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Apesar de se acreditar que cada intervenção depende muito do profissional que a conduz, assim como do âmbito e do próprio sujeito alvo de intervenção, existem algumas fases que, de uma forma ou de outra, acabam sempre por se concretizar, e é isso que se pretende desenvolver um pouco neste capítulo, no sentido de explicar um pouco a forma como um psicomotricista atua.

Assim, de uma maneira muito geral, existem três fases fundamentais inerentes a uma intervenção psicomotora: (1) Avaliação inicial e Planificação; (2) Implementação do Programa de Intervenção; (3) Avaliação Final.

Desta forma, numa primeira fase considera-se importante que haja uma identificação do indivíduo que será alvo de intervenção, na qual se tem em conta os seus dados anamnésicos, observacionais e de avaliação mais formal. Aqui tenta-se ainda compreender quais os motivos que levaram à necessidade de uma intervenção psicomotora. É então essencial a organização da história clínica e uma recolha de dados anamnésicos rica, assim como perceber quais as expectativas que se tem em relação ao papel da PM no processo de tratamento do sujeito (Costa, 2008).

Todos os dados reunidos nesta fase serão fundamentais para poder ser definido um perfil individual, no qual constam as caraterísticas do indivíduo, nomeadamente as suas áreas fortes e áreas que seria importante potenciar. Para tal, é essencial a existência de uma fase de observação, algo que exige alguma experiência e maturidade por parte do observador (Fonseca, 2010). Esta permite captar a personalidade psicomotora do sujeito, nomeadamente a qualidade dos processos que estão na origem da integração, elaboração e regulação da sua ação e/ou comportamento, sem procurar definir ou enquadrar essa observação num valor numérico ou quociente (Fonseca, 2010). A observação permite também analisar, mais uma vez de forma qualitativa e sem ter em conta apenas o rendimento, os sinais psicomotores que possam explicar a integridade ou a disfunção evidenciada em determinado desempenho, sendo que neste âmbito o ato motor não é avaliado apenas de acordo com a sua componente eferente, mas sim como o resultado de um funcionamento psíquico superior, que representa, elabora, integra, programa, regula e verifica informações (Fonseca, 2006). Através da observação é revelado o estado dos principais processos de desenvolvimento do sujeito, a sua maturação e adaptação (Saint- Cast, 2004). Poderemos agora questionar qual será a situação do observador neste campo. Neste caso o psicomotricista, no sentido de atingir os objetivos para esta fase inicial, envolve-se numa mediatização com o sujeito, que se prevê intensa, criativa e lúdica, e que o encoraja a evidenciar o seu potencial, mantendo-se ambos numa experiência em que se influenciam mutuamente, colocando desde logo em jogo uma significação afetiva, na qual se fornece ao observado motivação e suporte, centrando-se aqui a criação de uma relação positiva (Fonseca, 2010).

Por esta altura poderá ser necessário que exista uma pesquisa sobre a fundamentação para a intervenção em causa, um estudo sobre determinado problema, sempre na busca de uma preparação eficaz para o que poderá encontrar-se na fase de intervenção, e que permita uma interpretação dos dados e formulação de hipóteses. Também por esta altura se define quais os instrumentos de avaliação que se vão utilizar,

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paralelamente à observação, que podem incluir escalas e baterias de testes ou suas adaptações. Estes elementos permitirão formular objetivos para a intervenção, geralmente objetivos gerais e específicos de diferentes domínios, no sentido de satisfazer necessidades, compensando áreas menos boas através de um reforço e ampliação das áreas que já são fortes (Hermant, 2004). Sobre a elaboração de objetivos haveria muito a dizer, mas considera-se essencial realçar as características que estes devem assumir. Assim, serem específicos é essencial, na medida em que esperam um resultado; mas também mensuráveis, no sentido de tornar possível uma quantificação dos mesmos que seja observável; alcançáveis, pois têm de ser realistas em relação aos recursos, sendo por um lado desafiantes mas atingíveis pelo sujeito; relevantes, uma vez que deverá existir uma seleção dos objetivos que, no momento, são fundamentais atingir-se; e temporais, por deverem ser delimitados no tempo, evitando-se a definição de objetivos a longo prazo (M. Rodrigues e Ferrão, 2006). Nesta fase poderá já ser possível refletir em algumas estratégias que poderão facilitar a concretização dos objetivos, assim como algumas atividades que poderão ser realizadas, de acordo comos recursos que, à priori, se sabe que estarão disponíveis na intervenção. Todo este estudo de espaços e material disponível, gostos e preferências da criança deverá ser realizado o mais cedo possível, no sentido de se poder prever e antecipar a intervenção. Esta previsão da intervenção é concretizada através da planificação da mesma, na qual, além dos elementos já referidos, constam ainda informações como o período em que a intervenção se irá realizar, se irá ser realizada uma avaliação intermédia da intervenção, ou qual a data prevista para a avaliação final (Zabalza, 2000).

Depois desta fase inicial, chega a altura de implementar o Programa de Intervenção desenvolvido. Planeiam-se sessões, apresentam-se tarefas, demonstra-se, procura-se uma progressiva autonomia, reforçam-se comportamentos, transferem-se aprendizagens, progride-se, monitoriza-se. Poderá fazer-se uma avaliação intermédia, se se verificar necessário, para que se possam reformular e ajustar objetivos ou estratégias (Zabalza, 2000). Findo o período de intervenção, torna-se essencial realizar uma avaliação final do trabalho desenvolvido. Mais uma vez ocorre um processo de recolha de informação, que visa averiguar a coerência da intervenção e a qualidade da mesma, também no sentido de ajustar a intervenção às novas necessidades do sujeito, tornando o processo mais preciso e fidedigno (Zabalza, 2000).

Relativamente à avaliação, muito se tem argumentado acerca desta ação. Considera-se que avaliar é uma tarefa difícil de realizar, contudo esta é feita dezenas de vezes por dia, mesmo que inconscientemente, quando, por exemplo, se avalia alguém pela sua aparência. Poderá até olhar-se para a avaliação como uma situação injusta, no sentido em que quem avalia parece ser superior ao avaliado, sendo que uma avaliação não deveria determinar a forma como se irá olhar para essa pessoa daí em diante, sobretudo quando as avaliações são quase sempre para detetar dificuldades. Neste sentido, não se pode esquecer que quando há a perceção de que se está a ser avaliado é natural que o rendimento diminua bastante, adotando-se comportamentos menos espontâneos e uma postura por vezes mais tensa e contraída (Costa, 2008). Assim, sugere-se que, ao avaliar, se adote uma postura não ameaçadora, uma atitude natural de quem se vai conhecer, no sentido de tornar a experiência agradável e interessante quer para avaliador quer para o avaliado. Não esquecer ainda que há que ter em conta que, numa fase inicial, a pessoa observada (assim como em qualquer tipo de interação) irá mostrar os seus gostos, interesses e preferências e as competências positivas que tem adquiridas. Numa fase posterior, e apenas se tiver sido possível criar condições de segurança no Outro, é que se desvendam dificuldades (Costa, 2008). Fundamental é ainda ter a ideia de que os primeiros a serem observados somos nós, terapeutas. Seja pelos pais das crianças, quer seja pelos colegas de equipa. A atitude a adotar deverá ser pautada pela empatia, compreensão mútua, simpatia, ou seja, todas as atitudes que possam fomentar a afinidade e a partilha e afetos e emoções (Costa, 2008).

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4. Psicomotricidade em Crianças e Jovens em Risco/