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Almeida Júnior e Queda (2003) afirmam que no Brasil a pesquisa sobre o trote ainda é pequena, mas consideram que no exterior há muitas publicações sobre o assunto. Eles problematizam que, apesar da boa vontade de muitos indivíduos que idealizam campanhas alternativas aos trotes, como os culturais, ecológicos, sociais, tais iniciativas não contribuem para a eliminação do trote. Ao contrário, em determinados casos, essas atividades servem para desvio da atenção dos problemas decorrentes dos trotes.

Quando os profissionais que atuam em escolas de nível médio e tecnológico, promovem atividades como campanhas assistenciais, esportivas, culturais ou ecológicas em lugar do trote violento, fomentam uma alternativa especialmente diferenciada e louvável para recepcionar os novos alunos. Contudo, para que os trotes praticados com violência sejam realmente abolidos em uma escola, faz-se necessário conhecer profundamente a natureza dos tipos de campanhas apontadas anteriormente, de maneira que estas não sirvam simplesmente para encobrir a existência dos trotes. Além disso, contrariamente à cultura trotista, é preciso cultivar uma nova cultura, com maior sensibilidade. Isto não é pouca coisa. Modificar uma história institucional não é um processo rápido.

Acerca do trote que matou o estudante de Medicina da USP de São Paulo, Edison Tsung-Chi, em 1999, Almeida Júnior e Queda (2006) advertiram que campanhas artísticas sobre trote que ocorreram após a morte deste universitário não foram incisivas no tocante à proibição da prática trotista naquela universidade. Considera-se que as atividades de trote realizadas pelos colegas de Edison resultaram em sua morte e que aquela universidade não se posicionou prontamente a punir os alunos e a assumir a corresponsabilidade no caso. Lamentável pensar que pessoas ligadas à divulgação de campanhas coibitivas de violência ainda não percebam a gravidade do trote acadêmico.

Intrigante saber que, diante da possibilidade de a universidade e de os alunos serem investigados e punidos, houve questionamentos por parte da mãe de um dos trotistas sobre a conduta ética do aluno vítima da violência. Salienta-se que este aluno teve como consequência do trote a perda de sua vida no momento de ingresso na universidade, quando esta deveria estar apenas começando (ALMEIDA JÚNIOR;QUEDA, 2006).

O “trote cidadão” não funciona como forma de evitar a violência. O “trote cidadão” é uma contradição em termos, pois nada ligado ao trote pode ter o caráter cidadão. A população não tem clareza em relação aos fatos relacionados ao trote. Isto deve-se, em grande parte, à cobertura deficiente feita pela mídia, ou ao apoio dado ao que a direção da Universidade faz (...). (ALMEIDA JÚNIOR; QUEDA, 2006, p. 58-59).

Fica evidente que o trote não se coaduna com cidadania, uma vez que cidadania é uma questão bem mais complexa do que a realização de meras atividades aplicadas pelos trotistas aos ingressantes. Exige tempo e continuidade para ser formada. Em determinadas situações, os trotes cidadãos servem para que alunos que são proibidos de realizarem os trotes violentos dentro da universidade ou escola possam praticá-los fora desta, como nos churrascos de confraternização. Servem também para atividades comerciais realizadas pelos representantes dos diretórios acadêmicos de cursos. Nestes casos, os beneficiados pelas atividades são os alunos trotistas, que usam do trote para arrecadarem dinheiro para formaturas, para se divertirem com bebidas, ao mesmo tempo em que continuam a dar o tradicional trote nos ingressantes (ALMEIDA JÚNIOR; QUEDA, 2006; ALMEIDA JÚNIOR, 2011; ZUIN; SILVA, 2012).

Vasconcelos (1993), em seu trabalho sobre o escárnio do trote, faz crítica somente aos trotes tradicionais, que incluem as práticas de flagelo como corte de cabelos, indução ingressante ao consumo de bebidas alcoólicas, pinturas do corpo com diversas substâncias químicas e tintas. Isenta os trotes culturais, ecológicos e outras formas criativas de recepção de ingressantes dessa crítica.

