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Intercomparison with GOME and TOMS

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o homem" (QFCM) e análise da primeira questão

Durante os três primeiro capítulos, o que fizemos foi apresentar uma visão panorâmica de uma fase do pensamento de Charles S. Peirce, a saber, aquele período que viu nascer a semiótica como uma teoria central dentro do quadro geral da filosofia peirceana e, em particular, central também à epistemologia peirceana. Nesses capítulos, procuramos também oferecer uma visão ampla da relação entre o pensamento peirceano e o de Kant e também o de Descartes. Nesta fase de surgimento de um pensamento propriamente semiótico, Peirce formulou o que considerava ser a pergunta fundamental da filosofia e passou a traçar uma estratégia para respondê-la. A pergunta fundamental peirceana era a respeito da possibilidade das sínteses ou do raciocínio sintético em geral e a resposta por ele encontrada passaria pela construção de uma espécie de "teoria geral das representações", o que seria denominado de semiótica. Por sua vez, a semiótica teve suas bases lançadas no artigo “Sobre uma nova lista de categorias” (1867) e foi, posteriormente, desenvolvida na forma de uma teoria sígnica (ou inferencial) da cognição. Esta teoria da cognição, que Peirce apresentou como alternativa às teorias epistemológicas animadas pelo que chamava de “espírito do cartesisanismo”, foi elaborada ao longo da série cognitiva, sobretudo, no primeiro desses textos: "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem".

A partir deste quarto capítulo, entramos na parte de nossa tese dedicada às análises do texto peirceano propriamente dito. Analisaremos, em primeiro lugar, o texto que abre a série cognitiva, "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem", e deixaremos para analisar, em segundo lugar, o texto em que Peirce apresenta sua teoria das categorias, "Sobre uma nova lista de categorias". Com isso, invertemos tanto a ordem cronológica (uma vez que este texto foi publicado antes daquele) como também a ordem lógica de exposição (uma vez que a base da teoria da cognição apresentada na série cognitiva se encontra na teoria das categorias). Obviamente, temos um motivo para tal inversão. Conforme explicado na introdução geral e também no primeiro capítulo, nosso objetivo geral é sustentar a afirmação de que, dentro da definição de signo, o conceito de interpretante opera como uma espécie de "regra de recursão" e demonstrar que é esta recursividade no coração da definição de signo que acaba por criar uma noção de representação que só faz sentido caso seja entendida como um processo (de representação que sempre recorre a alguma representação anterior e sempre remete a alguma

98 representação posterior). É esta recursividade que cria a noção de fluxo sígnico, a cadeia de interpretantes, peculiar à semiótica peirceana. Para cumprir este objetivo, optamos por partir dos efeitos em direção à causa. Antes de analisarmos a definição (de interpretante dentro da definição de signo) que é responsável por tal recursividade, decidimos analisar a teoria da cognição criada a partir desta definição e o modo como tal teoria foi mobilizada para o combate à epistemologia cartesiana, o que Peirce entendia como um confronto essencial para o estabelecimento de seu próprio projeto filosófico.

Como vimos, Peirce entendia que a introdução do conceito de intuição dentro de uma teoria epistemológica cria "pontos cegos", "resíduos incognoscíveis", o que, por sua vez, torna inexplicável o raciocínio ampliativo ou sintético. Acreditamos que a recursividade é justamente o mecanismo encontrado por Peirce para explicar atividade cognitiva (que é capaz de ampliar o conhecimento) sem recorrer à intuição como ponto originário do processo. Optamos por expor, em primeiro lugar, os efeitos de se definir recursivamente a noção de representação dentro do signo, para depois expor a própria definição em questão. Portanto, durante os próximos cinco capítulos, dedicaremo-nos a analisar o texto em que Peirce apresenta sua teoria (semiótica) da cognição como uma alternativa às teorias que têm em sua base o conceito de intuição. Este texto é o "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem". A partir do décimo capítulo, voltamos nossa atenção para o artigo "Sobre uma nova lista de categorias", que é o texto no qual o termo interpretante é, pela primeira vez, definido de forma recursiva dentro da definição geral de signo. Portanto, a ideia desta inversão na ordem de exposição é criar um certo movimento de aproximação. Pretendemos partir de um quadro geral (a teoria da cognição e seu lugar no projeto filosófico peirceano) e nos aproximarmos aos poucos do que consideramos ser o centro nevrálgico da semiótica, a ideia de representação (que é definida recursivamente dentro o conceito de signo).

