Ao realizarmos a análise das histórias de vida das adolescentes, destacamos a subtemática transgressão social que se presentificou como consenso nas falas das entrevistadas. Esta temática em função das informações dos sujeitos compreende a transgressão social como impregnada nas suas histórias de vida.
Ao consultarmos o dicionário Aurélio, o termo “transgressão” é definido como “Ato ou efeito de transgredir, infração, violação”. Para o verbete “transgredir” aparece a definição de “passar além, infringir, atravessar, violar uma norma”.
O sentido de violar, passar além, atravessar, está presente com mais afinco nas experiências de duas das seis adolescentes:
Eu ia fazer onze anos quando vim pro Pará, minha avó não estava me aguentando mais, eu estava aprontando muito. Eu saía para festas, eu dançava, bebia, fumava, voltava só no outro dia. Uma vez eu sumi fiquei uma semana desaparecida, minha avó ficou preocupada, tinha dez anos nessa época. (Agatha, 15 anos)
Quando eu estudava no Miguel Pernambuco eu brigava muito tia, eu era muito agressiva. Brigava por qualquer coisa tia, se a pessoa me olhava de cara feia, eu falava: porque tu tá me olhando! Eu ia pro soco tia [...] Chamavam minha mãe toda vez, minha tia, me batia, me batia na escola mesmo, na frente de todo mundo, ela dizia: é minha filha, não se metam. Eu gazetava aula, ficava na rua com minhas colegas. (Loirinha, 14 anos)
Entendemos que faz parte da essência humana e da adolescência transgredir, uma vez que transgredimos sempre, embora necessitando de regras, a sociedade também precisa de alguém que as exceda, as infringe e transforme, expandindo os limites do conhecimento e da capacidade humana. Porém, quando a transgressão fere o código, percebemos que houve uma lacuna entre os limites e as possibilidades, uma vez que no processo de construção do sujeito deve haver um equilíbrio entre essas duas dimensões.
Apontamos que ao transgredir socialmente o sujeito coloca-se no lugar da lei, “eu sou a lei”, ou seja, o sujeito ao não reconhecer os limites transgride socialmente, coloca-se no lugar da lei, “eu faço a lei”, como diz Loirinha:
Ao passar por cima de uma lei que existe e vigora faz com que a adolescente queira fazer acertos, com isso não ser penalizada. Levando-nos a perceber que durante o seu processo de formação pessoal, moral e social, ou seja, de constituição do sujeito, o estabelecimento de limites, de regras claras e bem definidas se apresentou de modo frágil.
Situamos isso, pois as definições desses limites, dessas regras, são de fundamental importância para a formação e desenvolvimento da criança e da adolescente. Pois, quando há lacunas nesse processo, os sujeitos, aqui a adolescente, ficam sem parâmetros, sem referencial de valores, levando-as assim a transgredirem socialmente.
Entendemos que os limites são construtos sociais, são mediados pela família e pela escola no processo cultural, acerca disso percebemos a visão de La Taille (2002):
A colocação de limites, no sentido restritivo do termo, faz parte da educação, do processo civilizatório e, portanto, a ausência total dessa
Ah eu tava vendendo droga [...] eu lembro que tava na bike com uma arma de brinquedo [...] já vejo a viatura chutada hun-hun-hun fazendo barulho, aí não tive ação tia, não tive nem como jogar o ferro de brinquedo, aí me trouxeram pra cá de novo, não fizeram acerto, nem nada. (Loirinha, 14 anos)
prática pode gerar uma crise de valores, uma volta a um estado selvagem em que vale a lei do mais forte. (LA TAILLE, 2002, p. 53)
Diante disso, a construção dos limites requer que as regras e normas estabelecidas entre os componentes de grupo familiar estejam claras e bem definidas, que todos conheçam os limites e as responsabilidades que são estabelecidas.
Na contramão desse debate, encontramos também pessoas que apesar de todo o infortúnio, apesar dos riscos e da própria adversidade vivida de exclusão social, conseguem se organizar. E o que Nascimento (2011, p. 117) chama de resiliência, “cunhado da física, é utilizado para descrever o estado de superação que pessoas fazem após viver situações de adversidade com intenso sofrimento”.