Como visto até aqui, até mesmo os trotes alternativos podem levar simplesmente à ocultação ou manutenção dos trotes violentos pelos estudantes e instituição. O intuito aqui não é generalizar, no sentido de afirmar que todas as atividades de cunho social, cultural, ecológico, ou de outra ordem sejam formas negativas de receber os ingressantes. Entretanto, há poucas pesquisas que mostram que tais ações tenham sido propostas até hoje de modo satisfatório para os novos alunos.

Observa-se que até mesmo nos programas de instituições de combate ao trote tradicional no Brasil, como o Programa Trote da Cidadania18, da Fundação Educar Dpaschoal, há muitas características dos trotes violentos, como o emprego das palavras

18 O Trote da Cidadania é uma proposta de uma fundação educacional ligada à Unicamp (Campinas, SP) que faz a premiação de formas de recepções consideradas mais adequadas que os tradicionais trotes aos alunos ingressantes, realizados por escolas e universidades. A campanha é realizada anualmente e já recebeu a participação de muitas instituições educacionais brasileiras bem-conceituadas.

“trote” e “bixo”, nas dinâmicas aplicadas. De fato, o desconhecimento sobre os fundamentos do trote é muito notório. A ambiguidade presente nas campanhas de combate ao trote que se dizem cidadãs é significativa.

No campo da prática educacional, entretanto, é comum que as universidades e escolas de nível médio ou técnico apresentem atividades culturais, sociais, assistenciais, durante a recepção de alunos, como se estivesse, dessa maneira, combatendo radicalmente o trote. Na análise do princípio da prática dos trotes alternativos, vê-se que a proposta não se desvencilha da cultura de subestimação dos alunos ingressantes, uma vez que estes são submetidos (tal como no trote tradicional) às provas recreativas ou culturais, ou às atividades como a doação de sangue, roupas ou alimentos.

Na dissertação de mestrado de Colloca (2003), foram pesquisados aspectos muito interessantes a respeito do trote tradicional e do trote solidário em cursos da UFSCar. Esta autora defende que o trote apresenta-se como reflexo da sociedade do espetáculo. Assim, a sociedade, que possui as condições modernas de produção, em que a indústria cultural impera, apresenta-se como uma grande acumulação de espetáculos. Nesse contexto, o trote universitário se inscreve, pois, na medida em que entrar na universidade pública - e aqui se inclui também a aprovação em cursos de nível tecnológico - possui um reconhecimento social, ostentar esse sucesso por meio das atividades que o trote exige leva os indivíduos a aparecerem socialmente. Portanto, pintar o rosto, sujar o corpo, fazer pedágio e aceitar sutis agressões físicas, não é somente consentido pelos ingressantes, como até desejado. A ambivalência de sentimentos de ódio pela humilhação sofrida durante os trotes e a vontade de ser aprovado pela sociedade pesa a favor da legitimação da violência por estudantes, professores e pela comunidade externa à escola. Ser vítima da violência do trote tradicional transforma-se em processo banal. Banal aqui no sentido Arendtiano. Banalidade não significa algo sem importância, tampouco algo que possa ser assumido como normal. Banal não pressupõe algo que seja comum, mas algo que está ocupando o espaço do que é comum. Um ato mau tornar-se banal não por ser comum, mas por ser vivenciado como se fosse algo comum. (Andrade, 2010)

Colloca (2003) investigou as expectativas e opiniões dos ingressantes e trotistas sobre os trotes solidários. O trote solidário consistiu na arrecadação e distribuição de roupas usadas para pessoas carentes da população de São Carlos. Nesta pesquisa, os ingressantes afirmaram certa insatisfação com o trote, pois foram obrigados a participar

em vez de poderem escolher outra atividade, como a doação de sangue. Mas, um aspecto positivo assinalado pelos ingressantes foi a integração promovida entre ingressantes e trotistas.

Em questionários aplicados aos ingressantes, a maioria respondeu não ter participado desta atividade. Quando indagados sobre os motivos pelos quais não participaram do trote solidário, os participantes da pesquisa alegaram razões irrelevantes, como viagem para outra cidade, chuva e outros compromissos (o que não os impediriam de participarem dos trotes tradicionais). Apenas duas alunas responderam que participariam espontaneamente dessa atividade solidária, somente 26% dos entrevistados afirmaram que deveria haver a substituição das atividades tradicionais, pelos trotes solidários. O elemento mais relevante sobre os resultados deste estudo foi o fato de que, para os alunos ingressantes, participar do trote solidário não traria o reconhecimento que a participação nas atividades tradicionais ofertava (COLLOCA, 2003).

