a) Os critérios fisicalistas:
Na porção final do MS 107, Wittgenstein afirma:
Quando construí a linguagem que se vale de um sistema de coordenadas para representar um estado de coisas no espaço, introduzi na linguagem, ao assim proceder, um elemento que ela não usa normalmente. Esse método é certamente
371 MS, 113, p.47v / BT §46, p.158. (Grifos do autor). (“(...) ich kann die Wirklichkeit nach
grammatischen Regeln in die Sprache des Satzes übersetzen und nun im Land der Sprache den Vergleich durchführen”).
372 MS 117, p. 138 / BT, §56, p. 186. (“Die grammatischen Regeln sind zu vergleichen Regeln über das
150
permitido. E isso mostra a conexão entre linguagem e realidade. O sinal escrito sem o sistema de coordenadas é sem sentido.373
A importância dada por Wittgenstein aos métodos de mensuração e aos padrões de medida provém do fato de que será por meio deles que os sistemas de coordenadas tocarão a realidade. É através dessa conexão que as proposições genuínas, que descrevem a experiência imediata (ao operar um corte na hipótese), poderão ser concebidas como a determinação de gradações em padrões de medida.374 Assim, a possibilidade de aplicar um sistema de coordenadas à realidade (determinando um método de verificação) pressupõe a determinação de uma unidade, a partir da qual o método de projeção da linguagem sobre a realidade fenomênica será construído. Acerca dessa unidade, afirma Wittgenstein:
A unidade de medida é parte do simbolismo. Ela pertence ao método de projeção. Seu tamanho é arbitrário, mas é isso que contém o elemento especificamente espacial.375
Na construção de um método de mensuração, há a eleição de um objeto físico como a unidade do método. Essa escolha é sempre arbitrária, mas isso traz para o interior da linguagem um elemento daquele espaço de possibilidades. É por ser uma parte da realidade que pertence à linguagem que a unidade de medida será um ponto de contato entre a linguagem e a realidade. É por essa razão que o sinal escrito sem o sistema de coordenadas é sem sentido, pois “(...) se eu chamo um comprimento de ‘3’, o 3 significa por meio da unidade de medida pressuposta no simbolismo”.376
O padrão de medida é um objeto físico – algo no tempo homogêneo fisicalista (no filme). A determinação desse objeto como unidade é uma eleição arbitrária de uma forma transtemporal de conexão dos fenômenos, que não será colocada em questão, e as determinações do sistema serão feitas a partir dessa unidade. Do ponto de vista temporal, essa determinação é a aceitação, por princípio, de um elemento da realidade como invariável ao longo do tempo. Por essa razão (do ponto de vista fisicalista) estaria vetado o sentido da indagação se a gradação especificada na proposição genuína é a
373 MS 107, p. 280 / PB, §46. (“Als ich die Sprache konstruierte, die sich bei der Darstellung des
Sachverhaltes im Raum eines Koordinatensystems bedient, da habe ich doch damit einen Bestandteil in die Sprache eingeführt, dessen sie sich sonst nicht bedient. Dieses Mittel ist gewiß erlaubt. Und es zeigt den Zusammenhang zwischen Sprache und Realität. Das geschriebene Zeichen ohne das Koordinatensystem ist sinnlos”).
374 Cf. MS, 108, pp. 53-54 / PB, §84.
375 MS 106, p. 45 / PB, §45. (Grifo do autor). (“Die Einheitsstrecke gehört zum Symbolismus. Sie gehört
zur Projektionsmethode. Ihre Länge ist willkürlich, aber sie enthält das spezifisch räumliche Element”).