Antes de passarmos à análise do primeiro artigo da série cognitiva, "Algumas questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem" devemos fazer algumas observações gerais de caráter introdutório sobre tal texto e também sobre o que já foi produzido na literatura secundária a respeito dele. Comecemos com uma observação feita por Thomas Prendergast num artigo intitulado "A estrutura do argumento de Peirce no texto 'Algumas questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem' ". Este artigo de Prendergast pode ser considerado um dos comentários mais completos e sistemáticos já elaborados até hoje a respeito deste que é primeiro texto da séria cognitiva de Peirce.

Uma das primeiras publicações de Peirce, "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem", é um ataque à doutrina do conhecimento imediato que Peirce identifica como central ao "espírito do cartesianismo" na filosofia moderna. O caráter revolucionário da ataque peirceano é evidente quando se reconhece que tal doutrina tem estado incrustada no pensamento filosófico por mais de duzentos anos.

Embora certo número de autores tenham analisado este artigo, nenhum deles elaborou um comentário questão-a-questão no qual pudesse ser exibida tanto a

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estrutura dos argumentos em cada questão bem como a estrutura do artigo como um todo.

(Prendergast, 1977, p. 288)

De acordo com Prendergast (1977, p. 288), o comentário que mais se aproximou de oferecer uma visão integral (questão a questão) da estrutura deste primeiro texto da série cognitiva foi elaborado por C. F. Delaney num artigo intitulado "A crítica peirceana do Fundacionalismo" (Delaney, 1973, p. 240 - 251) embora não trate nem da quinta nem sexta questões. É óbvio que, quase trinta anos depois, a lista de autores que analisaram e comentaram o primeiro artigo da série cognitiva aumentou. A seguir, apresentamos alguns deles. Deste ponto em diante passamos a nos referir ao texto "Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem" pela seguinte sigla: QFCM68.

Carl Hausman tem toda uma seção de seu livro "A filosofia evolucionária de Charles S. Peirce" dedicada à análise do que chamou de "base anti-cartesiana do pragmatismo e da semiótica" (1993, p. 60 - 67). Também Cornelis De Waal, ao tratar das origens do pragmatismo peirceano em seu livro "Sobre o pragmatismo", faz uma breve análise dos argumentos presentes no QFCM (cf. De Waal, 2007, p. 20 -16). Hookway separou parte considerável do capítulo de abertura de seu livro intitulado "Peirce" para examinar o ataque peirceano ao "espírito do cartesianismo" (Hookway, 1992 [1985], p. 19 - 30) Já Gallie, no livro "Peirce e o pragmatismo", elabora uma análise um pouco mais completa do que denominou de "Assalto ao cartesianismo" (Gallie, 1966, p. 59 - 84). Também muito mais completo é o estudo realizado por Murphey em sua obra "O desenvolvimento do pensamento de Peirce". Neste livro, as análises de Murphey sobre a série cognitiva estão no terceiro capítulo, que trata do que o autor chama de "segundo sistema" do pensamento peirceano (1993 [1961], p. 55 - 97), e no quinto capítulo (1993 [1961], p. 106 - 123), que trata da nova teoria da cognição. Alguns comentários que não poderíamos deixar de mencionar é o de Maneley Thompson (1953, p. 37 - 44) no livro "A filosofia pragmática de C. S. Peirce" e o ensaio introdutório de Joseph Chenu à publicação de uma tradução francesa de alguns textos peirceanos, dentre eles, os três que compõem a série cognitiva69. Outro comentário relativo à série cognitiva, sobretudo, ao primeiro artigo é aquele elaborado por Buchler (1966, p. 3 - 18) no início de seu livro (hoje, clássico) sobre "O empirismo de Charles Peirce".

