Ao perguntarmos para as adolescentes por quem foram criadas, as respostas nos dão pistas dos primeiros vínculos afetivos construídos. Os fragmentos de fala de três adolescentes elucidam o que estamos referindo:
Fui criada pelo meu pai de criação e pela minha avó. (Loirinha, 14 anos)
Pela minha avó. (Kassi, 16 anos)
Eu fui criada em Amarantes no Maranhão, pela minha avó. Nasci em Balsas e com 06 meses fui para Amarantes, pois meu pai não me queria. (Agatha, 15 anos)
Assim, o sentido consensual de acordo com as falas apresentadas pelas adolescentes é evidenciado no momento em que duas das três adolescentes foram criadas por suas avós, esse aspecto para nós é compreendido como socialização primária. A respeito disso, teceremos algumas considerações.
Utilizaremos os conceitos de socialização primária e secundária de Berger e Luckmann (1985, p. 175) para a compreensão da trajetória dos vínculos afetivos construídos pelas adolescentes, desde a infância até a adolescência.
Para os autores, a socialização primária “é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância, e em virtude da qual torna-se membro da sociedade” (p. 175), podemos dizer, então, é a que se dá dentro da família e se caracteriza em ser baseada nas relações estabelecidas com as figuras básicas de afeto e autoridade.
A socialização secundária “é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de uma sociedade” (p. 175), ou seja, são as outras relações construídas com os outros sujeitos com as quais a pessoa vai conviver, trazendo novos significados, valores e afetos.
Nesse sentido, Berger e Luckmann analisam a socialização como construção social, vivência singular, seja na família, escola, trabalho, seja em qualquer instituição. Significa movimento, pois, segundo eles, “a socialização nunca é total nem está jamais acabada” (BERGER & LUCKMANN, 1985, p. 184).
Nesse prisma, os discursos das adolescentes são reveladores do processo de socialização vivido, através do qual se verifica que as relações primárias foram construídas com outros integrantes da família, através da figura das avós na vida dessas meninas. As avós passaram a ocupar lugar de destaque, ou como auxiliares, ou substitutas na educação, socialização e sustento das netas.
Na cidade de Belém, através de leituras realizadas por nós em jornais de circulação regional e da experiência em nosso local de trabalho, um traço muito comum é a presença da avó materna na composição da estrutura familiar, ademais no contexto paraense. Através dos relatos de algumas avós em audiência judicial na qual participamos, no geral, as netas são deixadas pela mãe ou pelo pai, em virtude desses constituírem outra família deixam os filhos da relação anterior sobre o cuidado das avós.
São essas avós que garantem o sustento de famílias inteiras com suas aposentadorias, quando as tem, somadas aos recorrentes empréstimos advindos da “facilidade” que a terceira idade dispõe, por exemplo, em atividades do comércio informal (vendas de churrasco nas portas de suas casas e/ou mercearia). Deste modo, vivem em situação socioeconômica bastante desfavorável.
Esse debate ganha sustentação quando observamos que a família brasileira, não apenas esta, mas também em escala mundial, vem sendo palco de grandes transformações. Vitale (2000) destaca as seguintes variáveis que contribuem para as mudanças pelo quais as famílias vêm passando:
O aumento da expectativa de vida, que tende a redefinir novos equilíbrios nas relações intergeracionais; a mudança central da inserção da mulher no mercado de trabalho; o controle da natalidade, o qual gesta novos papéis masculinos e femininos; novos laços conjugais e novos arranjos familiares. (VITALE, 2000, p. 91)
Diante disso, essas mudanças têm alterado significativamente as relações entre os membros da família, implicando assim em novas formas e maneira de educar. Esta situação nos remete a pensar na seguinte questão: a ausência física dos genitores não implica necessariamente ausência simbólica, uma vez que outros sujeitos do arranjo familiar puderam ocupar esse lugar, no caso as avós? Porém, a questão maior reside em que nem sempre a diferentes formas de organização dos componentes da família extensa conseguem dar conta das variadas demandas do ser adolescente hoje, frente às interferências da sociedade contemporânea, com frágeis indicadores de limites a adolescente.
Assim, uma de nossas seis adolescentes, Ana Paula, se descreve retratando sua personalidade, relação familiar, memórias de infância e adolescência, ou seja, o seu processo de socialização primária:
O depoimento assinala uma das dimensões do ser adolescente hoje, a necessidade de testar limites adquiriu uma condição de sobrevivência do sentido de vida; ratifica também os diferentes processos de socialização secundária vividos, onde as trocas sociais e culturais criaram novos estilos de se vincular ao mundo.
