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Em dezembro de 1979, Celeida, juntamente com um grupo da ofi cina de Artes do Fogo da EAV, foi convidada por dois sambistas a visitar o Morro de Chapéu Mangueira. Na subida escorregou no barro e deste escorregão constatou a fonte de recursos naturais para uma possibilidade de atividade para a comunidade. Durante o samba, propôs aos dirigentes da Associação “Amigos de Chapéu Mangueira” o desenvolvimento de um trabalho voltado para a comunidade, com apoio da EAV, que usaria o barro, matéria prima que a própria comunidade tinha. A proposta foi aceita. O Projeto “Formação de Centros de Cerâmica

Utilitária nas Comunidades da Periferia Urbana chamadas Favelas” teve início em abril de 1980, tendo o Morro de Chapéu Mangueira como Plano- Piloto. Outro fator importante para a escolha do local foram as áreas verdes, características que tornou mais fácil a construção de fornos e a prática da queima. A Associação do Morro de Chapéu Mangueira está situada na parte alta do Leme, bairro da zona sul, subindo a Ladeira Ari Barroso, de um lado fi ca o Morro da Babilônia e do outro o Morro da Associação Amigos de Chapéu Mangueira. A partir de 1927 foi se desenvolvendo, tornando-se um grande complexo de moradias. Quando o projeto iniciou a comunidade já tinha um sistema organizado, com presidente com mandato de três anos, escolhido pelo voto direto, diretoria com doze membros eleitos e distribuídos entre as atividades de Administração, Controle de Luz, Posto Médico, Escola Maternal e Jardim, Departamento Feminino, Setor de Obras, Relações Públicas e Divulgação, Departamento Jurídico, Urbanização, Contato Interior e Exterior, Água e Esgoto e o Galpão de Arte. (TOSTES, 1986, p. 8) Celeida expôs para a platéia do Seminário de Folclore e cultura Popular realizado em 1992, no Rio de Janeiro, que todos participaram, crianças e adultos, uma soma de esforços e que através de mutirões, uma prática da comunidade nas construções de suas casas, construíram o galpão de arte, consultório, casa do samba. (TOSTES, 1992). Parece regozijar-se quando observa que:

Trabalhar com o barro, material primevo, pasta primeira, que traz o gozo do mole, como diria Gaston Barchelard, promove uma forma de relação intensa. A retirada do barro já era uma atividade feliz, uma descoberta. (TOSTES, 1992)

Destarte todo o trabalho na área comum foi realizado em forma de mutirão como o Galpão de Arte, um forno de lenha para cerâmica, que atingia 1200°, a recuperação da Escola (Maternal e jardim) e a construção de um novo Posto Médico incluindo Clínica Odontológica com proposta de amplo atendimento às crianças. Os tijolos foram garimpados em lixos, cacos, bem como doados por famílias. O projeto se auto-sustentou e em três etapas teve ajuda da Funarte.

A intenção de formar Centros de Cerâmica utilitária nesse tipo de comunidade urbana voltando-se para a compreensão de uma tecnologia alternativa e de sobrevivência, além de geração de renda, prende-se ao objetivo de resgatar as raízes culturais e a mão-de-obra em desuso quando da saída de uma pequena cidade para grandes centros urbanos. É a paneleira de anos atrás que agora é lavadeira; é o oleiro e o construtor de caieiras que agora é carregador ou porteiro; ou ainda, aquela mulher de 70 anos que nunca tinha tocado em barro, mas que pode viver, através dele, o seu cotidiano e a sua fantasia. (TOSTES, 1986, p. 8)

Com esta iniciativa Celeida enlaça o artístico ao social e ao econômico no caminho do saber e considerando uma prática de desenvolvimento local e sustentável. Uma proposta de utilização da arte como instrumento de resgate de cultura local e integração de saberes, na busca de qualidade de vida, sustentada pela solidariedade e fundamentada em valores éticos.

Em entrevista ao pintor Luiz Áquila (2009) perguntamos se Celeida tinha uma atuação política partidária, ele respondeu que não, que a artista na verdade era muito ligada ao outro e

tinha um grande sentimento de solidariedade. Celeida nunca foi política no sentido ideológico, ela praticava um papel político social, como no Morro de Chapéu Mangueira, quando sobe e escorrega no barro e vê a possibilidade da matéria prima argila se transformar em trabalho da comunidade. Aí começa uma obra social.

