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2. TEORI OG BEGREPSA VKLARINGER

2.2 MESTRING

A Professora 2 era a que menos tempo de experiência docente tinha em nosso grupo. Quando iniciamos, fazia dois meses que estava lecionando. No ano de 2004 trabalhou com uma 3ª série com muitos problemas de indisciplina, mas apesar dessas dificuldades, que por vezes a deixava muito nervosa, ela conduzia sua sala sem maiores reclamações.

Entretanto, com o processo de atribuição, seu maior medo acabou se concretizando: precisou mudar de escola. Foi para uma escola próxima de sua casa, mas que segundo ela, não significou algo bom.

No caso dessa professora, uma discussão a respeito da influência da cultura da escola sobre o dia-a-dia do professor iniciante faz-se necessária. Em seus relatos, a professora não demonstra ter nenhum problema com relação a sua sala de aula. Ao que parece, ao adentrar as portas de sua sala, deixa para fora todo o restante da unidade escolar. Conta com entusiasmo as atividades que realizou com a turma e que considerou como bem sucedidas. O problema enfrentado no ano anterior com relação à indisciplina, não era mais apontado pela professora. Agora, o problema era outro: a escola e, principalmente, a direção.

Considerando a estrutura física tratava-se de uma escola muito diferente da anterior. Muito maior, com muitos professores, muitos alunos e muitos problemas.

Quando retomamos as atividades do Grupo após as férias do final do ano, em um primeiro momento, a professora afirmou estar gostando, que se tratava de uma 2ª série (8 anos), com trinta e dois alunos, que era bem diferente da sala que tinha no ano anterior, que a clientela também era bem diferente da outra escola e que os pais eram mais presentes.

Quando começou a falar da escola em si, já começou a apontar alguns pontos negativos: escola muito grande e com informações desencontradas. Segundo ela, ainda, se a pessoa quisesse saber das informações, teria que ir atrás:

Só que o [...] é uma escola muito grande... Muito grande. Ela está com 978 alunos, antes de começar as aulas. Se entrou mais eu não sei. Então é assim: as informações são muito desencontradas, não é aquela coisa de... Até hoje nós não temos cota de xerox. O [...] está sem... Eu não tenho um lápis na minha sala, coisa que na outra escola, gente!

Então é bem complicado. Se você quiser saber de alguma coisa, você tem que ir atrás. Você tem que correr (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005 – Professora 2).

No início a professora chegou a se preocupar com o fato de precisar sair daquela escola, devido à proximidade com a sua casa:

Pesquisadora – E essa sala, você pegou na externa? Professora 2 – Peguei na externa. Agora eu já fiquei sabendo que uma professora que está no Japão está voltando e que ela é efetiva lá, então vai diminuir uma sala. Falei: “Aí, socorro! Não fico lá”. Porque pra mim, o [...] é melhor porque é perto de casa.

Professora 1 – É perto da sua casa, né?

Professora 2 – Eu estava contando para o meu marido agora, ele falou assim: “Acabou de começar o ano, não esquenta a cabeça” (risos) (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005).

Entretanto, quando começou a falar da diretora, começou a apontar questões que a deixaram de certa forma preocupada, destacando a diferença existente entre a atual e a sua diretora anterior:

É assim. A [...] é um amor de pessoa. Está aí ela para falar [referindo-se a P4]. Ela fala delicadinho, não tem boca para falar nada, aquela delicadeza... Cheguei lá a [...] é daquelas malucas, que assim...

[...]

... “Cala a boca!” “Fecha esse jornal aí. Não está vendo que eu estou falando”. Eu falei: “Meu Deus do céu! Socorro! Onde que eu vim parar?” (risos) Eu chegava em casa eu chorava. Eu falava: “Aí [...]!” Que saudade, meu Deus do céu... (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005 Professora 2).

A professora mostrou-se incomodada com o comportamento da diretora, chegando a mencionar que ficou traumatizada:

Professora 2 - ... E assim, quando eu vejo que ela entra em uma sala, eu já subo a outra escada, sabe? Eu faço assim, porque quanto menos eu encontrá-la, porque eu peguei trauma. Ela é bem rígida.

