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A análise do discurso é um método que tem origem transdisciplinar e é, portanto, heterogênea. Rueda (s/data, p. 13) define três tradições de análise do discurso: a lingüística (Escola de Oxford), a ligada a Michel Foucault e a Escola Francesa. Neste trabalho, nos alinhamos à última.

A Escola Francesa de Análise do discurso surgiu na década de 1960 e recebeu influências do estruturalismo, lingüística, marxismo e psicanálise. Seu objetivo era constituir uma abordagem discursiva dos processos ideológicos (MAINGUENEAU, 1993). Para a Escola Francesa, os discursos são enunciados a partir de uma posição determinada, estão inscritos num contexto interdiscursivo específico, revelam condições históricas, sociais e intelectuais e implicam crenças e convicções compartilhadas (RUEDA, s/data).

Para Maingueneau (1993), toda produção de linguagem, seja ela falada ou escrita, pode ser considerada discurso. O autor define discurso como sendo a linguagem na medida em que ela faz sentido para os sujeitos que participam da interlocução, sendo que eles estão inscritos em certas posições sociais e conjunturas históricas. A noção de formação discursiva proposta por Maingueneau fica clara nas palavras de Afonso (2001, p. 89):

(…) o termo ‘formações discursivas’, caracterizando os corpus das enunciações que foram produzidas a partir de determinada posição sócio- histórica onde os falantes individuais são substituíveis e que podem ser relacionadas a um quadro institucional que delimita a enunciação a conflitos sociais e históricos cristalizados, e a um espaço próprio no exterior de um interdiscurso limitado.

Segundo Afonso (2001, p. 91): “(…) o discurso implica não apenas (ou necessariamente) uma transmissão de informação entre dois sujeitos, mas de modo geral, um ‘efeito de sentidos’ entre eles”. O discurso é produzido na relação, é um jogo estratégico de ação e reação, de dominação e esquiva, de luta, é o espaço no qual emergem os sentidos. O sentido é produzido na relação entre a fala da pessoa e as condições de produção do discurso. Chamamos a isto de “interdiscurso”.

Brandão (2002, p. 12) entende o discurso como “o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos lingüísticos”, que, portanto, não serve apenas para comunicação:

social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso é o lugar privilegiado de manifestação da ideologia”.(BRANDAO, 2002, p. 12).

Para entendermos o argumento de Brandão (2002), é necessário refletirmos sobre a noção de sujeito na qual ela se apóia. Após uma extensa revisão sobre a noção de sujeito, a autora afirma que o sujeito para a análise do discurso não é:

(…) nem totalmente livre, nem totalmente assujeitado, movendo-se entre o espaço discursivo do Um e do Outro: entre a ‘incompletude’ e o ‘desejo de ser completo’; entre a ‘dispersão do sujeito’ e a ‘vocação totalizante’ do locutor em busca da unidade e coerência textuais; entre o caráter polifônico da linguagem e a estratégia monofanizante de um locutor marcado pela ilusão do sujeito como fonte, origem de sentido. (BRANDÃO, 2002, p. 68). Como o sujeito é constituído na relação com o outro, a alteridade torna-se um conceito fundamental também para a análise do discurso, além de ser, como vimos, um elemento central para uma compreensão psicossocial da cidadania: “(…) sujeito se constrói na alteridade, construindo o sentido das proposições na interação dos atores sociais, a partir de suas posições sociais”. (AFONSO, 2001, p. 89).

Desse modo, o discurso do outro está sempre presente no discurso do sujeito, ou seja, o discurso é polifônico. Havendo a “(…) presença de muitas vozes na fala do indivíduo ou, ainda, das muitas posições ocupadas por um indivíduo no interior de sua fala, vem confirmar o descentramento e a polimorfia desse sujeito” (AFONSO, mimeo, s/data).

A citada polifonia demonstra que o sujeito é construído na alteridade e que está inserido em relações de poder. O dialogismo é uma condição para a produção de sentido e, com base nessa idéia, podemos compreender a teoria da polifonia: “O discurso se tece polifonicamente, num jogo de várias vozes cruzadas, complementares, concorrentes, contraditórias” (BRANDÃO, 2002, p. 53).

