reivindicadas para o homem"
Depois de estabelecida, com os argumentos apresentados na Q1, a negação da capacidade intuitiva de distinguir intuições, Peirce lança sombra sobre as teorias epistemológicas que recorrem ao conceito de intuição (num papel fundacional) para explicar as faculdades cognitivas. Assim, está aberto o caminho para a construção de uma teoria inferencial da cognição. As explicações e os conceitos mobilizados por tal teoria passam ao largo do conceito de intuição e de fundação (ou ponto originário do processo de conhecimento). Os dois primeiros passos para a construção desta teoria (alternativa, livre do conceito de intuição) que Peirce pretende erigir no QFCM é provar que ela pode explicar a capacidade que o homem possui de saber de sua própria existência (uma capacidade à qual geralmente se dá o nome de autoconsciência) e também pode explicar a capacidade humana de distinguir entre os diversos tipos de estados mentais recorrendo-se apenas à inferência (sem se utilizar, portanto, do conceito de intuição no papel de ponto originário). Estes dois importantes passos, que serão (por nós) analisados nas duas seções das quais é composta este quinto capítulo, são dados por Peirce na Q2 e na Q3 dentro do QFCM.
148
5.1 Análise da Q2: sobre a autoconsciência intuitiva
Questão 2: Se temos uma autoconsciência intuitiva.
Nesta segunda questão, Peirce volta sua atenção para aquele pode ser considerado um caso privilegiado de cognição: a autoconsciência. Parece não haver sombras de dúvidas que, dentre vários fatos dos quais podemos ter consciência ao longo da vida, a consciência de que existimos ou a chamada autoconsciência seja o conhecimento acerca do qual mais se possa ter certeza (ou, visto de outro ângulo, sobre o qual não poderia pairar a menor dúvida). Se imaginarmos uma escala de certeza sobre tudo aquilo que pensamos (ou podemos pensar), talvez o pensamento de que aquele que está pensando existe seja o pensamento que atinge o grau máximo em tal escala. Em resumo, a autoconsciência é um forte candidato ao posto de conhecimento certo, indubitável, intuitivo.
De forma similar ao que foi feito na Q1, o primeiro parágrafo da Q2 é dedicado inteiramente à definição do principal conceito desta seção: a autoconsciência. De saída, Peirce trata de distinguir o que ele entende por autoconsciência no QFCM não só do conceito kantiano de "apercepção pura"113 e de sentido interno, mas também da noção de consciência em geral. A autoconsciência, conforme definida no QFCM, é um conhecimento que tem como objeto a existência de um ego (individual, empírico, "situado"). A autoconsciência seria, então, o conhecimento que temos de nossa própria existência individual, i.e., como um "eu privado". A pergunta que deve ser feita é a
113 O termo "apercepção" que parece ter sido definido de forma mais clara pela primeira vez por
Leibniz, embora já estivesse presente em Descartes (cf. Mora, 2000, tomo I, p. 159) significa "consciência que acompanha a percepção". Este termo designa uma espécie de consciência de que há "algo" que percebe (além do objeto da percepção). Em Kant, encontra-se uma distinção entre apercepção empírica e apercepção pura (cf. KrV, B 132). Esta consciência que acompanha cada percepção particular e que torna possível distinguir aquele que percebe do objeto percebido, na terminologia kantiana, seria a apercepção empírica ou sentido interno (KrV, A107). Esta é a consciência de si mesmo dada empiricamente (por isso de forma sempre mutável) num "rio de fenômenos internos" (ibid). Já a apercepção pura é definida justamente como uma condição da consciência em geral, é a condição que precede toda experiência e torna esta possível (ibid). Enquanto a apercepção empírica é a consciência de si (o "eu penso") que acompanha cada uma minhas representações (em particular), a apercepção pura é a consciência de si (o "eu penso") que acompanha todas as representações compondo-as umas com as outras e me tornando consciente de sua síntese (KrV, A107). Com notável atenção ao que já foi chamado (por alguns poetas no século XX) de concreção da linguagem, Peirce lança mão de expedientes tipográficos para esclarecer esta distinção kantiana e, dessa forma, elucidar o que entende por autoconsciência no QFCM. De acordo com Peirce, "apercepção pura é a auto-asserção dO ego. A autoconsciência de que trato aqui [no QFCM] é o reconhecimento de meu eu privado. Eu sei que EU (e não meramente O eu ) existo" (CP 5.225 [1868])*. Como ficará evidente, nesta segunda questão, o uso que faz Peirce do termo autoconsciência está muito mais próximo do que Kant, na Crítica da Razão Pura, entende por apercepção empírica.
