Carl Ritter foi um prestigiado professor que contribuiu especialmente para a fundamentação metodológica da Geografia moderna (Moraes, 2007; Gomes, P. 2007). Mais jovem e menos abastado que Humboldt, Ritter viajou pelos países mediterrâneos do sul da Europa somente após se tornar tutor de uma família nobre alemã. Sua obra-prima Geografia geral comparada48 é o resultado dessas excursões e de uma longa carreira universitária que construiu em Berlim, a partir de 1820 (Ostuni, 1967). O trabalho de Ritter traz os primeiros fundamentos e normas da nova disciplina, que seria responsável pelo estudo da Terra em seu conjunto e por estabelecer a relação lógica entre o todo e as partes. De acordo com Gomes P. (2007:165),
Um dos primeiros traços [do trabalho de Ritter] é a busca de uma ordem geral, de uma harmonia, que define a finalidade última de toda pesquisa. A tarefa fundamental da ciência é a de resgatar uma coerência metafísica a partir da organização geral da natureza, uma coerência que possa exprimir e explicar todas as causalidades particulares.
Ritter (apud Tatham, 1959:210) defendia que a Geografia não deveria apenas descrever a natureza, mas “familiarizar o homem com o cenário de suas atividades, sendo, por conseguinte, não a descrição desse cenário, mas o da sua relação com o homem”. Os geógrafos deveriam trabalhar empiricamente, procedendo às observações para superar as opiniões ou meras hipóteses (Ostuni, 1967).
48 “O título pode induzir em erro: não se trata de um tratado de geografia geral mas de uma descrição regional da Terra, que utiliza a comparação para fazer compreender as especificidades de cada país e as orientações da sua história” (Claval, 2006:67).
Sendo assim, o objetivo fundamental da Geografia seria revelar as leis que governam a harmonia geral do “sistema do mundo” (Gomes, P. 2007). O geógrafo deveria descobrir em meio à desordem aparente da natureza sua organização, seu equilíbrio e sua simetria superior. Para tanto, bastaria substituir o olhar simples, que só enxerga a imagem confusa da diversidade, por um olhar mais profundo, capaz de relacionar as formas e os fenômenos terrestres para produzir uma Geografia do todo e das partes, bem como “do Homem e da Terra” (Ostuni, 1967).
Erdkunde [a Geografia científica] tentará abarcar o mais completo e o
mais cósmico aspecto da terra, juntando e organizando em bela unidade tudo quanto sabemos com relação ao globo, e mostrando a relação desse todo unificado, com o homem e o seu criador (Ritter apud Tatham, 1959:210).
Conforme Ostuni (1967:35-36), Ritter usou o “princípio de coordenação espacial”. Isso quer dizer que “ao estudar o ambiente físico de uma região trata de colocar em relevo, mediante o exame comparativo das características e dos acontecimentos dos diversos povos que habitam as regiões, o influxo que este exerce”. Em tempo: uma característica central nos textos de Ritter é a falta de clareza, de exposições precisas e a presença de metáforas religiosas49 em meio a argumentos tipicamente científicos (Thatam, 1959; Claval, 2006; Gomes, P. 2007).
Sendo assim, nota-se que, assim como em Humboldt, o ímpeto objetivista da modernidade não é permanente em Ritter. Ao passo que seu trabalho busca normatizar a Geografia científica, transparecem leituras e culturas que pouco tem a ver com o ideário defendido pela Revolução Científica: tanto o racionalismo e o empirismo estão presentes, quanto o romantismo e a hermenêutica (Gomes, P. 2007). Segundo Nascimento & Bauab (2009:11)
a perspectiva religiosa articula a lógica da proposta de Geografia de Ritter, já que se faz presente na essência de sua concepção de ciência, de conhecimento, de natureza e de estudo da natureza; fundamentando, assim, os propósitos e objetivos da Geografia.