376 MS 106, p. 45 / PB, §45. (“Wenn ich also eine Strecke "3" nenne, so bezeichnet hier die 3 mit Hilfe
151
mesma ou não no futuro, pois a determinação de um padrão de medida é justamente a eleição de uma unidade que aceitamos como a mesma, ao longo do tempo. Assim, pode- se dizer que os critérios fisicalistas (os padrões e os modelos) encontram-se baseados na indução, pois é a manutenção da possibilidade da aplicação da regra hipotética de construção do “objeto físico” (que será o padrão), que possibilitará a manutenção do sentido da proposição ao longo do tempo. Há, desse modo, um horizonte de regularidades que possibilita a aplicação do simbolismo fisicalista à realidade e, caso tais regularidades desapareçam, tornaria sem sentido as proposições desse sistema. Mas, dadas essas regularidades, o sentido da proposição genuína se manteria ao longo do tempo, pois, através da relação essencial entre linguagem e realidade operada pelo padrão, uma gradação hoje e no futuro seria a especificação de um mesmo lugar do espaço de possibilidades (garantindo o uso correto de certas palavras e, consequentemente, o sentido das proposições).377
A importância do método pelo qual o sistema será projetado na realidade torna bastante compreensível como, a partir da ruptura com a linguagem fenomenológica, a noção de verificação (e método de verificação) ocupará cada vez mais um lugar central na filosofia de Wittgenstein (ao longo de 1929-1930). Como expresso no MS 107: “[a] verificação não é uma mera indicação [Anzeichen] da verdade, mas é o sentido da proposição. (Einstein: como uma magnitude é mensurada é o que ela é)".378 Essa
sobreposição entre o que algo é e o modo como ele é mensurado decorre da concepção de que: “[a] fim de ter uma ideia do sentido de uma proposição, é necessário o esclarecimento acerca do procedimento que leva à determinação de sua verdade”.379 Assim, “o método de verificação é (...) o próprio sentido”.380 Em resumo: saber o sentido de uma proposição é saber o procedimento pelo qual o simbolismo em que ela está escrita é projetado sobre a realidade – possibilitando a determinação de sua verdade ou falsidade. O método de verificação será a série de ações, por meio do qual a
377 Cf. MS 107, p. 256 / PB, §28. Essa passagem parece sugerir que, embora o princípio tractariano da
complexidade essencial da proposição tenha sofrido drásticas alterações com a constatação da dependência lógica das proposições elementares, em um certo sentido, ainda poderíamos dizer que a proposição é um complexo de nomes, pois uma só gradação (em um padrão de medida) não seria suficiente para constituir uma proposição, a ser comparada com a realidade fenomênica.
378 MS 107, p. 143 / PB, §166. (“Die Verifikation ist nicht ein bloßes Anzeichen der Wahrheit, sondern
der Sinn des Satzes. (Einstein: wie eine Größe gemessen wird, das ist sie.)”).
379 WVC, p. 244. (Um sich den Sinn eines Satzes zu vergegenwärtigen, muß man sich das Verfahren klar
machen, das zur Feststellung seiner Wahrheit führt.).
152
proposição genuína será construída, tendo por base os padrões e modelos, que instituem a relação entre a linguagem e a realidade.
b) Os critérios fenomenológicos:
Entretanto, além dos critérios fisicalistas (dos padrões e modelos), Wittgenstein, no período em questão, ainda recorre a critérios fenomenológicos. Para que possamos compreender o papel que Wittgenstein atribui às memórias e às representações, faremos a análise de alguns importantes trechos do MS 108. Na página 59 do MS 108 (de 3 de janeiro de 1930), Wittgenstein levanta a seguinte indagação:
O que significa dizer “efetivamente, não posso ver nenhum vermelho, mas se você me der uma caixa de cores [Farbenkasten], eu posso apontá-lo para você”? Como você pode saber que será capaz de apontá-lo [o vermelho] se...; e, assim, que você será capaz de reconhecê-lo quando o ver?381
Na sequência do texto, Wittgenstein responde:
Isso pode significar duas coisas distintas: pode expressar a expectativa de que eu o reconheça quando a mim for mostrado, no mesmo sentido que espero uma dor de cabeça se receber uma batida na cabeça; então é, por assim dizer, uma expectativa que pertence à física, com o mesmo tipo de fundamento [Basis] que qualquer outra expectativa relacionada à ocorrência de um evento físico. – Ou então algo que não tem nada a ver com a espera de um evento físico, e por essa razão nem seria a minha proposição falsificada se um tal evento falhar em ocorrer. Ao invés disso, é, por assim dizer [gleichsam], como se a proposição estivesse dizendo que tenho um protótipo [Urbild] que poderia a qualquer momento comparar com a cor. (E essa “possibilidade” aqui é uma possibilidade lógica).382
De acordo com estes trechos, ao afirmarmos algo do tipo “efetivamente, não posso ver nenhum vermelho, mas se você me der uma caixa de cores, eu posso apontá- lo para você”, é como se disséssemos (em sentido fenomenológico) que estamos na posse de um protótipo (Urbild), que poderia a qualquer momento ser comparado com a
381 MS 108, p. 59 / PB, §11. (As reticências fazem parte do texto original). (“Was heißt es, zu sagen "ich
sehe zwar kein Rot, aber wenn du mir einen Farbenkasten gibst, so kann ich es dir darin zeigen"? Wie kann man wissen, daß man es zeigen kann wenn ...; daß man es also erkennen kann, wenn man es sieht?”).
