Viver com uma condição crônica de saúde pode representar contínua ameaça tanto para a própria pessoa, quanto para os que estão próximos a ela, pois essa condição afeta sua vida como um todo, alterando, significativamente, seu cotidiano. As pessoas integrantes do estudo indicaram que as limitações trazidas pelo tratamento modificaram seu processo de viver, interferindo nas atividades diárias, tais como estudo, vida social, afazeres domésticos,
contudo, elas procuravam superar as dificuldades advindas da sua condição de saúde. A vontade de superar as dificuldades vivenciadas aparece nas falas abaixo:
É complicado ter que dialisar, só quem vive sabe [...] por isso a gente tem que aproveitar melhor o tempo que ficamos dialisando, que não é pouco. (A3- 17 anos) Espero que seja bom, pois faremos durante a diálise e de costume não fazemos nada de interessante neste tempo. Vai ser legal fazer coisas diferentes e mostrar que sou capaz de fazer muita coisa. (A5- 13 anos)
... sempre é bom acreditar que tudo vai melhorar, pois se a gente não acreditar nisso fica difícil aguentar, mas quando o tempo passa a gente vê que enfrentou muita coisa e continua vivendo. (A7 - 13 anos)
A satisfação das pessoas com domínios da vida são os elementos que participam da qualidade de vida, destacando o engajamento com trabalho produtivo e manutenção do curso de sua vida, como fatores que são fundamentais nesse processo (SILVA et al., 2005).
A dinâmica do acompanhamento das pessoas nos serviços de saúde e a atenção a elas dispensada pelos profissionais de saúde estão predominantemente centradas no modelo biomédico, da queixa-consulta, em que os serviços de saúde estão estruturados para intervir sobre os agravos à saúde, onde os profissionais em sua maioria atendem demandas coerentes apenas com sua instrumentalização clínica, ou seja, este modelo de atenção à saúde é insuficiente para atender as necessidades psicossociais dos usuários (LIMA; FRAGA, 2001).
Os portadores de doenças crônicas vivenciam muitos momentos junto a uma equipe multiprofissional, e dessa maneira, esses profissionais devem aproveitar todos os momentos de interação para que sejam exploradas escolhas e mudanças possíveis de serem realizadas pelos pacientes, na busca de melhor qualidade de vida e saúde mental, apesar da doença (GULLO; LIMA, SILVA, 2000).
Especificamente, a insuficiência renal crônica impõe às pessoas uma série de modificações de atividades e novas perspectivas de vida, impulsionando-as à adoção de um modo de viver diferente, incluindo a dependência ao tratamento ambulatorial e auxílio constante de outras pessoas. Dessa maneira, para a equipe de saúde, torna-se necessário estabelecer relações fundamentadas na confiança e compreensão, além de sólidos conhecimentos técnico-científicos. Caso contrário, a falta de aderência ao tratamento será mais um complicador na qualidade de vida do portador de doença renal crônica.
5.2 - As oficinas vivenciais como tecnologia leve no cuidado de Enfermagem ao adolescente em hemodiálise
Neste tópico foi discutido a implementação da tecnologia leve no cuidado de enfermagem, por meio das oficinas vivenciais.
A tecnologia leve se traduz nas relações, relações estas que são essenciais para o processo de cuidado e que devem estar imbricadas à atitude do profissional, e que por vez refletem o seu modo de ser, a sua subjetividade, e o que ela representa no seu cotidiano profissional.
O termo tecnologia leve se remete ao processo de relações inerente a qualquer encontro entre usuário e profissional, pelo seu caráter relacional, que anuncia certa forma de agir entre os sujeitos implicados com a produção de saúde (MERHY, 1997).
Sobressaem as tecnologias leves quando se opera um jogo de expectativas e produções, criando-se intersubjetivamente alguns momentos interessantes como momentos de falas, escutas e interpretações (PONTE, 2011).
Para uma melhor compreensão do trabalho aqui desenvolvido, apresentaremos a tecnologia leve, descrevendo a sua prática através das técnicas grupais e estratégias utilizadas na sua implementação no cotidiano da assistência ao adolescente renal crônico em hemodiálise, objeto deste estudo. As atividades grupais desenvolvidas e trabalhadas no processo de investigação buscam avaliar o seu alcance na mudança de comportamento dos adolescentes assistidos na perspectiva da promoção da saúde mental e da qualidade de vida.
Para implementação das ações de tecnologia leve, como cuidado de enfermagem, desenvolvemos oito oficinas vivenciais, as quais foram planejadas com antecedência e seguiram uma dinâmica própria, dividida em três momentos: aquecimento, desenvolvimento e síntese.
No Quadro 1 apresentamos a síntese do processo de desenvolvimento de cada oficina vivencial, para facilitar a compreensão do emprego da tecnologia leve como estratégia do cuidado de enfermagem.
