6. Discussion
6.2. Duality - Ideal and actual practice
Constantemente nos deparamos com comentários, fundamentados em conhecimentos elaborados ou não, sobre a teoria construtivista em jornais, revistas, outdoors e, principalmente, na Internet. A maneira como essa teoria tem ganhado espaço na mídia brasileira, a forma como é descrita, as imagens que veicula, bem como os diversos usos dela têm merecido nossa atenção e revelam a necessidade de um estudo a respeito, tendo em vista que a comunicação midiática, conforme explica Moscovici, é portadora e formadora de representações e, como tal, interfere diretamente na conduta dos indivíduos, formando opiniões, provocando atitudes e forjando estereótipos. Deste modo, sendo o construtivismo uma teoria educacional, as imagens e representações sociais deste referencial veiculadas pela mídia vão contribuir para a formação das opiniões, das atitudes, dos estereótipos das pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, no processo educativo (alunos, pais de alunos, coordenadores e, em especial, os professores), orientando assim suas condutas. A prática pedagógica dos docentes, por exemplo, está relacionada não apenas com a sua formação acadêmica, mas com as representações sociais que eles compartilham, principalmente, acerca das teorias educacionais. “Estas representações sociais, na verdade, materializam-se nas atividades de ensino realizadas em sala de aula pelo professor, nas frases e expressões ditas, por ele, no cotidiano escolar e sobre este cotidiano, no seu fazer pedagógico, rico de significados”. (SILVA, C., 2004, p. 79). Por esta razão, compreendemos que o conhecimento
destas representações é de fundamental importância para a análise e o redimensionamento de algumas questões educativas.
Considerando o exposto, propomo-nos investigar o discurso circulante veiculado pela mídia acerca desta abordagem teórica. Considerando, ainda, a Internet como uma das principais mídias da atualidade e a significativa presença da teoria construtivista neste meio, este estudo foi direcionado para identificar o papel da Internet na sua popularização, ou melhor, no estabelecimento das representações sociais a respeito. Este estudo reflexivo é o tema do presente capítulo.
Como explicamos, o discurso circulante do construtivismo na mídia foi analisado através de textos veiculados pela Internet. Partindo do nosso esquema de análise, buscamos saber a origem e a destinação-alvo destes textos.
Os textos veiculados na Internet são originados de diferentes sites: de universidades, escolas, editoras, revistas, jornais, organizações sindicais, entidades governamentais, entre outros, predominando os universitários e os escolares, o que pode ser explicado pelo fato do site de busca escolhido na nossa pesquisa, Google, ser um dos mais importantes socializadores de documentos universitários, conforme cita Galhardo (2004) e pelo fato do construtivismo ser uma teoria de aprendizagem e, portanto, objeto-alvo de estudos e debates nas universidades e escolas.
Embora estes textos não tragam, em grande parte, a identificação pessoal dos autores, a diversidade dos sites e o conteúdo das mensagens nos fizeram perceber que o construtivismo é debatido na Internet a partir de uma multiplicidade de vozes: pesquisadores, intelectuais, professores, pais, estudiosos de outras áreas, vendedores, editores, jornalistas, donos de escolas, empresários, universitários, estudantes do ensino médio, pessoas leigas, o que demonstra que essa teoria tem invadido a vida de todas as pessoas que se autorizam a falar a respeito, seja explicando seus postulados, seja manifestando opiniões, seja buscando
informações. Uma pluralidade de pessoas que buscam se inserir no debate e falar “daquilo que todo mundo fala”. (MOSCOVICI, 1978, p. 55).
Esta polifonia se presentifica numa diversidade de tipos de textos que se apresentam diferenciadamente tanto em relação aos seus objetivos como em relação à forma de organizar e transmitir as informações a respeito. Após submetermos esses textos a um processo de categorização (que teve como critério a tipologia dos documentos e os conteúdos presentes neles), observamos que muitos trazem apenas a escrita da palavra “construtivismo”, sem apresentarem comentários acerca da teoria ou qualquer propagação de crenças a respeito, não se configurando objeto de análise no nosso trabalho. Assim, entre as tipologias textuais identificadas, escolhemos as que nos pareceram mais significativas e pertinentes para a análise, a saber: textos científicos (44,2%), englobando artigos, capítulos de teses, dissertações e monografias que discorrem sobre o construtivismo de forma elaborada, fundamentada, através de estudos sistematizados ou pesquisas científicas e que, a partir de uma linguagem acadêmica, explicam seus pressupostos e, de um modo geral, com algumas exceções, ressaltam a sua importância para o desenvolvimento das funções cognitivas e para o processo de ensino-aprendizagem em diferentes níveis – do ensino infantil à pós-graduação - e em diferentes áreas, como: matemática, física, informática, ciências, etc. Alguns destes textos discorrem sobre os equívocos, dificuldades e problemas vivenciados na implantação de uma prática pedagógica construtivista e as lacunas desta teoria; outros são centrados em temáticas diversas, mas que, de uma certa forma, utilizam conceitos ou termos construtivistas; textos informativos (21,2%) que trazem explicações sobre os pressupostos da teoria e sua aplicabilidade no ensino sem muita sistematização e elaboração e que também, salvo pequenas exceções, ressaltam sua importância; textos publicitários (13,8%), os quais se constituem em anúncios de escolas e empresas que oferecem produtos e serviços, relacionando-os com o construtivismo; textos argumentativos (9,2%) que apresentam
opiniões de diversos participantes (educadores, pais, alunos, pesquisadores, etc.) sobre um debate realizado on-line intitulado: “construtivismo na escola”, opiniões estas, em sua maioria, favoráveis; relatos de experiências de professores e instituições públicas e privadas sobre práticas construtivistas, mostrando as vantagens da aplicabilidade da teoria no dia-dia da sala de aula (3,9%); entrevistas com teóricos idealizadores e defensores do construtivismo (3,5%); textos de orientação (2,8%) e textos interativos (1,4%), que objetivam tirar dúvidas da população, comumente pais e professores, a respeito da teoria e dos métodos construtivistas e que dão orientações sobre escolas que trabalham fundamentadas no construtivismo para uma melhor orientação na matrícula dos filhos e no redimensionamento da prática docente, como por exemplo, fala-mestre, especialista responde, guias de matrícula, etc.
