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Pouco antes do “sol que em desmaio no ocidente / bordava o céu de franjas cor-

de-rosa” do “Crepúsculo da Tarde” de Francisco Otaviano, publicou-se em Portugal, em

1905, “an extract of ‘the immortal poem’ by João Vieira.” (Sousa, 2004, p.184). Essa

mesma tradução viria a ser publicada no Brasil na Série Clássica de Cultura, das

Edições Cultura n° 23, intitulada Obras de Byron, no ano de 1942, sob a direção de José

Pérez, que a prefacia referindo-se a Byron em termos tais como “vimo-lo erguer-se,

sentimentalmente, de uma vida crapulosa (...)”. (Byron, 1942, p. 11).

Ali estão as antigas e famosas traduções de “O Sonho” por Francisco Otaviano,

A Peregrinação de Childe Harold por Pinheiro Guimarães, o Corsário e Manfredo pelo

Barão de Paranapiacaba e, finalmente e pela primeira vez no polissistema literário

brasileiro, “Os Amores de D. Juan, extrato do imortal poema de Lord Byron”, por João

Vieira.

Da vida e da obra de João Vieira pouco logrou ser encontrado; no livro não há

qualquer indicativo das suas escolhas e dos preceitos tradutórios dele, e muito menos

quaisquer notas de tradução, ou mesmo qualquer nota de qualquer coisa, daí nada se

descreve acerca disto por ora, bem como pelas delimitações deste artigo, que se deseja

sucinto, por não ser a parte principal desta dissertação, a qual coube à tradução anotada,

conquanto se deseje relativamente abrangente.

João Vieira traduziu, também relativamente, o Don Juan do começo ao fim em

prosa. Foi mesmo o único dos tradutores desta obra-prima poética byroniana ao fazê-lo

em prosa. Tudo indica ser um tradutor com mais proximidade a Portugal, já que foi

publicado ali mais de 30 anos antes. De todo modo, muitas vezes passa batido por dez,

vinte, trinta oitavas, não traduzindo delas nenhuma prosaica linha sequer. Mais uma vez,

as oitavas que João Vieira finge não ver são justamente, em sua imensa maioria, muito

embora existam também exceções, as que Byron ironiza, satiriza, critica, e todo o resto

que não é apropriado dizer aqui. Mais uma vez, as oitavas escolhidas para serem

traduzidas com maior cuidado são aquelas em que Byron narra sua versão para a

história de Don Juan, isto é, menos da metade da obra, devido ao fato de o narrador

inserir-se com suas digressões na maior parte da obra. Tal fato se dá pela questão de,

como em A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, o narrador ser

autoconsciente e falar mais sobre si e sobre seus pensamentos do que a respeito da

história a qual se propôs contar, acabando muitas vezes perdendo-se em divagações,

sem que se saiba se retomará ou não o fio da meada.

Do mesmo modo que a obra de Sterne, o Don Juan também é uma obra

“inacabada”; costuma-se achar, entretanto, que foi a morte de Byron cooperando com a

independência da Grécia que o impediu de concluir seu épico-satírico, no entanto, tendo

forças para montar um exército e lutar, não lhas faltariam para dar continuidade em seus

versos. Portanto, crê-se que Byron concluiu, sim, sua obra, pois, como respondido

acima, não seria a maior sátira de um épico — que precisa de uma “unidade” rigorosa,

com início in medias res, meio para falar do começo e fim — um épico sem fim?

Reitera-se que Byron traduziu trechos e conhecia a fundo a Ars Poetica de

Horácio, de onde tirou a epígrafe para o seu Don Juan, portanto, de cor e salteado tinha

conhecimento da estrutura épica, seja dito de passagem.

