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A composição da subtemática – escola x bullying foi delineada a partir das referências feitas pelas alunas ao papel da escola, vista como um espaço de crescimento e aprimoramento intelectual, pessoal e social, mas que abriga em sua dinâmica, elementos contraditórios, que afetam a efetividade das ações que corroboram a estes fins. Dentre estes, situa-se a violência e mais especificamente o fenômeno bullying, enquanto uma de suas variantes e foco desta análise.

Estas contradições coexistem com as propostas de formação implementadas pelas instituições educacionais, corporificadas nas ações que compõem o currículo oculto, o qual compreende todas as práticas evidenciadas no contexto escolar, ainda que estas, não sejam condizentes com a finalidade maior do processo educacional.

Sendo assim, esta subtemática nos permitiu extrair as mensagens que exprimem a percepção deste grupo em relação a dicotomia existente entre a proposta de formação dos sujeitos empreendida pelas instituições formais de ensino e a instalação e disseminação de práticas que seguem na contramão destes objetivos, dentre elas, o

bullying. Assim como, permitiram-nos identificar, a partir do olhar das entrevistadas, os

reflexos negativos que este fenômeno acarreta ao desenvolvimento escolar de estudantes.

Ao se reportarem ao problema da disseminação da violência nas instituições de ensino, e mais precisamente a incidência de bullying nas relações entre estudantes, as alunas pesquisadas sinalizaram para a contradição existente entre as altas taxas destes eventos e a função social da escola. A fala a seguir expressa com clareza a compreensão do grupo sobre estas relações presentes na realidade da maioria das escolas:

Ao dialogarem sobre o papel da escola em relação à prevenção da violência e especialmente do fenômeno bullying, o grupo de alunas entrevistadas mostraram que desaprovam a ocorrência do fenômeno na escola, ao argumentarem que o papel desta instituição é o de educar e que portanto, práticas que denotem desacordo com este propósito não deveriam ser comuns em espaços de formação. Nesta direção Abramovay e Rua (2003, p.26) assinalam que a violência:

[...] afeta diretamente agressores, vítimas e testemunhas dessa violência e, principalmente, contribui para romper com a ideia da escola como lugar de conhecimento, de formação ao ser, da educação, como veículo, por excelência, do exercício e aprendizagem. Da ética e da comunicação por diálogo e, portanto, antítese da violência.

Ao discorrem sobre as repercussões das práticas de bullying que poderão ter seus efeitos mais nocivos no processo de escolarização dos envolvidos, 57% das alunas identificaram o desinteresse pela escola como um dos principais reflexos negativos

Eu acho que essas coisas não deveriam acontecer na escola, porque a escola é um lugar de aprendizado, um lugar que agente vem pra aprender, pra ser uma pessoa melhor, mais educada... Mas o engraçado é que isso acontece muito na escola, quer dizer, na verdade não é engraçado, é estranho porque não deveria ser assim, tinha que ser ao contrário né, todo mundo tinha que se respeitar, pelo menos dentro da escola, não era pra ser desse jeito. (ALUNA- 12)

deste problema, uma vez que este fator poderá resultar no abandono da instituição de ensino e consequentemente contribuirá para a elevação das taxas de evasão escolar. Esta afirmação é destacada nas duas falas a seguir:

As respostas acima focalizam ainda os possíveis problemas de ordem psicossomática que podem ser desenvolvidos pelas vítimas, como aludido pela aluna- 05, ao mencionar a alegação de dores e mal estar como justificativas para não ir à escola. Neste caso, a entrevistada, refere-se aos sintomas como ―invenção‖, ―mentira‖, contudo, é pertinente destacar que estes problemas podem se manifestar de forma concreta, conforme anuncia Lopes Neto (2011, p.45) que mal estares como ―dores de cabeça, dores abdominais, ansiedade, absenteísmo escolar e recusa a ir à escola‖, são