Para a análise do discurso, o que importa é o espaço discursivo criado entre eu e tu, e é neste espaço de interação que o sujeito se constitui. Nem o sujeito, nem o sentido são dados a priori, mas são constituídos no discurso. E o discurso não pode ser apreendido diretamente; é preciso analisá-lo dentro de um espaço discursivo41e de um contexto sócio-histórico:

O discurso ou formação discursiva opera em um conjunto que engloba, sucessivamente, o universo discursivo, o campo discursivo e o espaço

41 “Espaços discursivos: são recortes discursivos que o analista isola no interior de um campo

discursivo. O universo discursivo é o conjunto de discursos que interagem numa dada conjuntura. Nele, por sua vez, podem ser recortados campos discursivos, que são conjuntos de discursos que se encontram em concorrência, se delimitam reciprocamente (como um campo filosófico, político, etc). Como os conceitos de ‘universo ’e ‘campo ’são muito amplos, a análise se pauta por um outro recorte: o do ‘espaço discursivo’, que é um subconjunto ligando, pelo menos, dois discursos que mantêm entre si alguma relação. (AFONSO, 2001, p. 90).

Estando claro o que entendemos por discurso, voltamo-nos para a análise do discurso (AD)42, procedimento de análise de informações e dados que pretende:

(…) construir procedimentos que exponham o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégica de um sujeito (...). O desafio crucial é o de construir interpretações, sem jamais neutralizá-las, seja através de uma minúcia qualquer de um discurso sobre o discurso, seja no espaço lógico estabilizado com pretensão universal. (MAINGUENEAU, 1993, p. 11)43 Brandão (2002, p. 40) define assim a função da análise do discurso:

Cabe à AD trabalhar seu objeto (o discurso) inscrevendo-o na relação da língua com a história, buscando na materialidade lingüística as marcas das contradições ideológicas. (…) Analisar o discurso é descrever os sistemas de dispersão dos enunciados que o compõe através das suas ‘regras de formação’ ”.

Como dissemos anteriormente, o discurso é polifônico, é interdiscursivo, e temos que identificar a heterogeneidade implícita e buscar as outras vozes presentes nele. Para esse fim, temos que procurar, por exemplo, os paradoxos (duas afirmações diferentes que são igualmente verdadeiras), as contradições (duas falas opostas sobre o mesmo objeto) e as ambivalências (dois valores diferentes sobre a mesma coisa).

Sempre que vamos analisar um discurso, é fundamental termos clara a noção de “interdiscurso”, a idéia de que o discurso é relativo às condições de produção. Desse modo, poderemos apreender o movimento do discurso, que não é estático, ao contrário, trata-se de um processo, uma estratégia.

Assim sendo, o discurso tem com mérito uma capacidade emancipatória, possibilitando aos sujeitos tornarem-se “(…) mais conscientes das coerções sobre sua prática, e das possibilidades, dos riscos e dos custos do desafio individual ou coletivo dessas coerções, para se engajarem em uma prática lingüística emancipatória” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 292). Entendemos, portanto, que a análise

42 Roteiro para análise do discurso anexo.

43 Nessa passagem Maingueneau faz referência a PECHEUX, Michel. Sur les contextes

épistémologiques de l’analyse du discours. Mots. Presses de la Fondation Nationale de Sciences Politiques 9/10/1984.

do discurso é um instrumento que contribui de modo relevante para a compreensão dos sentidos de cidadania. A análise das formações discursivas das entrevistadas, empreendida no próximo capítulo, nos possibilita perceber as relações entre contexto e subjetividade na sua fala, além de poder, em última instância, abrir caminhos para a emancipação e para a construção de uma nova cidadania.

5 TORNAR-SE FEMINISTA

Nesta pesquisa, entrevistamos seis mulheres que têm experiência de militância junto a movimentos de mulheres e/ou são gestoras de programas voltados para mulheres em situação de violência de gênero, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (MG). Estes programas são: a Coordenadoria Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), Benvinda - Centro de Apoio a Mulher e Casa Abrigo Sempre Viva (CASV)44.

Utilizamos, como instrumento para a obtenção de dados, entrevistas abertas semi-estruturadas45. A entrevista é um instrumento tradicional de coleta de dados em ciências humanas e sociais. Nós nos alinhamos à perspectiva que define a entrevista como “(…) uma interação verbal que permite a obtenção do discurso de sujeitos determinados sócio-historicamente” (MACHADO, 2002, p. 35). O mesmo autor concluiu que:

(…) o discurso produzido na situação de entrevista é realmente co- construído pelos interlocutores e que as posições enunciativas de cada um relacionam-se às comunidades discursivas a que pertencem e às insígnias que aí circulam. (MACHADO, 2002, p. 13)

Embora o discurso seja co-construído, é necessário que o pesquisador interfira pouco e de modo não diretivo durante a entrevista, pois o entrevistado é seu sujeito central: “Neste enfoque, cada sujeito é tratado como único, central, porta-voz de uma determinada formação sócio-histórica” (MACHADO, 2002, p. 48).

