Da mesma maneira que não há consenso em relação ao método científico, não existe um único modelo de comunicação que dê conta de todas as questões envolvidas no trânsito das informações (Valois, 1989). Assim, Ramos (1994) apresenta quatro modelos ou perspectivas de divulgação “da ciência e da tecnologia”, formulados conforme diferentes arranjos teóricos e práxis de comunicação científica: o vulgar, o bibliométrico, o crítico e o culturalista.
O modelo vulgar é o mais comum de todos e se baseia na equação clássica da comunicação emissor-receptor-canal-mensagem. De acordo com esse modelo, a divulgação científica se distingue de outras comunicações científicas menos pelos seus objetivos ou
pelo veículo usado do que pelas características da linguagem utilizada e do profissional que a manipula. Como já foi mencionado, a divulgação científica deve pressupor uma recodificação ou uma transposição da linguagem dos especialistas para que um maior número de pessoas tenham acesso às informações da ciência: as atualidades sobre os fatos, as pessoas envolvidas, a diversidade existente, o ritmo que ela acontece, etc. Para isso, os divulgadores utilizam jornais, revistas e livros, assim como outros canais audiovisuais. Contudo, Ramos (1994:343) questiona: “como se dá a construção deste código? Como é realizada a transposição da linguagem de um sistema científico para outro não científico?”
A perspectiva bibliométrica enxerga (e mede) o processo de popularização da ciência de acordo com métodos quantitativos. Sendo assim, essa perspectiva compara artigos publicados em periódicos científicos tradicionais com similares “cujos conteúdos foram repassados para jornais e revistas de divulgação” (Ramos, 1994:345). A bibliometria aplicada à divulgação científica observa cinco características básicas neste processo: ele é unidirecional, pois existem poucos canais de feedback entre os cientistas- fonte e seus leitores, a não ser pelo retorno de editores e jornalistas das revistas de divulgação; ele é sequencial, porque os dados iniciais da comunicação devem ser revistos antes que estejam prontos para a publicação; ele é seletivo, já que apenas uma fração da produção científica é considerada pelos divulgadores profissionais; ele envolve seleção e /ou consolidação, visto que os artigos de divulgação podem se mostrar tanto como compilações quanto resumos de originais científicos; e ele ainda requer acomodação, pois é preciso adequar o estilo, o argumento e o vocabulário a um linguajar mais acessível ao grande público. Desse modo, a perspectiva bibliométrica para a divulgação científica procura dar um tratamento estatístico à informação publicada, sobretudo àquela impressa como artigos científicos – por exemplo, através da contagem de citações93.
A perspectiva crítica, como o próprio nome indica, tece uma crítica relacionada aos atores e às motivações envolvidas nas práticas de divulgação científica. Segundo essa perspectiva, as revistas de divulgação científica são produtos que respondem “às necessidades de informação de um público consumidor de uma sociedade tecnocrata”
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“Nos anos 60, segundo Francis André, o americano Eugene Garfield teve a idéia, na década de 60, de analisar as citações bibliográficas presentes em artigos de revistas, convenientemente escolhidas, e de definir, assim, uma base de referência: o SCI (Science Citation Index), referência mundial segundo a qual são definidas as métricas para a classificação das revistas segundo o seu impacto” (Kuramoto, 2006:91).
(Ramos, 1994:346). Assim, aqueles que trabalham a partir desse ponto de vista buscam, por exemplo, determinar o valor da divulgação científica. Ramos (1994) recupera algumas investigações para revelar que, de modo geral, os cientistas enxergam a divulgação científica como uma atividade extra-acadêmica, ou seja, algo que não faz parte das suas obrigações cotidianas. Ainda assim, a maioria dos sujeitos envolvidos com esse tipo de trabalho está situada no “centro do campo intelectual”: professores e/ou pesquisadores bem posicionados na hierarquia acadêmica ou com mais títulos e publicações no currículo. Cabe, então, perguntar: porque pesquisadores experientes gastam tempo e energia com trabalhos não-acadêmicos se poderiam estar investindo ambos nas suas pesquisas pessoais ou em outros compromissos profissionais?
De acordo com a perspectiva crítica, dois fatores estão envolvidos nessa decisão (Rocha, 1994). Em primeiro lugar, os decanos são incentivados pelas próprias instituições científicas para serem os seus representantes públicos. Em outras palavras, as universidades e centros de pesquisa tendem a escolher seus pesquisadores mais experientes para encarar o “julgamento do público externo” em seu nome94. Em segundo lugar, a divulgação científica é uma oportunidade para que o cientista renomado possa estender os limites do seu status profissional, fazendo-se “conhecer, reconhecer e honrar” também do lado de fora da academia95. Nesse sentido, ao invés de levarem a público a história, a construção ou os princípios fundamentais da ciência, por exemplo, esses pesquisadores aproveitam os espaços abertos para divulgarem (apenas) suas próprias produções. Desenvolve-se, portanto, a questão anterior: quais interesses orientam as práticas de divulgação científica?