382 MS 108, p. 59 / PB, §11. (“Was hier gemeint ist, könnte zweierlei Art sein: Es könnte die Erwartung
ausgesprochen sein, daß ich es erkennen werde, wenn es mir gezeigt wird, in dem Sinne, wie ich erwarte Kopfschmerzen zu bekommen, wenn ich einen Schlag auf den Kopf erhalte; das ist dann sozusagen eine physikalische Erwartung, mit derselben Basis, wie alle Erwartungen, die sich auf das Eintreffen physikalischer Ereignisse beziehen. - Oder aber es handelt sich gar nicht um die Erwartung eines physikalischen Ereignisses, und daher kann auch mein Satz durch das eventuelle Ausbleiben dieses Ereignisses nicht falsifiziert werden. Sondern der Satz sagt gleichsam, daß ich ein Urbild besitze, mit dem ich die Farbe jederzeit vergleichen könnte (und diese Möglichkeit ist eine logische Möglichkeit).”)
153
cor. É importante notarmos que Wittgenstein não usa aqui o termo “Bild”, mas “Urbild”. No TLP, a Urbild é o protótipo lógico de figuração, que determina a classe de proposições, que são todos os valores das proposições, uma vez que delas sejam retirados todos os sinais cujos significados são determinados arbitrariamente. Ou seja, a Urbild é a forma lógica comum a todas as proposições de uma mesma classe.383 Na passagem citada do MS 108, o uso do termo Urbild parece sugerir que, ao afirmar que posso reconhecer uma cor, não possuo (simplesmente) uma imagem (Bild) dessa cor (que poderia comparar com a cor a ser reconhecida), mas algo que me dá a sua forma lógica (comum a todas as instanciações dessa cor). Ou seja, a atribuição de identidade seria feita por intermédio da posse de algo como que uma Urbild do fenômeno.
Na sequência do MS 108, Wittgenstein escreve:
A ideia de que você “representa” [vorstellt] o significado [Bedeutung] de uma palavra quando você a ouve ou a lê é uma concepção ingênua do significado de uma palavra. E para essas representações é efetivamente válida a mesma questão do significado de uma palavra. Pois se, por exemplo, você representa um céu azul e utiliza essa representação como fundamento para o reconhecimento e a procura da cor, então, deve-se dizer que a representação da cor não é idêntica [identisch] à cor que é realmente vista; e, nesse caso, como se pode comparar as duas?
Mas completamente falsa a teoria ingênua do fazer-para-si-uma-representação não pode ser.384
A questão que se faz premente é: se a teoria do fazer-para-si-uma-representação não é completamente falsa, em que sentido ela seria, para Wittgenstein, verdadeira?
Neste último trecho citado, Wittgenstein explora uma versão do argumento clássico do “terceiro homem” (que remonta à crítica endereçada a Platão por Aristóteles).385 Segundo Wittgenstein, se tomarmos a representação da cor como
fundamento para o reconhecimento (assim como, para a procura da cor), a questão que se põe é saber “como se pode comparar as duas?” – para que possamos determinar a identidade ou não entre elas. A utilização da uma outra representação (como critério para a identidade das duas outras ocorrências de cores) nos levaria a um regresso ao infinito.
383 Cf. TLP, 3.315.
384 MS 108, pp. 61-62 / PB, §12. (Grifo do autor). (“Eine naive Auffassung der Bedeutung eines Wortes
ist es, daß man sich beim Hören oder Lesen des Wortes dessen Bedeutung "vorstellt". Und für dieses Vorstellen gilt auch wirklich die gleiche Frage wie für das Bedeuten eines Wortes. Denn wenn man sich zum Beispiel die Farbe Himmelblau vorstellt, und das Wiedererkennen und Suchen der Farbe soll sich auf diese Vorstellung gründen, so muß man doch sagen, daß die Vorstellung von der Farbe nicht identisch ist mit der wirklich gesehenen Farbe; und wie kann nun ein Vergleich vor sich gehen? / Ganz falsch kann doch die naive Theorie des Sich-eine-Vorstellung-Machens nicht sein”).
