253 A utilização das aspas no termo “existe” busca sinalizar que a existência nesse caso diz respeito apenas
ao modo de apresentação fisicalista da realidade.
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O ponto de partida de Denis Perrin é a compreensão do projeto de construção da linguagem fenomenológica como a busca por uma linguagem que exprima “(...) exclusiva e exaustivamente o fenômeno presente a fim de assegurar uma verificabilidade integral e uma exclusão estrita de todo elemento hipotético”.255 O ponto a ser notado é que, com isso, Perrin compreende a linguagem fenomenológica como uma linguagem que deveria ser “(...) estritamente simultânea ao que ela descreve”.256 A partir dessa caracterização da linguagem fenomenológica, ele compreende a sua impossibilidade como uma consequência da tese de que toda linguagem, “(...) em razão de sua articulação, sempre leva tempo” e, desse modo, seria incapaz de descrever o specious present que é uma “(...) mudança incessante”.257 Ou seja, para Perrin, haveria (no início de 1929) uma “(...) impossibilidade de fato (a linguagem fenomenológica não poderia apreender o instante presente da experiência)”.258
Em um artigo de 2009, ele oferece o seguinte resumo de sua posição:
Desse ponto de vista, a impossibilidade da linguagem fenomenológica se impõe como factual: por causa do caráter fluente do presente, sua descrição verbal não poderia ser simultânea (uma vez que uma proposição toma tempo), ao passo que essa simultaneidade é um dos requisitos que pesam sobre a linguagem fenomenológica.259
Essa impossibilidade estaria visível, segundo ele, no símile da Lanterna Mágica, como a incompatibilidade entre dois tempos distintos. Como afirma Perrin:
[A] incompatibilidade entre toda linguagem em razão de seu caráter necessariamente físico (sua propriedade de ser estendida no tempo físico) e o presente da experiência imediata repousa sobre a diferença do tempo físico e do tempo fenomenal, tal qual é desenhada pela analogia cinematográfica.260
255 Perrin, 2007, p. 32. (“(...) exclusivement et exhaustivement le phénomène présent afin de s’assurer une
vérifiabilité intégrale et une stricte mise à l’écart de tout élément hypothétique”). É importante notarmos que um uso ambíguo do tempo “presente” poderia favorecer a interpretação de Perrin, tirando de foco o ponto da crítica que aqui será delineada. Em um sentido amplo, toda descrição fenomenológica é uma descrição do presente. Mesmo que descrevamos a experiência imediata que nos foi dada (agora acessível pela memória), valendo-se desse sentido ambíguo do tempo “presente”, poder-se-ia dizer que a descrição do passado da memória também é uma descrição do presente (daquilo que foi presente). Porém, Perrin parece defender uma posição mais restrita, ao afirmar que a linguagem fenomenológica deveria exprimir “exclusiva e exaustivamente o fenômeno presente” – excluindo o passado da memória do âmbito da linguagem fenomenológica. Essa posição será reforçada (tornando plena a desambiguação do termo “presente” por ele utilizado) ao sugerir que a impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica decorreria da impossibilidade de fato da linguagem apreender o instante presente da experiência (como será citado a seguir).
256 Perrin, 2007, p. 32. (“(...) strictement simultanée à ce qu’elle décrit”). 257 Perrin, 2007, p. 32. (“(...) changement incessant”).
258 Perrin, 2007, p. 93. (Grifos meus). (“(...) l’impossibilité de fait (le langage phénoménologique ne
pouvait tenir dans l’instant présent de l’expérience)”).
259 Perrin, 2009, p. 103.
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Um dos grandes méritos da interpretação de Perrin é a localização de um segundo momento da constatação da impossibilidade de uma linguagem fenomenológica (além da constatação da impossibilidade factual), que estaria expressa na ideia de que a derrocada dessa linguagem revelaria uma ilusão gramatical presente na base do projeto de sua construção (e essa seria a dimensão lógica da impossibilidade de tal linguagem). Esse segundo momento não seria apenas a constatação da impossibilidade de descrever simultaneamente o fluxo da experiência que escorre excessivamente rápido, mas seria a constatação de que o tratamento do presente como um fluxo incessante seria ele mesmo ilusório. A ilusão que estaria na base do projeto de construção dessa linguagem seria a compreensão do presente semelhantemente às linhas gerais do tratamento dado pela psicologia empírica do início do século XX, na qual o presente é compreendido como o specious present – como um rio que flui incessantemente. Nesse caso, haveria, segundo Perrin, a confusão entre algo empírico a uma propriedade lógica, na qual se concebe “(...) a possibilidade do movimento com um movimento”.261
A constatação de que esse tratamento do presente seria ilusório, por fim, removeria o caráter misterioso do presente, situando-o como algo cuja descrição e esclarecimento não necessitariam mais da criação de um simbolismo especial (a linguagem fenomenológica). Essa tarefa agora estaria ao alcance da linguagem ordinária.262 Entretanto, essa dimensão terapêutica (que desfaz uma ilusão gramatical) não levaria a um corte abrupto, pois, como constata Perrin, o privilégio concedido à fenomenologia não desaparece em 1929. A manutenção do verificacionismo revelaria ainda a concessão de uma primazia semântica ao presente (que, de acordo com ele, se estende entre 1929 e 1932/1933).
