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A Série Vênus surgiu, em 1991, também no bojo das mãos. Celeida faz um paralelo dizendo que no paleolítico superior, a fabricação das pequenas fi guras votivas que se convencionou chamar de Venus, deu-se no bojo das mãos, fazendo uma relação do bojo da mão com o ventre. Assim explica:

Para mim, no paleolítico superior, o nascimento da “Vênus”, ao que se tem confi rmação até agora, deu-se no bojo das mãos. Como se a mão fosse o ventre. Assim, o aperto refl exo da mão no material mole, que também é relação de magia, relação com o corpo da mulher, com a agricultura ou com a fartura, deu origem às Vênus. (TOSTES apud PINTO, 1995, p. 22)

Outra passagem se dá no trabalho de Celeida, dos ovos no bojo das mãos, às “Vênus” no bojo das mãos, o bojo das “Bolas”, o “Bojo” do ventre, o “Bojo da Terra”. Lugar onde a semente brota. Onde seu trabalho nasce e caminha. Segundo Cristina Hennig (2008): Ao nos fornecer esse conhecimento – o “bojo das mãos” como o lugar que gera a confi guração do corpo feminino, Celeida Tostes explicita a sua trajetória artística. A artista costumava viver na sua expressividade o que denominou poeticamente de gesto arcaico [...] Estimulava o manuseio do barro com as mãos e assim unia diferentes gestos em uma única intenção, a poética. (HENNIG, 2008, p. 127)

A autora prossegue explicando que ao modelar suas “Vênus” a artista desvenda o diálogo entre o gesto e a forma, atualiza o gesto arcaico no gesto contemporâneo. Com a série imprime um ritmo à sua precisão estética, e indica um tempo de duração dessa visualidade. Com a fi gura feminina Vênus “consolida poeticamente o emblema de fertilidade.” (HENNIG, 2008, p. 128-129).

Fig. 64 – Celeida Tostes - Série Vênus Cerâmica. Catálogo CCBB (2003)

A série “Vênus” de Celeida é uma dialética também entre pequeno e o grande. Como nos iluminou Frederico de Morais (2011, informação verbal) “Vênus apresenta o aspecto da monumentalidade, é uma série que vai do mínimo, pequenininhas até o imenso.” E lembra que as obras remetem a vaginas, marcando novamente sua temática do corpo, do feminino, do fecundo, da fertilidade. Do mínimo nascido no bojo das mãos nasceram outras “Vênus” de maior dimensão. Luís Áquila (2010, informação verbal) nos esclareceu que as formas arredondadas em seu trabalho eram sempre identifi cadas com as Vênus, maternas, e as formas mais alongadas como nas ferramentas, tinham um sentido fálico e masculino.

Fig. 65 - Celeida Tostes. Vênus. Cerâmica. 28x28x35cm Col. Henri Stahl. Catálogo CCBB, 2003.

Fig.66 - Celeida Tostes. Vênus. Cerâmica. 68x28x20cm Col. Henri Stahl. Catálogo CCBB, 2003.

“Aldeia – Funarius Rufus

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– Celeida Tostes” e o joão-de-barro

A “Aldeia – Funarius Rufus80 – Celeida Tostes” foi o resultado de uma longa

pesquisa sobre o joão-de-barro, acompanhada de documentação fotográfi ca e de análises realizadas no Instituto Nacional de Tecnologia.” (TOSTES, 1992, p. 31) Segundo a artista, a aldeia surgiu logo após “Passagem”, quando um amigo geólogo trouxe-lhe de presente, ao voltar de um trabalho em Macuco, uma casa de joão-de-barro. A casa suscitou-lhe semelhanças, a uma caverna, um útero. E assim começou a fazer interferências.

Sabendo disso, várias pessoas me deram casas de joão-de-barro. Novas interferências. Comecei a fazer eu própria a casa de João de barro. A tirar moldes. A fechar a porta e colocar um ovo dentro. Tive essa idéia porque quando os fi lhotes voam, o pássaro abandona a casa e nunca mais volta. Pode ser capaz de construir uma casa em cima da outra ou, ao lado de outra, se ele confi a no lugar, mas, nunca volta à mesma casa. Esta então pode ser ocupada por outros bichos como lagartos e lagartixas, às vezes, até cobras fi cam lá dentro. (PINTO apud TOSTES, 1995, p. 19)

79 A obra é chamada tanto pela ari sta, como citada em publicações, como “Funarius Rufus”, às vezes nós encontramos “Funarus Rufus”, mas o nome ciení fi co do pássaro joão-de-barro Rufous Hornero é Furnarius Rufus (Gmelim, 1788). É nai vo da Argeni na, Bolívia, Paraguai e Uruguai. É conhecido por seu caracterísi co ninho de barro em forma de forno (caracterísi ca compari lhada com muitas espécies des- sa família). É a ave símbolo da Argeni na, onde é chamado de hornero (“Ave de la Patria” - desde 1928). Disponível em <www.iucnredlist.org> e <ht p://www.redargeni na.com/Faunayfl ora/Aves/hornero.asp>

Acessados em: 25 de julho de 2010.

80 Análise concluída em 25/01/1980 conforme laudo transcrito no folder Aldeia Furnarius Rufus Celeida Tostes constante do Memorial da Ari sta p s/nº.

Fig. 67 - Celeida Tostes, Aldeia Funarius Rufus, 1990.

