Como dito no começo do capítulo, o espaço e o tempo do mundo presente são radicalmente diferentes daqueles do nascimento da ciência moderna. A arte, a economia, a política, a religião, a filosofia e a ciência experimentaram mudanças tão significativas que, frequentemente, tem-se a impressão de que as Idades Média e Contemporânea não pertencem à mesma sequência histórica. No entanto, essa imagem é logo abandonada quando se verifica o passado recente da humanidade: uma sequência incontável de combinações histórico-geográficas, que poderiam ter sido feitas de outro modo, mas não o foram por diversas circunstâncias. Nesse sentido, muita coisa mudou, mas várias outras permaneceram.
No âmbito do conhecimento, há cerca de quatrocentos anos a Europa vivia às sombras da Igreja Católica, que determinava o quê, onde e como as questões que inquietavam a sociedade da época deviam ser respondidas. Mais do que representar uma doutrina espiritual, a Igreja interferia no cotidiano dos europeus, gerando insatisfação e desejo de mudança entre aqueles que não se contentavam com as explicações do clero. Contudo, o Renascimento, a Revolução Científica e o Iluminismo transformaram profundamente esse contexto, invertendo a posição das instituições e colocando a ciência no lugar mais perto daquilo que se chamava de verdade. Evidentemente, essa troca não aconteceu de uma hora para outra: enquanto algumas ideias humanistas foram abraçadas quase que imediatamente pela sociedade seiscentista outras precisaram de mais tempo (ou ainda precisam) para serem absorvidas pela cultura ocidental.
Desse modo, determinadas práticas intelectuais bastante comuns na Idade Média – e que foram condenadas pelos primeiros modernos já naquela época – podem ser verificadas ainda hoje, especialmente se o foco da observação estiver no processo de produção e difusão do conhecimento. Refiro-me, sobretudo, às estratégias políticas que os sujeitos ligados ao saber oficial de cada época (ontem ou hoje) utilizam para manter suas posições quando se sentem ameaçados, por exemplo, por processos estranhos ou que não
podem controlar – teorias alternativas, experiências imprevistas, etc. São como vícios ou reflexos do “paradigma do segredo” (Rossi, 2001).
Há uma passagem no Evangelho de Mateus (7,6) em que Jesus afirma: 'Não deis as coisas santas aos cães, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, porque eles poderiam pisá-las e, voltando-se vos despedaçar'. O que é precioso não é para todos, a verdade deve ser mantida secreta, pois a sua difusão é perigosa: é desta forma que numerosíssimos autores leram aquela passagem do Evangelho (Rossi, 2001:45).
Em suma, a comunicação, a difusão do saber e a discussão pública das teorias ou métodos se tornaram valores durante a modernidade, mas isso não quer dizer que estão sendo praticadas pelos membros da academia contemporânea.
Dos quatro pensadores expostos acima, Feyerabend (1977) é aquele que apresenta com mais clareza uma das maiores contradições da ciência moderna: nenhuma teoria ou método científico formulado até hoje foi capaz de responder sozinho todas as questões que a natureza e a vida em sociedade apresentam incessantemente para a humanidade. Nesse sentido, pode-se dizer que a ciência moderna não teve sucesso absoluto enquanto projeto de conhecimento – basta pensar que um de seus objetivos centrais era se tornar a forma definitiva de conhecimento; independente de instituições (a Igreja), sujeitos (o sacerdote) ou leituras obrigatórias (a Bíblia). Entretanto, como também já foi mostrado, parte da comunidade científica discorda dessas considerações (Popper, 2002; Lakatos, 1989), o que não deixa de ser uma coisa normal e até positiva para a ciência, que ganha novos argumentos e incrementa a discussão. A divergência só se torna um problema realmente preocupante quando os cientistas – relembrando os velhos tempos – negam ou simplesmente ignoram a existência dessas ideias, como se seus defensores fossem marginais, inimigos ou hereges da ciência (Terra, 2008).
É preciso ressaltar que, depois da primeira revolução da ciência, tanto na literatura científica como também na literatura da própria ciência não existe e nem poderá mais existir – ao contrário do que aconteceu amplamente e ainda ocorre no mundo da política – um elogio ou uma avaliação positiva da dissimulação (Rossi, 2001:64) (grifo do autor).
Nesse sentido, as perguntas que permanecem são as seguintes: por que não considerar certas críticas, mesmo quando são formuladas segundo critérios estabelecidos pela própria teoria ou método em questão? Quais são os interesses dos cientistas em manter suas
propostas além dos princípios emancipatórios da ciência moderna?
O que fazer?