Professora 3 – Autoritária.

Professora 2 – Autoritária, então ela entra por uma porta, eu saiu pela outra. É assim que eu estou fazendo. (risos) E vou levando, né? Mas sempre com aquele medo,

com aquele receio, né? É bem difícil... (Transcrição do 28º encontro – 05/03/2005).

Logo no primeiro encontro, após a virada do ano letivo, que a Professora 2 apareceu no Grupo, ela já declarou seu desejo de não continuar na profissão:

... Gostei muito da minha sala, mas essa que eu peguei desde o primeiro dia, então essa é a minha primeira sala mesmo. Eles são muito carinhosos e... Mas eu não vou ficar, Eliza. Olha, eu cheguei a essa conclusão. [...] na família da minha mãe é assim, eles dão muito valor ao cargo público, só que eu cheguei a conclusão de que eu não vou me matar. Eu estou ficando doente, sabe eu não... Eu falo: “Gente eu estou ficando ansiosa, não consigo deitar na cama...” Ontem... Por causa da tireóide eu tenho a taquicardia. Vocês assistiram o Fantástico, o pessoal que toma remédio para emagrecer, aqueles sintomas que passou da tireóide: sudorese, tremedeira... Eu estou tendo todos esses... Queda de cabelo, mais isso porque o estresse está prejudicando muito mais (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005 - Professora 2).

Toda a situação de estresse que a Professora 2 estava vivenciando acarretou em vários problemas de saúde e cada vez que eles apareciam, ela demonstrava ter mais certeza de não querer continuar na profissão.

Ao longo dos encontros, por inúmeras vezes ouvimos a professora afirmar não querer essa situação para ela. Que encaminhamentos daria em sua vida dali para frente ainda não havia decidido, mas continuar como professora ela não queria mais.

Ela pensou em fazer Psicologia, depois pensou em cursar Direito, depois Farmácia e até em abrir um negócio próprio. Até o término dos nossos encontros ela ainda não havia decidido. É válido ressaltar que não abandonaria tudo imediatamente, pois precisaria trabalhar, principalmente se fosse fazer outro curso superior.

Acreditamos, com base nos relatos da professora, que o fato dela ter mudado de escola acarretou todo esse processo de querer desistir da profissão. Talvez, se isso não tivesse acontecido jamais à professora tomaria essa atitude tão rapidamente. Pelos relatos percebe-se o quão envolvida com seu trabalho e com seus alunos é a professora, mas percebe-se também que ela não se adaptou a escola. A professora relatou vários casos de problemas que enfrentou no interior na unidade como o fato de ser chamada de novata pelos pares, de tudo o que acontecia de errado ser atribuído a ela, de uma professora dizer que ela andava mal vestida, por exemplo.

Indagada sobre a possibilidade de estar passando por um momento difícil devido à mudança de escola, a Professora diz que:

Pesquisadora – Você acha que o fato de você ter mudado de escola interferiu nessa decisão que você está querendo tomar ou que já tomou, não sei?

Professora 2 – Assim, olha, pode até ser. O meu marido acha que também foi essa mudança tudo, sabe? Mas eu não sei, eu...

Pesquisadora – É que foi um processo de atribuição muito sofrido.

Professora 1 – Nossa! Lá já foi complicado né, Professora 2? (Transcrição do 26º encontro – 01/03/2005).

A situação vivenciada pela Professora 2 angustiou todo o Grupo. Através de seus relatos acompanhávamos as descrições sobre suas angústias e a sua indecisão sobre o futuro. Ela, por sua vez, demonstrava-se cada vez mais marcada pela situação que estava vivendo:

E eu falo assim que eu preciso melhorar, porque eu estou numa tristeza tão grande, mas tão grande, num baixo astral tão grande, eu falei: “A minha vida vai virar o que daqui para frente?” Eu não estou tendo perspectiva nenhuma. Sabe, eu falei... Às vezes eu converso comigo mesmo. Eu falo assim: “Você precisa melhorar. Pelo amor de Deus!”. Não dá mais para ficar desse jeito, sabe?... (Transcrição do 30º encontro – 29/03/2005).

