Os estudos de caso apresentados têm características e objectivos muito diferentes e embora todos foquem a implementação da SA8000, centram-se em aspectos distintos. No primeiro estudo a análise recai sobre o papel da SA8000 para um país exportador e procura, através de um caso de sucesso na implementação da norma na Tailândia, explicar o papel da norma como ferramenta para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. O estudo analisa pormenorizadamente um dos seus requisitos – as horas de trabalho – por ser aquele com o qual a empresa teve dificuldades. Não nos é dada informação ao longo do estudo sobre os outros requisitos, sabe-se no entanto que para obter a certificação é necessário que a empresa tenha uma prática que vá ao encontro do que é exigido pela SA8000.
O segundo estudo analisa a implementação da norma numa empresa indiana na sequência de um acordo comercial. A empresa importadora exige que todos os seus fornecedores se rejam pelos seus valores e filosofia. Podemos verificar através da informação que nos é dada a prática da empresa em relação a cada um dos requisitos, assim como a legislação nacional em vigor.
O terceiro estudo enquadra-se na problemática da gestão ética das cadeias de produção e faz uma análise comparativa entre dois instrumentos, a ETI e a SA8000, ao nível dos custos de implementação. Conclui que, para a empresa em questão, embora haja um custo mais elevado no primeiro ano de implementação da norma e nos anos em que é solicitada a renovação da certificação, esses custos são recompensados pelos ganhos em produtividade, ganhos de eficiência e garantia de relações comerciais de longo prazo. No que respeita os requisitos da norma é-nos dado o panorama geral para a indústria vinícola da África do Sul, em termos de legislação nacional em vigor e práticas correntes. Não são analisadas as práticas da empresa em particular.
No quarto estudo de caso vamos centrar a nossa análise nos ajustamentos, aos requisitos da norma que a empresa teve que levar a cabo, devido às especificidades da indústria em questão. A SA8000 foi
originalmente concebida para as manufacturas, existindo alguns elementos da norma que a empresa considerou não serem apropriadas às actividades de navegação e às actividades agrícolas sazonais que não incluam a produção de bananas. Assim, a empresa adoptou pequenas modificações ao referencial SA8000 actual, que passamos a enumerar com referência ao texto original da norma:
• A Secção 1.5 e Definição 13 foram alteradas no sentido de abranger a situação do emprego dos filhos dos agricultores nas actividades sazonais de pequenas quintas familiares;
• A Secção 4.1 foi alterada para afirmar o direito de todos os trabalhadores de formarem ou se associarem a sindicatos e outras organizações à sua escolha de acordo com a Convenção 87 da OIT;
• A Secção 5.1, que detalha as categorias de não discriminação foi alargada para incluir o status de veterano e limitada a incluir simplesmente a idade dos trabalhadores mais velhos, pois a empresa quer ter liberdade para estabelecer uma idade mínima para a contratação;
• A Secção 7.4 foi acrescentada de forma a abordar as horas de trabalho requeridas nas operações com frutas frescas à excepção das bananas e das operações da frota de navios, as quais requerem uma maior flexibilidade para dar resposta as necessidades de colheitas sazonais, limitadas á força de trabalho rural disponível e aos acordos de pessoal de navegação.
A Chiquita não emprega trabalhadores domésticos, por isso a Secção 9.9 da SA8000 não se aplica.
Ultrapassadas as disparidades em termos de informação disponível em cada estudo, a sua análise permite-nos aferir que a implementação da SA8000 está intimamente ligada à filosofia da empresa. Existe um envolvimento evidente do presidente da empresa na definição desta filosofia, quase um cunho pessoal, assente em valores que vão para além do lucro imediato – integrando preocupações de desenvolvimento social e protecção ambiental. A sua implementação está claramente integrada na estratégia comercial de longo prazo da empresa, que pretende garantir o seu mercado de exportações ou através do cumprimento de um requisito obrigatório imposto pelos seus fornecedores ou como estratégia de diferenciação das outras empresas exportadoras no mesmo sector.
Através da implementação da SA8000 são alcançados, em simultâneo, objectivos económicos e sociais – aumento da produtividade do trabalho e melhoria das condições de vida dos trabalhadores. É um instrumento segundo o qual empresa põe em prática em primeiro lugar a sua RSE interna promovendo o bem-estar social dos seus trabalhadores e criando valor para os seus accionistas. A gestão da empresa ganha em eficiência com a internalisação dos procedimentos requeridos pela norma ao nível dos sistemas de gestão.
Em dois dos casos, a implementação da SA8000 vem na sequência da implementação de ISO 9000 e ISO 14000 e consequente certificação em qualidade e ambiente. A SA8000, tendo em conta o seu campo de aplicação, não pode ser caracterizada como uma norma de certificação social, quanto muito atribui uma certificação social parcial.
A adesão a esta norma, como percurso natural de uma empresa que persegue objectivos estratégicos de melhoria contínua, leva-nos a crer que se existisse uma norma de certificação global da RSE (que abrangesse as várias dimensões da RSE) as empresas acabariam por aderir, havendo assim um sistema que contemplasse todas as fases e requisitos necessários para que uma empresa pudesse ser considerada socialmente responsável, reconhecido a nível mundial.