Antes e após cada encontro era aplicado um instrumento (Apêndice G) que tinha a finalidade de avaliar como os adolescentes estavam chegando e como estavam saindo do encontro.
Quadro 1 - Síntese descritiva da dinâmica das oficinas vivenciais realizadas com
adolescentes com IRC durante a hemodiálise. Fortaleza - CE, 2012.
OFICINAS OBJETIVOS TÉCNICAS MATERIAIS SÍNTESE
1 Apresentar/ conhecer o grupo. 1-Aquecimento: Minha prancheta. 2-Temática: O catálogo.
Cola, pasta com divisória de sacos plásticos, cartolina, recorte de revistas, papel A4 branco, papel madeira (1,5 x 1,0 m).
Apresentação das produções individuas; elaboração de um painel denominado O Grupo; expressão sobre o significado daquele momento fazendo uma relação com o painel construído pelo grupo.
2 Discorrer sobre sonhos, afetividade e perspectivas. 1-Aquecimento: Pensamento positivo. 2-Temática: O presente.
Papel oficio branco, lápis de cor, canetas pincéis coloridas, giz de cera.
Elaboração de desenhos para expressar o que os adolescentes gostariam de receber e presentear; exposição dos desenhos para o grupo, falando o que representavam; avaliação do encontro verbalizando o que significou o momento vivenciado. 3 Trabalhar auto-estima, valores, expectativas. 1-Aquecimento: Adivinha quem é? 2-Temática: Livro mágico.
Livro, cola e espelho. Os adolescentes contaram a sua história; apresentação de cada adolescente resumindo em uma palavra o que representou para eles o momento, sendo registrado em um painel para conhecimento do grupo. 4 Promover a integração do grupo e comunicação. 1-Aquecimento: Tempestade de ideias 2-Temática: Amigo secreto.
Papel ofício branco, canetas, lápis de cor e giz de cera.
Discussão dos temas acolhimento, interação, respeito e equipe. Após a técnica central foi pedido aos adolescentes para responder o que significou para eles participar do encontro. 5 Discutir valores, sentimentos, respeito às diferenças. 1-Aquecimento: História do nome 2-Temática: A escada.
Papel ofício branco, canetas, tesoura, cola e papel madeira.
Apresentação das produções escritas; elaboração de um painel denominado A escada do grupo e verbalização sobre o significado do que foi produzido fazendo uma relação com o painel do grupo. 6 Abordar sobre a temática droga. 1-Aquecimento: Caixa de surpresa 2-Temática: O toque. Caixa de sapato, de tecido de seda, lixa pequena, palha de aço, algodão, massa de modelar, compressa gelada e compressa morna.
Expressão das sensações proporcionadas pela técnica aplicada, relacionando ao tema das drogas; discussão em grupo e verbalização do significado de trabalharem esta temática no grupo. 7 Estimular a verbalização de informações ainda não conhecidas pelo grupo e proporcionar a integração dos participantes 1-Aquecimento: O corpo fala 2-Temática: janela da alma.
Papel ofício branco, canetas, caixa de madeira, bola pequena.
Exposição do grupo por meio da técnica trabalhada Janela da alma; avaliação do encontro utilizando as seguintes exclamações: Que bom! Que pena! Que tal? 8 Avaliar o que foi trabalhado nas oficinas e o que representou para os adolescentes 1-Aquecimento: Saudade. 2-Temática: a mochila. Papel ofício branco,canetas, caixa de madeira, figura de uma mochila no tamanho 22x15 preto e branca, lápis de cor, giz de cera e canetas pinceis coloridas.
Apresentação das produções
individuais; discussão em grupo sobre o
painel construído pelo grupo
denominado A bagagem; expressão sobre o significado dos encontros fazendo uma relação com o painel e que representa o grupo.
A partir deste momento iremos discorrer sobre a implementação do cuidado de enfermagem por meio da realização de oficinas vivenciais, estratégia utilizada como tecnologia leve na assistência ao adolescente renal crônico em hemodiálise, nas quais trabalhamos: acolhimento, autoexpressão e vínculo.
Ao longo deste capítulo, nos deteremos na descrição do processo de planejamento e desenvolvimento de cada oficina, voltando nossa atenção à avaliação deste tipo de instrumental de cuidado em enfermagem em ambiente extremamente complexo e de muitas demandas por tecnologia dura e leve-dura. Interessa-nos, também discutir, não só, a importância deste tipo de cuidado de enfermagem, mas, sua viabilidade e adequação na assistência à clientela estudada.
Serão descritos os oito encontros realizados, destacando-se cada momento do processo de desenvolvimento das oficinas vivenciais, com as técnicas e materiais utilizados, os objetivos e a avaliação, entre outros aspectos estruturais.