Celeida propõe um Ateliê de Cerâmica utilitária a ser freqüentado principalmente pelas mulheres do chapéu mangueira, em torno dele e pela necessidade das mães começa um centro de convivência para crianças, uma creche, as mães que não se ocupam com cerâmica passam a fazer doces e compotas para serem vendidas, ao mesmo tempo, que as cerâmicas. Celeida tinha um amigo dentista, Dr Guerra90, que montou um gabinete dentário para atender a comunidade. Então, em torno da obra de Celeida começa acontecer muita coisa importante para aquela comunidade, que uma assistente social não seria capaz de fazer porque talvez não tivesse a idéia da plasticidade e de perceber que aquele material poderia se transformar numa outra coisa. (ÁQUILA, 2009, informação verbal)

90 Trata-se de João Guerra, segundo Celeida Tostes atendia tanto os moradores do Morro de Chapéu Man- gueira como do Morro da Babilônia. Fonte: Arquivo Audiovisual Biblioteca Amadeu Amaral - CNFCP/IPHAN

Figs. 84 e 85 - Celeida Tostes em atividades no Morro de Chapéu-Mangueira. Fonte: Jornal do Brasil, 1981. Fotos: Maria Helena Almeida.

O pintor, e amigo, de Celeida destaca que a única vez que viu Celeida ter uma atuação na política convencional, foi quando ajudou na campanha da amiga Benedita da Silva. Bené morava no Morro de Chapéu Mangueira onde foi líder comunitária. Na realidade é que Celeida atuou como artista, educadora ecidadã de uma maneira muito transformadora, mas sem ligação com uma ideologia política.

Segundo Celeida Tostes (1982) o projeto tinha como objetivo inicial a recuperação de valores culturais e a estimulação da consciência comunitária para o desenvolvimento sustentável, usando os recursos naturais de que dispunha: a argila com bastante plasticidade, conforme análises realizadas pelo INT - podendo ser retirada sem provocar signifi cativo impacto ambiental, sem risco de causar desbarrancamento, conforme estudos da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente – FEEMA – RJ - oferecendo orientação e tecnologia para a produção de peças de cerâmica, como panelas e tijolos, onde o resultado fosse revertido para a eles mesmos, e ainda oferecer para os alunos da EAV, de classe mais abastada, a oportunidade de aprendizado com uma comunidade urbana de menor recurso. Ou seja, traz a sua característica marcada pela integração, permite uma ponte, uma possibilidade de trocas e de integração de saberes entre pessoas de classes econômicas distintas.

Nesta proposição Celeida inicia um movimento de refl exão inovador sobre o ambiente inteiro. Propicia, de certa maneira, um espaço multidisciplinar por meio do olhar de outros especialistas, oferecendo através de sua experiência com a arte, educação e técnica, a possibilidade da invenção e da criação espontânea, tornando assim as diversidades mais amenas. Criando a possibilidade do desenvolvimento da individualidade ao mesmo tempo em que do espírito de união. Aproxima-se do que se pode chamar de Desenvolvimento Humano Durável que “considera a necessidade de dividir o espaço com o outro, tendo como principais valores o lazer e as relações de trabalho, conduzindo a um desenvolvimento pessoal e social onde o objetivo é a melhoria da qualidade de vida.” (MACIEL, 2003, p. 11) Tema que entra nas discussões do Programa das Nações para o Desenvolvimento (PNUD), alertando sobre a necessidade de se desenvolver novo paradigma que oferecesse

Fig. 86 - Celeida em atividade com a comunidade do Morro de Cha- péu Mangueira. Fonte: SILVA, Raquel (2006)

“prioridade absoluta à redução da pobreza, aos empregos produtivos, à integração social, e à regeneração do meio-ambiente”, em 1994. (BARTOLI, 2003) Este trabalho assemelha-se ao papel de instituições do terceiro setor e demonstra o caráter inovador e antecipador de seu projeto, inclusive porque é anterior ao movimento mais proeminente de Organizações Não Governamentais (ONGs) no país.

Em 1991 participou como consultora do Projeto “Cruzada do Menor – Meninos de Rua”, na produção de trabalho em Ofi cinas dos Meninos de Rua, no Rio de Janeiro e Alagoas.

Na mesma época Celeida participou do “Casarão da Lapa”, juntamente com Angelo Venosa, Luiz Pizarro e Maurício Bentes. Em um imóvel pertencente à Candinha Silveira, localizado na Rua Visconde de Paranaguá, em um terreno com cerca de cinco mil metros quadrados cheio de árvores frutíferas, construído provavelmente na virada do século XIX e XX, os escultores montaram um ateliê coletivo. Segundo Luiz Pizarro, a casa teve seus dias de glória nas décadas de 20 e 30, quando era um bordel freqüentado por intelectuais e políticos, tendo Manuel Bandeira como um provável freqüentador, já que morava pelos arredores e onde provavelmente se inspirou para compor o poema “O Palacete dos Amores”. (TOSTES, 1991)

Fig. 87 - Moradores do Morro do Chapéu Mangueira com as peças cerâmi- cas expostas no calçadão da praia - RJ. Foto: Henri Stahl