5 Presentasjon av funn og analyse
5.1.8 Adspredelse vs. distraksjon
Tal como foi referido anteriormente, no âmbito da intervenção psicomotora foram realizadas sessões de PM direcionadas para o restabelecimento do equilíbrio afetivo- emocional, nomeadamente com uma das crianças que foi selecionada para Estudo de Caso deste relatório e, como tal, será apresentado posteriormente de forma mais detalhada. Com as restantes 3 crianças, trabalhou-se sobre o desenvolvimento e construção da sua identidade, uma vez que é um domínio que preocupa as Equipas deste LIJ, devido ao impacto inerente a uma situação de institucionalização.
Desta forma, elaborou-se um programa de intervenção que teve como objetivo essencial a promoção da organização do “Eu” e da Construção da Identidade. Trabalhou- se, sobretudo, sobre a promoção da consciência de si, dos elementos corporais, do controlo da respiração, da coordenação dos elementos corporais e do equilíbrio corporal, seguindo algumas orientações de Vayer (1980) para o trabalho nestes domínios. Paralelamente, e sobretudo nos momentos iniciais e finais das sessões, procurou-se também promover a capacidade reflexiva de cada criança, trabalhando-se a identificação das emoções e compreensão dos seus estados emocionais; assim como a capacidade de pensar sobre os seus comportamentos, existindo sempre uma clarificação do sistema de limites, regras, reforços e consequências das suas ações. Todo este trabalho visou uma promoção das potencialidades e capacidades motoras, cognitivas e socio-emocionais de cada criança, prevendo-se, assim, uma melhoria das suas capacidades adaptativas nos diferentes contextos de vida.
Como percebemos, toda a dinâmica que envolve um acolhimento institucional leva a interrupções nas relações de vinculação e de cuidados, o que poderá traduzir-se numa desorganização das estruturas psíquicas, nomeadamente numa frágil organização do “Eu”. Assim, é aconselhável trabalhar-se este aspeto, no sentido de tornar a criança capaz de construir uma Identidade consistente e coerente, onde compreenda a sua história, se conheça e aceite como é e seja capaz de se projetar no futuro (P. V. Santos e Pimentel, 2014). O facto de a criança ter uma boa perceção de si, das suas capacidades e dificuldades, como também ser capaz de se valorizar em função das mesmas, permite-lhe adequar os seus comportamentos, solucionar problemas e adquirir melhores recursos para lidar com as dificuldades do seu dia-a-dia, familiares, académicas ou sociais (P. V. Santos e Pimentel, 2014). Acredita-se que tudo isto se traduzirá numa maior capacidade de adaptação à vida futura (P. V. Santos e Pimentel, 2014). Como tal, uma intervenção atempada a este nível será sempre vantajosa, daí a proposta da realização deste trabalho junto destas crianças.
44
Neste sentido, e como foi referido, todo o trabalho desenvolvido no âmbito da intervenção psicomotora procurou favorecer o desenvolvimento de uma estruturação progressiva, permitindo uma organização da narrativa identitária de cada criança, promovendo, assim, o seu autoconceito, autoestima e autoconfiança (P. V. Santos e Pimentel, 2014). Toda a intervenção foi ainda desenvolvida com o pressuposto de que o dinamismo motor se encontra interligado com o dinamismo psíquico (Fonseca, 2005). Assim, o ato motor (do jogo, da dança, do drama, do desenho) vai interferindo com a integração, a representação e a elaboração psíquica, reorganizando e reestruturando todos os níveis de relação entre o organismo e os ecossistemas onde este se situa e desenvolve (Fonseca, 2005). Como percebemos, é esta ponte que procuramos estabelecer ao trabalhar com esta população-alvo, que acaba por estar suscetível a um dinamismo psíquico alterado, ao qual poderemos aceder através do âmbito motor, no sentido de uma reestruturação e reorganização individual.
Será então essencial perceber que a consciência corporal, expressa ao nível sensório-motor, evolui posteriormente para uma representação organizada com referências temporais e espaciais (Lima e Rodrigues, 2004). Contudo, para que estas referências sejam adquiridas, são imprescindíveis as interações que a criança realiza com o mundo a diversos níveis, nomeadamente o afetivo, social e/ou cognitivo (Lima e Rodrigues, 2004; Vayer, 1980). Assim, diversos autores defendem que a frequência e a variedade destas interações são determinantes para que a consciência que cada criança tem do seu corpo seja construída.
Desta forma, e tendo em conta que, por um lado, a população alvo de intervenção tem idades compreendidas entre os 4 e os 8 anos e, por outro, sabendo que as vivências destas mesmas crianças são um fator de risco para um pobre desenvolvimento da sua consciência corporal, o que, consequentemente, não favorece o desenvolvimento saudável da sua identidade, entendeu-se que seria benéfico trabalhar este domínio. Segundo Lima e Rodrigues (2004), trabalhar a consciência corporal no âmbito da intervenção psicomotora é essencial, na medida em que se está a aprimorar a sensibilidade e a complexidade daquele que é o maior instrumento de trabalho nesta área: o Corpo.
