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No Brasil, os fatores associados à utilização de serviços de saúde como aproximação da demanda são abordados, principalmente, em termos de características demográficas como sexo e idade, presentes em praticamente todos os trabalhos. A identificação de algum tipo de morbidade (Pinheiro & Travassos, 1999; Almeida et al, 2002) e condições socioeconômicas como renda, escolaridade e cobertura de plano de saúde (Castro et al, 2002; Goldbaum et al, 2005) também são fatores que afetam a utilização de serviços usualmente encontrados na literatura. Menos frequentes são os estudos que procuram analisar a associação entre utilização de serviços e características do sistema de saúde (Castro & Carvalho, 2005; Carret et al, 2007).

Em relação à idade, há evidências de que a utilização de serviços de saúde é mais

concentrada nas idades extremas, seguindo um padrão com formato em “U” (Nunes,

2004). Os idosos utilizam principalmente internações, por apresentarem maiores necessidades de saúde, na média, do que outros grupos (Castro et al, 2002). Hipertensão e artrite são as duas doenças crônicas mais relatadas por idosos entre as disponíveis no suplemento de saúde da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Lima-Costa et

al, 2003). Estudo feito por Tavares et al (2008) mostrou que os idosos dependem, essencialmente, de serviços públicos, e que a maior procura por serviços ocorre em unidades básicas de saúde e em locais com atendimento de urgência/emergência. Além disso, outros trabalhos constataram que a maior parte dos idosos necessita de medicamentos, os quais consomem cerca de ¼ de sua renda na aquisição desses bens (Lima-Costa et al, 2003).

Em relação ao sexo, as evidências apontam que as mulheres utilizam mais os serviços de saúde (Pinheiro et al, 2002), principalmente em idades reprodutivas. Em relação à utilização de serviços específicos, as mulheres apresentam maior probabilidade de procurar serviços de saúde mental (Andrade et al, 2008), o que está relacionado, segundo os autores, ao fato de elas apresentarem maior taxa de incidência de depressão e manifestações físicas de ansiedade. Apesar disso, a taxa de internação na rede pública é maior para os homens nas idades extremas do que para as mulheres (Nunes, 2004). Lima-Costa et al (2003) mostraram que a percepção de saúde tende a piorar com a idade entre homens idosos, comparativamente às mulheres idosas, embora essas apresentem maior prevalência de doenças crônicas do que os homens nessa mesma faixa etária. Isso se reflete nos gastos com saúde: os custos proporcionais das internações públicas dos idosos são três vezes maiores que seu tamanho populacional proporcional (Lima-Costa et al, 2003).

Quanto às características socioeconômicas, evidências mostram que existe uma desigualdade social na utilização de serviços de saúde desfavorável às pessoas de baixa renda (Castro et al, 2002). Castro et al (2002) apontam que o maior acesso aos serviços de saúde por pessoas de baixa condição socioeconômica depende, em grande medida, do bom funcionamento do sistema de saúde. Há evidências de que a intervenção do Estado via Programa Saúde da Família (PSF) tem melhorado o acesso de indivíduos de menor condição socioeconômica aos serviços públicos de saúde (Fernandes et al, 2009). Bousquat et al (2008) mostraram que o PSF é seletivo por nível socioeconômico nas regiões metropolitanas, com indivíduos de maior posição econômica e ocupacional apresentando menor uso desse tipo de serviço. Goldbaum et al (2005) apontaram que a estratégia do Saúde da Família alterou o perfil de utilização de serviços na população, reduzindo a desigualdade social no acesso aos serviços para a população pouco

escolarizada e/ou de baixa renda. A importância do sistema público de saúde também foi verificada para atendimentos de urgência: cerca de 70% dos acidentados no trabalho tiveram seu atendimento realizado na rede pública em Salvador no ano 2000, independente da cobertura de plano de saúde (Santana et al, 2007).

Carret et al (2007) argumentaram que a melhoria do acesso à atenção primária é um fator fundamental para a redução da procura por serviços de emergência sem necessidade, que tem como consequência custos mais altos e criação de barreiras para o atendimento de pessoas com necessidades reais. Entre os fatores associados às internações hospitalares no Brasil, Castro et al (2002) observaram que, quanto menor a renda e a escolaridade, maior é o coeficiente de internação hospitalar geral, e que a taxa de internação também é mais alta quando algum tipo de doença crônica é identificada. Resultado semelhante foi encontrado por Noronha e Andrade (2002) ao indicar que, quanto menor a renda familiar per capita, maior a utilização de serviços hospitalares. No que concerne às características da oferta sobre as internações, Castro & Carvalho (2005) apresentam evidências de que entre 1 a 3% da variação na utilização de serviços hospitalares entre as Unidades da Federação pode ser atribuída a diferenças de oferta de serviços, especificamente do número de leitos hospitalares. Estudo feito por Bos (2007) também encontrou que o número de médicos per capita teve forte associação positiva com o uso de serviços de saúde em um município do sul do Brasil, juntamente com a pior auto-avaliação do estado de saúde.

Mudanças em uma ou todas essas características – demográficas, epidemiológicas e do sistema de saúde – exercem enorme impacto sobre a demanda por serviços de saúde. Para fins de planejamento, é primordial que o aparato institucional do sistema de saúde leve em conta essas características e sua dinâmica para determinar a quantidade e o tipo de serviço necessário em cada localidade. Embora as evidências indiquem que as características demográficas, epidemiológicas e da oferta de serviços são as principais preditoras da utilização de serviços, em geral os trabalhos que realizam previsão da demanda dão ênfase maior às mudanças nas características demográficas e epidemiológicas. O próximo capítulo apresentará uma revisão dos trabalhos e metodologias utilizadas para projeção da demanda por serviços de saúde.

3 REVISÃO METODOLÓGICA SOBRE PROJEÇÃO DA