Nesse prima, ratificarmos a necessidade de olharmos para a adolescência autora de ato infracional, perceber suas experiências cotidianas, as relações consigo e com o mundo, procurando compreender como ela se move entre os diferentes espaços de pertencimento, na tentativa de uma melhor compreensão.
Em relação à socialização secundária, principalmente com o grupo de amigos, os depoimentos de três adolescentes ilustram essa assertiva:
Não tenho muitas lembranças da infância [...] sempre fui danada (risos). Eu brigava, era muito brigona, não era na escola, era em casa com minha irmã Fátima (risos). Na adolescência (risos) [...] eu mudei um pouco só, eu parei de brigar com as minhas irmãs, eu tô aqui. Eu me meti na vida do tráfico. (Ana Paula, 17 anos)
Eu saí de casa aos quatorzes anos, fui para casa de uma amiga minha no Novo Brasil. (Agatha, 15 anos)
Eu acordava dez horas, eu ia tomar café, tomava banho, ficava lá por casa. Dava de noite eu saía e ia embora pra rua, umas nove horas, ficava fumando maconha, lá na praça princesa Izabel. Isso era todos os dias, ficava uma patota de meninos e meninas tia, da minha idade, maior que eu. A gente ficava lá ate umas onze horas, meia noite, depois eu ia pra casa. (Loirinha, 14 anos).
Diante disso, percebemos que as adolescentes, ao procurarem o grupo, buscam o sentimento de pertença, de estar em grupo, de se ver na outra, de ser vista no encontro de afinidades e diferenças, de se ajudar e de se proteger.
O grupo passa a desempenhar um processo vital, “as pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, formando redes sociais entre vizinho” (CASTELLS, 2006, p. 29). No entanto, o próprio autor diz também que redes são criadas não somente pela territorialidade, mas também por outros fatores de coesão.
As vozes das adolescentes evidenciam o espaço da rua, o estar juntas, como constituinte da composição da rede de relações significativas, como constituintes de suas subjetividades e identidades. Assis e Constantino (2001, p. 135) em seus estudos abordaram que “é no grupo que muitas adolescentes encontram incentivo e apoio para a saída do lar e passam, em conjunto, a praticar atos infracionais”.
Ao considerarem essa dimensão, as autoras discorrem que entre as meninas que têm conflitos familiares a força dos amigos exerce maior pressão para que as dificuldades vividas no lar se exacerbem.
Em geral, a adolescente necessita de apoio do grupo para sair do espaço doméstico, diferente do menino, que historicamente teve a relação com a rua de uma maneira mais aberta (ASSIS & CONSTANTINO, 2001).
Agatha retrata o que a levou sair de casa, encontrar amigos e procurar outro sentido para sua vida:
escovava os dentes, tomava café e saia, ia pra rua, lá na Visconde. Eu ficava lá, eu ficava lá conversando com minhas amigas. (Kassi, 16 anos).
Eu saí de casa por causa do meu padrasto, ele me batia muito. Fui morar com uma amiga, fiquei uns seis meses com ela. Depois conheci um menino, que me convidou pra trabalhar no circo, aí eu fui trabalhar. Eu era mulher chicote de fogo, mulher cão, mulher dos sete maridos. Eu gostava, o nome do circo era Circo show, fiquei sete mês. Eu morava no circo, ganhava cento e pouco por semana. [...]. O bacana era o aplauso das pessoas. (Agatha, 15 anos)
A adolescente buscou nos amigos apoio para transgredir a norma, com isso a assunção de novas produções simbólicas, de sentidos para sua vida, que ao ser internalizada tornou-se sua característica.
Acerca disso Melucci (2004) retrata que:
Cada um de nós pertence a uma pluralidade de grupos, gerados por múltiplos papéis sociais, nosso eu torna-se múltiplo, entramos e saímos constantemente dos grupos de pertencimento com mais rapidez do que no passado, nos movemos “como animais migrantes nos labirintos da metrópole, viajantes do planeta, nômades do presente”. (MELUCCI, 2004, p. 157)
Daí que só podemos compreender e contextualizar o que Agatha nos traz se a inserimos no quadro de discussão que estamos fazendo ao longo desse estudo, ou seja, as ações das adolescentes jamais serão o simples reflexo dos vínculos biológicos e ambientais. São produções simbólicas de sentidos, dada a dinâmica do processo de construção e produção de suas identidades.
Como que desafiando a definição dominante do tempo (tempo de ser adolescente), as meninas propagam para o resto da sociedade que outras dimensões da experiência humana são possíveis, porém, como os sujeitos desse estudo, de uma maneira ilícita.
5.2.2. O brincar na infância e o jogar no cumprimento da medida