O primeiro ponto de divergência para com a interpretação de Perrin (embora concorde com ele sobre vários outros aspectos) é a sua compreensão da linguagem fenomenológica como uma linguagem que deve exprimir “(...) exclusiva e exaustivamente o fenômeno presente”.263 O segundo ponto de divergência será o modo
como ele compreende o primeiro momento da impossibilidade temporal da linguagem
physique (sa propriété d’être étendu dans le temps physique) et le présent de l’expérience immédiate
repose sur la différence du temps physique et du temps phénoménal telle qu’elle est dessinée par l’analogie cinématographique”).
261 Perrin, 2007, p. 33. (“(...) la possibilité du mouvement avec un mouvement”). 262 Cf. Perrin, 2007, p. 35.
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fenomenológica, tendo ponto de apoio a metáfora cinematográfica, como uma “(...) impossibilidade de fato (a linguagem fenomenológica não poderia apreender o instante presente da experiência)”.264 A compreensão da ruptura de 1929 a partir dos trechos presentes nas páginas 108 à 114 do MS 105 (que formam os parágrafos 67 e 68 das PR – como encontraremos em Ferraz Neto) torna evidente que a linguagem fenomenológica não busca exprimir exclusiva e exaustivamente o fenômeno presente, mas as impressões sensíveis retidas pela memória. Não seria um mero acaso (ou deslize) que Wittgenstein, ao construir nessas seções a descrição mais imediata possível (a sua linguagem fenomenológica par excellence), conceba-a como uma descrição do que é dado pela memória. Além disso, nessas passagens fica evidente (como veremos adiante) que o problema da linguagem fenomenológica não pode residir na impossibilidade factual da linguagem dar conta do caráter fugidio do fluxo temporal – pois, como dirá Wittgenstein, “[a]ssumo que eu estivesse em condições de ‘escrever’ essa linguagem [fenomenológica] – gerar a representação – tão rápido como minha memória vai”.265
Um problema que acomete tanto a interpretação de Perrin quanto a de Hintikka (tornando-as bastante insatisfatórias, enquanto compreensão da impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica) é que ambas tomam a ideia de que a linguagem é fisicalista como ponto de partida (premissa) do modo como compreendem a impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica. A partir da tese de que a linguagem é fisicalista eles argumentam, cada um à sua maneira, que haveria uma incompatibilidade temporal entre a linguagem e a realidade fenomênica – e isso vetaria a possibilidade de uma linguagem fenomenológica. Isso fica expresso no modo como adotam a tese de que a linguagem é estendida no tempo físico e a impossibilidade da linguagem fenomenológica seria decorrente da incompatibilidade entre essa necessária extensão temporal da linguagem e o tempo da realidade fenomênica. Para Perrin, essa extensão temporal se revela no caráter necessariamente articulado da linguagem (e, para Hintikka, o resultado dos elementos não veri-funcionais da linguagem).
Porém, uma análise genética do trecho em que Wittgenstein expressa a conclusão de que a linguagem é necessariamente fisicalista (em que ele afirma que a linguagem desenrola-se no tempo homogênio da física) revela que o caráter fisicalista da linguagem não é uma premissa de sua análise (que culmina na constatação da
264 Perrin, 2007, p. 93. (“De l’impossibilité de fait (le langage phénoménologique ne pouvait tenir dans
l’instant présent de l’expérience”).
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impossibilidade da linguagem fenomenológica), porém, a conclusão positiva decorrente da constatação da impossibilidade. Como afirma o autor: “[o] que nós compreendemos pela palavra ‘linguagem’ flui no tempo homogêneo da física”.266 Logo em seguida, entre parênteses consta: “[c]omo foi feito perfeitamente claro pela comparação com um mecanismo”. Nesse caso, a conclusão de Wittgenstein de que a linguagem deve fluir no tempo homogêneo da física decorre de sua análise da metáfora do mecanismo da experiência imediata. À luz das interpretações de Hintikka e Perrin, poder-se-ia até mesmo dizer que essa conclusão seria algo desprovido de importância, pois, na melhor das hipóteses, seria apenas um desdobramento temporal da premissa de que a linguagem é fisicalista (aceita por eles no início de suas análises).