* No original: "Pure apperception is the self-assertion of THE ego; the self-consciousness here meant is the recognition of my private self. I know that I (not merely the I) exist".
149 seguinte: como obtemos este conhecimento (esta autoconsciência)? Mais uma vez, estamos diante de uma bifurcação. Ou afirmamos que a autoconsciência é um conhecimento intuitivo (i.e., obtido de forma direta ou imediata) ou afirmamos que a autoconsciência é um conhecimento derivado, determinado por cognições anteriores (i.e., obtido por meio de inferência). Como foi feito na análise da Q1, chamemos estas alternativas respectivamente de caso I e caso II.
Desta vez, comecemos pelo caso I. Na verdade, comecemos pela análise do posicionamento que trata este caso I (a autoconsciência intuitiva) como uma proposição auto-evidente, como algo que está fora de questionamento. Esta é alternativa mais "natural", mais próxima ao senso comum. Parece-nos auto-evidente que o conhecimento que temos de nossa própria existência é uma cognição originária, intuitiva. Entretanto, e o argumento peirceano é construído nesta linha, para que seja auto-evidente que temos a faculdade intuitiva especial que gera a autoconsciência, seria necessário que tivéssemos uma capacidade intuitiva de distinguir uma intuição de cognições determinadas (por outras cognições). Só podemos afirmar que é, para nós, evidente que determinado tipo de objeto possua a propriedade A se pressupormos que nós temos a capacidade de identificar A (e distingui-lo de B, C, etc.). O problema é justamente a ausência desta faculdade, o que acabou de ser demonstrado na primeira questão. Pode até ser que tenhamos autoconsciência intuitiva, entretanto o que Peirce mostra já no segundo parágrafo da Q2 (transcrito a seguir) é que isto não pode ser (de forma alguma) considerado auto-evidente.
A autoconsciência de que trato aqui [no QFCM] é o reconhecimento de meu eu privado. Eu sei que EU (...) existo. A questão é como eu sei isto; por uma capacidade intuitiva especial ou isto é determinado por cognições prévias? Ora, não é auto-evidente que tenhamos tal capacidade intuitiva, pois acabou de ser mostrado que não temos nenhuma capacidade intuitiva de distinguir entre uma intuição e uma cognição determinada por outras [cognições]. Portanto, a existência ou não existência dessa capacidade deve ser estabelecida por evidência (...).
(CP 5.225 - 226 [1868])114
Repare que o ponto defendido neste trecho transcrito é que, se afirmarmos que a autoconsciência é evidentemente um conhecimento intuitivo, então está pressuposto que temos alguma capacidade intuitiva para distinguir intuições de cognições determinadas (caso contrário, não poderíamos garantir ser este conhecimento uma intuição de forma evidente). Porém, não podemos contar com este pressuposto em Q2, pois acabamos de demonstrar em Q1 que não há evidência que (sequer) sugira que haja uma faculdade intuitiva de distinguir intuições.
114 No original: "the self-consciousness here meant is the recognition of my private self. I know that I (...)
exist. The question is, how do I know it; by a special intuitive faculty, or is it determined by previous cognitions? / Now, it is not self-evident that we have such an intuitive faculty, for it has just been shown that we have no intuitive power of distinguishing an intuition from a cognition determined by others. Therefore, the existence or non-existence of this power is to be determined upon evidence (...)".
150
Argumento sobre a auto-evidência do caráter intuitivo da autoconsciência
Premissa1: Se fosse auto-evidente que a autoconsciência é um conhecimento intuitivo, então teríamos a capacidade intuitiva de distinguir uma intuição de cognições determinadas (por outras cognições).
Premissa 2 (estabelecida em Q1): Não temos a capacidade intuitiva de distinguir uma intuição de cognições determinadas (por outras cognições).
Conclusão: Não é auto-evidente que a autoconsciência seja um conhecimento intuitivo.