154
Caso cotejarmos esse trecho do MS 108 (pp. 61-62) com o anteriormente citado (MS 108, p. 59), podemos afirmar que a teoria ingênua do fazer-para-si-uma- representação (Sich-eine-Vorstellung-Machens) não seria completamente falsa para Wittgenstein caso a representação seja concebida como que a posse de um protótipo (Urbild), que poderia a qualquer momento ser comparado com o fenômeno, determinando a sua identidade. Essa aproximação parece ser possível pelo modo como a relação entre a representação e a realidade é concebida pelo autor como uma relação interna (necessária) e imediata, pois “(...) a representação [Vorstellung] e a realidade estão em um espaço”.386 Ou seja, a representação de uma cor não é apenas
compreendida como uma imagem (Bild), que poderíamos comparar com as outras cores (a fim de determinar a identidade ou não dessas cores – sendo que aqui estaríamos sujeitos ao regresso ao infinito), mas como a determinação de uma forma lógica, que especifica um lugar no espaço das cores. A diferença nessa segunda formulação (da representação como uma Urbild) é que desaparece o estagio intermediário da comparação, no qual teríamos as duas cores (a imagem (mental) e o fenômeno), mas ainda não saberíamos se são idênticas ou não (e é esse estágio que nos remeteria ao regresso ao infinito). Pelo fato de a representação estar situada no mesmo espaço que a realidade, caso um fenômeno ocupe o lugar do espaço de possibilidades ocupado pela representação, seria concedida imediatamente ao fenômeno a identidade. Para usar as palavras de Wittgenstein, acerca da expectativa, “[o] evento que toma o lugar da expectativa é uma resposta a ela”,387 sem que seja necessário um terceiro elemento.
Algo central à tese que será aqui delineada é notarmos que, de um ponto de vista metafísico, o que garante a identidade de um mesmo lugar do espaço de possibilidades ao longo do tempo é a estrutura atemporal fixada pelo espaço de possibilidades.388 Duas
ocorrências de uma mesma nota musical ocupam o mesmo lugar do espaço auditivo, assim como duas ocorrências de uma mesma cor ocupam o mesmo lugar do espaço das cores. Nesse caso, a relação entre a expectativa e o seu preenchimento futuro seria uma relação interna, pois a proposição genuína (que expressa a expectativa) determinaria um lugar no mesmo espaço no qual a realidade futura deverá se encontrar (quer coincida
386 MS, 107, p. 281 / PB, §38.
387 MS, 107, p. 257 / PB, §28. (“Das Ereignis, welches die Erwartung ersetzt, das ist ihre Antwort”). 388 Semelhantemente ao que afirma Hyder, acerca do que seria o pano de fundo da noção wittgensteiniana
de espaço lógico: “[a] terra-de-ninguém [Grenzstreif / no-man's-land] de Hertz fecha o sujeito pensante em uma gaiola, cuja rede [mesh] forma o limite a priori do seu mundo” (p. 191). (Sobre a Grenzstreif, ver nota 47, subseção 1.1.2 desta tese).
155
com a gradação determinada na proposição ou não). Porém, pelo viés fenomenológico (e esse será o ponto de confluência entre o projeto fenomenológico e a ilusão metafísica presente na base do princípio da plena determinação do sentido – como argumentaremos no capítulo seguinte), a identidade dos fenômenos seria garantida pelo colapso entre o passado e a memória primária. Duas ocorrências de notas musicais ocupam o mesmo lugar do espaço auditivo (sendo, assim, a mesma nota), caso eu as reconheça como a mesma, pois o reconhecimento é a fonte da identidade (e o mesmo vale para todos os fenômenos – como visto nas seções 1.1.1 e 1.1.2). Em resumo, valendo-me aqui das palavras de Hintikka, já citadas: “(...) para tais objetos fenomenológicos não há critério de identidade através do tempo exceto a memória”.389
No que diz respeito aos fenômenos (como vimos nesta seção), a possibilidade do reconhecimento seria semelhante à posse de um protótipo (Urbild), que poderia a qualquer momento ser comparado com o fenômeno. Porém, (e esse é o cerne da questão) não faz sentido perguntar se a Urbild em dois momentos do tempo é ou não a mesma Urbild – pois não faz sentido (em 1929-1930) perguntar se me lembro ou não da mesma representação. A rememoração da Urbild é critério de si mesma, já que não haveria espaço para a indagação acerca da correção da memória (dado o colapso entre memória e passado, no mundo primário). Assim, não faria sentido aqui supor um estágio intermediário, no qual eu tenha as duas ocorrências e não saiba se são a mesma ou não. De forma semelhante, não faz sentido supor que nos fossem dadas a memória de um fenômeno e a ocorrência desse fenômeno sem que saibamos se são ou não o mesmo fenômeno (vetando o problema que levaria ao regresso ao infinito – pois não haveria a necessidade de um terceiro elemento para mediar a relação). O reconhecimento imediato é a fonte da identidade.
