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Metode for hovedundersøkelsen

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Dois dos clubes em estudo, o Magestic, entre 1917 e 1920, e depois o Monumental, até 1928, ocupam o edifício do Palácio Alverca, também conhecido por Palácio de São Luís ou Palácio Paes do Amaral, situado na via hoje identificada por Rua das Portas de Santo Antão.

Esta rua desempenhou, desde épocas recuadas, um papel de relevo. A sua proximidade do Rossio, um dos principais centros cívicos lisboetas, bem como de alguns edifícios emblemáticos, garante a sua centralidade ao longo da história. Durante séculos as Portas de Santo Antão servem de entrada a pessoas e mercadorias destinadas ao consumo da capital, permanecendo como uma das principais linhas de circulação mesmo depois da destruição das Portas pelo terramoto de 1755. Ao longo do século XVIII, são aqui edificadas várias casas apalaçadas. Nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, especialmente a metade mais próxima do Rossio, torna- se um espaço cosmopolita onde se instalam restaurantes, salas de espectáculo e diversos clubes frequentados pelas elites, entre os quais alguns dos clubes aqui em estudo.

A construção da mansão da família Paes de Amaral, viscondes de Alverca, é datada, por diferentes olisipógrafos, dos finais do século XVII. Desconhece-se, no entanto, uma data precisa ou fontes que comprovem esta datação. A fundamentar esta hipótese são evocados alguns elementos arquitectónicos presentes no edifício, anteriores

à transformação do Palácio Alverca em 1917-19196. O edifício terá sido erguido, após o terramoto, no espaço liberto das muralhas da cidade e sobre parte das suas ruínas7.

Segundo o olisipógrafo Luís Pastor de Macedo, no local onde foi erguido o Palácio, e onde funciona depois o Magestic Club e, posteriormente, o Monumental Club, existira antes um curral de porcos:

«No chão onde esteve o curral dos porcos, edificou-se, muitos anos depois, o palácio de Miguel Pais do Amaral, no qual, já nos nossos dias, esteve o clube mais chique de Lisboa – O Monumental. Quem pensaria então, naquelas noites lilazes ou

azuis, com tangos rosas ou verdes, que ali, no mesmo sítio, também já tinham

chafurdado porcos?8

Não é conhecida a data até à qual o edifício é habitado pelos viscondes de Alverca. Muito antes de 1917, já teria ali funcionado um liceu e, mais tarde, um estabelecimento de venda de móveis e de objectos de arte, denominado Liquidadora9. Em 1917, a firma Rezende Limitada, ao abalançar-se a abrir um clube na capital, aluga o palácio à viscondessa de Alverca, D. Filipa de Sá Paes do Amaral Coelho.

Entre 1917 e 1919, o Palácio Alverca é objecto de uma profunda intervenção, a fim de acolher o Magestic Club. No processo de obras salienta-se que nos trabalhos serão utilizados unicamente materiais de «primeira qualidade» e que todas as obras seriam «executadas conforme preceitos técnicos de construção e com os cuidados e fiscalização que a importância das obras do club reclamam.»10

Pelas fachadas, elemento que sofreu menos alterações, pode-se ter uma ideia da construção original. Contudo, uma das transformações foi a abertura da porta na fachada virada para a rua das Portas de Santo Antão. Esta inovação levou a que o acesso principal do clube se fizesse pela entrada mais modesta, quando comparada com a antiga entrada, pela Travessa de São Luís. Para a escolha desta entrada terá por certo contribuído o movimento da rua e o facto de ali se situarem outros estabelecimentos semelhantes.

6

Tanto o brasão dos primeiros proprietários, Miguel Paes do Amaral e Menezes Quifel Barbarino, inserido na frontaria da Rua das Portas de Santo Antão, como o portão do Beco de São Luís são provavelmente originários do século XVII, mas mesmo estes poderão ter sido colocados em época posterior.

7

Rui Rosado Vieira, O Associativismo Alentejano na Cidade de Lisboa no século XX, Lisboa, Edições Colibri / Casa do Alentejo, 2005, p. 90-92. No interior do Palácio é possível ainda hoje ver-se troços da muralha fernandina.

8

Luís Pastor de Macedo, Lisboa de Lés a Lés, op. cit.

9

Por estes armazéns passa um episódio aventureiro de recuperação por parte dos republicanos de umas armas escondidas durante o 28 de Janeiro («João Franco e o seu tempo: A Ditadura», ABC, 24/07/1924, p. 16). Em nota de rodapé explica-se que os armazéns da Liquidadora «eram onde está o “Magestic”».

