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3) EXPERIMENTAL MATERIALS & METHODS

3.7 Wettability Evaluation

Como vimos, no caso da cultura digital, a perspectiva de diálogo com os setores da sociedade ditos periféricos passa necessariamente por um reconhecimen- to do papel fundamental que agentes informais, como as lan houses, cumprem

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na inserção das novas tecnologias no cotidiano do país. Porém, parte do poder público e dos próprios gestores das lan houses parecem ainda não terem se dado conta disto, como aponta a Pesquisa Sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil – TIC Lan house24

Realizado em 2010, o estudo indica as lan houses como espaços frequentados principalmente por jovens e pessoas com baixa renda e escolarização. Associe a isto à oferta massiva de entretenimentos eletrônicos diversos e jogos por vezes tomados como violentos, e temos um cenário propício à marginalização e preconceito. No Rio de Janeiro, icou famosa a Lei 4782/06 que proibia a instalação de qualquer lan house em um raio de 1 quilômetro de qualquer unidade de ensino fundamental ou médio. Autor desta legislação, o deputado estadual Paulo Melo defendia que a mesma ainda não era suiciente e que “deveriam ser tomadas medidas ainda mais duras, como a proibição destes estabelecimentos”25.

Aprovada em 2006, a proibição esteve em vigor até o im de 2010, quando foi revogada após intensa campanha da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (Abcid) com apoio do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direto da Fundação Getúlio Vargas. Os debates e a mobilização contribuíram localmente para um maior entendimento do papel das lan houses na alfabetização digital para o século XXI, no entanto, de um modo geral, a maior parte dos gestores destes estabelecimentos continua enxergando seus empreendimentos simplesmente como ações comerciais. Apenas 10% dos gestores de lan houses entrevistados na pesquisa do Comitê Gestor da Internet apontaram a vontade de promover a inclusão digital como um dos motivos para abertura de seu estabelecimento.

Talvez o uso expressivo de tecnologias proprietárias nestes ambientes relita a falta de consciência de seus gestores do importantíssimo papel que seus empre- endimentos desempenham no contexto de disseminação das novas tecnologias de informação no país. Sobre a opção pelo software livre como sistema operacional, a pesquisa do Comitê Gestor da Internet mostra que a região sudeste encontra-se em posição privilegiada, em comparação com o restante do país. Cerca de 17% dos donos destes estabelecimentos na região citaram o uso do sistema GNU/Linux, através da popular distribuição Ubuntu. O índice só é superado pelos estados do sul do país, que atingem a marca de 21% das lan house com sistemas operacionais livres.

24 Disponível em: http://www.cetic.br/tic/lanhouse/2010/index.htm. Acessado em 02.11.11. 25 Disponível em: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI1055612-EI306,00-RJ+lei

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As culturas digitais dos Pontos de Cultura e Lan houses

A incompatibilidade com certos aplicativos, em especial jogos, e a facilidade na obtenção de versões piratas dos programas proprietários também são fatores importante para esta predominância dos sistemas Microsoft Windows dentre as lan houses. Esta é uma fronteira importantíssima para a disseminação do software livre para além dos Pontos de Cultura, Universidades e telecentros governamentais. A pesquisa publicada pelo CGI oferece um excelente diagnóstico sobre esta questão e a importância do Estado fomentar o uso de softwares livres como uma maneira de promover a autonomia tecnológica do país:

“As políticas públicas que forem formuladas a im de estimularem a formali- dade na atuação das lan houses deverão necessariamente incorporar o uso de sistemas operacionais na agenda política, respeitando a realidade em que se inserem e a sua sustentabilidade (...) A oferta de outros sistemas operacionais cria a oportunidade de se desenvolver uma cultura de software livre, explorando o benefício da diversidade e da legalidade oferecido pelos sistemas gratuitos de código aberto e do processo colaborativo de construção de conhecimento, que poderiam aproximar a lan house dos seus usuários mais assíduos e avançados. Por im, vale destacar que esse tipo de estabelecimento tem atuado como porta de entrada para a inclusão digital de muitos cidadãos, e a falta de alternativas de sistemas operacionais disponíveis limita o contato desses usuários a softwares proprietários desde o início da sua relação com a tecnologia.”

(Pesquisa Sobre o Uso das Tecnologias da Informação | e da Comunicação no Brasil – TIC Lan house)

Segundo a pesquisa de avaliação do programa Cultura Viva26, no caso dos

Pontos de Cultura, o cenário é um pouco mais favorável no que tange à adoção de ferramentas livres e do próprio conceito de cultura digital. Observando o grau de adesão dos Pontos de Cultura às propostas do Programa Cultura Viva, é possível notar que os conceitos de trabalho em rede e cultura digital estão entre as propostas que mais encontraram ressonância com as práticas efetivadas pelos Pontos: 91% dos grupos participaram dos encontros presenciais periódicos da rede (eventos conhecidos como TEIA); 68% interagem e se comunicam em rede com outros Pontos; e, por im, 61% aderiram de algum modo ao conceito de cultura digital.