O que tentarei mostrar no capítulo seguinte é que o viés metafísico (a ideia de um horizonte intencional atemporal da linguagem) pode ser interpretado como uma ilusão causada pela concessão de um estatuto equivocado à memória no mundo primário, em que se concebe o passado do tempo da memória à semelhança de uma imagem material (que fixaria, ao longo do tempo, a forma e a multiplicidade lógica das vivências passadas). E seria esse estatuto equivocado, central à noção de mundo primário, que estaria na base da ideia de uma plena determinação do sentido no período intermediário, pois, garantiria de forma imediata a identidade dos fenômenos e,
156
consequentemente, a multiplicidade lógica do mundo primário (concedendo ao mundo primário um estatuto intrinsecamente determinado). No capítulo seguinte, veremos como a busca por uma linguagem ideal estaria baseada nessa falsa analogia do tratamento do passado da memória (em sentido fenomenológico), como uma imagem material.
157
4. O fim da essência atemporal da linguagem
Neste quarto capítulo, deixaremos de lado o trabalho de exegese da obra de Wittgenstein (que nos ocupou nos capítulos 1, 2 e 3) e nos encaminharemos ao exercício especulativo, que visa compreender a mudança ocorrida na filosofia do autor entre 1930-1931 (que levaria, do ponto de vista das análises do tempo, à Wiederaufnahme de 1931).390 Para isso, teremos que abrir mão da ordem cronológica para nos atermos àquilo que me perece ser a ordem das razões, no percurso de Wittgenstein, pois, como veremos adiante, uma peça-chave dessa ruptura poderá ser encontrada em um texto ditado a Waismann (“Linguagem Fenomenal” (PS)), que, infelizmente, não possui data.391 Mas, para que esse exercício especulativo não seja apenas a proposta arbitrária de uma interpretação temporal para a ruptura de 1930-1931, devemos proceder, primeiramente, adotando como base alguns trechos pós-retomada (que possuem uma datação precisa) e, a partir deles, fazer o exercício de engenharia reversa – no qual deduziremos as indagações que o percurso pré-retomada deverá responder.
Uma passagem que podemos utilizar como uma importante pedra de toque é um trecho do MS 110, redigido em 29 de junho de 1931. Os esforços deste capítulo poderão ser compreendidos como a tentativa de expressar (à luz das análises precedentes) uma interpretação temporal para a crítica que Wittgenstein parece fazer aqui a si mesmo (em tom retrospectivo):
Eu acredito que o erro está na ideia de que o significado de uma palavra é uma representação [Vorstellung], que acompanha a palavra. E essa concepção novamente tem a ver/ é conectada com a de consciência [Bewußt-Seins]. Isto que eu sempre chamei de “primário”.392
390 Cf. Kienzler, 1997, pp. 79-80.
391 Embora isto não constitua um argumento, em conversas particulares, a editora da versão francesa dos
ditados, Antonia Soulez, expressou a convicção pessoal de que tal ditado deva ser de 1931 (tomando como base os textos ditados a Waismann que possuíam data).
392 MS, 110, p. 230 (de 29 de junho de 1931). (“Ich glaube, jener Fehler liegt in der Idee, daß die
Bedeutung eines Wortes eine Vorstellung ist, die das Wort begleitet. Und diese Konzeption [hat wieder mit der des [Bewußtseins|Bewußt-Seins] zu tun| steht wieder mit der des Bewußt-Seins in Verbindung]. Dessen, was ich immer „das Primäre” nannte”).