10

Requerimento de obras de 30 de Julho de 1917 in Processo da actual Casa do Alentejo (Magestic

Nem todas as inovações incluídas no projecto inicial foram executadas: a instalação de um ascensor, no lado direito da escadaria de acesso pela nova entrada, foi obra que nunca se chegou a concretizar11. As transformações são, no entanto, imensas:

«Só quem conheceu, interiormente, o que era aquele enorme casarão da rua Eugénio dos Santos, pode bem-fazer ideia do enorme trabalho que foi feito para o adequar à instalação do mais rico, luxuoso e aristocrático Club […]

O grandioso edifício do Magestic Club […] não foi modificado no seu aspecto exterior, de forma que o dito edifício passa despercebido a quem por ali passa.»12

A remodelação do Palácio Alverca, como nota a imprensa da época, é realizada com notável rapidez, «em pouco mais de um ano, no auge da guerra, com sucessivas greves, revoluções, e perturbações de toda a ordem»13. Para tal contribui a mobilização de três construtores, David Ennes Pereira, Joaquim David e Luís Caetano Pereira de Carvalho, que se constituem expressamente para o efeito em Sociedade Construtora, bem como de dezenas de artistas e artesãos. Sob a direcção do arquitecto António da Silva Júnior trabalham os principais artistas da época, quer na pintura e na escultura, quer na azulejaria, como Júlio Silva, Benvindo Ceia, Domingos Costa, José Ferreira Bazalisa, José Isidoro Neto e Jorge Colaço.

Segundo a descrição feita na época pela revista A Arquitectura Portuguesa, que pela grandiosidade da obra lhe dedica dois números seguidos, o projecto da Sociedade do Magestic Club não tinha como objectivo único ganhar fortuna: era antes uma empresa com fins patrióticos, que ambicionava abrir, em local apropriado, um «club de primeira ordem, para ser apresentado pela primeira sociedade e onde, os estrangeiros que visitassem o nosso país, pudessem ser condigna e luxuosamente recebidos»14.

O trabalho de “apropriações” de Silva Júnior adopta diversos padrões arquitectónicos usados em épocas e lugares diferentes:

«Abre-nos essa porta […] as visões fantásticas das mil e uma noites: estamos num pátio árabe, com arcarias em volta, janelas de sacada ao nível do primeiro andar, e coberto por uma cúpula envidraçada e fosca […]. Desta parte passa-se para um rico vestíbulo, do mesmo estilo, que dá acesso à escada interior para o primeiro piso […] dum deslumbrante efeito e rigorosa estilização oriental. […]

[No hall de entrada do primeiro andar] A sensação oriental abandona-nos; predomina o dórico, nos capiteis das colunas, no entablamento que circunda as paredes, e sobre o qual, entre pilares, como que sustentando o tecto, deparamos com um friso decorativo. […]

11

Alves Coelho, «Palácio Alverca», Cadernos da Casa do Alentejo, n.º 1, coord. de Luís Jordão, Lisboa, Casa do Alentejo, Abril 1997, p. 6.

12

«Magestic Club de Lisboa», A Arquitectura Portuguesa, ano XII, n.º 10, Outubro de 1919, p. 2.

13

«Magestic Club de Lisboa [cont.]», A Arquitectura Portuguesa, ano XII, n.º 11, Outubro de 1919, p. 4.

14

[O salão restaurante estilo Luís XVI] tem vinte metros de comprido por cerca de doze de largo e seis metros e setenta centímetros de alto. É bem o salão simultaneamente grave e gracioso, do estilo que marca o termo dos desvarios de

Rocaille. […]

Desta sala transitamos para o grande salão de jogos […]: um amplo salão quase das dimensões do descrito, bem iluminado, ricamente decorado, em estilo

livre, numa neo-renascença que se acentua na ânsia, legitima, de caracterizar uma

época, que procura emancipar-se, em tudo, de formulas, convenções e preceitos de outros tempos. […]

Aí [nos salões do lado direito] domina, na decoração e mobiliário, o

medieval, e gótico. Temos primeiro, e separado do dito hall, por um envidraçado, a

sala de leitura […].»15

A revista descreve ainda a «grandiosa escadaria» que uma porta vulgar não deixa adivinhar, a sala de bilhar, a «sala de Bridge e outros jogos de vaza», o bengaleiro, o vestiário de homens e senhoras, as casas de banho, a Toilette das senhoras em estilo Luís XV, a barbearia e o gabinete do director, mencionando ainda sete gabinetes reservados ainda não concluídos na altura da publicação do artigo. É de referir a menção ao cuidado sistemático para que toda a decoração e mobiliário destes espaços estejam de acordo com a decoração e o estilo arquitectónico adoptado.

«Átrio» e «Sala do restaurant» do Monumental Club

Contemporânea, n.º 7, Janeiro de 1923, pp. 66-67

Segundo Maria Regina Dias Baptista Teixeira Anacleto, a opção pelo estilo mourisco que abrange o pátio e a escadaria justifica-se pela sua associação ao exotismo, ao luxo e ao ócio, embora a sua utilização tardia deva ser equacionada com o que autora considera ser o «proverbial atraso na recepção das novas correntes estéticas, bem como

15

«Magestic Club de Lisboa», A Arquitectura Portuguesa, ano XII, n.º 10, Outubro de 1919, e n.º 11, Novembro de 1919, sublinhado meu.

com o ancestral gosto de imitar o que se faz no estrangeiro, sem cuidar de apartar o bom do nefasto.»16

A Rezende Limitada, como firma comercial que é, pretende auferir lucros da exploração do clube e o Magestic transforma-se numa sala de jogos de azar muito rentável17, mas que também conduz ao seu encerramento precoce, em 1920.