Entretanto, com relação à série cognitiva, as análises mais completas já produzidas a respeito do QFCM (além daquela, já citada, de Prendergast) são aquelas elaboradas por Lucia Santaella no livro "O método cartesiano de C. S. Peirce" e por Royce Paul Jones numa tese de doutorado (não-publicada até os dias de hoje) intitulada "Peirce: sobre intuição e instinto" (cf. Jones apud Santaella, 2004, p. 34). No primeiro capítulo de seu livro, Santaella (2004, p. 29 - 46) comenta questão por questão todo o artigo "Questões

68 A justificativa para esta sigla é obviamente as iniciais de algumas das palavras que compõem o título

do artigo no idioma original: "Question concerning certain Faculties Claimed for Men".

69 Este ensaio pode ser encontrado em na seguinte publicação: PEIRCE, C. S. (1984) Textes anticartésiens. Paris, Aubier.

100 concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem" e passa a analisar também individualmente todas as consequências que Peirce, no segundo artigo da série ("Algumas consequências das quatro incapacidades"), deriva das conclusões dos argumentos elaborados no primeiro artigo da série. Embora os comentários sobre a série cognitiva estejam concentrados no primeiro capítulo, pode-se afirmar que todo o livro de Santaella diz respeito ao assunto ao qual dedicamos os próximos capítulos de nossa tese: o surgimento da semiótica dentro de um confronto com o que o Peirce chamava de "espírito do cartesianismo".

Nosso objetivo nestes próximos cinco capítulos é apresentar uma análise que não apenas siga o texto peirceano questão a questão (o que já foi feito por alguns comentadores), mas linha a linha. A intenção é isolar e avaliar as principais linhas argumentativas que sustentam o que viemos denominando de tese central ou tese-base da semiótica ("todo pensamento é pensamento em signos"). Ao contrário do que podem sugerir as primeiras impressões, no QFCM, Peirce não está pura e simplesmente combatendo o chamado "espírito do cartesianismo", mas, paralelamente, construindo uma teoria da cognição que compõe uma epistemologia alternativa àquela que é criticada. Observada desta "perspectiva positiva", não é difícil notar por qual motivo as teses expostas no QFCM são centrais para defesa de nossa própria tese acerca da correlação entre interpretante e recursividade. Acreditamos que o QFCM é um "lugar" privilegiado na obra peirceana para observar como a teoria do interpretante (que nasce com a nova lista de categorias) está intimamente relacionada ao conceito de recursividade, uma vez que, conforme nossas análises, é justamente o papel da recursão (dentro da definição de signo) impedir que surja qualquer possibilidade de ser estabelecido um ponto originário para o processo de conhecimento. Ao impedir qualquer possibilidade de fundação (do conhecimento), a ideia de recursão (internalizada, por definição, no conceito peirceano de signo) impede que surja, no horizonte da teoria da cognição exposta no QFCM, quaisquer resíduos de incognoscibilidade. E, assim, são criadas as condições de possibilidade de se estabelecer uma resposta para a pergunta central da filosofia: como são possíveis os raciocínios ampliativos?

Como já antecipamos no terceiro capítulo, a forma literária que Peirce escolheu para expor os seus argumentos contrários ao "espírito do cartesianismo" (e, assim, estabelecer sua concepção semiótica da cognição e da produção de conhecimento) é a

quaestio. Na verdade, é mais preciso afirmar que a estrutura do QFCM é inspirada pela organização interna de uma quaestio, embora nem sempre o texto peirceano siga conforme manda o figurino, como lembra Prendergast (1977) por diversas vezes em seus comentários. Antes que passemos a tratar diretamente da estrutura geral do QFCM, é de bom tom que expliquemos no que consiste esta forma literária na qual Peirce se inspirou, uma vez que a própria opção de apresentar seus argumentos contrários à epistemologia cartesiana dentro de uma forma típica do período medieval faz parte da estratégia argumentativa peirceana. No seguinte trecho, retirado do livro "Filosofia Medieval: uma introdução histórica e filosófica", John Marenbon explica o que se

101 entendia por quaestio e nos fornece um exemplo de filosofia produzida dentro desta forma literária.