A entrevista aberta semi-estruturada permite “(…) a busca da apreensão de processos, funcionamentos, fenômenos sócio-historicamente situados” (MACHADO, 2002, p. 51), em última instância, permite chegar ao que a linguagem revela, ao discurso que emerge de uma situação intersubjetiva.

Como a entrevista é uma interação intersubjetiva, o pesquisador está implicado tanto no discurso produzido pela entrevista quanto em sua análise (MACHADO, 2002).

Assim, entendemos que, por uma questão ética, a análise do papel do pesquisador deve ser parte da pesquisa.

Realizamos as entrevistas no período de julho a setembro de 2004. Todas

44 Os resultados da pesquisa serão repassados, numa apresentação pública, para a comunidade e

para as pessoas que trabalham nessas instituições.

foram previamente agendadas e duraram em média 90 minutos, tendo sido gravadas em áudio-teipe, com autorização das entrevistadas, e transcritas literalmente, a fim de possibilitar a realização da análise do discurso.

A seguir, apresentaremos cada uma de nossas entrevistadas:

Daniele, 33 anos, separada, um filho, formada em psicologia, com pós- graduação em gerenciamento de assistência social. É concursada da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) como analista de políticas públicas e atualmente é a gerente da CASV.

Ermelinda, 34 anos, solteira, não tem filhos, formada em pedagogia. Atualmente, é gerente do Benvinda e, anteriormente, foi gerente da CASV.

Graça, 42 anos, “solteira, né, Carol! (risos) mentira, gente, (risos) amasiada”, dois filhos, cursou o segundo grau completo. Ocupação atual: “uai, eu to desempregada, candidata a vereadora. Ocha”. No momento da entrevista, era candidata à vereadora; antes de candidatar-se, era gerente do Benvinda.

Karin, 56 anos, divorciada, dois filhos, formada em psicologia, com doutorado em psicologia social. É professora aposentada na UFMG e presta consultoria à COMDIM, ao Benvinda e à CASV.

Luzia, 52 anos, divorciada, uma filha, formada em biologia. Era candidata à vereadora no momento da entrevista e, antes, “era gestora pública, né, eu era secretária da prefeitura de Belo Horizonte e me descompatibilizei no dia 2 de abril pra ser candidata à vereadora”.

Márcia, 43 anos, solteira “no papel, casada... na vida”, dois filhos, formada em história. Márcia é a coordenadora da COMDIM, mas, quando foi entrevistada, estava de licença à maternidade.

Cada entrevistada foi escolhida por nós por ser militante no movimento de mulheres em Belo Horizonte e/ou fazer parte da coordenação de algum dos programas municipais voltados para mulheres em situação de violência de gênero. Essa escolha justifica-se pelo fato de que, no caso de Belo Horizonte, há uma estreita relação entre o movimento de mulheres e o governo municipal. Parte das mulheres do movimento feminista foi levada a ingressar no governo, principalmente após a posse de Patrus Ananias (PT) como prefeito municipal em 1993. Esse é o caso de Márcia, Graça, Luzia e Ermelinda, por exemplo. Outras feministas são ligadas à universidade, como Karin, ou a ONGs. As trajetórias dessas mulheres são interligadas à trajetória do próprio movimento de mulheres na cidade. Assim, os

sentidos de cidadania produzidos por elas são conseqüências dessas histórias e têm impactos no cotidiano das políticas públicas nas quais elas trabalham.

Analisamos as entrevistas através da análise do discurso, apresentada no quarto capítulo desta dissertação. Iniciamos a análise com leituras flutuantes das entrevistas transcritas46, a partir daí, levantamos as principais categorias e

subcategorias. O procedimento de análise passa pela análise de cada caso, pela

comparação intragrupos e, finalmente, pela análise transversal do material.

Passaremos, agora, à análise das entrevistas, iniciando pela história contada pelas entrevistadas sobre a trajetória do movimento de mulheres em Belo Horizonte.