Dentro da exposição da Q2, o resultado desta argumentação é que, como não é auto- evidente, devemos procurar por evidências que sejam favoráveis a tal autoconsciência intuitiva. Entretanto, a estratégia peirceana não é procurar estas evidências favoráveis a autoconsciência intuitiva e argumentar contra a existência deste tipo de conhecimento intuitivo. No lugar disso, como já estabeleceu na Q1 o problema envolvido em qualquer capacidade que se considera intuitiva, Peirce passa a enunciar evidências favoráveis à tese de que a autoconsciência é inferencial ou derivada (i.e., não-intuitiva) justamente com o intuito de demonstrar que, como é possível explicar este fenômeno (o surgimento da autoconsciência) a partir de faculdades das quais não resta dúvida que o homem possua (como a capacidade de fazer inferências), não seria necessário recorrer a faculdades das quais não se tem certeza se o homem possui ou não (como a intuição). Antes de passarmos a tratar do modo como Peirce, a partir do terceiro parágrafo da Q2 (CP 5.227 [1868]), construiu seu o argumento contrário à tese de que a autoconsciência é intuitiva (ou, de outra perspectiva, argumento favorável à tese de que a autoconsciência é derivada ou inferencial), deve-se observar que apenas no penúltimo parágrafo da Q2 (CP 5.237 [1868]), ele considerou o argumento adversário (i.e., aquele que pretende sustentar tese de que a autoconsciência é intuitiva). Portanto na Q2, Peirce, em primeiro lugar, apresenta o seu argumento (que responde negativamente a segunda questão) e, em segundo lugar, apresenta uma crítica ao argumento adversário (que responde positivamente a segunda questão). Em nossas análises, vamos inverter esta ordem e tratar primeiro do modo como Peirce lidou com o argumento que sustenta a tese oposta à sua. O penúltimo parágrafo da Q2 é o seguinte:
O único argumento sobre autoconsciência intuitiva que vale a pena citar é o seguinte. Estamos mais certos de nossa existência do que de qualquer outro fato; uma premissa não pode determinar que uma conclusão seja mais certa do que ela mesma é; então, nossa própria existência não pode ter sido inferida de qualquer outro fato. A primeira premissa pode ser admitida, porém a segunda premissa é fundada numa uma teoria lógica ultrapassada. Uma conclusão não pode ser mais certa do que algum dos fatos que suporta a sua verdade, mas ela pode facilmente ser mais certa do que qualquer um daqueles fatos. Suponhamos, por exemplo, que uma dúzia de testemunhas afirmam ter havido uma ocorrência. Então, minha crença naquela ocorrência está baseada
151
na crença de que, em geral, deve-se acreditar em cada um daqueles homens que está sob juramento. Ainda assim, é mais certo o fato testemunhado do que é confiável cada um desses homens. Do mesmo modo, para a mente de um indivíduo (adulto, maduro), sua própria existência é suportada por
qualquer outro fato, e é, então, incomparavelmente mais certa do que qualquer um desses fatos. Entretanto, não se pode dizer que ela [a minha existência] é mais certa do que a existência de outro fato, uma vez que não há nenhuma dúvida perceptível em nenhum dos casos.
(CP 5.237 [1868])115
Comecemos nossas análises deste longo e complicado trecho pela observação de que a estratégia peirceana é desmontar o argumento enunciado no início do parágrafo com um ataque direta a segunda de suas premissas. O argumento que Peirce analisa e pretende desmontar neste trecho pode ser expresso da seguinte forma:
Argumento favorável à tese da autoconsciência intuitiva
Premissa1: Estamos mais certos de nossa existência do que de qualquer outro fato. Premissa:2 Uma premissa não pode determinar que uma conclusão seja mais certa do que ela mesma é.
Conclusão: Nossa própria existência não pode ter sido inferida de qualquer outro fato.
Reparemos que o argumento que Peirce critica afirma que "nossa própria existência não pode ter sido inferida de qualquer outro fato", porque nossa própria existência é mais certa do que qualquer outro fato e também porque uma conclusão não pode "conter" mais certeza do que a premissa que a suporta. Ou seja, como não é possível que a premissa (nesse caso, um fato qualquer) seja mais certa que a conclusão (nesse caso, nossa própria existência), não é possível, então, inferir nossa existência a partir de um fato qualquer.
