5.1 D ISKUSJON AV UTVALG OG METODE
5.1.2 Metode
No contexto que se seguiu à elaboração da teoria do gatekeeping, surgiu a teo- ria organizacional. Nesta abordagem, as preferências, os valores e as atitudes individuais são pouco valorizados uma vez que os jornalistas são socializa- dos dentro de um enquadramento organizacional. Logo, esta perspectiva tenta compreender como os esforços dos jornalistas são constrangidos pelas rotinas organizacionais e ocupacionais. Surge assim um conjunto de esforços teóri- www.livroslabcom.ubi.pt
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cos, a teoria organizacional, de acordo com a qual “as notícias são o resultado de processos de interacção social que têm lugar na empresa jornalística” (Tra- quina, 2002, pp. 84-85).
A chamada análise organizacional foi iniciada por Warren Breed com um estudo famoso: “O controlo social na redacção: uma análise funcional” (1993).
Segundo o texto, em todos os jornais, o publisher (proprietário ou seu representante) estabelece a política informativa, a qual é geralmente seguida pelos membros do corpo redactorial. Porém, a aceitação não é automática por três razões: 1) a existência de normas de ética jornalística; 2) o facto de os subordinados tenderem a ter atitudes mais liberais do que o publisher e poderem invocar as normas para justificar escritos contra a política editorial; 3) a existência de um tabu que impede o editor de obrigar subordinados a seguir a sua orientação.
Warren Breed constatou que numa amostra de 72 staffers entrevistados, 42 tinham opiniões mais liberais do que o seu publisher; 27 tinham opiniões semelhantes, e apenas 3 eram mais conservadores. Dos 46 entrevistados com menos de 35 anos, 34 mostraram tendências mais liberais.
A questão que Breed considerou pertinente colocar foi a seguinte “Como é mantida a orientação política apesar de muitas vezes transgredir as normas jornalísticas, de muitas vezes os jornalistas discordarem dela, e de os exe- cutivos não poderem legitimamente ordenar que ela seja seguida?” (1993, p. 154). Breed (1993, p. 154) considera que o primeiro mecanismo que promove o conformismo é a socialização do redactor no que respeita às suas normas de trabalho. Quando o jornalista inexperiente começa o seu trabalho, não lhe é dita qual é a sua política editorial. Deste modo, os jornalistas quando são interrogados respondem que aprenderam por «osmose». Em termos socio- lógicos, isso significa que os canais onde o «neófito» aprende são informais. Passam pela observação de rotinas dos editores no que respeita ao que é evi- tado e ao que é favorecido. Incluem a conversa informal e a observação de sinais de desacordo ou de aprovação e as reuniões de redacção (1993, p. 156) Dessas reuniões, pode ou não resultar a compreensão através daquilo que é dito e não dito pelos executivos, pois a orientação política não é mencionada expressamente, salvas raras excepções. É um processo através do qual o no- vato descobre e interioriza os direitos e as obrigações do seu estatuto, bem
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como as suas normas e valores. Aprende a antever aquilo que se espera dele, a fim de obter recompensas e evitar punições.
Breed encontrou seis factores que intervém na interdição de actos de des- vio:
a) A autoridade institucional e as sanções que podem ser aplicadas até ao despedimento
Sendo o publisher o dono do jornal, tem o direito de esperar obediência dos seus empregados e o poder de despedir ou impedir alguém de progredir. No entanto, o jornal não é concebido como uma empresa puramente comer- cial e os despedimentos são um fenómeno relativamente mais raro. O medo de sanções, mais do que a sua invocação, é uma das razões que levam ao con- formismo, mas não é tão forte como possa parecer. Os editores podem, muito simplesmente, ignorar reportagens que poderiam originar desvios ou, ainda, marcar a reportagem a um staffer de confiança.
b) Sentimentos de obrigação e estima para com os seus superiores
As obrigações e sentimentos calorosos para com os superiores demons- traram ter um papel estratégico no aliciamento para o conformismo. Esta variável muda, no entanto, de jornal para jornal.
c) Aspirações de mobilidade;
Todos os staffers mais novos mostraram desejo de alcançar uma posição de relevo. Lutar contra a orientação política é um obstáculo para a obtenção desse objectivo.
d) Ausência de grupos de lealdade em conflito: por exemplo, Breed cons- tatou que a American Newspaper Guild (uma espécie de equivalente do Sindicato dos Jornalistas) raramente interfere na orientação das empre- sas.
e) O prazer da actividade, nomeadamente a natureza amistosa e informal da sala de redacção, o interesse despertado pelas tarefas e as gratifica- ções não financeiras que resultam do estatuto que a instituição mediá- tica tem na comunidade como sejam a convivência com acontecimentos e pessoas interessantes, diversificadas e atraentes;
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f) a notícia como valor, isto é um especial interesse e empenho na missão de obter mais notícias.
Uma consequência da ênfase dada à notícia enquanto valor central é evi- tar conflitos sobre a orientação política do jornal. As notícias estão sempre em primeiro lugar, e há sempre que as ir procurar. Assim, a harmonia entre stafferse executivos é reforçada pelos interesses comuns na busca da notícia. Este trabalho histórico e inaugural sublinha a importância dos constran- gimentos organizacionais sobre a actividade do jornalista. Solosky (1993, p. 100) assinala: “a natureza organizacional das notícias é determinada pela interacção entre o mecanismo de controlo transorganizacional representado pelo profissionalismo jornalístico e os mecanismos de controlo representado pela política editorial. Em conjunto, estes mecanismos de controlo ajudam a estabelecer as fronteiras do comportamento profissional dos jornalistas.” O mesmo é dizer que para explicar muitas das opções levadas a efeito por estes encontram-se na intersecção entre os seus valores e cultura profissionais e os critérios editoriais.