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4. Article I: Interest dynamics on Hurtigruten: A triangulated multi-method ethnography

4.2 Methodological findings

Aspectos demográficos, como tamanho, concentração e distribuição1 fornecem um panorama geral das necessidades e da demanda por serviços de saúde em uma determinada área. O tamanho da população, por exemplo, tem uma relação direta e positiva com a demanda por serviços: quanto maior a população, maior a necessidade de cuidado. Permanecendo quaisquer outros aspectos constantes, como o estado de saúde, um aumento populacional acarretará, consequentemente, um aumento na utilização de serviços.

Essas características demográficas esboçam a relação entre utilização de serviços de saúde e aspectos populacionais gerais, mas a utilização varia amplamente com idade. Além disso, populações não são unidades homogêneas em decorrência, principalmente, das diferenças na estrutura etária. Duas populações com o mesmo tamanho podem ter demandas por serviços de saúde diferentes, por exemplo, se a composição etária entre elas é distinta.

A idade representa uma das características mais relevantes da população. Ela resulta da interação dos processos demográficos – principalmente fecundidade e mortalidade – ao mesmo tempo que também afeta estes mesmos processos (Poston Junior, 2006). Vale destacar que a importância da estrutura etária vai além de questões meramente demográficas: a maior diferenciação entre populações humanas ocorre em termos da estrutura etária, da mesma forma que as instituições sociais (Poston Junior, 2006). Setores da atividade econômica e cívica, como entrada e saída do mercado de trabalho, participação política, início da trajetória escolar, etc, são segmentados em termos da estrutura etária.

Na saúde, a relação entre estrutura etária e fenômenos sociais, como a utilização de serviços, necessita de um entendimento mais profundo da saúde humana, que está relacionado – embora não intrínseco - à idade cronológica. A idade é um preditor importante do estado de saúde (Andersen & Newman, 2005), mas não é suficiente para mostrar toda a variabilidade da utilização por grupo etário. Um indicador mais claro da relação entre idade e utilização de serviços de saúde é dado pela proximidade à morte.

1 A concentração da população é geralmente expressa em medidas de densidade, e distribuição refere-se à

Esse indicador tenta captar a interação que há entre severidade do estado de saúde e a idade, como forma de mostrar que não é a idade, por si só, que determina a utilização. Muitos autores têm incluído a proximidade à morte para entender essa relação entre idade e demanda por serviços, com ênfase nos gastos com saúde (Yang et al, 2003; Seshamani & Gray, 2004; Polder et al, 2006; Raitano, 2006; Layte, 2007). A hipótese é de que a introdução dessa variável arrefece o efeito da idade. Contudo, Forma et al (2009) mostram que, para a utilização de serviços de saúde, tanto idade quanto proximidade à morte são preditores importantes da utilização.

A relação entre idade e saúde envolve a compreensão de aspectos biológicos que afetam a capacidade funcional do organismo (Carey & Vaupel, 2006). Com o avanço da idade, a capacidade do organismo se desgasta, aumentando a vulnerabilidade e a probabilidade de morte. Isso resulta de um processo natural a que todo ser vivo está sujeito. No entanto, a utilização de serviço de saúde não está ligada necessariamente à idade cronológica, pois alguns indivíduos nascem mais frágeis que outros, ou passam por algum episódio que compromete a sua saúde antes que o processo de envelhecimento celular chegue ao seu limiar. As diferenças da utilização por grupo etário, então, resultam de distintas características fisiológicas entre os grupos populacionais ou choques exógenos que comprometem a saúde.

Juntamente com a idade, a variável sexo é, também, uma característica central da população e, na maior parte dos casos, imutável. Enquanto o conceito de sexo é utilizado para analisar diferenças biológicas no organismo, o conceito de gênero é designado para se estudar diferenças não-biológicas (Poston Junior, 2006). Diferenças observadas na utilização entre grupos populacionais estão associadas à composição da população por sexo/gênero (Rosenberg & Moore, 1997). Diversos fatores determinam necessidades diferenciadas por atendimento entre os sexos e gêneros, como hábitos de vida, consumo e percepção de saúde distintos (Aquino et al, 1992).

Eliminando fatores meramente obstétricos, a literatura aponta que as mulheres, em geral, tendem a utilizar mais serviços de saúde do que os homens (Bertakis et al, 2000; Koopmans & Lamers, 2007; Dias-da-Costa et al, 2008), mas há uma diferença em relação ao tipo de utilização. As mulheres buscam mais médicos generalistas, ao passo que os homens buscam mais médicos especialistas (Vegda, 2009). Além disso, as taxas de internação são menores para as mulheres quando a utilização por motivos

ginecológicos e obstétricos não é considerada. Essas diferenças entre os gêneros na utilização de serviços de saúde podem ser explicadas por dois fatores: os homens buscam menos prevenção do que as mulheres (Vegda, 2009); as mulheres apresentam maior prevalência de doenças crônicas não-fatais (Koopmans & Lamers, 2007).

Estudos apontam que pessoas com muitos distúrbios somáticos tendem a procurar mais cuidado primário e secundário do que aquelas que não apresentam esses sintomas, mesmo que o diagnóstico para o motivo que levou à queixa não se confirme (Mewes et al, 2008). Nesse ponto, as mulheres tendem a apresentar maior morbidade somática do que os homens (Koopmans & Lamers, 2007; Mewes et al, 2008), o que pode explicar a maior utilização de serviços médicos para o sexo feminino. No caso dos homens, que tendem a postergar a utilização desses serviços, a necessidade de cuidado exige uma intervenção mais acurada, o que explica, em parte, taxas de internação mais elevadas para esse grupo.