115 No original: "The only argument worth noticing for the existence of an intuitive self-consciousness is
this. We are more certain of our own existence than of any other fact; a premiss cannot determine a conclusion to be more certain than it is itself; hence, our own existence cannot have been inferred from any other fact. The first premiss must be admitted, but the second premiss is founded on an exploded theory of logic. A conclusion cannot be more certain than that some one of the facts which support it is true, but it may easily be more certain than any one of those facts. Let us suppose, for example, that a dozen witnesses testify to an occurrence. Then my belief in that occurrence rests on the belief that each of those men is generally to be believed upon oath. Yet the fact testified to is made more certain than that any one of those men is generally to be believed. In the same way, to the developed mind of man, his own existence is supported by every other fact, and is, therefore, incomparably more certain than any one of these facts. But it cannot be said to be more certain than that there is another fact, since there is no doubt perceptible in either case".
152
Argumento sobre o relato das doze testemunhas
Premissa1: (Como a testemunha n°1 está sob juramento) a ocorrência relatada pela a testemunha n°1 realmente aconteceu. .
Premissa2: (Como a testemunha n°2 está sob juramento) a ocorrência relatada pela a testemunha n°2 realmente aconteceu.
Premissa3: (Como a testemunha n°3 está sob juramento) a ocorrência relatada pela a testemunha n°3 realmente aconteceu.
...
Premissa12: (Como a testemunha n°12 está sob juramento) a ocorrência relatada pela a testemunha n°12 realmente aconteceu.
Conclusão: (Como todas as testemunhas estão sob juramento) a ocorrência relatada pelas 12 testemunhas realmente aconteceu.
De acordo com o que se pode compreender da análise peirceana do exemplo das doze testemunhas, o que Peirce pretende estabelecer é que, se tomarmos isoladamente, uma dessas testemunhas, notaremos que nossa confiança nela é mais fraca do que nossa confiança na conclusão. Ainda que a nossa crença na conclusão não seja mais forte do que nossa crença no relato das doze testemunhas, podemos afirmar que a nossa crença na conclusão é ou, ao menos, pode ser mais forte do que nossa crença no relato de uma testemunha isolada. Se a análise de Peirce estiver correta, então seria possível que uma conclusão fosse "mais forte" que uma de suas premissa, ou seja, seria possível que uma premissa determinasse (ou contribuísse para determinar) que sua conclusão fosse mais certa do que ela mesma é, o que nega a premissa2 do argumento favorável à tese da
autoconsciência intuitiva. Ao negar esta premissa, abre-se espaço para se afirmar que "nossa própria existência pode ter sido inferida de qualquer outro fato".
Argumento relativo à autoconsciência
Premissa1: O fato n°1 atesta a proposição "eu existo" Premissa2: O fato n°2 atesta a proposição "eu existo" Premissa3: O fato n°3 atesta a proposição "eu existo" ...
Premissa n: O fato n° n atesta a proposição "eu existo" Conclusão: eu existo.
153 De acordo com Peirce (no trecho transcrito) a mesma análise feita para o raciocínio acerca da ocorrência relatada pelas doze testemunhas vale para este raciocínio sobre a própria existência. Estou muito mais certo do que afirma a conclusão do que aquilo que afirma qualquer uma das premissas tomadas isoladamente. Entretanto, pelo que se pode entender deste trecho da Q2 (CP 2.237 [1868]), deve-se traçar uma distinção entre o que afirma a proposição (as premissas ou a conclusão) e a própria existência ou crença na existência dos fatos envolvidos (tanto o fato do "eu" existir como os demais fatos, i.e., todos os outros fatos que atestam a existência do "eu"). Por este motivo, Peirce afirma que, ainda que a existência do "eu" seja incomparavelmente mais certa do que qualquer um daqueles fatos que a suportam, a existência mesma desses fatos não pode ser considerada menos certa do que a existência do "eu". Em outras palavras, não posso dizer que estou mais certo do que afirma a conclusão (i.e., que eu existo) do que da existência de algum outro fato que ateste minha existência. A existência do fato deve ser tão certa quanto a existência do "eu", uma vez que não há nenhuma dúvida perceptível em nenhum dos casos. Embora minha crença na ideia que minha existência é atestada por todos os outros fatos seja mais forte do que a minha crença na ideia de que algum fato específico isoladamente ateste minha existência, a minha crença na minha existência não é mais forte do que a minha crença na existência de algum fato (que ateste minha existência). Esta equiparação entre existência do "eu" e do fato é seminal para as linhas argumentativas que Peirce desenvolve dentro da Q2. Não é por outro motivo que a teoria peirceana sobre o modo como a autoconsciência emerge a partir de um processo inferencial (e não de uma intuição) nos leva para uma paisagem teórica muito distante daquela que podemos contemplar a partir da exposição de Descartes, por exemplo, nas meditações.