Aprofundarei a crítica a Perrin e Hintikka nas seções seguintes, ao abordar os trechos em que Wittgenstein constata a impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica, através do mecanismo de representação da experiência imediata. Essa análise será feita em meio à exposição da interpretação de Ferraz Neto.
2.2.3. Ferraz Neto e o mecanismo de representação da experiência imediata
A interpretação de Ferraz Neto, embora tenha um escopo extremamente reduzido, comparada às interpretações de Hintikka e Perrin, oferece um tratamento pormenorizado da ruptura de 1929 e esmiúça de modo quase que exaustivo as principais metáforas utilizadas por Wittgenstein, para constatar a impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica (metáforas essas que não recebem a devida atenção tanto de Hintikka quanto de Perrin). Em especial, Ferraz Neto analisa detidamente a exposição de Wittgenstein do mecanismo que representaria a relação entre a linguagem fenomenológica e a experiência imediata (presente nos parágrafos 67 e 68 das PB), através do qual ele constata o caráter absurdo de tal linguagem.267 Vejamos, então, as
linhas gerais dessa metáfora e o modo como Ferraz Neto articula a partir de sua análise a compreensão da impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica.
266 MS 105, p. 114 / PB, §69d.
267 Diferentemente de Perrin, que retira a conclusão da impossibilidade da linguagem fenomenológica
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No MS 105, Wittgenstein lança mão de um estratagema para exemplificar o que seria “(...) a descrição mais imediata que poderíamos imaginar”268 – ou seja, a linguagem fenomenológica par excellence:
Suponhamos que eu tenha tão boa memória que pudesse relembrar de todas as minhas impressões. Nesse caso, não haveria, prima facie, nada que me impedisse de descrevê-las. Isto seria uma biografia. E por que não deveria eu ser capaz de deixar tudo que hipotético fora dessa descrição? / Eu poderia, por exemplo, representar as imagens visuais plasticamente, talvez como figuras de gesso, em uma escala reduzida, que eu completaria apenas até o ponto em que realmente as vi, designando o resto como inessencial por meio de sombreado ou outros meios.269
A suposição inicial (de uma memória colossal) pode ser interpretada como a tentativa do autor de direcionar o interlocutor a pensar a memória tal qual seu estatuto no âmbito fenomenológico (como visto nas seções anteriores do subcapítulo 1.14). Logo em seguida, o autor supõe a possibilidade de que as imagens visuais passadas fossem representadas por figuras de gesso, completadas tanto quanto o que foi realmente visto. Essas figuras de gesso seriam os sinais dessa linguagem, para representar as paisagens passadas (ou seja, as imagens visuais passadas). Após expor esse simbolismo da linguagem mais imediata possível (composto pelas figuras de gesso), Wittgenstein indaga sobre o tempo que ele levaria para a construção de tais representações. Acerca disso, ele responde: “[a]ssumo que eu estivesse em condições de ‘escrever’ essa linguagem – gerar a representação – tão rápido como minha memória vai”.270
É importante notar que, nesse exemplo de Wittgenstein, do que seria a linguagem mais fenomenológica possível, o objetivo não é a descrição do fluxo temporal presente, mas a representação de “(...) todas as minhas impressões sensoriais”,271 retidas pela memória. Nesse caso, evidencia-se o sentido da memória
como “(...) a fonte do nosso conhecimento, como verificação de nossas proposições”.272
268 Cf. PB, §68a. (“Ist es nicht klar, daß das die unmittelbarste Beschreibung wäre, die sich denken
läßt?”).
269 MS 105, p. 108 / PB, §67a. (“Angenommen, ich hätte ein so gutes Gedächtnis, daß ich mich meiner
sämtlichen Sinneseindrücke erinnern könnte. Dann spricht nichts dagegen, daß ich sie beschriebe. Es wäre das eine Lebensbeschreibung. Und warum sollte ich nicht alles Hypothetische aus dieser Beschreibung fortlassen können? / Ich könnte ja z.B. die Gesichtsbilder plastisch darstellen, etwa in verkleinertem Maßstab durch Gipsfiguren, die ich nur so weit ausführe, als ich sie wirklich gesehen habe, und den Rest etwa durch eine Färbung oder Ausführungsart als unwesentlich bezeichne”).
