4 Interpretation of ozone and NO 2 measurements at Spitsbergen
4.2 Meteorological conditions and model comparison
para o homem"
Este sexto capítulo está quase inteiramente dedicado à análise da quarta questão. Na Q4, Peirce procurou estabelecer que a sua teoria inferencial da cognição é plenamente capaz de explicar como funciona a capacidade que os indivíduos possuem de conhecer fatos internos. A pergunta é a seguinte: como é gerado o conhecimento que o indivíduo obtém sobre sua própria mente, sobre o seu "interior"? Uma minuciosa análise do tratamento que Peirce dá a esta quarta questão é fundamental para entendermos o modo como a tese central do QFCM é estabelecida (na Q5). Deve-se enfatizar que o objetivo de Peirce nestas três últimas questões (tanto nesta Q4 bem como na Q2 e Q3) é justamente estabelecer que as capacidades137 em torno das quais giram cada uma dessas questões podem ser melhor explicadas teoricamente a partir do conceito de inferência, o que tornaria desnecessária qualquer recurso ao conceito de intuição. Antes de passarmos à quinta questão (cuja análise deve ser apresentada no sétimo capítulo), separamos uma seção deste sexto capítulo para tratar de um problema que viemos evitando desde o quarto capítulo (no qual analisamos a Q1). Este problema é o que denominamos de
segundo tipo de intuição (dentro do QFCM).
137 Capacidade de se gerar autoconsciência (Q2), a capacidade para se distinguir entre os elementos
181
6.1 Análise da Q4: sobre a capacidade de introspecção
Questão 4: Se temos alguma capacidade de introspecção ou se nosso conhecimento do mundo interior é derivado de observação de fatos externos.
Nesta quarta questão, Peirce trata de uma capacidade (reivindicada para o homem) que é geralmente entendida como um caso claro de intuição: a introspecção. Aceita a ideia de que há um conjunto de fatos dos quais se diz geralmente que são externos enquanto outros são considerados internos, pode-se colocar a seguinte pergunta: como são conhecidos estes fatos (considerados) internos?
Da forma como é estabelecida a quarta questão do QFCM, são oferecidas duas respostas (excludentes) a esta pergunta que acabamos da fazer. Ou este conhecimento dos fatos internos é dado por uma espécie de acesso direto ou este conhecimento dos fatos internos é dado de forma indireta (ou seja, é dado como o resultado de uma inferência feita a partir de observações de fatos externos). Na primeira resposta, afirmamos existir uma capacidade intuitiva de conhecer os fatos internos e, na segunda resposta, ao contrário, afirmamos existir apenas uma capacidade não-intuitiva (inferencial, indireta) de vir a conhecer tais fatos. No QFCM, Peirce entende por introspecção apenas o primeiro desses casos.
Não é a intenção aqui assumir a realidade do mundo externo. Somente assumir que há um certo conjunto de fatos que são geralmente considerados como externos, enquanto outros, como internos. A questão é se os últimos podem ser conhecidos de alguma outra forma que não por inferência realizada a partir dos primeiros. Por introspecção, entendo a percepção direta do mundo interno, porém não necessariamente a percepção deste mundo como interno. Com este termo [introspecção] também não pretendo limitar o significado da palavra intuição, mas pretendo estendê-lo a qualquer conhecimento do mundo interno que não seja derivado de observação externa.
(CP 5.244 [1868])138
Portanto, neste primeiro parágrafo, Peirce deixa claro que entende por introspecção uma percepção direta do mundo interno ou qualquer conhecimento do mundo interno que não seja derivado de observações externas. Neste trecho, Peirce observa que, no QFCM, embora a introspecção seja entendida como uma percepção (direta) do mundo interno, ela não é necessariamente uma percepção de tal mundo enquanto interno. Acreditamos
138 No original: It is not intended here to assume the reality of the external world. Only, there is a certain
set of facts which are ordinarily regarded as external, while others are regarded as internal. The question is whether the latter are known otherwise than by inference from the former. By introspection, I mean a direct perception of the internal world, but not necessarily a perception of it as internal. Nor do I mean to limit the signification of the word to intuition, but would extend it to any knowledge of the internal world not derived from external observation.