Numa quaestio, coloca-se um problema para que ele seja respondido com um "sim" ou "não". Por exemplo, no seu De veritae, uma disputa escrita, Tomás de Aquino questiona (q.1, a.5) se "alguma verdade além da primeira verdade é eterna" (a "primeira verdade" obviamente é Deus). O autor, então, apresenta (1) os argumentos para a resposta que ele não quer propor, precedida pela frase Et videtur quod sic/non ("E parece que é assim/que não é assim"). Neste caso, Tomás de Aquino , pretende argumentar que nenhuma verdade é eterna exceto na medida em que está na mente de Deus e é idêntica a Deus. Assim, ele começa com o caso contrário a esta posição dizendo Et videtur

quod sic. Tomás de Aquino, então, passa a citar nada menos do que vinte e dois argumentos para mostrar que as verdades distintas de Deus, a primeira verdade, são eternas. Muitas quaestiones teriam menos destes argumentos (em sua Summa, Tomás de Aquino utiliza quatro ou cinco), mas, como neste exemplo, tais argumentos iriam misturar referências à autoridade - Tomás de Aquino cita Aristóteles, Agostinho e Anselmo - com argumentos baseados em puro raciocínio. (...) A próxima seção (2) de uma quaestio é precedida pela frase sed contra ("mas, contra [isso]") e, então, apresenta-se um ou dois breves argumentos a favor da posição que o autor deseja tomar. Neste caso, Tomás de Aquino oferece dois curtos argumentos racionais, mas o mais esperado é que [nestas situações] seja apresentada uma afirmação baseada em autoridade (por exemplo, no Summa Theologiae - I, q. 2,a.3 - (...), o sed

contra consiste simplesmente na asserção de Deus no Exodus iii,14; Ego sum qui sum [eu sou quem sou]). Então, depois disso, se segue (3) o corpus da quaestio, no qual o autor estabelece sua posição a respeito do problema junto com explanações de apoio e argumentos necessários para justificar tal posicionamento. Finalmente, o autor (4) apresenta suas repostas para cada um dos argumentos contrários ao posicionamento por ele preferido com o qual a

quaestio começou. (Marebon, 2007, p. 216)

Como veremos nas análises de cada uma das questões das quais trata Peirce no QFCM, nem sempre este "roteiro" (acima apresentado) é seguido. O que Peirce de fato segue à risca no QFCM é o modelo de argumentação multiforme observado neste exemplo retirado da obra de Tomás de Aquino. Uma das principiais críticas de Peirce dirigidas contra o que chama de "espírito cartesiano" é o fato de Descartes, por meio de seu projeto fundacionalista (exposto, sobretudo, nas "Meditações" e no "Discurso do Método"  cf. primeira seção do segundo capítulo), ter promovido uma substituição da argumentação multiforme da Idade Média por uma linha única de inferência que parte de um ponto que se supõe indubitável (cf. CP 5.264 [1868]). Portanto, a escolha de uma forma literária que permite uma argumentação multiforme é parte da estratégia argumentativa que pretende desmontar uma filosofia projetada para encontrar fundações completamente seguras para edificar todo o conhecimento humano. Afinal, é a suposição de Descartes de que sua filosofia foi efetivamente capaz de isolar um ponto fundacional completamente seguro (o cogito) que o permite confiar numa linha única e infalível de argumentação. No QFCM, o ponto de partida da crítica peirceana é justamente esta suposição cartesiana. Esta capacidade humana de distinguir uma

102 intuição e, em particular, encontrar a intuição fundamental ("cogito, ergo sum") é reivindicada por Descartes para o homem. É justamente esta capacidade que é questionada por Peirce na abertura do QFCM.

A seguir apresentamos as sete questões do QFCM e passamos a fazer algumas observações com relação à estrutura geral deste texto:

Questão 1: Se pela simples contemplação de uma cognição, independente de qualquer conhecimento anterior e independente de qualquer raciocínio por signos, somos capazes de julgar corretamente se uma cognição foi determinada por uma cognição anterior ou se tal cognição se refere imediatamente ao seu objeto70.

Questão 2: Se temos uma autoconsciência intuitiva71.

Questão 3: Se temos uma capacidade intuitiva de distinguir entre os elementos subjetivos dos diferentes tipos de cognição72.

Questão 4: Se temos alguma capacidade de introspecção ou se nosso conhecimento do mundo interior é derivado de observação de fatos externos73. Questão 5: Se somos capazes de pensar sem signos74.

Questão 6: Se um signo pode ter qualquer significado, se por sua definição ele for um signo de algo absolutamente incognoscível75.

Questão 7: Se há alguma cognição que não seja determinada por uma cognição anterior76.