Acredita-se que não há como substituir os trotes violentos por alternativa mais humana. Sugere-se a abolição tanto dos trotes tradicionais, quanto das práticas alternativas ao trote violento, uma vez que ambas as práticas contêm em si uma concepção errônea do ingressante e das relações entre alunos e instituição de ensino, pautadas na concepção de superioridade do aluno veterano.

3. 2 Relações entre contexto universitário e militar

Estudou-se, para fins desta seção, o livro de Celso Castro (2004) sobre o “espírito militar”. Nesse trabalho, foi investigada a identidade e a socialização de militares da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras). Este livro constitui um estudo pioneiro sobre a instituição militar. Dentre os aspectos relacionados a esse estudo, o trote entre cadetes foi abordado.

Outro estudo (SVARTMAN, 2012), também possibilitou a identificação de elementos comuns entre o trote nos contextos militar e universitário. Observou-se também que há diferenças importantes entre os dois contextos.

Dentro das Escolas Militares, segundo Castro (2004) e Svartman (2012), existe para o cadete do 1º ano um período de adaptação. Este é um processo em que o novo membro se submete a exercícios físicos ordenados em sequência rápida, sem fins claros e com grande pressão. Na realidade, o objetivo é selecionar os não aptos para que saiam da Academia. Além da pressão física, ocorre também pressão psicológica, pois o cadete

não pode apresentar o menor erro: um sapato ou fivela que não esteja impecável está sujeito a críticas.

Apesar de trotes serem proibidos terminantemente nos regulamentos das instituições militares, noticiários de TV e internet dão a informação de que muitos trotes acontecem neste período (CASTRO, 2004).

De acordo com uma notícia divulgada no Jornal Nacional, em 19 de janeiro de 2011, doze alunos passaram mal, depois de exercícios longos ocorridos no período de adaptação:

Segundo a Marinha, foi por causa dos exercícios físicos que eles passaram tão mal e tiveram que ser hospitalizados. Alguns parentes denunciam que a violência dos treinamentos seria um tipo de trote. Doze alunos da Escola Naval, no Rio de Janeiro, foram hospitalizados depois da primeira semana de aula. Um está no CTI. As famílias dizem que eles foram submetidos a exercícios físicos exagerados. A Marinha nega, mas abriu investigação. As primeiras semanas do ano são para o que a Marinha chama de estágio de adaptação à vida militar, mas dos 231 alunos da Escola Naval, 12 baixaram no hospital. Os jovens têm entre 18 e 21 anos e fazem parte da turma recém-aprovada na Escola Naval, que forma os oficiais da Marinha brasileira. Nesse período, eles fazem exercícios físicos. Segundo garante a Marinha, foi isto que fez com que 12 passaram tão mal, que tiveram que ser hospitalizados. Na primeira semana, três tiveram vômitos e dores abdominais. Depois, mais nove também passaram mal. Onze estudantes estão desde segunda-feira (17) no Hospital Naval. As famílias informaram que dois deles precisaram ser submetidos à diálise por insuficiência renal. Outro foi levado pelos pais para um hospital particular e está internado no centro de terapia intensiva, também com problemas renais.

Os familiares esclareceram que os alunos tiveram que ser hospitalizados após serem obrigados a correr debaixo do sol, com mochila nas costas e impedidos de tomar água. Depreende-se da leitura do texto acima, que a instituição militar negou a hipótese de trote pelas autoridades.

Não é de agora que exercícios físicos extenuantes caracterizam o primeiro período de vida dos alunos de escolas militares. Desde Castelo Branco em 1920, já se tem notícias de que atividades físicas desumanas levaram este militar, quando ingressante, à enfermaria (SVARTMAN, 2012).

Apesar do intenso sofrimento de indivíduos nas instituições militares, o que será que mantém essa instituição integrada na sociedade? O que mantém a massa de soldados unida? Tais questões serão discutas mais adiante.

Há uma hierarquia quantitativa no ambiente militar entre cadetes e oficiais, em que existe a distinção entre “líder” e “chefe”. Com o líder, o cadete chega a criar até uma relação de confiança, baseada na individualidade do líder militar; com o chefe, a relação do cadete é baseada somente na posição e em normas objetivas. O “líder” mantém com os subordinados uma relação de prestígio, por sua característica mais humana; o “chefe” fundamenta sua relação com os cadetes na autoridade. “É atribuída ao “líder” uma valoração superior do que ao chefe” (CASTRO, 2004, p. 28).

