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O jornalismo vive sob o imperativo duplo do factor económico e do cumpri- mento da sua função pública. Por isso, o campo jornalístico conquistou uma autonomia destinado a manter a sua liberdade face ao poder económico que se expressa em normativos como a cláusula de consciência e as leis contra a concentração económica no campo dos media.

O jornalismo industrial e de massa está, desde o seu início no século pas- sado, ligado ao mercado. A concepção da notícia como mercadoria não é, pois, uma novidade dos nossos dias. O campo jornalístico constitui-se nesse período em torno de uma imprensa voltada para o sensacionalismo e de uma imprensa mais virada para a informação e os comentários. Estas duas direc- ções subsistiram e desenvolveram-se nos media, expressando-se na oposição entre o pólo comercial, mais virado para a satisfação das exigências do mer- cado, e o pólo cultural, centrado em imperativos profissionais e deontológicos (Correia, 1997, p. 25). Com feitos, os alertas para a comercialização das no- tícias são quase tão velhos como a prática de ganhar dinheiro com as notícias. Na América, estiveram desde o início presente nos trabalhos de Lippman, www.livroslabcom.ubi.pt

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Ross, Park, Upton Sinclair entre muitos outros. Na Europa, é uma preocupa- ção visível nos textos de Weber e Tönnies já referenciados. Por outro lado, esteve presente em toda a reflexão marxista e neo-marxista sobre os media através de Gramsci, da Escola de Frankfurt, dos estudos culturais britânicos e de Pierre Bourdieu. Nos anos 70, surgiu a corrente chamada economia polí- tica dos media, partilhada por autores como Peter Golding e Graham Murdoch (1974, 1982), Nicholas Garnhan (1990) e James Curran (2004). Nos anos 90 McChesney (1999) descreveu duas tendências contraditórias nos media: o tamanho crescente e o aumento da influência publica dos conglomerados mediáticos e o declínio da participação política.

Como se expressa este confronto entre os campos de produção jornalística e a expansão das lógicas do campo económico? Um primeiro eixo de oposição encontra-se no peso das lógicas comerciais que pode expressar – se em vários indicadores:

a) Informação orientada para as audiências (fait –divers, desporto) e infor- mação destinada a angariar publicidade em detrimento de outras rubri- cas menos atraentes comercial e publicitariamente,

b) Orientação editorial comercial que antecipe e mimetize o mercado e as modas;

c) Procura de uma margem de lucro máxima e d) Peso das receitas publicitárias.

A este jornalismo de mercado opõem-se naturalmente as publicações que procuram preservar a autonomia do campo da informação.

Um segundo eixo de oposição pode traduzir-se precisamente na busca de um distanciamento em relação às fontes, pois este tipo de distanciação supõe investimentos contrários ao objectivo de maximização do lucro: redacções estáveis e de grande dimensão, serviços de documentação autónomos e orça- mento para a investigação. Além disso, requer uma rede de informadores em várias áreas, único meio de evitar a publicação inconsciente, imprudente ou resignada de artigos que a eficácia das fontes institucionais transforma numa espécie de «publi-reportagens» (Neveau, 2005, pp. 50-51).

Dois factores económicos evidentes são a publicidade e a propriedade. Po- rém, embora seja claro que o conteúdo dos media reflecte sempre o interesse Livros LabCom

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dos que financiam a imprensa, há no entanto um espaço de autonomia para os comunicadores pagos pelos proprietários dos media, verificando-se uma grande diversidade de situações no que respeita ao grau e tipo de dependência (McQuail, 2003, p. 261).

Apesar da narrativa que geralmente associa a formação de um jornalismo independente ao aparecimento da publicidade, já se verificou que a publici- dade, frequentemente, conseguiu exercer formas de constrangimento oculto. A publicidade, ao contrário do que frequentemente se pensa, não é apenas determinada pela circulação ou pelas audiências mas pela estrutura dos rendi- mentos que integram a audiência. “O desenho, a distribuição, o planeamento e a agenda dos media reflectem com frequência os interesses dos anunciantes” (McQuail, 2003, p. 263).