indicadores frequentes nos casos de vitimização por bullying. A aluna-10 fez referência a um aspecto importante para esta discussão, que se

encontra expresso no trecho ―porque a escola vai perder o sentido né‖. A nosso ver, esta frase mensura o valor atribuído por estas jovens à escola e ilustra os significados que a instituição tem para estes sujeitos. Na medida em que reforça a ideia de que o papel da escola deve ser o de promover a aprendizagem e o desenvolvimento, utilizando-se, dentre outros mecanismos, de ações pautadas por uma formação crítica problematizadora e questionadora, sem contudo perder o foco quanto ao estimulo de princípios de acolhimento e tolerância, de respeito, compreensão e valorização do outro, aspectos essenciais à legitimidade da escola enquanto espaço privilegiado para o desenvolvimento humano.

O que pode acontecer é que, quem tá passando por isso pode perder a vontade de estudar, porque a escola vai perder o sentido né, vai se transformar num lugar que ela não gosta, não vê graça de estar, acha que a escola não é lugar pra ela, e nesse caso, tem

gente até que para de estudar, abandona! (ALUNA-10)

É, prejudica! Principalmente porque a pessoa pode nem querer mais ir pra escola e quando a mãe perguntar: Não tá na hora de você ir pra escola? Ela dá uma desculpa que tipo, não tá se sentindo bem, diz que ta com dor em algum lugar, mas é tudo inventado, é mentira! Ela se sente mal na escola, e vai inventar um monte de coisa pra não ter que ir pra lá, aí não tem como... Não se prejudicar. (ALUNA-05)

Outra consequência ocasionada pelo bullying quanto a sua ação negativa em contexto escolar, está relacionada aos prejuízos que repercutem diretamente no aprendizado dos alunos envolvidos. Deste modo 42,8% das respondentes mencionaram que o bullying pode contribuir significativamente para os casos de déficit de aprendizagem. As três explanações abaixo reforçam esta percepção, partilhada pelas entrevistadas:

A compreensão de que o envolvimento em episódios de agressão (exclusão, xingamento, calúnia e danos físicos) converge para um quadro de desestabilização que tem seus efeitos tanto no campo físico quanto no psicológico e podem repercutir de forma negativa no âmbito cognitivo, é comum entre as entrevistadas.

Do mesmo modo, a adoção de posturas prejudiciais como alternativas para evitar o confronto direto, como ―faltar aula e deixar de ter acesso ao assunto e a explicação‖, conforme citado pela aluna-07, configura-se como um fator que limita o progresso dos alunos envolvidos em situações de bullying. A articulação entre estes e outros aspectos resultantes desta problemática, leva estas alunas a partilharem a ideia de que é improvável sair ileso (a) de eventos desta natureza.

Observamos que a percepção destas alunas corresponde ao que vem sendo afirmado por autores como Fante (2005); Lopes Neto (2011); Moreira (2010); cujos estudos mostraram que a presença do bullying nas instituições de ensino compromete significativamente o processo educacional, na medida em que, a inserção em ambientes

Na minha opinião prejudica, porque a pessoa vai ficar triste, ficar chateada, se sentindo mal! Pode ser porque é excluída do grupo, pode ser porque xinguem, inventem mentira ou batam nela, não tem como passar por isso e não ligar, é impossível... Pelo menos eu né, eu tiro por mim, se fosse comigo, eu ia ficar muito triste! E é claro que de

algum jeito, isso vai prejudicar nos estudos também. (ALUNA-13)

Eu acho que sim! Porque a pessoa fica com o psicológico dela abalado né. Então isso já vai, é... Influenciar em outras coisas

também, até na forma como a pessoa aprende né. (ALUNA-08)

... Como as meninas já disseram, começa a faltar aula, vai perder o assunto, a explicação, e numa dessas... Pode até reprovar! Acho que sem dúvida pode prejudicar muito na hora da pessoa aprender. (ALUNA-07)

hostis, marcados pela intolerância e pela violência, implica em uma possibilidade concreta de que os alunos diretamente envolvidos nos conflitos decorrentes deste contexto, mostrem-se desmotivados em relação à escola.