Nas meditações, Descartes nos apresenta uma espécie de gradação de certezas cujo centro de radiação de certezas seria existência do "eu" captada pela proposição fundante "penso, logo existo" (cogito, ergo sum). Como vimos na seção dedicada a uma breve exposição de linhas gerais do pensamento cartesiano (cf. capítulo 3, seção 2), como a existência da mente é a certeza inicial, estamos mais certos da existência da mente do que da existência do corpo. A teoria da cognição exposta no QFCM e, em particular, o modo como a autoconsciência é explicada levaram Peirce a conclusões opostas as de Descartes.
Analisada a contraposição que Peirce apresenta, no penúltimo parágrafo (CP 5.237 [1868]), com relação ao argumento que sustenta a tese de que a autoconsciência é intuitiva, voltemos para a "ordem normal" do texto peirceano.
A partir do terceiro parágrafo (CP 5.227 [1868]), Peirce passa a enunciar, então, evidências contrárias à tese de que a autoconsciência é intuitiva (ou, de outra perspectiva, evidências favoráveis à tese de que a autoconsciência é derivada ou inferencial).
Uma evidência que corrobora com a ideia de que não temos uma autoconsciência intuitiva é o fato de crianças não possuírem tal conhecimento. Peirce apoia esta ideia na
154 observação de que apenas tardiamente as crianças aprendem a usar a palavra "eu" (o que, observa o filósofo norte-americano, já teria sido notado por Kant). Como o uso tardio desta palavra indica uma autoconsciência imperfeita nas crianças observadas e "enquanto for admissível que [disso] retiremos alguma conclusão a respeito do estado mental daqueles que são ainda mais jovens, então esta conclusão deve ser contrária à existência de qualquer autoconsciência nestas crianças" (CP 5.227 [1868])116.
Portanto, com este argumento, é estabelecido que não há autoconsciência em indivíduos muito jovens. Este estágio anterior à emergência da autoconsciência é descrito, então, como uma consciência que abarca indistintamente o mundo externo e interno, como se fosse um "todo indiviso". Não há noção alguma de que haja algo externo justamente por não ser ter fronteira alguma, pois, neste estágio, o indivíduo não tem noção alguma de que ele é "algo" que, de alguma forma, se contrapõe a outro "algo" que não é ele (i.e., o mundo externo).
Pode-se notar que uma criança em tenra idade sempre observa seu próprio corpo com grande atenção. E ela tem toda razão em fazê-lo, pois, do ponto de vista da criança, o seu próprio corpo é a coisa mais importante no universo. Apenas o que ele [este corpo] toca possui qualquer sentimento de presença ou atualização, apenas o que está diante dele tem realmente alguma cor; apenas o que está em sua língua tem realmente algum gosto.
(CP 5.229 [1868])117
Ninguém questiona que, quando um som é ouvido pela criança, ela não pensa a si mesma como algo que ouve, mas ela pensa no sino ou qualquer outro objeto como algo que soa. E quando a criança deseja mover uma mesa? Será que ela pensa nela mesma como alguém que deseja [algo] ou será que ela pensa na mesa como algo suscetível de ser movida? Que a criança tenha este último pensamento está além de qualquer questão; que ela tenha aquele primeiro pensamento deve, até que seja provada a existência de uma autoconsciência intuitiva, ser considerada uma suposição arbitrária que carece de bases.
(CP 5.230 [1868])118
De acordo com o exposto neste trecho transcrito acima, esta ausência de autoconsciência pode ser entendida como espécie de "ausência de sistema de referência". Privado de autoconsciência, o indivíduo não pode fazer referência a si
116 No original (trecho completo): "It has already been pointed out by Kant that the late use of the very
common word 'I' with children indicates an imperfect self-consciousness in them, and that, therefore, so far as it is admissible for us to draw any conclusion in regard to the mental state of those who are still younger, it must be against the existence of any self-consciousness in them".
117 No original: "A very young child may always be observed to watch its own body with great attention.