182 que Peirce fez esta observação, pois, para se perceber uma cognição enquanto algo interno (em oposição às cognições que seriam relativas ao mundo externo), deve-se distinguir o elemento subjetivo desta cognição e, assim, classificá-la como pertencente a um tipo de cognição. E, para que tal distinção possa ser feita e para que possamos saber que ela é relativa a algo externo ou interno, deve-se necessariamente recorrer a inferências. Este ponto foi estabelecido ao final da Q3.
Deve-se chamar atenção também para o fato de que, nesta quarta questão, Peirce coloca em dúvida a própria capacidade de introspecção. Nas questões anteriores, Peirce isolava certa capacidade e passava a questionar se tal capacidade era intuitiva ou não. Na Q1, era a capacidade de distinguir intuições (de cognições derivadas); na Q2, era a capacidade relativa à autoconsciência; na Q3, era a capacidade de distinguir entre os elementos subjetivos de diferentes tipos de cognição. Em cada uma destas questões, a pergunta era se a capacidade sob análise era intuitiva. Note que, nesta quarta questão, não tem sentido se perguntar se a capacidade de introspecção é ou não intuitiva, porque, pela definição, o conhecimento que seria introspectivo (no caso de haver tal capacidade) seria também intuitivo. As respostas negativas a todas as questões anteriores não estabelecem, no argumento geral desenvolvido no QFCM, que não haja capacidade de se fazer distinção entre intuições, de se gerar autoconsciência ou de se diferenciar entre os diversos tipos de cognição. Tais respostas negativas estabelecem apenas que tais capacidade não são intuitivas (ou que não há evidência suficiente que sustente a hipótese que propõe que estas faculdades sejam intuitivas). Na Q4, é a própria capacidade de introspecção (como um todo) que será descartada, caso a resposta seja novamente negativa. E, a julgar pelo que já testemunhamos até este ponto do QFCM, não devemos esperar outro destino para esta capacidade.
Antes de continuarmos, chamemos a atenção para uma suposta inconsistência terminológica no texto peirceano, pois, embora ela não atrapalhe o argumento elaborado por Peirce nesta Q4, pode haver alguma confusão, principalmente com relação à resposta negativa que resulta do tratamento desta questão do QFCM. De acordo com a definição que acabamos de fornecer, o conceito central desta quarta questão, a introspecção, diz respeito a "uma percepção direta do mundo interno". Esta definição dada já no primeiro parágrafo (CP 5.244 [1868]) não condiz com o uso que Peirce faz do termo "introspecção" no seguinte trecho (que está no terceiro parágrafo da Q4): "Embora introspecção não seja necessariamente intuitiva, não é auto-evidente que possuamos esta capacidade"(CP 5.246 [1868])139. Neste trecho transcrito, ele parece usar o termo num sentido lato, diferente do sentido mais estrito utilizado na definição (do primeiro parágrafo da Q4). Entretanto fiquemos, em nossas análises, com o sentido dado na definição, ou seja, o termo introspecção como um tipo de percepção necessariamente intuitivo, uma vez que é, por definição, direto.
Seguindo a linha geral da estratégia argumentativa que vem desenvolvendo para lidar cada uma das questões levantadas no QFCM, também o primeiro passo dado por Peirce
139 No original: "Although introspection is not necessarily intuitive, it is not self-evident that we possess
183 nesta Q4 é estabelecer que a capacidade de introspecção não é auto-evidente. A argumento utilizado para este fim pode ser explicitado da seguinte forma:
Argumento sobre a auto-evidência da capacidade de introspecção
Premissa1: Se fosse auto-evidente a capacidade de introspecção, então teríamos a capacidade intuitiva de distinguir diferentes modos subjetivos de consciência. Premissa 2 (estabelecida em Q3): Não temos a capacidade intuitiva de distinguir diferentes modos subjetivos de consciência.
Conclusão: Não é auto-evidente que tenhamos a capacidade da introspecção.
Para que esta conclusão seja aceitável, devemos avaliar a pretensa verdade (que deve estar) contida nesta primeira premissa, ou seja, temos que analisar por qual razão Peirce faz esta conexão entre a (suposta) auto-evidência da introspecção e a capacidade intuitiva de distinguir diferentes modos subjetivos de consciência. Por trás desta primeira premissa, há ideia de que, se afirmamos que temos a capacidade de julgar infalivelmente que temos a tal capacidade de introspecção, é porque pressupomos que temos a capacidade de julgar infalivelmente se estamos diante de um fato interno ou de um fato externo.
