, e como tal algo transitório. O homem que Zaratustra tenciona ver ultrapassado é um homem, mais precisamente, uma tipologia ou conformação humana a qual intersticialmente se confunde com a imagem hegemônica do humano semeada no âmago da filosofia ocidental – o
animal rationalis, que descamba no horizonte moral do animal de rebanho10.
9 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 16/17 (ZA. p. 38, Prólogo, § 2. Grifo do autor.).
10 Em seu estudo sobre o Zaratustra, Héber-Suffrin elabora um léxico onde encontramos a seguinte definição
para a expressão ‘homem’ no contexto do prólogo zaratustriano: “‘humano, demasiado humano’, comparado ao super-homem, é o sujeito, submetido aos antigos valores da cultura tradicional, o niilismo, cujo símbolo é o camelo e cujo ideal é o eremita” (HÉBER-SUFFRIN, Pierre. Ibidem. p. 143.).
Por conseguinte, a confirmação de sua historicidade no desenrolar da lógica da decadência (niilismo) até as suas mais fatídicas consequências, extraídas pela figura do ‘último homem’ (o homem moderno11), implica a afirmação de uma instransponível sina: a possibilidade de uma nova humanidade (condizente ao ideal do além-do-homem) só ganha fôlego após a derrocada do homem-ponte. A negação nietzschiana do homem, noutras palavras, da fixação e consagração de um determinado tipo humano como sendo o ser humano, culmina na total dessacralização daquela imagem pela adesão ao caráter contingente, mundano, temporal e factício da vida humana, tal como qualquer outra forma de existência. Por isso, Zaratustra deseja um recomeço (incipit tragoedia!) que requer o abandono do até então postulado ser humano12, em favor do além-do-homem.
O tecido hermenêutico fiado pelo último Nietzsche estende-se às páginas d’O
Anticristo, de tal sorte que a expressão ‘homem’ é verticalizada de modo a significar o animal doente por excelência. Apesar da figura do além-do-homem não estar presente diretamente no
contra-cristão jogo argumentativo da referida obra, como tipologia antitética, ela mostra a força de seu espectro ao ser presumida como tipo saudável. Ratificando a tese da destruição do lugar sacrossanto do homem, escreve o filósofo:
opomo-nos a uma vaidade que também aqui quer alçar a voz: como se o homem fosse o grande objetivo oculto da evolução animal. Ele não é absolutamente a coroa da criação [Schöpfung], cada ser existente se acha, ao lado dele, no mesmo nível de perfeição... E, ao afirmar isso, ainda afirmamos muito: pois ele é, considerado relativamente, o animal mais malogrado, o mais doentio, o que mais perigosamente se desviou de seus instintos – e com tudo isso, é verdade, também o mais interessante!13
O sentido da doença, da debilidade característica do animal humano, parece prender- se ao fato filogenético deste ter se constituído na contramão das exigências instintuais nele apinhadas. A relação entre decadência e doença, niilismo e degeneração patológica, tendo como pano de fundo a implosão da fronteira entre o fisiológico e o cultural, vigeu na razão direta da moralização do animal humano. O pico deste longo processo de esmorecimento,
11 Defendendo o entendimento quanto a uma antropologia nietzschiana, a reflexão construída por Jean Lefranc
em recente trabalho sobre Nietzsche analisa justamente esta polarização entre último homem e além-do-homem no texto em voga: “tal como é descrito no prólogo de Zaratustra, o ‘último homem’ designa um tipo extremo ao qual se opõe não o homem superior, mas o tipo do super-homem. Entre os dois se desenvolve toda a antropologia nietzschiana” (LEFRANC, Jean. Compreender Nietzsche. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 219.).
12 Cf. A Gaia Ciência § 342.
13 KSA 6, Der Antichrist. p. 180 (A. p. 19, § 14. Grifo do autor.). No início deste parágrafo, Nietzsche se
posiciona entre aqueles que já não mais pensam numa origem metafísica do homem, recolocando-o em sua condição animal. Igualmente, considera-o entre todos o mais forte dos animais em função de sua astúcia, donde segundo o filósofo dimana sua espiritualidade.
cujo topos inicial consiste no racionalismo socrático14, acha-se no cristianismo devidamente enraizado nas estruturas políticas e sociais do aparelho civilizador moderno15. Destarte, “o cristianismo necessita da doença, mais ou menos como a cultura grega necessita de uma abundância de saúde – tornar doente é a genuína intenção oculta de todo o sistema de procedimentos de salvação da Igreja”16. Sustentando então que “tudo bom é instinto – e, portanto, leve, necessário, livre”17, Nietzsche aduz uma noção de saúde, cuja reivindicação não pode ser feita pelo humano julgado como doente, mas tão-somente por uma espécie que já o tenha ultrapassado18.