Podem existir relações de estima entre cadetes e oficiais, mas isto não vale para os cadetes do 1º ano. No Colégio Naval, os recém-chegados são chamados de “ingressantes” (CASTRO, 2004).

Na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), há formas de denominar informalmente os cadetes dos quatro anos do curso que não são utilizadas somente por eles, mas também pelos oficiais. O cadete do 1º e do 2º ano são denominados “ingressantes”, o do 3º ano “afim” e no 4º ano passa a ser chamado de “aspirante”. Será com os aspirantes que os ingressantes ficarão maior tempo, seja formalmente, pelo fato de os ingressantes auxiliarem nos pelotões e, informalmente, por meio dos trotes (CASTRO, 2004).

Neste sentido, pode-se perceber semelhança entre os contextos universitário e militar, ou seja, a ocorrência dos trotes nos primeiros meses de atividades das instituições. Entretanto, a grafia do nome “ingressante” nas escolas militares não é distorcida, como ocorre no meio universitário (com a mudança da palavra “ingressante” para “bixo”).

De acordo com Castro (2004), hierarquicamente, somente os aspirantes podem aplicar trotes nos ingressantes. O aluno do 3º ano pode (eventualmente) fazer o do 1º ano pagar trote, por estar hierarquicamente próximo ao do 4º ano. Mas apenas os iniciantes podem receber trotes, os ingressantes do 2º ano e os afins, via de regra, não dão nem recebem trotes. Há uma convenção de que os ingressantes tratem sempre os cadetes de outros anos de “senhor”.

Os cadetes ao se referirem ao trote, costumam distingui-lo da brincadeira devido ao caráter delicado do assunto, embora não se note grande diferença entre eles. Os cadetes se referiram ao trote como algo tido como “‘mais pesado’, humilhante, dramático e

desintegrador, enquanto a brincadeira seria ‘mais leve’, cômica ou inofensiva e integradora” (CASTRO, 2004, p. 30).

No que se refere às relações entre trote e brincadeira, aparentemente não há muitas diferenças entre o contexto militar e o universitário. Nuances do trote nas escolas militares quanto a este aspecto serão abordadas posteriormente.

Apesar da proibição firme do trote nos regulamentos da Marinha, com aplicação passível de punições disciplinares, oficiais têm conhecimento da dinâmica trotista e não tentam aboli-la, preocupam-se somente em conter excessos (CASTRO, 2004).

Interessante tentar entender o que tais oficiais chamam de excessos, quando tudo o que se relaciona ao universo do trote parece violentamente abusivo. Acredita-se convictamente que as autoridades da instituição na qual os alunos foram hospitalizados sabiam da existência do trote, mas não admitiram tal situação publicamente, a fim de não exporem a imagem da Escola Naval, entidade de alta reputação nacional.

Castro (2004) entrevistou diversos oficiais que consideraram o trote de forma positiva, necessária e salutar. Entretanto, existe um acordo informal entre cadetes do 4º ano e oficiais para que não haja exagero nos trotes e que não ocorram na presença dos oficiais, uma vez que esses formalmente negam a existência de tais dinâmicas, ainda que anteriormente tenham sido ingressantes. Por conta disso, os trotes neste ambiente se sucedem em surdina, à noite ou nos finais de semana. De forma semelhante ao contexto universitário, a proibição dos trotes no contexto militar é falha, sendo que autoridades de ambas as instituições se omitem quanto a coibirem de forma eficaz os atos trotistas. Entretanto, enquanto na escola militar há regulamentação proibitiva formal, na universidade existe somente em algumas regiões do Brasil, como no Estado de São Paulo.

Quanto aos tipos de trotes existentes nas escolas militares, há os trotes do Curso Básico e os após o 1º ano, quando os cadetes vão para as Armas. No 1º ano, os trotes que mais ocorrem são a prestação de tarefas consideradas culturalmente inferiores, como fazer limpeza no quarto, passar o uniforme do colega, engraxar coturno, limpar fivela do cinto. Outras tarefas consistem em ler jornal, livro em voz alta para o aspirante, contar histórias pra fazê-lo dormir, etc. Há os trotes com efeito cômico que obriga os ingressantes a representarem personagens do reino animal, como borboleta, galinha, barata, com performance, ou seja, os ingressantes devem abanar as asas, cacarejar, etc. (CASTRO, 2004).