Está-se, deste modo, falando, em amplo sentido, de uma espécie de obra aberta,

que se tornou bastante cara aos modernos e que permite leituras tão díspares, muitas

vezes opostas entre si, como o ultrarromântico lânguido e o satírico ferino; o gosto

romântico mesmo é caracterizado por esta dicotomia entre o belo e a fera, e quando

pode, para acentuar o contraste, acrescenta anões, corcundas e seres como Luzia-

Homem. Byron (e nisto Álvares de Azevedo segue-o também) mofa de sua própria

página. Como seria distinto disso numa sátira menipeia? Ora, em sua própria origem a

sátira menipeia já lida com essa mistura. Mesmo na Antiguidade o filósofo cínico

Menipo, criador desse tipo de sátira, era excluído da escola cínica liderada por Diógenes

por zombar com sua sátira de todos os vícios e costumes duvidosos, inclusive acerca

dos próprios cínicos. Diógenes de Sínope falsificava moedas e havia sido escravo,

Menipo era rico criticando a riqueza e, quando a perde, opta, ironicamente, pelo

suicídio. É uma zombaria, literalmente, sem fim.

No entanto, após essa digressão, coisa frequente no Don Juan, regressa-se à

prosa de João Vieira para ver como o mesmo se isentou de traduzir quase todas as

digressões possíveis. E vê-se mais: depois de saltar tranquilamente duzentos versos, em

sua maior parte satíricos, detém-se cautelosamente sobre a romântica oitava CXIII do

Canto II:

'T was bending close o'er his, and the small mouth Seemed almost prying into his for breath; And chafing him, the soft warm hand of youth Recalled his answering spirits back from Death: And, bathing his chill temples, tried to soothe Each pulse to animation, till beneath Its gentle touch and trembling care, a sigh To these kind efforts made a low reply.

Que João Vieira proseou por:

Estava inclinada sobre ele, e com a sua pequenina boca aproximada à sua, como para interrogar seu hálito, e pouco a pouco, com o doce atrito de sua mão quente, a jovem chamava à vida seus dóceis espíritos. Ela banhava suas fontes geladas e procurava revocar o sangue de suas veias, quando Juan, correspondendo ao doce contacto e inquietos cuidados, agradeceu com um suspiro os generosos esforços da menina. (Byron, 1942, p. 329).

Ainda que em nenhum momento explicitada, evidencia-se facilmente a opção

tradutória de João Vieira. Pode-se afirmar sem titubeios que ele realmente traduziu o

conteúdo semântico da oitava, conquanto retire de todo a ironia que a conclui, na qual o

narrador, depois de muito falar sobre o terno cuidado que com Juan teve a jovem Haida

(tradução de João Vieira do nome Haidée, embora não traduza Juan para João), afirma

que um suspiro para tanto esforço foi uma resposta bem singela.

Não vale falar de qualquer aspecto sonoro do poema, já que a tradução foi

efetuada em prosa.

Há uma coisa, no entanto, que vale a pena apresentar e que destoa de todas as

traduções anteriores. Em alguns trechos, João Vieira acrescenta piadinhas do seu

próprio e não muito variegado arcabouço, e por sua conta e risco, como no trecho em

que escreve “mas foi pior a emenda do que o soneto” (1942, p. 314), que não possui

qualquer paralelo no original.

Vale notar a tradução de temple por “fonte”, bem como o termo “menina”, sem

paralelo no original, e que não é usual, até onde se sabe, no português de Portugal, onde

o coloquial seria “rapariga”, que João Vieira usa em outros pontos. Mas, como em

nenhum ponto Onédia ou outro estudioso, além do já citado, dão sinais de conhecer essa

tradução de João Vieira, e Onédia realmente fez um levantamento exemplar, daí a

primeira notícia a se ter dela, a tradução de Vieira, é de ter sido publicada em Portugal

em 1905, e em 1942 no Brasil, como já dito.

De todo modo, ainda que nestes moldes, está-se diante de um Don Juan em que

às vezes se pode sorrir, não se amargurar ad nauseam profundamente de spleen, no

maior estilo quanto mais tétrico melhor, conforme a praxe do século XIX entre os

jovens do Largo São Francisco, perdidos num desvario funesto pela Pauliceia e pelas

orgias macabras daquela ainda pouco conhecida e estudada “sociedade epicurea”.