No caso do QFCM, praticamente todas as questões têm a seguinte estrutura. Começa-se por apresentar a questão (o que é feito no primeiro parágrafo) simplesmente enunciando-a. O passo seguinte é apresentação de uma definição para o conceito-chave da questão. Por exemplo, na primeira, segunda e quarta questões, os conceitos-chave são "intuição", "autoconsciência" e "introspecção". Estas definições geralmente são

70 No original: Question 1: Whether by the simple contemplation of a cognition, independently of any

previous knowledge and without reasoning from signs, we are enabled rightly to judge whether that cognition has been determined by a previous cognition or whether it refers immediately to its object.

71 No original: Question 2: Whether we have an intuitive self-consciousness.

72 No original: Question 3: Whether we have an intuitive power of distinguishing between the subjective

elements of different kinds of cognitions.

73 No original: Question 4: Whether we have any power of introspection, or whether our whole

knowledge of the internal world is derived from the observation of external facts.

74 No original: Question 5: Whether we can think without signs.

75 No original: Question 6: Whether a sign can have any meaning, if by its definition it is the sign of

something absolutely incognizable.

103 oferecidas ainda no primeiro parágrafo (logo depois da enunciação da questão propriamente dita). Então, o terceiro passo é (quase sempre) a apresentação de um argumento para desmontar a tese que considera auto-evidente a posse da faculdade que é objeto da questão. Descartada a auto-evidência, deve-se buscar alguma evidência, algum argumento que sustente esta existência ou posse e, por este motivo, o passo seguinte é a exposição dos argumentos favoráveis à existência ou posse da faculdade que está sob questionamento. Como vimos na estrutura típica da quaestio medieval, a primeira posição apresentada não é a resposta que o autor (no caso, Peirce) pretende dar para questão. Então, depois de contra-argumentar a resposta positiva à questão, Peirce expõe o seu posicionamento, que é uma resposta negativa à questão, e passa argumentar para sustentá-la. Das sete questões, talvez, a única que escape à regra seja a quinta. Mas isto pode ser explicado pelo "local" que ela ocupa no argumento geral do QFCM. A quinta questão é uma espécie de centro nervoso do argumento do QFCM. Todas as linhas argumentativas das quatro primeiras questões convergem para a seguinte tese enunciada na quinta questão: "todo pensamento é pensamento em signos" (CP 5.253 [1868]). Esta tese já foi, por nós, denominada ainda nas primeiras linhas deste texto, de tese central da semiótica.

Passemos então para as análises de cada uma das questões levantadas por Peirce no QFCM. A abreviação que será utilizada para designar cada uma dessas questões será a letra (maiúscula) "Q" seguida do número da pergunta. Por exemplo, "Q3" é a abreviação de “terceira questão do QFCM”.

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4.1 Análise (da primeira parte) da Q1: Sobre a capacidade

intuitiva de distinguir intuições

Questão 1: Se pela simples contemplação de uma cognição, independente de qualquer conhecimento anterior e independente de qualquer raciocínio por signos, somos capazes de julgar corretamente se uma cognição foi determinada por uma cognição anterior ou se tal cognição se refere imediatamente ao seu objeto.

Na primeira questão, Peirce se pergunta acerca da capacidade do homem de distinguir entre uma cognição intuitiva e uma cognição não-intuitiva, i.e., derivada. De forma mais exata, a pergunta é se tal capacidade de distinção é ela mesma intuitiva ou não. O problema levantado nesta primeira questão não é se temos ou não intuição, mas se, diante de uma cognição qualquer, temos ou não uma capacidade direta, certeira de "julgar se estamos diante de uma cognição intuitiva". Outra forma de apresentar esta primeira questão é a seguinte: diante de uma cognição específica, teríamos ou não a capacidade de, a partir de uma mera contemplação dela, distinguir se a cognição é produto de uma intuição ou de uma inferência? Já no primeiro parágrafo da Q1, define- se o que se entende por intuição.

Ao longo deste artigo, o termo intuição será entendido como significando uma cognição não determinada por uma cognição anterior do mesmo objeto e, assim, sendo determinado por algo fora da consciência. Permita-me solicitar ao leitor que note o seguinte. Intuição será aqui entendido como algo quase idêntico a uma "premissa que não é (ela mesma) uma conclusão"; a única diferença é que premissas e conclusões são julgamentos, enquanto uma

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