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4. Research design and methodology

4.4. Methodological reflections

De acordo com Moscovici, do mesmo jeito que existem diferentes sistemas de comunicação e conversações em níveis interpessoais, há diferentes sistemas de comunicação midiáticos que vão moldar diferenciadamente o pensamento e a ação sociais. Na segunda parte do seu livro La psychanalyse son image et son public intitulada La psychanayse dans la presse française: analyse du contenu et des processus de communication (1961), enfocou o papel que a imprensa francesa, em seus diferentes órgãos (imprensa Comunista, imprensa Católica e os jornais de grande circulação), tem no processo de popularização desta teoria e sua implicação na conduta das pessoas a partir de três sistemas de comunicação identificados

de acordo com o propósito e a lógica da mensagem e o contexto sócio-histórico que a gerou: a difusão, a propagação e a propaganda. Estes três sistemas de comunicação midiática, segundo ele, intervêm nas dimensões relacionadas à conduta e têm propriedades estruturais diferentes, ou seja, há uma correspondência entre os sistemas de comunicação e o modo de edificação da conduta. Cada forma de comunicação tem como efeito a produção de representações sociais específicas de acordo com as interações vivenciadas entre sujeito e objeto, articuladas no âmbito do pensamento social. Abordamos a seguir as características de cada sistema de comunicação e as suas implicações na edificação da conduta, elencadas por Moscovici.

A difusão, para Moscovici, é um processo no decurso do qual a transmissão das informações é feita a partir de uma pluralidade de centros de referência (profissionais religiosos, políticos e culturais) que discutem temas diversos concernente à teoria em questão, tendo como resultado a instabilidade e a fluidez das mensagens e das posições assumidas por seus atores. O esforço destes autores é, de uma lado, estabelecer uma relação de igualdade entre eles e seu público – daí a utilização de uma linguagem informal, condizente com os gostos e interesses do leitor e, até certo ponto, lúdica e matafórica, aproximando-se de uma forma de comunicação que é o boato, a rubrica humorística, a transmissão descontraída e de contato íntimo - e, de outro lado, colocar em voga uma nova temática. Esta modalidade de comunicação é dirigida a um público amplo e heterogêneo, pertencente a grupos variados, porém ligados entre si pelas relações sociais que tecem sua unidade e sua diversidade.

As informações e conceitos são pouco organizados entre si e os diferentes pontos de vista, embora contraditórios, podem ser expressos, incitando, assim, tomada de posições parciais sobre aspectos do objeto e gerando opiniões diversas. Exatamente por isso, esta modalidade se caracteriza pela descontinuidade de temas e opiniões, pela indiferenciação entre a fonte emissora e os receptores de comunicação e pela ausência de modelos unitários,

globais e imperativos. Seu objetivo não é necessariamente provocar mudança de comportamentos ou a formação de atitudes, mas criar um saber comum a partir de temas fracamente ordenados, sem indicar uma ação necessária. Logo, as relações entre a comunicação e a conduta, nesta modalidade, apresentam-se diversificadas, fragmentadas e optativas, uma vez que o distanciamento existente entre o emissor e o objeto social propicia uma margem de liberdade para o seu público.

A aparência da não implicação do emissor, entretanto, traz conseqüências no plano das opiniões, pois embora não visando globalmente um comportamento preciso, esta objetividade nas publicações não deixa de influenciar certas condutas, ainda que indiretamente. Sobre a questão, Moscovici comenta: “[...] as mensagens guardam no interior de uma mesma fonte uma autonomia que se manifesta dentro de sua continuidade. Ainda que não seja uma forma de comunicação visando abertamente produzir condutas globais, a difusão pode ser eficaz”. (MOSCOVICI, 1961, p. 465, tradução nossa). E reitera: “A difusão tem uma influência sobre a conduta e as opiniões, mas esta influência é múltipla e indireta. Então nós poderíamos dizer que ela produz efeitos, mas não tende a produzir resultados. (MOSCOVICI,1961, p. 526 -527, tradução nossa). Ela “cria ocasiões de conduta, muito mais do que condutas propriamente ditas”. (MOSCOVICI,1961, p. 630, tradução nossa).

A propagação é a transmissão de mensagens estruturadas e organizadas, feita pelos membros de um grupo específico, no sentido de propagar uma crença, buscando acomodar o novo saber a princípios já estabelecidos. A sua função primeira é de organizar e transformar uma teoria em conjunto simbólico compatível com os princípios que garantem a unidade do grupo; a segunda função é de não provocar uma conduta, mas de prepará-la, de dar a esta conduta uma significação nova:

Seu objetivo não é de provocar uma nova conduta ou de reforçar uma conduta já existente, mas de tornar possível uma adequação dos comportamentos e normas, as quais os indivíduos aderem. Em outros termos, a comunicação tem por objetivo investir condutas atuais ou possíveis de uma significação que elas não tinham antes. (MOSCOVICI, 1961, p.542, tradução nossa).