Perguntas simples nem sempre têm respostas fáceis. Ao contrário, as duas questões feitas acima parecem estar longe de serem esclarecidas com argumentos singelos ou compreensíveis por qualquer um. Diversos autores ou correntes de pensamento podem ser listadas nesse sentido, como filósofos, historiadores, sociólogos e geógrafos interessados na dinâmica do conhecimento, da ciência e dos sujeitos que a produzem. No caso da Geografia, Moreira (2008a) cita as epistemologias físico-matemáticas, o materialismo, o subjetivismo, as fenomenologias, as filosofias da linguagem e da complexidade além do próprio naturalismo como exemplos de diferentes formas de se entender o estado atual da ciência e da disciplina em questão. Assim, escolhemos uma dessas epistemologias para nos orientar simplesmente por parecer indicar um bom caminho num oceano real de incertezas e possibilidades.
Boaventura de Sousa Santos sugere a construção de uma “ecologia de saberes” (Santos, B. 2008). Segundo o autor, a ciência moderna é a forma de conhecimento adotada oficialmente pelas sociedades contemporâneas para subsidiar suas ações e transformações. Sua posição frente a outras formas de conhecimento é tão destacada que chega ao ponto de inibir o diálogo com outros tipos de saberes, a crítica do senso comum ou o estudo de propostas alternativas em qualquer ocasião: a decisão e a palavra-final é sempre científica. Santos B. (2008) destaca que a ciência moderna foi criada para ser um instrumento de emancipação dos homens, mas passou a ser usada para outros fins, menos públicos, mais privados, sobretudo após sua consagração durante o Iluminismo. Essa inversão de valores pode ser percebida em diversos setores da sociedade moderna, desde os jornais, na televisão até as próprias universidades.
Nesse sentido, Santos B. (2008:137) busca reverter esse processo, apoiado na ideia de que quanto maior for a publicidade da ciência, “maior será a sua capacidade para conformar a sociedade, para conferir inteligibilidade ao seu presente e ao seu passado e dar sentido e direcção ao seu futuro”. O aumento do reconhecimento público também serve para equilibrar melhor a distribuição social do conhecimento, assim como diminuir
os “privilégios epistemológicos” dos indivíduos e/ou grupos resguardados pelo status científico. Assim, o autor define duas linhas de ação: uma para se fazer do lado de dentro da ciência ou sobre a “diversidade interna das práticas científicas”; e outra para se desdobrar do lado de fora dela ou sobre a “pluralidade externa das ciências”. A união dessas duas vertentes cria aquilo que chama de ecologia de saberes:
A ecologia de saberes é um conjunto de epistemologias que partem da possibilidade da diversidade e da globalização contra-hegemônicas e pretendem contribuir para as credibilizar e fortalecer. Assentam em dois propósitos: 1) não há epistemologias neutras e as que clamam sê-lo são as menos neutras; 2) a reflexão epistemológica deve incidir não nos conhecimentos em abstracto, mas nas práticas de conhecimento e seus impactos noutras práticas sociais. Quando falo de ecologia de saberes, entendo-a como ecologia de práticas de saberes (Santos, B. 2008:154) (grifo nosso).
Sendo assim, na prática, Santos B. (2008) oferece dezessete ideias-tese com o intuito de sustentar sua perspectiva (projeto) epistemológico. O uso contra-hegemônico do conhecimento científico e não-científico (p158); a noção de que todo conhecimento tem limites internos e externos (p158); o reconhecimento de diversos sujeitos como sujeitos do conhecimento (p158); aceitar outras práticas de expressão e de conhecimento diferentes das linguísticas tradicionais (p161); e posicionar-se na antípoda do dualismo natureza- sociedade e do reducionismo que domina a “epistemologia da ciência moderna ocidental” (p164) fazem parte do rol de ideias que o autor espera de uma ecologia de saberes38. Dessa maneira, assim como Paul Feyerabend buscou por a ciência moderna em seu devido lugar, Boaventura de Sousa Santos procura transformar sua condição atual em favor de um ambicioso projeto: “uma nova cultura política” (Santos, B. 2008).
Obviamente, os objetivos desta dissertação são bem mais tímidos e o debate aqui proposto sobre as transformações do método científico exige um esforço menor – mas não menos importante!
Na realidade, para se alcançar metas tão fantásticas e/ou distantes do mundo em que vivemos é preciso começar de algum lugar e, nesse sentido, Santos, B. (2008) fornece uma orientação metodológica (interna) e política (externa) simultaneamente ampla e maleável, que permite os cientistas trabalharem com mais liberdade na medida em que os esclarece do papel que cumprem na sociedade contemporânea. Em outras palavras, cada
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pesquisador sabe o que deve e o que não deve fazer em termos metodológicos, cada um conhece e segue as regras que escolheu. Cabe aos cientistas de uma maneira geral, então, assumirem uma postura mais ética do que um padrão-científico, para, aí então, saberem relacionar adequadamente os princípios das disciplinas que trabalham (sejam elas naturais ou sociais) aos fins do conhecimento que produzem.