O problema de fundo neste ponto é a certeza, a infalibilidade que deve acompanhar um julgamento intuitivo. Suponha que tenhamos certeza de que estamos observando um fato interno (i.e., estamos certos que estamos "olhando para dentro de nós mesmos"). Então, neste caso, só podemos ter esta certeza se também tivermos certeza a respeito do julgamento que nos diz que aquele fato que observamos é interno (e não externo). Entretanto, não podemos ter esta última certeza, pois, caso fosse possível tê-la, então deveríamos ser capazes de julgar infalivelmente (leia-se, intuitivamente) se estamos diante de um fato interno ou de um fato externo. Não temos esta última capacidade e este foi o ponto estabelecido na Q3. O que está em discussão neste ponto da Q4 é que só poderíamos ter certeza acerca de nossa capacidade de introspecção se tivéssemos certeza acerca da nossa capacidade de diferenciar os modos subjetivos de consciência (o que foi objeto de investigação na Q3). Em resumo, só seria auto-evidente a tal capacidade de introspecção, se fossemos capazes de distinguir intuitivamente fato interno de externo. Porém, não somos capazes de distinguir intuitivamente fato interno de externo (o que resulta da Q3). Logo, a tal capacidade de introspecção não é evidente por si mesma. O resultado desse argumento é que, como a capacidade em questão não é auto-evidente, devemos procurar evidências que sustentem a ideia de que haja algo como introspecção.
A pergunta, então, é a seguinte: como temos acesso aos fatos internos, ao mundo interno? Este acesso é direto ou indireto (intuitivo ou inferencial)? Como foi feito na
184 análise das questões anteriores, denominemos estes duas possíveis respostas como caso I e caso II respectivamente. Vejamos, em primeiro lugar, evidências que corroborariam o caso I.
O primeiro ponto analisado por Peirce é a tese que se pode obter conhecimento de fatos internos se atendo à sensação. Esta tese afirma que, considerando dados sensoriais, poderíamos ter algum conhecimento do mundo interior e a questão é se este conhecimento é ou não intuitivo. Tal tese parte da ideia de que toda sensação é, em parte, determinada por condições internas. O raciocínio que nos leva a esta tese pode ser ilustrado pelo seguinte exemplo: "a sensação de vermelidão é o que é graças à constituição da mente. E, neste sentido, ela é a sensação de algo interno. Então, podemos derivar um conhecimento da mente de uma consideração acerca desta sensação" (CP 5.245 [1868])140. Porém, ainda que possamos ter algum conhecimento sobre fatos internos (sobre a mente, nos termos de Peirce) graças a considerações de dados sensórios, não podemos afirmar que este acesso é intuitivo, pois este conhecimento seria, de fato, resultado de uma inferência acerca da "vermelidão" como um predicado de algo externo. O conhecimento obtido sobre fatos internos, nesta situação, seria retirado de fatos externos, i.e., da observação de diversos objetos vermelhos. Esta seria, portanto, uma evidência favorável ao caso II (não ao caso I). No próprio texto do QCFM, Peirce não desenvolve argumentação com relação a esta tese específica sobre o "conhecimento da mente derivado da consideração de uma sensação". Entretanto, há elementos nesta quarta questão e também em outros pontos do QFCM que podem nos auxiliar a reconstruir este argumento. Por exemplo, ainda na Q4, quando passa a analisar se o conhecimento que podemos obter a respeito de outros tipos de sentimentos141 (como as emoções) exigiria a suposição de uma faculdade intuitiva (introspectiva, direta), Peirce afirma que as emoções (como a raiva, por exemplo) não implicam que objeto externo (que é "alvo" da emoção) tenha um caráter determinado e constante. Como esta observação é feita logo após uma análise da sensação, pode-se afirmar que Peirce entende que a sensação (ao contrário da emoção) é um sentimento que implica que seu objeto externo tenha um caráter determinado e constante. Outro elemento que pode auxiliar nesta reconstrução é a teoria segundo a qual a função de um conceito é trazer à unidade a multiplicidade das impressões dos sentidos. Esta teoria foi utilizada por Peirce não apenas no artigo (imediatamente anterior à série cognitiva) intitulado "Sobre uma nova lista de categorias", mas também na Q1 do QFCM (cf. CP 5.223 [1868]). Tentemos, então, reconstruir a argumentação peirceana para sustentar a tese que ao conhecimento que se obtém pela consideração de uma sensação é um conhecimento indireto (não-intuitivo).