Também há os trotes “físicos”, como as “pagações”, em que os alunos executam exercícios até exaustão como ficar na ponta dos pés até perder o controle das pernas,

contar piadas até a estátua rir, imitar uma bailarina dançando ou rebolar como a Gretchen. E mais: contar em público experiências sexuais, tomar o “coquetel Molovot” (mistura feita por um aspirante com os ingredientes da refeição) e imitar o “Poltergeist”. Nesse, o ingressante é colocado sobre a mesa e instruído a simular o fenômeno, para isso fica balançando a mesa e derrubando os objetos. No trote pára-quedista- o ingressante salta do “avião” (uma mesa) imitando o ronco do motor (CASTRO, 2004).

Observam-se elementos muito próximos entre o trote universitário e o militar, especificamente no que se refere ao teor sádico e sexual presente nas dinâmicas comentadas. Os tipos de trotes se aproximam no caráter das tarefas de submissão, de limpeza do ambiente e dos pertences dos cadetes. É possível compará-las ao trote universitário da empregada; ao “coquetel de Molovot”, assemelham-se também ao trote Bochechinha, utilizado na ESALQ- Piracicaba. Além disso, as “pagações” de exercícios físicos realizadas pelos alunos da Escola Naval são muito parecidas com os trotes da Chispada e do Canavial aplicados nas universidades. Nesses os alunos são levados para lugares distantes para serem molhados e realizarem atividades físicas exaustivas. À primeira vista, os trotes dos universitários sobre os ingressantes parecem réplicas dos aplicados pelos cadetes, de maneira que parece haver crueldade semelhante, nos ambientes universitários e militares.

Uma questão crucial para entender as diferenças entre o trote militar e dos demais é a função do primeiro, que busca submeter o cadete a uma prova de masculinidade, o que faz com que os ingressantes aceitem positivamente o trote. Se reagem ao trote, ou o denunciam, os iniciantes sofrem extrema pressão de seus pares. Eles sabem que a academia militar “é lugar pra homem, não para criança ou viadinho” (CASTRO, 2004, p. 32-3). De maneira que, para mostrar masculinidade, submetem-se às situações constrangedoras do trote.

Outras explicações para o trote na academia militar referem-se à tradição, na qual os cadetes aprendem o autocontrole, a resistência a situações limites ou até mesmo de pânico (CASTRO, 2004, SVARTMAN, 2012). Existe ainda a explicação pedagógica, ou seja, por meio do trote, os alunos aprendem a obedecer e a comandar.

É difícil compreender que os cadetes e oficiais só tenham encontrado o trote como maneira de realizar esse processo de integração e aprendizagem de papéis.

Por sua vez, as universidades são, ou deveriam ser, instituições de formação democrática, entretanto é no interior delas que o trote se apresenta como fenômeno psicológico e social de contornos bárbaros e de desumanidade.

No contexto militar, acredita-se que o trote é um rito de passagem, que compreende etapas cerimoniais em que há a passagem de uma situação a outra, de um mundo, seja ele cósmico ou social, a outro (CASTRO, 2004).

Assim, conforme Mattoso (1985), Almeida Júnior (2011) e Gennep (2011), o trote representa um rito em que o status do cadete é elevado ao de aspirante. Isto reforça a permanência do trote, que aglutina tais cerimônias de passagem de uma etapa a outra, etapas estas que são bem demarcadas, pois na escola militar a hierarquia entre cadete e aspirante é realmente clara e objetiva.

Vasconcelos (1993) comenta que a valoração que o aluno há mais tempo na universidade deseja, por sua condição, não difere em nada da valoração superior desejada pelo membro mais antigo dos quartéis, por terem mais tempo de estudo e de serviço. Assim, de acordo com a filosofia militar, respeitar o outro não é uma forma digna à individualidade dos seres humanos, talvez, nem todos sejam humanos o suficiente para serem respeitados.

Aliás, o trote nas universidades é muito semelhante ao que se faz com