Este processo, por sua vez, tende a culminar no desinteresse pelas atividades de ensino, pela realização das tarefas e outros problemas como desatenção e falta de socialização. Enfim, uma série de fatores que inviabilizam um relacionamento saudável com o ambiente escolar e que comprometem o desenvolvimento do aluno.

Aspectos como o isolamento e a exclusão foram citados por 28,5% das participantes do estudo, como um ponto desfavorável ao bem estar do aluno na instituição de ensino e, portanto, prejudicial ao seu desenvolvimento escolar. Sobre este aspecto, vejamos o que nos relatou uma das entrevistadas:

A narrativa acima, tomada como exemplo, ilustra uma situação real de exclusão de uma aluna por seus colegas de turma. Pretende-se destacar neste episódio, a condição a que a estudante esteve submetida, diante da hostilidade com a qual foi obrigada a conviver durante todo um ano letivo, bem como o cenário desfavorável que certamente trouxe implicações negativas, relacionadas tanto às dimensões psíquica e social quanto relativas ao seu desenvolvimento escolar.

Focalizando a dimensão cognitiva, esta situação pode ser analisada em uma interlocução com as ideias de autores como Del Prette e Del Prette (2005); Lisboa (2004); Koller (2004) que destacam a importância dos relacionamentos interpessoais positivos, sobretudo na infância e na adolescência, visto que eles influenciam diretamente no desenvolvimento do indivíduo, pois contribuem para a elevação da autoestima, estimulam o desenvolvimento de habilidades sociais e geram melhores níveis de aprendizagem.

De acordo com Lisboa (2009) as relações positivas de amizade mediatizadas pelas interações nos grupos de pares, além de favorecer o delineamento da identidade e

... O ano passado tinha uma menina na minha turma, que ninguém queria fazer trabalho com ela, por sinal ela até nem estuda mais aqui! Mas, era porque o pessoal dizia que ela era burra, não entendia as coisas direito, e toda vez ninguém queria ela no grupo. Em todos os trabalhos que teve, eu lembro que era a professora que escolhia uma equipe pra ela entrar. Às vezes, ela dizia que não tinha problema, que dava pra fazer sozinha. Eu acho que ela ficava com raiva sim, mesmo que ela disfarçasse né! Pelo menos se fosse eu, eu não ia gostar disso. (ALUNA- 12)

do papel social, exerce influência positiva na aprendizagem dos conteúdos formais de ensino bem como na aprendizagem de habilidades e competências sociais.

Olweus (1993) assevera que a vitimização pelo grupo de pares e a rejeição social são fatores capazes de provocar dificuldades de ajustamento que poderão perdurar por todo o ciclo vital, além de problemas relacionados a socialização, a aprendizagem e a evasão escolar.

Diante destas assertivas, conclui-se que o bullying exerce efeitos indesejáveis no desenvolvimento individual e social dos alunos e pode estar correlacionado a problemas de rendimento acadêmico e ao desenvolvimento de uma percepção negativa sobre a escola. (ALMEIDA, 2001).

Os resultados da pesquisa nacional sobre bullying realizada pelo instituto PLAN (2010, p.53) revelaram ―que a maior consequência dos maus tratos na vida escolar das vítimas recai sobre o próprio processo de aprendizagem‖.

Deste modo, ainda que as consequências do bullying para os envolvidos, sejam muito relativas, este é um problema que não tende a passar despercebido, com possibilidade de afetar diferentes âmbitos da vida dos que nele se encontram envolvidos, além de ser um agente que sem dúvida tem um grande potencial para estimular e agravar situações de conflito, e que por isso contribui sobremaneira para a banalização e naturalização da violência.