No final desse mesmo ano, a Sociedade de Hotéis e Restaurantes, por iniciativa de Carlos Nápoles de Carvalho, aproveita as magníficas instalações que ficam do Magestic e abre um novo clube, sob a designação de Monumental Club, que é proclamado como «um ponto de reunião elegante […] onde se encontrem indivíduos de boa sociedade para conversar»18.

O Monumental procura manter essa imagem de exclusividade, luxo, elegância e respeitabilidade sendo, nos anos seguintes, palco de diversos almoços e banquetes, alguns dos quais verdadeiramente luxuosos19. Contudo, tal não impede a sua associação ao jogo e a outras actividades consideradas por alguns como imorais. A 24 de Novembro de 1928, um correspondente em Lisboa do jornal O Provir de Beja dá notícia de um fogo ocorrido no clube em meados desse mês, comentando que a Natureza, indignada com as imoralidades ali praticadas, se revoltou e «pegou fogo ao antro»20.

Em 1928 o clube é encerrado pelas autoridades, em consequência das medidas legislativas tomadas pelo Estado Novo para a repressão do jogo. O edifício mantém-se fechado nos quatro anos seguintes, na esperança de poder voltar a explorar o negócio dos jogos de azar. Em 1932, confrontados com a impossibilidade desta hipótese, os proprietários do Monumental Club procuraram transaccionar com o Grémio Alentejano todos os direitos que possuíam sobre o imóvel, bem como o recheio de que são donos21.

O Palácio Alverca é então subarrendado ao Grémio Alentejano, que ali se instala em Maio desse ano. Apenas dois meses depois, a ainda proprietária viscondessa de

16

Maria Regina Anacleto, Arquitectura Neomedieval Portuguesa…, op. cit., p. 468.

17

Em 1920, o Magestic paga 3.000$00 de licença de jogo, sendo, entre as casas de jogo existentes em Lisboa, a segunda que mais paga. Ver Irene Vaquinhas, Nome de Código “33856”, Op. cit., p. 32.

18

«Os grandes clubs em Lisboa como na América», ABC, 23/12/1920, p. 18.

19

Como o jantar, a 11 de Abril de 1927, da «Festa em homenagem aos Excelentíssimos Senhores Duque de Lafões, Conde de Redondo e Vimioso e D. José de Bragança (Lafões), nobres relíquias da velha raça portuguesa», para o qual é expressamente impressa a ementa em seda azul a imagem da ementa. Ver imagem em Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, vol. 8, op. cit., p. 89.

20

Cit. in: Rui Rosado Vieira, O Associativismo Alentejano…, op. cit., p. 94.

21

A funcionária do arquivo da Casa do Alentejo informou que nos armazéns da associação dispõem de um enorme espólio, ainda por identificar, que terá passado para a posse do Grémio na altura do arrendamento do espaço ao Monumental Club. Seria então aconselhável proceder à inventariação desse acervo, de maneira a conservar a memória da passagem de clubes nocturnos pelo Palácio Alverca, mas também da sua existência na Lisboa dos anos 20.

Alverca move uma acção de despejo ao Grémio Alentejano e à empresa do Monumental Club por ocupação abusiva22. O acordo entre a dona do palácio e os responsáveis pelo Grémio e a liquidação da dívida da associação alentejana aos proprietários do Monumental Club só fica resolvido em Outubro de 1935, data em o Grémio entra «definitivamente na posse plena de todo o recheio do Palácio de S. Luís»23.

De entre as diversas actividades promovidas pelo Grémio Alentejano para os seus sócios, cabe aqui destacar a permanência dos jogos de azar no Palácio Alverca, dos quais há registo no período final da II Guerra Mundial. Os diversos jogos são praticados até de madrugada em espaços considerados exíguos para tal fim, face à enorme afluência de sócios que diariamente ali se encontram. Prevalece assim o cunho que a passagem dos clubes nocturnos por aquele edifício, na década de vinte, incutiu ao espaço em questão.

A agora denominada Casa do Alentejo ainda hoje tem sede neste palácio e no interior do edifício continuamos a poder ver o trabalho de remodelação que aí foi realizado. Ainda a uso estão algumas peças de mobiliário que pertenceram a um ou mesmo a ambos os clubes que aí estiveram instalados. A coincidência das iniciais de ambos, M.C., dificulta por vezes a sua identificação, facto que por certo terá influenciado a escolha da segunda denominação.

In document Kirkemusikkutdanning og motivasjon (sider 75-91)