Não custa lembrar desde já, de passagem, que os tradutores mais recentes do

Don Juan, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Décio Pignatari e Augusto de Campos,

também foram estudantes do Largo São Francisco – e nisso pode haver, não obstante,

indícios de uma tradição tradutória byroniana nessa Universidade.

Daí, em 1950, a Coleção Clássicos Jackson relançaria no seu 2° volume de

Poesias, fragmentos da tradução de Parisina por Múcio Teixeira, do Mazeppa, pelo

Barão de Paranapiacaba e de “To Inez”, por Francisco Otaviano. As mesmas famosas

do século XIX...

Aí vieram os tempos de ditadura, sátira não era muito bem-vinda no caso de um

país sisudo como o que aqui se instalou, ainda que a pornô-chanchada nunca se

desenvolvesse tanto, e em 1976 o poeta épico Marcus Accioly lembrava-se com seu

Sísifo da peregrinação de lorde Byron, já o herói da liberdade, numa espécie de refração

de Byron florescida no polissistema da cultura-meta:

e os meus versos são punhos / que são armas- / brancas / (meu lorde) / com que vou matar-me / ou com as quais vou lutar / em outra guerra / pelos direitos deste hotel / humano / onde escrevi na ficha a minha idade: / cem anos / (de poeta / e de corsário) como corsários / indo para a morte / poetas somos à vida condenados / (não há outra opção / senão a luta / que prolonga a existência após o risco) / eu e você / meu lorde / eu o de ontem / você o de amanhã) / somos os mesmos / que importa a glória das canções / que importam nossos nomes na vala / dos sem nomes? (Accioly, 1976, p. 230)

Poder-se-iam dizer belos versos de guerrilha, feitos na época da luta armada pela

liberdade, que hoje foi relativamente conquistada, e segue mal-usada, mas que em

regime militar mal se podia ver a cor.

Depois, em 1988, José Lino Grünewald publica suas traduções dos mesmos

poemas ultrarromânticos de Byron em mais uma antologia.

E, finalmente, em 1989 o Byron maduro vem para o português!

O poeta da Geração de 45, Péricles Eugênio da Silva Ramos, publica Poesias de

Lorde Byron, onde traduz “To Inez”, “Darkness” etc, juntamente com dois trechos do

Don Juan. Seguindo a tendência traduzir as canções do Don Juan e não ele mesmo,

desta vez, aproveitando o Byron heroico que a cultura-meta carecia importar, logrou-se

passar para vernáculo “As Ilhas da Grécia” (Byron, 1989, p. 26), hino de amor a este

país que era escravizado pelos turcos, interpolado no Canto III, oitava LXXXVI, que é

belo, exortativo e emocionante, mas que, por si só, isto é, descontextualizadamente,

ainda nada possui da sátira menipeia que, falando sério, dá o tom geral do Don Juan

como um todo.

No mesmo livro, aí sim, pela primeira vez publicadas em verso português, cinco

oitavas do verdadeiro, brilhante e vivaz humor byroniano adentram o sol resplandecente

das letras brasileiras e tiram o véu lânguido e abatido do Byron adolescente do

ultrarromantismo! São do Canto IV essas benditas oitavas, CVIII a CXII, e receberam

como título, na tradução de Péricles, “Os Graus do Azul” (1989, p. 113).

Um estudo descritivo, neste aspecto, aponta que a técnica de tradução dessas

oitavas é quase original: todos os pentâmetros iâmbicos com rima ABABABCC

tornaram-se alexandrinos, e o esquema rímico não segue regra alguma, muito embora os

dísticos finais sempre rimem entre si. Ainda assim, contando com a extensão dos

alexandrinos, acontece a supressão de muita carga semântica. Mas a ideia satírica está,

de todo modo, muito bem expressa, o que atesta um bom começo em se tratando de

traduzir uma obra satírica menipeica que até então pouco ou quase nada se havia visto

por aqui.