Os resilientes conseguem pôr em prática ferramentas que “facilitam a superação de traumas e o estabelecimento de uma vida equilibrada e adaptada socialmente, sem que as situações adversas anteriores prejudiquem o curso de sua historia e de suas interações” (Op. cit., p. 117).
Chamamos atenção desse aspecto, pois as adolescentes participantes desse estudo, de modo geral, relataram experiências de vida reveladoras de uma série de adversidades, tais como: exposição à violência doméstica, estreita relação com as drogas, conflito com a lei, rejeição no âmbito familiar e social, experiências de abandono, preconceito e grande vulnerabilidade econômica.
As adolescentes estão assim não porque estão inseridas num contexto de violação de direitos, situação socioeconômica desfavorável, morando em áreas de risco da grande Belém, pois sujeitos com muito pouco conseguem dar a virada, verdadeiras “fênix que renascem das cinzas”, ou seja, indivíduos que conseguem reagir diante as adversidades. Referimos sim a anomia, entendida como ausência de valores e regras ou presença de valores e regras contraditórias no seio de algumas famílias, da qual as adolescentes fazem parte.
A adolescente Fanizinha,13 anos, retrata a dubiedade de valores presentes no seio de sua família, “a gente morava aqui nas Águas Lindas. Meu pai ele vendia droga (riso), lá na frente de casa, mas ele também trabalhava vendendo açaí e fruta. A gente via, mas ele sempre falava pra gente, que não era pra gente fazer aquilo”. Neste sentido, “a fronteira que não deve ser transposta, a demarcação de um domínio que não deve ser invadido” como nos diz La Taille (2002, p. 51) mostra-se errático, posto que as possibilidades de outra condução apresentam-se comprometidas.
Analisando o contexto das adolescentes do nosso estudo, percebemos que protagonizam as suas histórias, mas, por outro lado, quando olhamos para as tramas, as histórias de vida de cada uma, elas não deixaram de ser também objeto dessa história.
De um modo geral, essas adolescentes, “filhas da contemporaneidade”, ao encenarem suas histórias, comprometem a sua vida social, o seu ir e vir. Acreditamos que regras claras e coerentes são primordiais no estabelecimento de limites, na qualidade do relacionamento entre pais e filhos, principalmente no período de adolescência, quando essas meninas começam a receber da sociedade cobranças as mais diversas de posicionamentos sociais e morais.
Uma vez o que se observa hoje é uma infinidade de informações, “a chamada turbulência que a pós-modernidade provoca”, como ressalta Nascimento (2011, p. 127), regras e limites, um tanto quanto frouxos, dispensados a esse grupo, fazendo com que ao invés de dosar, ter um tempo de elaboração das ferramentas que disponibiliza, pela configuração que se apresenta atualmente, a adolescente pega tudo, e assim se atropela em sua constituição social, associados a falta de orientação das famílias.
Diante disso nos perguntamos quem orienta e educa as famílias de hoje? O que é educar nos dias de hoje? A respeito disso, Nascimento (2011) infere:
Assim, o mundo contemporâneo é vivido como se tudo se esfumaçasse no ar. As relações tendem para o pertencimento em redes como o orkut, blogs e outros sites de relacionamento. O
espetáculo da vida privada torna interessante a sua publicação em rede virtual. (..) O revivalismo e a customização da moda, o pastiche, a efemeridade, as relações virtuais, o Shopping Center marcam que o “tempo fui [...] e se você não quer afundar continue surfando” (Bauman, 2007, p. 108). Significa que a mudança é crucial para acompanhar a lógica deste tempo. [...] Nesta configuração volátil, encontram-se as famílias, pais, responsáveis, professores. (NASCIMENTO, 2011, p. 321)
Ao considerarmos essa questão, acreditamos que, mais do que nunca, num cenário de permanente mudança, é preciso que se fortaleçam as bases de apoio da família contemporânea.
A assistência social emprega essa terminologia no sentido de que a escola e o sistema de garantia dos direitos devem atuar em sintonia com as demandas e necessidades dessas famílias, pois não se pode exigir dessas avós que deem conta, sozinhas, da responsabilidade de desenvolvimento biopsicossocial dessas meninas.
As famílias contemporâneas precisam ser potencializadas, necessitam de orientação, discussão sobre a problemática de suas filhas, do que é ser adolescente e os tipos de adolescências que se apresentam, para que não naturalizem algumas práticas.