1. Innledning
1.1 Forkortelser
fragmento explicativo para justificar o trote. Sua grande crítica aos teóricos que utilizam este viés explicativo é que eles tratam os elementos sádicos e masoquistas como individuais e deixam de considerar os aspectos coletivos e institucionais na prática dos trotes.
Para entender o papel da explicação do trote pelo viés do sadomasoquismo e buscar uma reflexão ampliada a respeito, são utilizados os conceitos de sadismo e masoquismo da teoria psicanalítica.
Freud (2011b) delimita o conceito de sadismo no contexto do desenvolvimento da libido, em que instintos parciais constituem de forma gradual organizações mais definidas. Tais instintos parciais estão relacionados a zonas erógenas específicas, porém todos os processos funcionais contribuem, de forma global, com a libido. O primeiro estágio de organização libidinal é o oral, em que a boca é o órgão de prazer, local de necessidade principal do indivíduo. O segundo estágio é o sádico-anal, em que se destaca
a área anal e o instinto sádico. É nesse momento que a diferença entre os sexos se dá pela oposição entre ativo e passivo. O terceiro estágio de organização libidinal e também conclusivo reúne a maioria dos instintos parciais sob a primazia das zonas genitais. Freud aponta que, geralmente, este processo evolutivo ocorre sem maiores dificuldades. Entretanto, alguns elementos dos instintos podem continuar em estágios anteriores ao último e originar fixações libidinais, que se verificam como predisposições para surgimento de futuras tendências reprimidas relacionadas com neuroses e perversões.
A teoria dos instintos foi um aspecto indispensável na construção da teoria psicanalítica, devido à oposição entre os instintos do Eu e os instintos dirigidos para o objeto. O papel do sadismo no pensamento freudiano é complexo e, grosso modo, relaciona-se com a presença de um acentuado o caráter agressivo na constituição psicológica do homem, como descreve Freud (2011a, p.62-63):
Assim, primeiramente se defrontaram instintos do Eu e instintos objetais. Para designar a energia destes, exclusivamente para ela, introduzi o nome de “libido”; com isso a oposição se dava entre os instintos do Eu e os instintos “libidinais” do amor no sentido lato, dirigidos para o objeto. É certo que um desses instintos objetais, o sádico, sobressaía pelo fato de sua meta não ser nada amorosa, e em vários pontos ele claramente se juntava aos instintos do eu, não podia esconder sua estreita afinidade com instintos de dominação sem propósito libidinal; mas essas discrepâncias foram superadas. O sadismo fazia claramente parte da vida sexual, o jogo da crueldade podia suceder ao da ternura. A neurose aparecia como o desfecho de uma luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido (...), que o Eu vencera, mas ao custo de severo sofrimento e renúncia (p. 62-63).
Endo (2005) abordou também a importância dos aspectos sexuais e não sexuais e a participação da pulsão de morte na constituição do processo sadomasoquista.
No contexto da instituição trotista, verifica-se os instintos do Eu e os instintos libidinais voltados para o exterior. No instinto sádico, observa-se a predominância da dominação, uma vez que o sadismo tanto pode cumprir uma função sexual quanto de mera destruição do objeto. Nesse sentido, os trotes cumprem, por meio do sadismo, uma função de dominação sobre o outro, o aluno ingressante, a fim de preservar o amor autodirigido do aluno trotista.
Por meio do sadismo, o instinto agressivo atua a serviço de Eros, do amor- próprio, de maneira que o amor a si mesmo e o instinto contra o outro são inseparáveis.
Nesse contexto, juntamente ao sadismo, surge também o masoquismo, como par antitético:
No sadismo, há muito conhecido como instinto parcial da sexualidade, teríamos uma fusão assim, particularmente forte, entre o impulso ao amor e o instinto de destruição, e na sua contraparte, o masoquismo, uma ligação da destrutividade dirigida para dentro com a sexualidade, o que faz visível e notável a tendência normalmente imperceptível. Reconheço que no sadismo e no masoquismo sempre vimos as manifestações, fortemente mescladas com o erotismo, do instinto de destruição voltado para fora e para dentro, mas já não entendo que pudéssemos ignorar a onipresença da agressividade e destrutividade não erótica, deixando de lhe conceder o devido lugar na interpretação da vida. (FREUD, 2011a, p. 64-65).
Nesse sentido, sadismo e masoquismo têm a dimensão sexual, mas se verifica o caráter não sexual em determinados momentos do conflito interno. Isto se percebe em muitos momentos na questão do trote que apresenta elementos eróticos, tais como tipos de apelidos com conotação sexual, além de dinâmicas com sadismo e masoquismo sexual evidente. Entretanto, outros tipos de trotes apresentam com maior ênfase elementos agressivos não-eróticos, como a presença de agressão física ou psicológica contra o ingressante.
