1. I Begrunnelse for valg av oppgave
3.0 Metode
pós a discussão das fontes de erro segundo Offe, com a qual concordamos com ressalvas, apresentaremos, na segunda parte desta seção, os objetivos da pesquisa e algumas informações pertinentes para a compreensão dos recortes temporal e espacial do campo empírico.
2.1 – AS FONTE DE ERRO PARA OFFE
Offe (1990) sustenta que, ao analisarmos as funções sociais do sistema educacional, partindo “das intenções declaradas e finalidades estabelecidas por professores, especialistas em currículos, funcionários ligados ao sistema educacional” (OFFE, 1990, p. 9), surgem três fontes de erro. A primeira delas refere-se a esses funcionários que podem apresentar uma posição arbitrária acerca do objeto investigado com:
o perigo de que o grande número de heterogêneas finalidades e a diversidade de avaliação sobre a importância dos elementos isolados nelas presentes tornassem impossível fazer qualquer coisa, além da apresentação arbitrária e de acordo com a própria posição normativa do observador científico, de quais finalidades devem ser vistas como dominantes (OFFE, 1990, p. 9).
Como segunda fonte de erro, o autor alerta que o sistema educacional não é independente em relação ao contexto macrossocial e não dispõe “de um amplo ‘poder’ ou capacidade autônoma de atuação para realizar os fins por ele mesmo determinados” (OFFE, 1990, p. 9). Assim,
é muito mais realista a suposição de que as condições e direção do desenvolvimento do sistema educacional e suas funções sociais globais não são realmente determinadas pelas finalidades declaradas e pelo que é indicado em programas orientados para determinados fins (OFFE, 1990, p. 9).
A terceira fonte de erro não depende da manifestação das anteriores, visto que, “não podemos [...] partir do princípio de que cada uma das funções reais do sistema
educacional decorra das intenções explícitas de qualquer ator a ele ligado” (OFFE, 1990, p. 10).
A procura de uma total objetividade nas ciências sociais é falha. Como podemos calcular, medir, mensurar valores, qualidades, sentimentos, noções, conceitos sem ser em relação a algo ou alguém? Desse modo, a preocupação de Offe acerca da arbitrariedade dos funcionários do sistema educacional ligados às pesquisas nesse campo procede, como em qualquer outro campo das ciências sociais, mas a busca de uma neutralidade total, de uma imparcialidade pura, é vã. O conhecimento, como na alegoria da caverna de Platão, origina-se das relações estabelecidas em situações concretas de vida, não como uma qualidade imanente ao objeto ou externa a ele, mas em sua ligação com o próprio objeto.
Podemos dizer o mesmo sobre o campo científico. Bourdieu esclarece que este é um
sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado (BOURDIEU, 1983, p. 122-123, grifo no original).
Ou seja, para o autor, não existe neutralidade em nenhuma pesquisa, mas, sim, uma disputa constante pelo monopólio do conhecimento entre dominantes e dominados - os dominantes, em contraposição aos dominados ou “novatos”, são aqueles que detêm o poder no campo científico, defendendo a hierarquia estabelecida-, visto que “o universo ‘puro’ da mais ‘pura’ ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas” (BOURDIEU, 1983, p. 122, itálico no original). Ele assevera que até mesmo a hierarquia dos objetos pesquisados em um determinado campo obedece a critérios arbitrários de legitimidade e prestígio, estabelecidos segundo a taxionomia reinante, e funcionam como um mecanismo ideológico, fazendo “que coisas também muito boas de se dizer não sejam
ditas e com que temas não menos dignos de interesse não interessem a ninguém” (BOURDIEU, 2010, p. 35).
Ainda de acordo com Bourdieu, alguns pesquisadores têm interesse em realizar pesquisas acerca de temas valorizados dentro do campo do qual fazem parte, utilizando, para tanto, uma “estratégia de sucessão”. Desse modo, suas pesquisas têm mais chance de serem publicadas, financiadas e reconhecidas como pertinentes dentro do campo pelos seus pares, dando continuidade à perpetuação da ordem científica estabelecida. Contrapondo-se a essa estratégia, há a “estratégia de subversão”, utilizada por alguns novatos, com custos individuais mais elevados de investimentos em longo prazo, “posto que eles têm contra si toda a lógica do sistema” (BOURDIEU, 1983, p. 138).
No que concerne às escolhas, segundo o autor, as preferências de cada indivíduo, o gosto individual são determinados pelo habitus, definido como
sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionarem como estruturas estruturantes, isto é, como princípio que gera e estrutura as práticas e as representações que podem ser objetivamente ‘regulamentadas’ e ‘reguladas’ sem que por isso sejam o produto de obediência de regras, objetivamente adaptadas a um fim, sem que se tenha necessidade da projeção consciente deste fim ou do domínio das operações para atingi-lo, mas sendo, ao mesmo tempo, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação organizadora de um maestro (BOURDIEU, 1983, p.15).
Assim, para Bourdieu, “cada agente, quer saiba ou não, quer queira ou não, é produtor e reprodutor de sentido objetivo porque suas ações e suas obras são produto de um modus operandi do qual ele não é produtor e do qual ele não possui o domínio consciente” (BOURDIEU, 1983, p. 15, grifo no original). O habitus tem um papel preponderante em nossa vida cotidiana, influenciando nossas ações, opções (como por exemplo, a escolha do objeto de pesquisa), sem termos consciência dessa condição estruturante.
Concluindo, a preocupação de Offe acerca dos erros procede. Acreditamos, no entanto, que o materialismo histórico dialético como método de investigação científica auxiliará na compreensão da dinâmica do objeto, minimizando o potencial de erro apontado pelo referido autor.