Fazendo uma análise sobre sua sala de aula no ano de 2004, a professora destaca a questão da indisciplina, que naquele momento era o maior problema:

... O ano passado eu tinha uma classe muito indisciplinada demais, difícil, que eles não tinham modos, não sabiam o que era sentar em uma carteira, o que era andar em uma sala de aula. Então, assim, eu passei por um momento muito difícil. Crianças que não sabiam andar, sentar, conversar. Não sabiam nada disso, mas isso por causa da clientela que era muito carente (Transcrição do 34º encontro – 07/06/2005 – Professora 2).

Já com relação ao ano de 2005, sua análise é outra e a professora procura destacar que não tem problemas com sua sala de aula, que o problema está do lado de fora:

Pesquisadora – A sua pressão agora é a cultura escolar. Professora 2 – É o que está me fazendo desistir, né? O que está me fazendo desistir, porque eu entro na minha sala eu não tenho problema com a minha sala. Essa sala é um... Assim, nossa, eu adoro a sala. As crianças são carinhosas, elas são muito inteligentes. Tirando o [...], o [...] e a [...] a sala é muito boa. Assim, tem assim, ela dá para deslanchar... Que nem hoje eu trabalhei... Está no conteúdo para trabalha ar. Ar, água e solo. Eu trabalhei ar ontem e eu vi que a sala estava tão interessada que não precisava dar continuidade hoje, mas eu dei para dar seqüência, porque tinha os exercícios, coisa e tal. Você precisa ver, assim, o comentário deles, sabe? Tipo assim: o avião ele fica sobre o ar, sabe? Umas coisas assim que eu nunca imaginava que criança fosse pensar.

Pesquisadora – Segunda série. Nós às vezes subestimamos, não é?

Professora 2 – Sabe, então assim, a sala é muito... Eu não tenho problema com a minha sala. Da porta para dentro eu não tenho (Transcrição do 34º encontro – 07/06/2005).

Com o tempo a professora afirmou estar melhorando, pelo menos com relação à auto-estima:

Pesquisadora – Eu também senti que você deu uma melhoranda.

Professora 2 – Dei uma melhorada, porque eu coloquei na minha cabeça que eu iria ficar doente Eliza, porque todo mundo estava falando: “você vai ficar doente, você vai ficar doente, você vai ficar doente e não vai ter cura, hein?” Eu comecei a ficar com medo. Então, assim, eu estou me policiando mais, mas eu não quero isso pra mim por enquanto... (Transcrição do 34º encontro – 07/06/2005).

Por meio das duas situações expostas, percebe-se que a virada de um ano letivo para o outro pode trazer muitas conseqüências para os professores, em especial para aqueles que estão em início de carreira. Essas conseqüências podem ser de diferentes naturezas. Nos casos destacados anteriormente, as conseqüências diferenciaram-se de uma professora para outra. Com relação à Professora 1 podemos observar os efeitos que a mudança de série/ano de ciclo acarretou, sendo que no momento em que foi questionado a sua forma de condução das aulas, colocaram em xeque seus conhecimentos, concepções, crenças, hipóteses, estratégias de ensino e aprendizagem que a professora tinha, desestabilizando-a.

Com relação à Professora 2, a mudança de escola revelou um contexto diferente do que, até então, ela havia vivenciado em sua primeira experiência docente. Questões como cultura da escola, relações hierárquicas (professora x diretora) e até relação com os pares, surgem em destaque.

As reações das duas professoras, também se diferenciaram. No primeiro caso, a reação foi de desconforto e até, às vezes, de indignação diante da situação vivida, expressa principalmente quando a professora diz que não reproduziria a atitude de valorizar a quantidade em detrimento da qualidade, mesmo que para isso, de acordo com suas próprias palavras, “fosse pagar um preço muito alto por isso” (31º encontro – 17/05/2005). Já a Professora 2 teve como principal reação, o desejo de abandonar a profissão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A classificação feita por Huberman (2000) sobre as fases da carreira do professor, exemplifica muito bem o estágio em que se encontram as professoras iniciantes participantes da pesquisa: a fase da entrada na carreira, marcada pelos estágios de “sobrevivência” e “descoberta”.