Almeida Júnior (2011) ao analisar publicações médicas sobre o sadismo sexual, observou que as conceituações relacionadas ao sadismo acentuam as causas orgânicas e psicológicas e concluiu que, para além das classificações médicas, os manuais de psiquiatria não servem para uma abordagem mais ampla sobre o sadismo.
Embora critique muitos trabalhos publicados por psicanalistas a respeito do sadismo e masoquismo, devido à imprecisão, banalização ou sacralização dos aspectos da violência do trote presente nos seus elementos sadomasoquistas, Almeida Júnior (2011) admite que há exceções. Entre os autores que ele considera possuírem uma visão psicanalítica mais progressista em relação ao trote estão os frankfurtianos.
Com relação às ideias desses autores da Escola de Frankfurt, como por exemplo, Erich Fromm, Almeida Júnior(2011, p.110-111) declara:
Essa definição ampla do sadismo parece-me bastante útil para compreendermos o trote universitário. Visto como um rito de passagem, o trote gera a oportunidade de que os trotistas exerçam controle sobre os ingressantes. Em algumas situações, este controle pode assumir grande intensidade e, no extremo, um caráter irrestrito e absoluto. Temos então uma conexão entre eventuais traços sádicos das
personalidades dos trotistas com o ambiente social criado ou influenciado pelo trote. (...) Ao exacerbar as possibilidades de controle (o trote), derruba inibições normalmente atuantes sobre os impulsos sádicos. Esta combinação é perigosa e dá asas a impulsos poderosos e imprevisíveis.
Acredita-se, como afirma Almeida Júnior (2011), que o fato de existirem impulsos sádicos no psiquismo de indivíduos deveria consistir em motivo de preocupação e busca de entendimento dos processos envolvidos. Ao contrário da contenção da violência disseminada pelo trote, o que se vê são as instituições educacionais compactuadas com o ato trotista, bem como com os instintos sádicos dos indivíduos.
Segundo Almeida Júnior (2011), em alguns casos, o desejo sádico por parte de alunos trotistas é notado com benevolência, uma tentativa de mascarar a face agressiva.
Na outra ponta do sofrimento que o sadismo causa, existe a euforia presente nas recepções aos alunos e nos trotes. Almeida Júnior (2011) contesta essa atitude com veemência, dizendo que as pessoas envolvidas nos trotes perdem a noção de realidade, não apenas como agentes, mas especialmente como vítimas de uma sociedade que apoia esta barbárie.
Calligaris (2013) questiona o fato de que na atualidade, tornou-se banal a procura por psicoterapia e medicação psiquiátrica, não somente em função de diagnósticos e prescrições feitos apressadamente, mas também devido à ambição da psiquiatria e da psicologia clínica, que desejam impor seu poder à população.
Calligaris em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, em 17 de janeiro de 2013, realiza, nessa linha de raciocínio, críticas à atuação da Associação Americana de Psiquiatria e a versão mais recente do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5):
Em vários casos, a nova versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5), da Associação Americana de Psiquiatria, prevista para este ano, baixa o limiar do que pertence à patologia, designando como transtornos passíveis de cuidado médico e psicológico afetos, pensamentos e humores que, até hoje, eram considerados parte da experiência humana normal.
A partir do DSM 5, a Associação Americana de Psiquiatria eleva sua capacidade de transformar os indivíduos com menores níveis de sofrimento mental possível em “doentes” que necessitam de tratamento (CALLIGARIS, 2013).
Da mesma forma, a partir deste tipo de contribuição psicológica e médica, pode- se tentar construir uma visão psicológica ou psiquiátrica muito restritiva sobre motivos que levaram indivíduos a praticarem trotes violentos.
Com isso, conclui-se que os fatores psicológicos, apesar de relevantes na determinação do trote, não são os únicos ou os mais importantes. Obviamente, em muitos casos, o fator psicológico como a personalidade do indivíduo pode influenciar a ocorrência dos trotes violentos. Mas não se pode generalizar, uma vez que tal fenômeno depende também dos fatores sociais e culturais com os quais o indivíduo se associa. Portanto, o sadismo e o masoquismo são apenas uma das dimensões a ser considerada na explicação do trote. Dada a complexidade, outros fatores e elementos teóricos necessitam ser vistos a fim de que o fenômeno do trote receba um tratamento interdisciplinar, amplo e adequado.