Na falta de espaço, vai muito bem a calhar o que John Milton observou acerca

dos poetas deste período: “é muito mais difícil esquematizar as ideias sobre a tradução

da Geração de 45 porque elas nunca explicam certas atitudes que tomam com relação às

traduções que fazem.” (Milton, 1993, p. 169).

Fica, no mais, um breve exemplo:

An airy instrument, with which he sought To ascertain the atmospheric state, By measuring ‘the intensity of blue’:

Oh, Lady Daphne! let me measure you.

Que se traduz por:

Um aéreo instrumento, para procurar Do estado da atmosfera se certificar,

Medindo os “graus do azul”, tal como ele apareça, Deixai portanto, ó Lady Daphne, que eu vos meça! (Byron, 1989, p.115).

Inversões sintáticas, transformação do coloquial e leve no pesado alexandrino, a

tradução de “you” pelo “vós” são algumas das diversas opções tradutórias que podem

ser observadas nesses versos.

Adiante. No mesmo 1989, Paulo Henriques Britto publicou a primeira edição da

sua tradução de outra obra byroniana dita da maturidade, Beppo

– uma história

veneziana. Lá, em verdadeira e sonora oitava-rima, com seus tantos cortes assumidos

logo no prefácio, e devidamente justificados, e seus enjambements bem encavalgados,

estão vertidas as cem oitavas que compõem esta historieta veneziana, e que abrem

caminho para as infindáveis digressões do gigantesco Don Juan.

Em 1998, o poeta Nelson Ascher mete também o dedo no bolo-byron e traduz o

último poema que o libertino inglês escreveu sobre a face da terra, “On This Day I

Complete My thirty-Sixth Year”, e o inclui em seu livro Poesia Alheia, 124 poemas

traduzidos. Veja-se a penúltima quadra do poema, mais a de Ascher, comparando-a com

a mesma feita pelo Barão de Paranapiacaba:

If thou regret’st thy youth, why live? The land of honourable death Is here:– up to the Field, and give Away thy breath!

Que Nelson optou por traduzir fluentemente como:

Por que viver se tens saudade da juventude? Estás na terra da morte honrosa: solta o alento final na guerra! (Ascher, 1998, p.85)

E o Barão de Paranapiacaba, enxergando um Byron bem mais solene do que se

pôde constatar naquelas quadras, onde “o ritmo disfarça um pouco a tristeza” (Barbosa,

1975, p. 248), mas ainda assim rimando conforme o original, traduziu por:

Se os seus melhores dons a vida, ora, te nega Por que suportas inda, um peso, que te dói?

– Da Glória a liça aí tens! – Busca em meio à refrega, Um sepulcro de herói!

(apud Barbosa, 1975, p. 249).

Depois, em 2007, organizada por Cid Vale Ferreira, outra antologia trouxe, já no

título, o tipo de Byron que se resolveu mostrar de novo para o polissistema literário

brasileiro: As Trevas e Outros Poemas reúne os mesmos poemas nas mesmas traduções

que fizeram a febre, o pesaroso cismar e a melancolia dos ultrarromânticos da nação:

outra vez o “To Inez” por Fagundes Varela, “She Walks in Beauty” por Franco

Meireles, “Darkness” por Castro Alves, que é o poema que Onédia elege como a

melhor tradução já feita até então (1912) no Brasil, mais a “Fare Thee Well” pelo Barão

de Paranapiacaba, entre outros.

De toda forma, hic et nunc, o Byron satírico, que levou sua influência até Auden

e outros; o Byron das “di(trans)gressões metalinguísticas”, foi satisfatoriamente sentido

nas letras brasileiras atuais, que logo hão de ver também sua obra magna, o Don Juan.

Resta ver neste banquete o que foi guardado cautelosamente para o final: as,

como é de se esperar, pi(t)ra(du)ções antropofágicas de Augusto de Campos e a cereja

de bolo de Décio Pignatari.