Como vemos, a propagação tem uma função instrumental que se define, por sua vez, pelo fato de promover um modelo sistemático para orientar os membros de um grupo e pela possibilidade de controlar a conduta deste grupo, encarregando-a de uma significação conforme as normas fundamentais deste grupo. Assim, as suas comunicações visam uma convergência em cima de uma doutrina ou normas que sejam aceitáveis, implicando em uma mudança do objeto social que permite integrá-lo dentro de um contexto de referência estabelecido. Esta mudança conduz a um sistema conceitual onde os princípios estabelecidos e um conteúdo teórico manifestam sua adequação recíproca. “Sob o plano objetivo, a integração de novos elementos conduz a uma renovação nas perspectivas sem criar tensões”. (MOSCOVICI, 1961, p. 542, tradução nossa).

É importante destacar, ainda, que a propagação se dirige a um grupo que já possui uma certa unidade, uma linguagem definida e um sistema de valores próprios que, por uma situação específica, precisa ser ressignificado em alguns aspectos. A relação entre este público, isto é, os receptores e a fonte de informação não se estabelece mais pela reciprocidade, mas é unívoca, uma vez que esta fonte goza de uma certa autonomia e autoridade e de uma estrutura institucional suscetível de persuadir e de controlar, implicitamente, as condutas e as opções daqueles, através de modelos edificados que incitam atitudes precisas. Segundo Moscovici (1961), a atitude é uma orientação positiva ou negativa que se mostra - seja por um comportamento global, seja por uma série de reações – e cujo significado é comum. Sua função é reguladora e tem efeito seletivo sobre o conjunto das manifestações e dos comportamentos de um indivíduo. “A criação de uma atitude produz a

criação de uma situação com o objeto socialmente pertinente. A ação que pode resultar disso é somente provável, mas se ela acontece, seu contexto e seu valor são fixados” (MOSCOVICI, 1996, p. 632, tradução nossa).

A propaganda é uma forma de comunicação que se insere em relações conflituosas, pois visa à recusa rígida e consistente de uma concepção contrária, considerada rival onde cada partido ou instituição busca impor a sua idéia através de estratégias de persuasão. Exatamente por isso, gera, muitas vezes, a oposição entre o verdadeiro e o falso saber e a transmissão de uma visão antagônica e incompatível com a própria visão da fonte. Neste processo, o objeto é reduzido, pelos seus defensores, a uma visão mistificadora, embora seu valor de verdade seja reconhecido entre estes. A sua função consiste em, através da manipulação do saber, forjar estereótipos, estabelecendo a identidade do grupo.

As relações entre as fontes de informação e o público são unívocas, diretivas, persuasivas e autoritárias, uma vez que estas fontes se constituem em um grupo preciso e institucional que visa explicitamente produzir uma conduta específica e rápida dentro de um contexto específico.

A propaganda é, de alguma forma, a tentativa feita de influenciar as atitudes e, a partir dessa influência direta ou indireta, atingir as ações das pessoas através dos estímulos lingüísticos usados na linguagem escrita ou falada. Ela se opõe de maneira específica aos esclarecimentos racionais, ao hábito de dar as informações deixando as pessoas tirarem suas próprias conclusões. Ela é, ainda, um meio de influência que se exerce principalmente por mecanismos de conduta não racionais. (MOSCOVICI, 1961, p. 604-605, tradução nossa).

Para Moscovici (1961), as implicações da propaganda na conduta humana são bem mais fortes e diretas do que na propagação e isto se dá através dos estereótipos. Estes estereótipos são estabelecidos, na propaganda, em função das simplificações e repetições das

associações e significações afetivas e intelectuais as quais o objeto social foi submetido, ao tempo em que originam, necessariamente e explicitamente, condutas rápidas e não racionais. Exatamente por isso, esta forma de comunicação é definida, pelo teórico, como manipulação instrumental e como um instrumento privilegiado de comunicação para os governantes, os revolucionários, reformadores sociais, etc.

Partindo das considerações expostas, podemos dizer que os meios de comunicação midiáticos têm um papel determinante no processo de popularização da ciência, na veiculação e formação de determinadas representações e, como tal, interferem diretamente na conduta dos indivíduos, conforme a dinâmica das interações realizadas entre sujeito e objeto, articuladas no âmbito do meio comunicacional. Logo, o conhecimento das representações sociais veiculadas pela mídia possibilita-nos acessar a um universo simbólico, ou seja, a um conjunto de sentidos e significados que servirão de referência para os indivíduos e grupos no seu processo de apreensão da realidade e de atuação nesta e configura-se como uma necessidade intrigante na nossa sociedade, onde a comunicação é, em grande parte, mediada pelos meios midiáticos.

Reconhecendo que essa mediação tem-se intensificado muito nestes últimos anos e sido amparada pelos avanços tecnológicos nas áreas da informática e das telecomunicações, questionamos: como fica esse processo de popularização da ciência nos meios midiáticos, no contexto das inovações tecnológicas, especificamente da Internet? O subcapítulo subseqüente apresenta essa discussão.