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[...] Despertar o mundo, eis a coragem da existência. E esta coragem é o trabalho da pesquisa e da invenção. O essencial é que permaneçamos sempre em estado de apetite. É por isso que Bachelard se defi nia a si mesmo, ao formular sua oração: “Fome nossa de cada dia nos dai hoje”.

Hilton Japiassu

A despeito de um passado onde cabia à mulher um espaço social reduzido, várias transformações ocorreram com o passar do tempo permitindo uma reocupação e reorganização da sociedade. No campo das artes, várias mulheres se destacaram e tiveram reconhecimento. A modernidade contribuiu bastante para essa adequação. Na América Latina o movimento moderno teve como característica a preocupação com a busca de raízes culturais e afi rmação de identidade, promovendo uma temática à valorização desta cultura e se não resolveu completamente a questão da auto-estima dos países e das minorias sociais, ofereceu a oportunidade de provocar esta conquista.

A participação feminina na arte brasileira tem signifi cativa representação durante o século XX, e dentre as inúmeras artistas Celeida Tostes se destaca no campo das artes plásticas somando-se aos artistas que desvelaram o estatuto de “arte maior” da cerâmica.

Celeida Tostes foi uma artista que renovou o campo temático formal da cerâmica escultórica e ao redescobrir técnicas primitivas, como a construção dos sumérios e do joão-de-barro, “aproximou-se da chamada arquitetura da terra”. Deste encontro expansivo entre o arcaico e o arqueológico criou possibilidades de uma releitura da cultura. Ao investigar e se aproximar de outras culturas reviveu rituais míticos, colocando o barro no campo da performance, onde o corpo se torna simbólico e suporte da sua própria obra. Com seu corpo reviveu no barro o útero materno. Construiu diálogos com e através do corpo, permitindo que ele se expressasse. Um corpo feminino liberto da repressão imposta tradicionalmente pela sociedade. E a espécie de aura que protegia a cerâmica foi confrontada com as novas proposições artísticas, inclusive as de registro e as midiáticas, no momento em que usou a fotografi a e o vídeo para integrar o seu trabalho. “Liberta e plural, a cerâmica ganhou autonomia, não se prende a técnicas e materiais, não se sente limitada por nada.” (MORAIS, 2011, informação verbal)

Celeida demonstrou coerência entre o discurso e a prática. Todo o artista tem esta possibilidade, mas nem sempre atua com o desejo como foi o caso de Celeida. Em todo o seu percurso desvela-se um ponto que se liga a outro, uma molécula que se associa a outra, assim como o barro, como que para fazer parte da unidade na massa. Desde o primeiro emprego, quando vai desenhar ferramentas, depois na escolha de seu curso superior, que alia o aprendizado da arte com formação para ensinar a arte. Alia a dedicação em pesquisas com a esmaltação em metal, elemento da terra, para a cerâmica que tem como matéria prima a própria terra. A tactilidade, a massa, amassa... Do aprendizado com o ensino para as crianças a metodologia para trabalhar com adultos. Da transformação de materiais para uma proposição de transformação social. Da unidade para a multiplicidade, como as inúmeras unidades constantes na repetição dos elementos de suas obras. Dos inúmeros elementos pequenos, caminha para elementos grandes, que simbolizam o coletivo, que simbolizam a ancestralidade e a territorialidade, como na série “Os Guardiões”.

Ela procurou ser mais do que si mesma, na busca de ser um ser integral, demonstrava não lhe bastar ser uma pessoa apartada. Parecia desejar uma “plenitude” procurando um mundo mais acessível e eqüitativo, com sentido. Sua revolução mostrou-se através de sua obra, de seus procedimentos, de sua ação emancipadora de ensino. A artista, a observar pela sua trajetória, queria realizar a idéia do sentimento estético como ato de solidariedade. Caminhar em direção ao outro, sentir-se verdadeiramente parte dessa humanidade próxima.

Encontrou na arte um meio indispensável para tornar social a sua individualidade, refl etindo e propondo a infi nda aptidão humana para a integração, para a circulação de experiências e idéias. Celeida acreditava na humanidade e era com ela que queria conviver, criar, transformar, trabalhar e se integrar.

Seu nome foi e é mencionado por muitos artistas como um fator importante no processo das suas refl exões e das suas formações. Deu inúmeras contribuições em toda a sua área de atuação, podendo ser comprovadas pela riquíssima documentação constante de seu memorial e curriculum vitae, por trabalhos inspirados e infl uenciados por sua obra e por depoimentos de pessoas que aprenderam e conviveram com ela.

Sua obra é referência na formação das artes plásticas em instituições de ensino de todo o Brasil e América Latina no que se refere à arte cerâmica.

Transitou entre sua arte e sua obra, transitou por sua vida, levou as experiências de cada atividade a se comunicar com as outras. A experiência com a construção de suas obras foi aproveitada para o exercício da docência, o exercício da docência com crianças foi aplicada na docência de adultos, o mutirão da comunidade foi adotado na execução de suas obras. Seu trabalho artístico sempre foi associado à pesquisa, e sua pesquisa associada ao ensino, o ensino ligado à sua arte. Assumindo nosso título desta dissertação, o barro, matéria prima de sua escolha, desempenhou um papel como elemento integrativo de sua obra.

Nas considerações fi nais da dissertação de mestrado “O Relicário de Celeida Tostes”, a autora Raquel Martins Silva (2006) revela o que diz o crítico de arte Marcus Lontra: [...] quando se decide escrever ou fazer um fi lme sobre Celeida, está- se criando uma obra da própria artista. Que quando incorporamos conhecimentos, técnicas e saberes desenvolvidos por ela, estamos continuando a fazer uma obra de Celeida Tostes. Que o trabalho da artista consistiu em ver a arte como instrumento de inclusão: social e cultural, na mais alta potencialidade do ser humano.” (LONTRA apud SILVA, 2006, p. 126)

Esperamos que esta dissertação seja mais um ponto, diante da grande representação do trabalho de Celeida Tostes, a ser incorporado na continuidade da sua obra. Um ponto que possa colaborar e somar-se a outros pontos para que possamos compreender, multiplicar e facilitar o papel que a ciência e a arte, integrados, possam desempenhar cultural e socialmente, num verdadeiro ciclo de vida.