Ao fazer a análise química no Instituto Nacional de Tecnologia - INT constatou- se que a composição do ninho era de mineral argila e matérias orgânicas, no processo construtivo o pássaro carrega a argila no bico, adicionando suas enzimas e material vegetal que dá maior rigidez à estrutura. Na construção de algumas casas em sua obra, Celeida, perseguindo a composição e processo, utiliza argila adicionando saliva de diversas pessoas e o mesmo capim encontrado em ninhos de joão-de-barro. Algumas casas foram queimadas. Tanto as casas por ela construídas e as casas feitas pelo pássaro, queimadas, fi cavam fracas.

Respondendo a uma carta a um leitor da Revista Galeria que questionava seu trabalho como antiecológico, acreditando que a artista tivesse retirado todas as casas da natureza, ela explica que do total de casas utilizou apenas cinco do joão-de-barro, depois de abandonadas pelos pássaros, e nas demais casas utilizou seu processo de trabalho. Desta maneira confrontou dois ceramistas, um com a “tecnologia” genética e o outro, ela mesma, com a tecnologia adquirida pelo homem.81 “Era como

se cada um tivesse sua tecnologia apropriada.” (TOSTES apud PINTO, 1995, p. 20) É conveniente observar nesta sua colocação seu processo de criação, que é um constante desvelar. Exercita-se e se constrói de maneira pulsante, vital, como o pulsar de um coração. Tem um movimento dialético, chegando às vias de um trabalho científi co, sem, no entanto, deixar de ser artístico e poético. Com suas indagações busca em suas pesquisas a relação dos animais nos processos construtivos de seus abrigos e suas tecnologias necessárias para a preservação de suas espécies. Antes deste trabalho a artista pesquisou outros “bichos ceramistas” e desenvolveu obras que os retratassem como “Falos” - casas de cupim e “Sacos” – casas de vespas.

81 Carta publicada na Revista Galeria. n 25. 1991, p. 6. Fonte: Memorial Celeida Tostes e Acervo Bibliote- ca MAM/SP

Fig.68 - Celeida Tostes. Casas joão-de-barro Acervo MAM-Rio

Celeida declara que a casa do joão-de-barro sempre lhe despertou grande interesse, pois traz uma sabedoria curiosa e necessária. Constroem suas casas contra a direção da chuva e do vento e são bastante resistentes, enquanto o homem levou anos para endurecer o barro ao ponto que não se desintegrasse com água, precisando do fogo no processo. Conferiu que a forma de construção do ninho é em forma de espiral similar à forma de construção de potes indígenas.

Quando ela faz a obra do joão-de-barro, o círculo, a espiral tem a ver com a aldeia indígena. Mas não é um trabalho de antropólogo, se ela desse uma explicação antropológica para aquilo, talvez as pessoas entendessem, mas não é ela vira joão-de-barro. Quando ela começa a fazer aquilo ela é um joão-de-barro, ela só fala em joão-de-barro, ela sabe todas as técnicas do joão-de-barro, como ele faz, como o bico pega a palhas para estruturar a trama, que no barro tem uma enzima que dá a liga, e procura químicos, para analisar a casa de joão-de-barro. Ela vai virando uma joana-de-barro. Ela mergulhou profundamente. E falava o tempo todo disto, e as pessoas fi cavam sem entender porque que essa mulher fala tanto do joão-de-barro. (ÁQUILA, 2009, informação verbal)

“Aldeia – Funarius Rufus – Celeida Tostes” é composta por quarenta e cinco casas, dispostas no solo em forma de espiral, em analogia às Aldeias Xavantes, incorporando assim a existência do mito ao espaço de sua obra, desvelando novamente a sociedade

da vida sem hierarquias entre homens e outras formas da natureza e mais uma vez apontando a força concêntrica da formação da vida. Ao que Tostes esclarece:

Descobri também que a planta desta casa é um “6” ou “9”, uma espiral, na verdade um espaço mágico. Estabelecendo uma relação com uma aldeia Xavante, da beira do Rio das Mortes, construí uma aldeia com 45 casas desse pássaro. Ora, quatro e cinco são nove, volta ao mesmo sentido, o nove ou o seis. O seis é a idéia do ovo. O lugar de iniciação, a casa de iniciação da aldeia Xavante, corresponde ao lugar do ovo, é um centro. Então esse espaço da espiral, é o espaço de vida. (TOSTES apud PINTO, 1995, p. 20)

A obra participou do IV Salão Nacional de Artes Plásticas no MAM – Rio em 1981, onde recebeu Menção Especial do Júri como Proposta; participou da exposição Arquiteturas da Terra – Uma Versão Brasileira no Solar Grandjean de Montigny – PUC – Rio, em maio de 1982 e no mesmo ano no 1º Salão Paulista de Arte Contemporânea da Bienal de São Paulo de 1982, no Paço das Artes. Representou o Brasil na exposição itinerante “Arquitetura da Terra”, em 1984, organizada pelo

Fig. 69 - Capa do Folheto da Obra Aldeia Funarius Rufus - Celeida Tostes. TOSTES (1992)

Centro George Pompidou, que também foi levada para o MASP, em São Paulo. A obra participou também de exposição no Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1990. Percebemos que através deste trabalho Celeida dedica-se ao estudo e caminha para desvelar uma autonomia da matéria do barro no que diz respeito à necessidade da queima para enrijecê- lo, projetando, não sabemos se conscientemente, seus trabalhos futuros.