Por fim, o modelo culturalista para a divulgação científica pretende ser uma alternativa aos modelos e perspectivas apresentados acima. Ao citar o exemplo de dois museus franceses, Ramos (1994) afirma que a organização e o arranjo das exposições científicas podem ser pensados como uma nova forma de representação da ciência: “supondo-se que os objetos técnicos adquirem um modo de existência própria e, independentemente do conhecimento abstrato que a princípio os gerou” (Ramos,
94 “Um texto escrito espalha-se pelo mundo e pode, a qualquer momento, ser uma prova contundente contra seu próprio autor. Mesmo que se peça para que eles sejam esquecidos, dificilmente todos os interlocutores concordarão com essa proposta de alterar o passado” (Capozoli, 2002:125).
95 “Cada vez mais pesquisadores estão preocupados em criar um marketing em torno de seus trabalhos, pois, com a presença de seus nomes na mídia, acredita-se, em princípio ou mesmo em crença, na garantia de obtenção de recursos que, vez por outra, se confundem com benefícios pessoais” (Barros, H. 2002:30-31).
1994:347). O modelo culturalista de comunicação científica admite que a produção do conhecimento está sujeita a diversas interferências sociais, ambiguidades e contradições. Em outros termos, o comunicador-divulgador deve considerar que, provavelmente, seu trabalho dará origem a uma série de significados imprevistos, pois ele é, antes de qualquer coisa, um produto cultural96. Sendo assim, diferentemente das revistas de divulgação científica, a divulgação científica deveria estabelecer “uma relação interativa do homem com os objetos técnico-científicos de sua época” (Rocha, 1994:347). Contudo, Barros H. (2002) questiona: como “simplificar” os conteúdos técnico-científicos sem “matar” a grandeza e a profundidade original da ciência?
Os quatro modelos ou perspectivas de divulgação científica apresentadas por Ramos (1994) possuem métodos específicos de coleta de dados e análise de resultados. Por esse motivo, é impossível extrapolá-los para qualquer estudo de caso sobre o comportamento da comunicação científica: cada um tem suas utilidades específicas, mas todos têm os seus limites. Sendo assim, as avaliações sobre as iniciativas de divulgação científica deveriam acontecer segundo seus objetivos e expectativas originais – o que nem sempre ocorre. Cascais (2003) fala em “mitologia dos resultados”.
As análises que buscam compreender a eficácia das práticas de divulgação científica têm procurado examinar os reflexos cognitivos, afetivos e/ou psicossociais dessas atividades. Nesse sentido, Ramos (1994) enumera três tipos de “recepção/apreensão” dessas informações, cada qual baseada num modelo ou perspectiva distinta de comunicação: na primeira, tomando a sociedade como um “elemento neutro”, conclui-se que a divulgação do conhecimento científico pode melhorar as relações entre os indivíduos e o meio ambiente; na segunda, pensando a informação científica como um “objeto de consumo”, preocupa-se principalmente com a elaboração conceitual da mensagem e com a recepção social desse produto científico, o que, no fim das contas, não altera para mais ou para menos a distância entre a ciência e a sociedade; na terceira, considerando o conhecimento divulgado como um “objeto cultural”, observa-se a ocorrência de “transformações nas pessoas tocadas”97, mas reconhece-se que é muito difícil
96 “A percepção de que o público é parte integrante do processo de criação e transformação de sua história pode determinar a filosofia de trabalho de um centro ou museu de ciência” (Equipe da Casa da Ciência, 2002:167).
97 “Seus novos conhecimentos impulsionaram uma reconsideração de seus modos de vida e de trabalho, repercutindo sobre as estruturas profissionais nas quais eles se encontram inseridos, abrindo, assim, um processo de trocas e de efeitos” (Ackerman & Dulong apud Ramos, 1994:343).
avaliar sua eficácia, que, desse ponto de vista, enxerga a divulgação científica como algo que “vai além de uma simples difusão de informações que assegurem nossa confiança no papel da ciência e de seus agentes, os cientistas” (Ramos, 1994:343).
Resumindo a questão da eficácia: ao se avaliar as ações de divulgação científica segundo critérios técnicos de eficiência e controle das mensagens emitidas, amplia-se o escopo dessas atividades e do seu impacto social, mas, por outro lado, obtêm- se resultados muito tímidos. Talvez, esses critérios de avaliação não sejam os mais adequados98. Ramos (1994:344) afirma que
Os processos de representação [da ciência] não possuem elementos tangíveis de mensuração física, como se signos e símbolos pudessem ser calculados em uma escala linear (de graduação/degradação), onde fossem marcados os pontos inicial e final do processo de assimilação/interpretação de uma mensagem.
Se os esquemas de emissor/receptor/canal/mensagem e/ou o modelo epidêmico são funcionais e práticos para o entendimento do processo de comunicação e, ainda, suas operacionalizações em termos matemáticos levaram a concepções de modelos cibernéticos (...), sua utilização para análise dos meios de divulgação implica o risco de 'fazer tabula rasa' de uma série de fenômenos mais complexos que envolvem a representação social da informação científica e técnica.
Nesse sentido, este autor sugere que a divulgação científica deve ser vista como um “processo mais amplo de persuasão e influência social” – uma consideração que se encaixa dentro do modelo culturalista da divulgação científica – e, portanto, precisa ser avaliada como tal.