Como alguém pode saber que está tendo uma "sensação de vermelho"? Como alguém pode saber que está vendo algo vermelho? A resposta mais óbvia seria que esta pessoa
140 No original: "Thus, the sensation of redness is as it is, owing to the constitution of the mind; and in this
sense it is a sensation of something internal. Hence, we may derive a knowledge of the mind from a consideration of this sensation".
185 saberia que está diante de um objeto vermelho simplesmente porque ela reconheceria um certo padrão na impressão dos sentidos. Porém, cumpre notar que, para Peirce, este reconhecimento é indireto, pois depende de uma comparação com experiências anteriores, i.e., todas aquelas vezes em que esta pessoa esteve diante de algum objeto que julgou ser vermelho. Este é, portanto, um conhecimento falível, hipotético. É sempre possível que estes objetos que tenham sido classificados como vermelhos pela mente desta pessoa não o sejam. Suponha que tal pessoa tenha passado a vida classificando como vermelhos objetos que, na verdade, eram azuis. Toda vez que este indivíduo estava diante de um objeto azul e sua mente recebia do aparato sensório uma miríade de impressões (causadas pelo objeto), ela tratava de unificá-las sob o conceito de vermelho. Isto é improvável, mas não é impossível. Sabemos que isto é improvável, pois, para manter este conceito de vermelho, a pessoa em questão teria que viver isolada ou, se tivesse algum contato com outros indivíduos, não teria oportunidade de usar o termo relativo ao "seu" conceito de vermelho em enunciações linguísticas. Caso tivesse contato com outros indivíduos e oportunidades de externalizar suas percepções acerca dos objetos que julga vermelho, a tendência é que a pessoa possa, ao poucos, corrigir sua concepção, inicialmente, errônea de vermelho.
Este tratamento do conhecimento obtido pela sensação como indireto é coerente com o quadro geral da epistemologia peirceana (apresentado em toda a séria cognitiva) e, sobretudo, com o objetivo de responder a pergunta que Peirce considera central na filosofia: como são possíveis as sínteses, i.e., como é possível haver ampliação do conhecimento ("absorção" de informação sobre o mundo)? Dentro deste quadro geral, os juízos da percepção são também falíveis e o conhecimento neles baseado é sempre de natureza hipotética. Mais uma vez, os projetos epistemológicos peirceanos e cartesianos nos apresentam teses diametralmente opostas. Se, por um lado, na epistemologia peirceana, o indivíduo (o sujeito cognoscente entendido individualmente) é o locus do erro e da ignorância; por outro lado, para o projeto epistemológico cartesiano (das fundações do conhecimento físico-matemático), a mente do indivíduo é o locus da certeza e do conhecimento seguro.
Se esta interpretação das teses peirceanas nesta Q4 estiver certa, então a possibilidade de um pensamento ser externalizado é essencial para a teoria da cognição de Peirce. A partir da Q4, ao negar que haja introspecção, i.e., ao negar que haja algum conhecimento direto de fatores internos, torna-se possível equacionar dentro da teoria o conceito de pensamento e de signo (o que Peirce faz efetivamente apenas na Q5). Realizado este passo fundamental dentro do QFCM, torna-se possível, dentro do projeto mais amplo da série cognitiva, responder aquela questão que Peirce julga ser a mais importante da filosofia. A negação da introspecção é, portanto, um passo estratégico dentro do projeto epistemológico peirceano. Por este motivo, no segundo artigo da série cognitiva, Peirce afirma que, negada a capacidade de introspecção, deve-se "deixar de lado todas as preconcepções derivadas de uma filosofia que baseia o nosso conhecimento do mundo externo em nossa autoconsciência". E, assim, "não podemos admitir nenhuma afirmação sobre o que se passa dentro de nós exceto como uma