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Estudos bioquímicos mostraram que a mutação R337H se localiza em uma

alfa-hélice crítica para a estabilidade de dímeros da proteína p53 (Digiammarino et al.

2002). A arginina 337 tem um papel na doação da ligação de hidrogênio (para D352)

que estabiliza a dimerização. A substituição da Arginina por Histidina nessa posição

resulta em sensibilidade ao pH para doação da ligação de hidrogênio, correlacionando

com o estado de protonação da Histidina. Uma pequena mudança no pH dentro da

faixa fisiológica de 7,5 para 8,0 leva ao desdobramento do dímero, prevenindo por

conseguinte uma ligação de DNA de alta afinidade e, presumivelmente, a atividade de

transcrição da p53. Apesar de fatores que regulam a dinâmica da dimerização da p53

e sua dependência do pH ainda serem desconhecidos, esta característica molecular

ambiente intracelular, que poderiam impactar a estabilidade do dímero da p53.

Portanto, R337H representa um paradigma para uma mutação com penetrância

condicional. Esse conceito explicaria porque, no heredograma apresentado na Figura

13, alguns indivíduos com mutação não desenvolveram câncer, incluindo um paciente

que aos 93 anos permanece assintomático, enquanto o paciente-índice desenvolveu

várias lesões primárias.

5.3.2.1 Hipótese sobre o espectro tumoral apresentado nas famílias R337H

O códon 337 pertence a uma região do gene TP53 que codifica o domínio de

oligomerização. Menos de 2% de todas as mutações em TP53 descritas até 2004

ocorreram neste domínio, tanto germinativas como somáticas. Existem evidências

funcionais de que a mutação R337H é patogênica e que leve ao fenótipo LFS/LFL

(Kato et al. 2003; Varley et al.2001). Desde a identificação inicial deste mutante em

2001 por Ribeiro et al., o R337H atraiu muito interesse, principalmente de

pesquisadores da área da biologia estrutural e entre os bioquímicos.

Os primeiros experimentos realizados pelo grupo de Ribeiro em culturas de

célulaS mostraram que o p.337 da proteína p53 se comportava como “wild-type”, ou

seja, tinha sua função preservada. Em 2003, Digiammarino et al. desenvolveram um

ensaio para avaliar o efeito mutagênico desta proteína 337H. Os estudos conduzidos

foram exclusivamente estruturais e bioquímicos, indicando que R337H formava

oligômeros somente se houvesse condições de pH específicas.

Em pH 7, a proteína se comportaria como “wild-type” p53 e formaria pontes

doação de próton necessária para a formação da ponte de hidrogênio com o resíduo

D352 no outro monômero ( Figura 7A) Assim, o dímero de moléculas de p53 não

poderia manter-se estruturalmente, impedindo a formação do tetrâmero. Apesar da

proteína R337H permanecer idêntica à proteína “wild-type”, com os domínios de

ligação ao DNA e de transativação intactos, ficaria impossível a formação do

tetrâmero que é a conformação que possibilita a p53 ter afinidade ao DNA e agir

como fator de transcrição.

Desde a sua descoberta, acreditava-se que p.R337H pudesse ser pH-

dependente in vivo, com atividade biológica ou inativo conforme as alterações de pH

intra-celular. Assim, a partir do estudo de Ribeiro, poderia-se concluir que p.R337H

perderia a sua atividade apenas em células e tecidos nos quais ocorresse alterações no

pH que chegassem ao pH 8 ou mais, enquanto que nas outras permaneceria com a sua

função preservada.

No entanto, pouco se sabe sobre as alterações de pH em células. Alguns fatos

são conhecidos, como o aumento de pH celular durante a apoptose, quando a célula

pode aumentar seu pH até 8,5 ou mais. Digiammarino et al. (2003) sugeriram que tais

trocas poderiam contribuir para o desligamento da função de p.R337H e assim

diminuindo a apoptose. Este fato resultaria na manutenção de pools de células

anormais que teriam sido eliminadas caso a p53 estivesse intacta durante o

remodelamento do órgão. A supra-renal, ou glândula adrenocortical, é um órgão no

qual ocorre remodelamento perinatal a partir de apoptose e a persistência deste pool

de células anormais predisporia ao aumento de risco para ADR precoce.