Como podemos ver, grande parte dos textos examinados provém da academia. São resultados de pesquisas e estudos científicos que, embora nem todos estejam centrados especificamente na temática construtivista, trazem em seu conteúdo conceitos, princípios ou termos do construtivismo, revelando, em sua grande maioria, uma atitude favorável do autor em relação à teoria (apenas, 1,6% destes textos apresentam atitude desfavorável15), ao tempo em que contribuem para a sua disseminação.
É importante ressaltar, contudo, que na investigação realizada por Moscovici (1961) sobre a Psicanálise na imprensa francesa, o teórico trabalhou com jornais e revistas de domínio popular, não incluindo a comunicação científica propriamente dita, tendo em vista que se tratava de um estudo sobre a popularização da ciência. Nesta pesquisa, entretanto, os textos científicos e as entrevistas com intelectuais fizeram parte do corpus de análise porque, mesmo tendo origem no universo reificado e conservando a forma de comunicação destinada à clientela deste universo, encontram-se disponíveis a uma ampla e plural população, sendo
15 Este percentual se refere ao total de textos científicos coletados, qual seja: 125, conforme descrito na tabela 2, página 146 deste documento.
conteúdo de um meio de comunicação geral, no caso a Internet. Assim, mesmo se tratando de mensagens científicas, estão acessíveis a qualquer pessoa ou grupo que esteja conectado à rede e, portanto, contribuem para a popularização da teoria.
Além da polifonia e da diversidade textual encontradas na pesquisa, observamos que os discursos on-line referentes ao construtivismo apresentam uma multiplicidade de público. As mensagens não são apenas para professores e outros profissionais da área, como coordenadores, supervisores, etc... Mas também para profissionais de outras áreas, prefeituras, pais, alunos os mais diversificados e o público em geral. Justificamos o fato de o discurso construtivista on-line direcionar-se para uma diversidade de destinatários pela característica inerente do sistema midiático que o transmite, pois como vimos, a Internet torna disponível um dispositivo original, se comparado aos outros meios midiáticos, que é o dispositivo todos- todos, o qual permite que seus usuários enviem mensagens que possam ser acessadas por todos aqueles que estejam conectados à rede, independente de suas posições geográficas, econômicas, profissionais ou ideológicas.
A intensidade da extensão desta teoria nos conduz a formular a hipótese de uma relação direta entre a autoria, a sua origem, os estilos de publicações, as atitudes manifestadas em relação às idéias construtivistas e a força que estas idéias adquirem no âmbito social e no imaginário das pessoas e grupos. Em relação à autoria dos textos, percebemos que 44,2% tratam-se de artigos assinados por intelectuais, professores de universidades e pesquisadores; 8,1% por professores e coordenadores do ensino médio, fundamental e infantil; 7,8% por estudantes; 14,5% por jornalistas; 4,2% por pais e 21,2% por anônimos. Dentre os textos anônimos, inferimos que muitos são de autoria de donos de escolas, empresas, assessores do governo, jornalistas, etc. Esses dados nos permitem constatar que, embora as informações construtivistas sejam feitas de maneira autônoma por diversas pessoas que não têm uma
formação especializada, as autorias das mensagens provêm, em sua maioria, de pessoas que detêm um certo conhecimento a respeito e uma certa autoridade para argumentar e que, por isto, conferem prestígio à teoria.
Se focarmos na origem destes documentos on-line, conforme comentamos, percebemos que eles se originam de muitos e diferentes sites: universidades, escolas, editoras, livrarias, revistas, jornais, organizações (sindicais, associações), entidades governamentais, entre outros, sendo predominantes os sites universitários, escolares e de entidades governamentais (42%, 33% e 15% respectivamente). Entendemos que a predominância destes sites empresta ao discurso construtivista um caráter de verdade, tendo em vista que se trata de instituições reconhecidas socialmente como autorizadas para falarem da temática. Como nos ensina Foucault (1986, 2002) e Orlandi (1988, 1999) um discurso é reconhecido como estatuto de verdade a partir da legitimação do poder das pessoas e lugares que ocupam no campo do saber. Isso também foi discutido por Jodelet (2001) ao abordar sobre a difusão dos conhecimentos científicos e artísticos. Segundo ela, as pessoas que se dedicam a esta atividade - médicos, terapeutas, trabalhadores sociais, especialistas das mídias e do marketing político - gozam de uma autoridade. Sua palavra respalda-se de uma credibilidade, o que lhe confere um alto grau de prestígio, de confiabilidade, de poder.
Como as mensagens sobre o construtivismo provenientes dos citados sites e autores apresentam, de modo geral, uma atitude favorável em relação ao construtivismo, reafirmam o prestígio e o poder da teoria, ao tempo em que exercem um grau de influência nas opiniões e nas condutas dos indivíduos e grupos. Entendemos, ainda, que este prestígio e poder exercidos estão ligados também às imagens, aos papéis, aos valores, sempre positivos, que lhes atribuem. Tais imagens e representações são o conteúdo que abordaremos no tópico a seguir.