270 MS 105, p. 110 / PB, §67c. (“ch nehme an, ich wäre im Stande, diese Sprache so schnell zu
"schreiben" - die Darstellung zu erzeugen -, als meine Erinnerung geht.”).
271 MS 105, p. 110 / PB, §67. 272 Cf. MS 108, p. 34 / PB, §49.
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Assim, Wittgenstein atribui claramente à linguagem primária a tarefa de representar de forma completamente perspícua o conteúdo e a ordem temporal retida pela memória – e não simplesmente ser uma descrição desse presente (como frisa Denis Perrin). Por esse viés, fica evidente que a impossibilidade temporal da linguagem fenomenológica não deverá decorrer da incapacidade da linguagem dar conta do caráter fugidio do fluxo temporal presente. Além disso, como visto no parágrafo anterior, no trecho em que Wittgenstein indaga sobre o tempo que levaria para construir a representação em sua linguagem fenomenológica ele responde: “eu estaria em condições de ‘escrever’ essa linguagem tão rápido (...) como minha memória vai”. Portanto, o problema da linguagem fenomenológica não pode se localizar na impossibilidade de que a linguagem alcance a “velocidade” do fluxo temporal, pois, Wittgenstein chegará à conclusão de que essa linguagem seria ainda hipotética, mesmo que a representação vá tão rápido quanto à velocidade do fluxo temporal (de sua memória).
A linguagem do exemplo de Wittgenstein, à primeira vista, seria uma linguagem cujo sentido é plenamente determinado, pois uma dada imagem visual seria representada por uma imagem exatamente idêntica. Cada elemento da representação teria exatamente as mesmas possibilidades do seu referente, uma vez que usaria uma gramática (visual), que possui a mesma forma e multiplicidade lógica daquilo que representa. Ela também (aparentemente) não seria hipotética, já que seria em sua superfície uma descrição completa e isomórfica do que significa, atendo-se apenas ao que foi efetivamente visto. Nesse caso, a totalidade das imagens sensoriais passadas seria representada quadro a quadro, através do recurso simbólico das figuras de gessos – em que cada imagem-sinal seria uma representação idêntica (do que foi realmente visto) e na mesma ordem que a ordem de paisagens da memória. Mas, logo na sequência do texto, indaga o autor: “[s]uponhamos então que eu leia novamente de ponta a ponta essa descrição, não é ela agora hipotética?”273 Por que razão essa
descrição de todas as impressões sensoriais, que as reproduzem da maneira mais fiel possível, revelar-se-ia ao fim hipotética? E por que isso ficaria evidente no momento da releitura?
De acordo com a interpretação de Ferraz Neto, o ponto nevrálgico da redução ao absurdo do projeto de construção da linguagem fenomenológica localiza-se no fato de que “[o] quadro [que descreve certa paisagem passada], por si mesmo, é incapaz de
273 MS 105, p. 110. PB, §67c. (“Nehmen wir aber an, ich läse die Beschreibung dann wieder durch, ist sie
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indicar sua destinação”.274 Como ele afirma, “frente a um único ‘quadro’ (...) não há nada nele (...) que me indique como interpretá-lo”.275 Em termos temporais, isso seria dizer que frente a uma representação (mesmo que seja completamente perspícua ao representado) não saberíamos determinar, a partir da imagem (da representação) tão somente, qual momento da ordem do tempo da memória essa representação representa. Em resumo, segundo Ferraz Neto, o problema é que a destinação temporal “(...) não pode ser depreendida da inspeção da imagem”, e é essa insuficiência da imagem-sinal para especificar qual paisagem passada ela representa que mancharia o caráter fenomenológico dessa linguagem.276
Segundo Ferraz Neto, no momento em que a linguagem fenomenológica foi escrita (antes de sua releitura), a simultaneidade entre a imagem e a paisagem rememorada (que ela representa) deixava velada o “(...) caráter perfeitamente arbitrário dessa escolha”.277 Esse caráter arbitrário da correlação entre uma dada imagem e uma
paisagem teria um papel central na constatação da impossibilidade da linguagem fenomenológica. Em um primeiro momento, a determinação da forma temporal da representação parece ser garantida pela ordem dessas representações. O fato de que um determinado quadro antecede um outro descreveria a ordem temporal das paisagens representadas (que seria a ordem da memória). Assim, a ordem das representações seria a ordem do tempo. Isso, por sua vez, parecia mostrar a possibilidade temporal de uma linguagem que se atenha ao tempo da memória. Mas, segundo Ferraz Neto, a “(...) inserção ‘temporal’ [do quadro na ordem das representações] é também incapaz de nos dar essa especificação”, pois a ordem temporal da representação não passa de “uma série de correlações arbitrárias”.278 O resultado final, de tom bergsoniano, é que em uma linguagem fenomenológica: “(...) não tenho uma figuração de uma série, mas uma série de figurações, pois o que devia dar unidade à figuração é um traço que não pode ser figurado”.279
De acordo com esse raciocínio, o problema que reduz ao absurdo a linguagem fenomenológica é o de que um determinado ato de arbítrio, que institui uma imagem como representação de uma paisagem passada, ocorre em uma perspectiva temporal,