Atualmente, faltam dados experimentais in vivo que confirmem esta hipótese.

TP53 tenham uma glândula adrenocortical maior ou com a presença de massas. Não

existe sequer uma prova direta de que o pH seja efetivamente o gatilho biológico da

inativação da proteina p.R337H. Estudos experimentais mais aprofundados utilizando

linhagens celulares são necessários para a descrição das condições nas quais a

p.R337H muda da sua forma ativa para inativa. Em particular, seria de grande

interesse a determinação da magnitude da resposta supressora de p53 induzida por

este mutante após diferentes formas de estress geenotóxico.

A atividade de condicional da p.R337H pode fornecer a base para a

compreensão da tendência apresentada por este mutante de aumentar o risco para

alguns tumores característicos da LFS. A atividade variável da p.R337H seria possível

de ser compreendida se o risco para todos os outros cânceres do espectro LFS fosse

diminuído, como ocorre quando há mutações na região de “hotspot”. No entanto não é

o que verificamos nas famílias brasileiras que apresentam um espectro tumoral

semelhante ao de outras mutações germinativas em TP53 (Achatz et al. 2007). Além

disso, há uma maior incidência de câncer de tireóide e renal nas famílias brasileiras

portadoras da p. R337H, demonstrando que em certos tecidos este mutante possa ter

um efeito mais pronunciado do que as mutações no “hotspot” de TP53. Este é um

aspecto que ainda não foi suficientemente bem estudado ou compreendido e que

poderia ser abordado a partir do desenvolvimento de um modelo animal ou cultura

O estudo das famílias brasileiras com a mutação R337H demonstrou uma

grande variedade de tumores apresentados pelos portadores. Dentro de uma mesma

família, foram detectados indivíduos que eram portadores assintomáticos e que

permaneceram sem a manifestação de tumores até uma idade avançada (Figura 13).

Em uma mesma família foram detectados dois pacientes portadores do mutante

R337H que aos 93 e aos 77 anos continuam assintomáticos, enquanto outros

apresentaram tumores em diversas idades. Este fato indica que a mutação R337H

isoladamente não confere um risco semelhante aos outros mutantes do gene TP53,

pois nesta família não se verificou a penetrância esperada de 90% até os 60 anos.

Outros fatores pessoais devem ser críticos no desenvolvimento de câncer nos

portadores. Entre os possíveis fatores envolvidos, podem-se considerar fatores

genéticos e epigenéticos. Modificadores epigenéticos são mais difíceis de avaliar, pois

incluem a interação com o ambiente (estilo de vida, dieta e fatores ambientais) assim

como fatores psicológicos que modulariam a atividade da proteína R337H.

Buscamos abordar esta questão através da análise de possíveis modificadores

genéticos, os polimorfismos PIN2, PIN3 e PEX4 de TP53 e do SNP 309 de MDM2.

Estes dados serão discutidos na próxima sessão. Buscamos ainda modificações

relacionadas a dois polimorfismos mais freqüentes do gene AKT, porém após a

avaliação inicial, nenhum resultado mostrou ser estatisticamente significante.

Desta forma, uma série de fatores “condicionais” pode ser necessária para que

o mutante R337H exerça sua função deletéria aumentando efetivamente o risco para o

câncer. Este conceito pode ser nomeado como “penetrância condicional”. O termo

disso, na penetrância parcial pode-se verificar um fenótipo leve devido à inativação

muitas vezes parcial da proteína. A mutação condicional difere da parcial pelo fato de

que o fenótipo pode diferir inteiramente de uma família portadora para outra, mesmo

frente à mesma mutação. O mutante condicional vai reter certo grau de atividade que

irá diferir conforme os fatores condicionais e não de acordo com a própria mutação.

Assim, estudos futuros serão necessários para determinar as condições que irão

modular a penetrância de R337H. A monitoração destas condições é fundamental para

a predição dos fatores de risco individuais e familiares envolvidos. É importante notar

que, no caso de condições epigenéticas, a detecção destes fatores pode fornecer a

possibilidade da identificação precoce dos mesmos e identificação do risco antes

mesmo do diagnóstico precoce de lesões malignas.

5.4 Impacto populacional do mutante R337H: conseqüências para a saúde