O segundo grande factor económico é a estrutura da propriedade, a qual tem vindo a alterar-se radicalmente no sentido de uma enorme quantidade de fusões (Schudson, 2003, p. 120). Desde os anos 80 que se acentua a reen- trada em cena dos grandes grupos económicos, gerando uma grande activi- dade financeira traduzida por fusões, aquisições e cruzamentos de acções. A questão foi analisada minuciosamente do ponto de vista das consequências da concentração de capital na gestão das organizações mediáticas e, por conse- guinte, da sua repercussão editorial. Determinou-se que, no caso dos jornais, as pressões económicas significavam menos espaço para as notícias; menos recursos humanos em termos de jornalistas, especialmente correspondentes; menos disponibilidade para reunir material adicional que permita contextua- lizar os factos (Golding e Murdock, 1979).

Finalmente, há que reparar que as novas alterações estruturais da indús- tria mediática conduziram ao grande aumento do custo de produção, devido à necessidade de reconversão tecnológica; necessidade de grandes investimen- tos na área do marketing, promoção e publicidade, segmentação da oferta e instauração de uma concorrência feroz (Correia, 1997, p. 70). Verificam-se, na área da informação, necessidades crescentes de integração multimédia em outros sectores das indústrias culturais para potenciar as possibilidades de pro- moção recíproca e induzir retornos rápidos do investimento. A questão que se levanta na integração em grandes cadeias e conglomerados tem a ver com o efeito que a necessidade de retorno de investimento tem sobre o jornalismo praticado. Quanto mais lucro a firma exige, menos dinheiro disponível exis- tirá para ser dispendido em jornalistas e cobertura noticiosa e mais delegações www.livroslabcom.ubi.pt

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serão encerradas. Este tipo de políticas traduz-se ao nível jornalístico numa al- teração dos géneros noticiosos, com um aumento da percentagem de soft news e de infotainment. Um relatório da autoria de Thomas Patterson, Professor de Harvard, demonstra que estes géneros noticiosos aumentaram bastante nas úl- timas décadas. As notícias que não tenham por referente um conteúdo público aumentaram de menos de 35% de todas as histórias publicadas nas principais cadeias televisivas americanas para mais de 50%. No mesmo universo, peças com um grau moderado ou elevado de sensacionalismo cresceram desde cerca de 25% nos anos 80 para cerca de 40%. Peças que incluam interesse humano também aumentaram de importância, passando de cerca de 11% nos anos 80% para mais de 26% dos relatos noticiosos actuais. As peças que dizem respeito a crime ou a desastre, cresceram de 8% para 15%. (Gans, 2003, pp. 21, 23, 28 e seguintes). Se tivermos em conta que esta tendência se verificou nas cadeias americanas já de si assentes no modelo comercial de televisão, e, se tivermos em conta a relativa juventude do modelo concorrencial de Televisão em Portugal compreendemos que esta alteração seja ainda mais consistente e acentuada no caso português. A título de exemplo, veja-se o caso relativa- mente recente de Maddie McCann sobre o qual na Televisão portuguesa, no decurso do mês de Maio de 2007, foram produzidas 747 peças, num total de 41 horas, 43 minutos e 7 segundos, divididos pelo canal público RTP e pelos canais privados SIC e TVI da seguinte forma: RTP, 216 peças, 11: 27”: 11’; SIC, 284 peças, num total de 18: 40”: 02’ e TVI, 247 peças ao longo de 11: 35”: 45’.

Torna-se interessante verificar algumas das consequências que resultam dos fenómenos de abertura total ao mercado. Barata-Moura (citado por Cor- reia, 1997, p. 48) alerta para a mercantilização da publicidade que significa submeter a esfera pública da transmissão, do encontro e do debate à forma mercantil capitalista mobilizada para a obtenção do lucro e para a mercadori- zação dos produtos culturais o que significa reduzi-los, tendencialmente em exclusivo, para a forma de mercadoria. Estes fenómenos conduzem a uma oferta padronizada e homogeneizada, que atende às necessidades de uma cria- ção de produtos que satisfaçam expectativas maioritárias. Graças a esta ten- dência, informação, publicidade e entretenimento fundem-se num único ob- jecto.

Estes riscos não são objecto de referência apenas por parte da teoria crítica e das abordagens neo-marxistas. Thomas Patterson alerta para os perigos de Livros LabCom

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concentração: a informação passou a ser determinada pelo mercado, onde as notícias são vistas pelos seus produtores, não como um bem público, mas como uma mercadoria produzida mais para atrair os anunciantes do que para servir o público (Patterson, 2002, p. 30).