De acordo com as indicações de diversos autores, mas sobretudo Lima e Rodrigues (2004), a intervenção planeada teve em conta 6 dimensões para alcançar os objetivos: dimensão sensorial, diferencial, simbólica, expressiva, relacional e cultural. De cordo com os mesmos autores, estes domínios permitem que o sujeito adquira um conhecimento do seu corpo, da representação do mesmo e da ação que este exerce sobre os contextos em que a pessoa está inserida.
Assim, na dimensão sensorial incluíram-se atividades que exigiam uma atenção especial sobre o corpo, para ser possível ouvi-lo. Assim, muitas delas foram realizadas de olhos fechados (e.g. ser conduzido apenas através do toque). Já a dimensão diferencial, caraterizada por experiências corporais de situações não-padronizadas, ou seja, situações habituais ou inéditas que se realizam modificando alguns parâmetros, permite a vivência de sensações inesperadas, que alteram então os parâmetros previsíveis da experiência corporal, nomeadamente através de atividades em que os sujeitos se cumprimentam usando os pés e não as mãos, o que levará à descoberta de novas caraterísticas do próprio movimento, do seu controlo e da sua sequencialização (Lima e Rodrigues, 2004). Relativamente à dimensão simbólica, diretamente relacionada com a representação do corpo, consistia em possibilitar uma expressão da experiência corporal através de diferentes formas, nomeadamente o desenho, a pintura ou o som, entre outros, tornando possível uma maior interiorização e consciência tanto das componentes do movimento como também do significado emocional ou afetivo do mesmo (Lima e Rodrigues, 2004). Trabalhou-se também numa dimensão expressiva, que se refere à expressão corporal e que faz a ponte entre o mundo interno e o mundo externo do sujeito. De forma quase inevitável, trabalhava-se igualmente a dimensão relacional da consciência corporal, isto
45
porque, como sabemos, o corpo é peça fundamental para a comunicação com o Outro, tanto do ponto de vista da emissão como da receção de informação (Lima e Rodrigues, 2004). Desta forma, colocava-se em evidência o conhecimento do sujeito sobre a forma como o seu corpo se comporta na relação com o Outro, nomeadamente em termos da sua tonicidade, sudação, expressão da face, entre outros (Lima e Rodrigues, 2004). Por fim, será importante reconhecer que se tem uma cultura corporal, que depende precisamente de cada cultura e que permite uma reflexão acerca das diferenças e semelhanças nomeadamente em termos de gestos, distâncias, dimensões corporais, entre diferentes culturas (Lima e Rodrigues, 2004).
Dentro desta sequência de dimensões, esteve ainda incluído o desenvolvimento de uma atividade de desenho do corpo em tamanho real. Este trabalho procurou que a criança ganhasse a consciência dos seus limites corporais, havendo uma consolidação do conhecimento de si próprio, condições fundamentais para a organização da sua identidade (Costa, 2008). Ao mesmo tempo, promoveu-se o conhecimento das várias partes do corpo, assim como das suas competências, capacidades, gostos, valores, opiniões, mas também das suas dificuldades e limitações.
Considerou-se ainda pertinente a existência de alguns momentos relaxação, geralmente usados para diminuir os níveis de atividade da criança (no início da sessão quando chegava mais agitada ou no final, como um momento de retorno à calma). Acredita- se que este tipo de técnicas tem como potenciais efeitos uma descontração neuromuscular e psíquica, tornando possível a aquisição de um estado de repouso e calma, obtendo-se um equilíbrio orgânico, podendo até funcionar como uma estratégia reparadora para estas crianças (Costa, 2008; R. Martins, 1990). O estado de repouso e calma interior proporcionados conduzem ainda a uma integração da corporalidade da criança (Costa, 2008).
Depois de cada experiência, procurou-se, na fase final de cada sessão, refletir acerca da mesma, sendo pedido à criança para partilhar sensações, sentimentos e pensamentos vivenciados.
Assim, de uma forma geral, e tendo sempre por base o corpo e o movimento, num clima relacional de segurança, procurou-se que as crianças vivenciassem uma estabilidade emocional dentro das sessões, que lhe permitisse a expressão de todos os seus estados internos de uma forma segura, sendo sempre potenciada a sua capacidade simbólica. Assim, ao desenvolverem determinadas capacidades em contexto de sessão, acredita-se que serão capazes de as extrapolar para contextos exteriores, revelando, sobretudo, uma capacidade crescente de conhecimento de si. Privilegiou-se um tipo de relação/comunicação que permitiu a troca de sentimentos e emoções, através de diferentes formas de linguagem (corporal, verbal, gráfica, plástica).