No caminho que doravante se segue, façamos algumas inferências a começar das premissas antepostas: primeiro, em Nietzsche o animal humano não é, ele se torna; segundo,
14 Em Crepúsculos dos Ídolos, afirma Nietzsche: “não apenas a anarquia e o desregramento confesso dos
instintos apontam para a décadence em Sócrates: também a superfetação do lógico e a malvadez de raquítico que é sua marca” (KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 69 [CI. p. 19, § 4 – O problema de Sócrates. Grifo do autor.]).
15 Nessa perspectiva, recuperamos a suspeita nietzschiana do moderno ideal democrático. A democracia é parte
insofismável da reflexão filosófica da modernidade. Esta, por sua vez, assenta na moral cujos tentáculos envolvem e envenenam as instituições humanas, incluídas as instituições políticas. Destarte, todos os conceitos correlatos (igualdade de direitos, liberdade política, Estado democrático, bem comum, sufrágio universal, justiça social) e, mormente, as correntes de pensamento que os evocam são (contratualismo, liberalismo, e até mesmo o socialismo) compõem o quadro nietzschiano condizente às denominadas ‘idéias modernas’. Ora, claro está que a acepção moral hegemônica no mundo ocidental, na visão nietzschiana, é a moral cristã, tal como a serpente sedutora dos mais pretensamente laicizados construtos filosóficos modernos. Em torno dessa associação, escreve o filósofo: “com a ajuda de uma religião que satisfez e adulou os mais sublimes desejos do animal de rebanho, chegou-se ao ponto de encontrarmos até mesmo nas instituições políticas e sociais uma expressão cada vez mais visível dessa moral: o movimento democrático constitui a herança do movimento cristão” (KSA 5, Jenseits von
Gut und Böse, p. 124/125 [BM. p. 101/102, § 202. Grifo do autor.]).
16 KSA 6, Der Antichrist. p. 230 (A. p. 61, § 51. Grifo do autor.). Corroborando com o excerto supracitado,
assevera: “o parasitismo como única prática da Igreja; tirando todo o sangue, todo amor, toda esperança de vida com seu ideal de anemia, seu ideal de ‘santidade’; o além como vontade de negação de toda realidade; a cruz como distintivo da mais subterrânea conspiração que já houve – contra a saúde, beleza, boa constituição, bravura, espírito, bondade de alma, contra a vida mesma...” (KSA 6, Der Antichrist. p. 253 [A. p. 79, § 62. Grifo do autor.]).
17 KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 90 (CI. p. 40, § 2 – Os quatro grandes erros. Grifo do autor.).
18 Tratando o problema da antinatureza da moral cristã, de seu caráter contra-instintual, Nietzsche estabelece
importante distinção ao entendimento da equação fundamental entre instinto, vida e saúde: “todo naturalismo na moral, ou seja, toda moral sadia, é dominado por um instinto da vida – algum mandamento da vida é preenchido por determinado cânon de ‘deves’ e ‘não deves’, algum impedimento e hostilidade no caminho da vida e assim afastado. A moral antinatural, ou seja, quase toda moral até hoje ensinada, venerada e pregada, volta-se, pelo contrário, justamente contra os instintos da vida – é uma condenação, ora secreta, ora ruidosa e insolente, desses instintos” (KSA 6, Götzen-Dämmerung. p. 85 [CI. p. 36, § 4 – Moral como antinatureza. Grifo do autor.]). Disto retiramos algumas considerações: Nietzsche concebe a existência histórica de morais naturais cujo sinal distintivo reside na espiritualização dos instintos expressados em seus respectivos cânones; nisto está compreendida a teorização sobre uma moral de senhores, uma moral nobre, uma moral aristocrática, como faces da mesma moeda, validadas pela assunção das forças vitais como indicativo de saúde. Com efeito, o caráter
antinatural de determinadas morais, que Nietzsche atesta como historicamente preponderantes na experiência
humana do Ocidente, umbilicalmente coaduna com um ardiloso exercício de prostração de nossa rede instintual, interpretado como patológico. A conhecida fórmula nietzschiana moralização dos instintos = doença é a receita básica do êxito do cristianismo e de seu modus de vida na cultura ocidental. Portanto, a noção nietzschiana de saúde não diz respeito àquilo que se busca registrar num prontuário médico – o estado orgânico (físico e psíquico) ‘normal’. Há grandes motivos para se pensar com Nietzsche que se trata exatamente de seu contrário, que a normalidade clínica pode ser sinônimo de debilitação. A noção de saúde aventada pelo filósofo condiz muito mais às ideias de robustez, vigor e disposição vital, numa expressão, atividade instintiva, do que a um estado capaz de ser aferido por um esfigmomanômetro.