274 Ferraz Neto, 2003, p. 90.
275 Ferraz Neto, 2003, p. 94. (Grifo do autor). 276 Cf. Ferraz Neto, 2003, p. 90.
277 Ferraz Neto, 2003, pp. 95-96.
278 Ferraz Neto, 2003, p. 96. (Grifos do autor). 279 Ferraz Neto, 2003, p. 98.
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que é independente da perspectiva do outro ato. Na instituição de uma imagem presente como representação de certa paisagem passada, é acrescida à imagem a sua determinação temporal, mas, como afirma Ferraz Neto, “(...) no momento em que eu passo à imagem seguinte, a imagem anterior deixa de ser uma imagem, uma figuração, exatamente porque ‘deixa de ser’ em sentido estrito”.280 Desse modo, não há uma unidade na série de representações, pois cada ato de arbítrio desaparece tão logo é instituído e a imagem-sinal, que foi utilizada para representar o passado através desse ato de arbítrio, não traz em si a representação dessa determinação arbitrária. Mas, mais do que isso, essa determinação seria algo que não pode ser representado pela imagem sem com isso inserir um elemento hipotético na representação (como veremos a seguir).
Uma pergunta que esse viés interpretativo parece suscitar é: uma vez que minha memória é colossal, o que me impede de lembrar também, não só as imagens visuais passadas, mas as correlações entre cada representação e as imagens visuais da série passada?281 Segundo Ferraz Neto: “[o] que se pode lembrar, isto é, situar no passado, é
o acontecimento, talvez psicológico, dos sinais, mas não o ‘acontecimento lógico’ da interpretação desses sinais”.282 O “acontecimento lógico”, que institui o sinal como
símbolo, é um ato intencional, que na rememoração correlaciona arbitrariamente uma imagem como representação de uma paisagem passada. Porém, lembrar o “acontecimento lógico” seria apenas novamente instituí-lo, porém, com um outro sinal. O novo ato de arbítrio ocorrerá outra vez em uma perspectiva temporal que é independente do ato anterior e, ao passar à outra imagem da série de representações, essa primeira imagem deixaria de ser uma figuração. Assim (como já citado), na suposta linguagem fenomenológica, “[o] resultado não é a correlação de duas séries, mas uma série de correlações”.283
Além de oferecer uma minuciosa análise das páginas 108 e 110 do MS 105 (que nas PB formam a base dos parágrafos 67 e 68), o modo como Ferraz Neto aborda as consequências positivas do fracasso da linguagem fenomenológica o permite oferecer uma interessante chave de leitura para compreender em que sentido a linguagem seria
280 Ferraz Neto, 2003, p. 98.
281 Hintikka estaria inclinado a levantar esse tipo de indagação: “[c]omo em Descartes, Wittgenstein não
acreditava implicitamente no testemunho da memória, que no caso de Wittgenstein inclui re-identificação dos objetos físicos por meio da memória e de modo mais geral memórias das comparações passadas entre linguagem e mundo” (1996, p. 264) (grifos meus). Se a minha memória é colossal, por que não poderia lembrar-me das comparações passadas entre linguagem e mundo?
282 Ferraz Neto, 2003, p. 92. 283 Ferraz Neto, 2003, p. 96.
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essencialmente fisicalista. Após o exemplo do que seria a linguagem mais fenomenológica possível, Wittgenstein conclui que “[q]uando eu descrevo uma linguagem, eu descrevo algo essencialmente físico”284. A chave de leitura se encontraria na sequência. Afirma Wittgenstein, na página seguinte do manuscrito: “[o] que nós compreendemos pela palavra ‘linguagem’ flui no tempo homogêneo da física”.285 Embora o termo “homogêneo” esteja grafado no manuscrito de forma enviesada (como um adendo ao texto anteriormente escrito), e Rush Rhees (editor das PB) o tenha eliminado da versão final que aparece nas PB §69d, será a compreensão do porquê a linguagem necessita que o tempo seja homogêneo que lançará luz sobre o sentido de seu caráter hipotético/fisicalista.
Segundo Ferraz Neto, a correlação das duas séries (dos quadros e das paisagens