26 Cultura Viva: Avaliação do Programa Arte, Educação e Cidadania. Disponível em:

http://www.cultura.gov.br/culturaviva/wp-content/uploads/2010/11/Cultura-Viva_- Avalia%C3%A7%C3%A3o_Programa_Cultura_Viva1.pdf. Acessado em 02.11.11.

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Na ação cultura digital planejada pelo Ministério da Cultura, os Pontos de Cul- tura recebem um kit multimídia (computadores para edição audiovisual, equipamento de som, câmeras de vídeo e de fotograia, entre outros materiais) e se comprometem com a utilização de softwares livres e em especial do GNU/Linux como sistema operacional dos computadores. A região sudeste destaca-se no contexto da cultura digital por ter o maior número de pontos que adotou o uso de sistemas e programas de código-aberto (em um total de 45% dos grupos deste recorte geográico) e utilizou as ferramentas digitais não só para participar de redes já existentes, mas também para criar outras novas (15% dos Pontos de Cultura do sudeste).

Em nível nacional, dentre os problemas das práticas de cultura digital no universo dos Pontos de Cultura, destacam-se as diiculdades da equipe dos Pontos de Cultura em se auto-capacitarem no uso de software livre e a insuiciência do suporte técnico externo. Segundo a mesma pesquisa, durante as visitas “a ação foi reportada frequentemente como muito importante, mas também foram aponta- dos muitos problemas, entre eles as diiculdades de acompanhamento, assistência técnica inadequada, e outras inerentes ao uso de ferramentas livres. Entre estas, evidenciou-se a inadequação de algumas para uso no campo artístico, em especial no campo audiovisual”.

Atualmente, é possível fazer alguns questionamentos a partir deste diagnóstico do programa nacional, que encontra ressonância localmente no Estado do Rio de Janeiro. Primeiro, há certa confusão sobre o papel dos capacitadores em cultura digital, entendendo-os como meros assistentes técnicos no uso de software livre ou como prestadores de serviços para os Pontos de Cultura, com a expectativa de que aqueles tragam soluções prontas ou resolvam por conta própria os problemas enfrentados.

Dada a capilaridade da rede, é praticamente impossível prestar suporte indi- vidualmente para cada uma das dúvidas e problemas que aparecem durante o uso dos equipamentos físicos e programas para a produção de materiais e conteúdos dos Pontos de Cultura. Deste modo, as ações da equipe de Cultura Digital primam por transmitir primordialmente as habilidades necessárias para uma formação baseada no autodidatismo em rede, de modo que não se dependa sempre de uma única fonte para resolução dos problemas. Não se trata de prestar um serviço, tendo em vista entregar ao Ponto de Cultura um produto inal acabado, seja ele um vídeo, um site ou um CD de áudio, por exemplo. Sem que a equipe ou a comunidade do Ponto de Cultura compreendam como se chegou àquele resultado e possam por conta própria reproduzi-lo, não se cumpre com as premissas de apropriação tecnológica e fortalecimento de produções autônomas, essenciais para o conceito de cultura digital, conforme já visto.

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As culturas digitais dos Pontos de Cultura e Lan houses

Outro ponto a se destacar é o recorrente questionamento quanto à eicácia do uso de softwares livres para produção audiovisual. Se tempos atrás havia certa debilidade dos programas de código-aberto para edição de vídeo, quando compa- rado às soluções proprietárias do mercado, atualmente o cenário é outro. Diversos produtores e cineastas proissionais utilizam aplicativos livres para edição de seus trabalhos, destacando-se os editores de vídeo Kdenlive e Cinelerra como uma das mais potentes soluções para esta área. Neste âmbito, vale destacar a contribuição do Núcleo de Cultura Digital do Escritório de Apoio à Produção Cultural no desenvolvimento e fortalecimento de comunidades de softwares abertos voltados para produção multimídia, em especial nas aplicações DVDStyler (autoração de DVDs) e Synigstudio (animação 2d), através da elaboração de módulos de extensão e tradução dos programas para o português.

As ações de Cultura Digital no âmbito da Secretaria de Estado de Cultura do Rio Janeiro partem também de um entendimento particular sobre a utilização do software livre, cuja ênfase está mais na compreensão do conceito e das razões desta escolha tecnopolítica do que na utilização exclusiva e obrigatória de certos sistemas e programas especíicos. Assim, antes de qualquer capacitação instrumental são rea- lizados debates e diálogos sobre a história e ilosoia do software livre, comunidades colaborativas em rede, produção de mídia independente, conhecimento aberto e a importância de tais temas atualmente na chamada sociedade do conhecimento.

Também vale lembrar que o conceito não é algo monolítico. Mesmo algumas distribuições da plataforma GNU/Linux contam com alguns pacotes de progra- mas proprietários (conhecidos como “binaries blobs”), necessários para manter a compatibilidade do sistema com certos tipos de placas e equipamentos. Do mesmo modo, ainda que utilizando um sistema operacional proprietário como Windows ou Mac OS, é possível trabalhar com softwares livres que possuam versões multi- plataforma, como é o caso dos editores gráicos Inkscape e GIMP; do Blender; do navegador Firefox; do Wordpress, o mais popular sistema gerenciador de conteúdo para web; entre muitos outros.