Ademais, sua contribuição para a fundamentação metodológica da Geografia moderna não
49
Ao comentar o lado religioso de Ritter, Ostuni (1967:36) afirma que, “por outro lado, de acordo com o antigo testamento e a doutrina dos Padres da Igreja, a Terra é o lugar da educação da humanidade. A superfície terrestre é, para a Igreja, o teatro da divina revelação predisposta pra a vida e a evolução civil do Homem”.
está reunida num único volume de sua obra, muito menos organizado como estamos acostumados hoje em dia, mas espalhado na totalidade de textos que produziu ao longo da sua vida (Tatham, 1959; Claval, 2006). Por essas razões, Ritter é comumente incompreendido e responsabilizado por opiniões diversas e até contraditórias que, desconsideradas do contexto de sua produção, realmente não fazem o menor sentido50.
Considerações parciais
Apesar de serem amigos e colegas de universidade, Alexander von Humboldt e Carl Ritter não pensavam a Geografia da mesma forma: enquanto o primeiro buscava a universalidade através de estudos sistemáticos, o segundo estava preocupado com as particularidades das regiões. Por outro lado, seus trabalhos se aproximavam em diversos outros aspectos, seja na presença de uma racionalidade muito forte lado-a-lado de tradições não-científicas distintas, seja na contribuição metodológica que deixaram para a história do pensamento geográfico. Ambos partilhavam, por exemplo, a ideia de unidade da natureza, valorizavam o caráter empírico da pesquisa, praticavam a técnica da comparação de áreas e tinham grandes habilidades cartográficas; o que demonstra uma similaridade técnica e conceitual bastante grande (Tatham, 1959; Campos, 2001; Moraes, 2007; Gomes, P. 2007).
Dessa maneira, sem haver um método científico propriamente dito, foram os “grandes princípios orientadores” que Humboldt e Ritter começaram a estabelecer os responsáveis por instituir e manter a unidade da Geografia durante as primeiras décadas da disciplina (Amorim Filho, 2007). Por exemplo, os princípios de “extensão”, “causalidade”, “conexão”, “evolução” e “atividade” geográficas podem ser achados na apresentação do primeiro número da Revista Brasileira de Geografia (IBGE, 1939) ou na forma de “tradições geográficas” discutidas em diversas monografias da Association of American Geographers entre 1905 e 1959 (Pattison, 1964). Pode-se afirmar assim que as Geografias Geral (de Humboldt) e Regional (de Ritter) são complementares e, talvez por esse motivo, tenham se tornado as duas primeiras grandes referências da ciência geográfica.
50 “Ritter, que inicialmente foi racionalista, sofreu influência de princípios românticos como observação, comparação por analogias, uso de metáforas, concepção organicista da natureza, e a própria colocação do homem como centro da reflexão. Grande também foi a influência da pedagogia de Pestalozzi, com quem se encontrou em 1807 em Sferten (Suíça). Nesta localidade, e por influência de um teólogo cristão (Nieder), ocorreu uma espécie de conversão religiosa, com a crença de que tudo surgiria do esplendor de Deus” (Campos, 2001:16) (grifo do autor).
A obra dos dois grandes pioneiros alemães da geografia moderna envelheceu, mas é graças a eles que a disciplina afirma a sua ambição explicativa: deixa de ser simplesmente a descrição da diversidade terrestre; permite compreender o progresso humano. É também graças a Ritter e Humboldt que os geógrafos aprendem, nas suas explicações, a trabalhar de forma sistemática com a dialética das escalas: inserindo os fenômenos que condicionam o espaço em extensões mais vastas ou menos restritas que o fenômeno que interpretam, descobrem como as forças gerais ou locais se combinam para explicar as distribuições que analisam. A geografia que praticam sistematiza o estudo das relações que
os homens tecem com o seu ambiente: nesta perspectiva, é uma ciência natural (Claval, 2006:68) (grifo meu).
Surge, apesar das dificuldades, a Geografia enquanto ciência moderna. Em resumo, uma compilação dos conhecimentos geográficos disponíveis na Europa até meados do século XIX, sistematizada para atender as demandas da sociedade moderna e razoavelmente organizada (sem um método claro) para ser continuada como uma disciplina acadêmica autônoma.