O aspecto da “sobrevivência” traduz o que se chama vulgarmente o “choque do real”, a confrontação inicial com a complexidade da situação profissional: o tactear constante, a preocupação consigo próprio (“Estou-me a agüentar?”), a distância entre os ideais e as realidades quotidianas da sala de aula, a fragmentação do trabalho, a dificuldade em fazer face, simultaneamente, à relação pedagógica e à transmissão de conhecimentos, a oscilação entre relações demasiado íntimas e demasiado distantes, dificuldades com alunos que criam problemas, com material pedagógico inadequado, etc.

Em contrapartida, o aspecto da “descoberta” traduz o entusiasmo inicial, a experimentação, a exaltação por estar, finalmente, em situação de responsabilidade (ter a sua sala de aula, os seus alunos, o seu programa), por se sentir colega num determinado corpo profissional. Com muita freqüência, a literatura empírica indica que os dois aspectos, o da sobrevivência e o da descoberta, são vividos em paralelo e é o segundo aspecto que permite agüentar o primeiro (p.39).

O início da profissão docente é marcado por altos e baixos em um processo dinâmico em que cada dia é um dia, em que a cada acontecimento as reações e sentimentos aflorados ressoam dentro e fora da sala de aula.

Uma solicitação de última hora vinda da Secretaria da Educação ou da direção da escola; um projeto extra unidade que surge de um dia para o outro; uma reunião de HTP em que cobranças e pressões são feitas; uma situação de indisciplina ocorrida; um conteúdo em que diante de uma dúvida de um aluno o professor se vê frente à

fragilidade de seus conhecimentos; um processo de atribuição de aula que ocasiona diversas mudanças no corpo docente, entre outros eventos, representam os vários acontecimentos paralelos ao processo ensino-aprendizagem pelos quais os professores se vêem envoltos e que muitas vezes desestabilizam momentaneamente ou por um período maior de tempo.

Dificuldades como essas foram apontadas pelas professoras do Grupo. Mas conquistas e pontos positivos também foram lembrados, como o envolvimento dos alunos diante de um conteúdo; as associações entre os diferentes conteúdos trabalhados demonstrando a aprendizagem; a exemplificação dos alunos em sala de aula; a alfabetização de aluno com histórico de fracasso escolar; a primeira sala de aula, entre outros.

Nesse ínterim de altos e baixos o processo de aprendizagem profissional da docência vai se desenvolvendo. Processos reflexivos, construção e reelaboração de conhecimentos vão se fundindo e o processo de tornar-se professor vai se efetivando num contínuo que já se iniciou antes mesmo de começarem a dar aula.

As professoras iniciantes integraram o grupo de forma tímida, mas aberta, demonstrando vontade e entusiasmo em aprender. A cada dia a cumplicidade e a amizade aumentavam.

Todo o grupo se sensibilizou com a situação vivenciada pela Professora 2. Com seu sofrimento, sofremos também. Quanta vontade de podermos dizer a ela: “Olha! Professora 2 faça assim. Tome a seguinte atitude”, diante de seu dilema de não saber que encaminhamento dar a sua vida, se iniciava outra Faculdade, se abria um negócio próprio... Mas por outro lado, que vontade de fazer com que ela desistisse da idéia de abandonar a profissão. Uma professora que se mostrava empenhada, envolvida com seus alunos e com o processo-ensino aprendizagem.

Todo grupo também se preocupou com a situação que a Professora 1 estava passando em seu terceiro ano como professora. Dizendo estar sendo pressionada quanto ao rendimento de sua sala de aula e os encaminhamentos que estava dando no desenvolvimento do processo de alfabetização de seus alunos.

Assim, o grupo se envolveu com cada professora e com cada processo ali em desenvolvimento. Sugestões de estratégias, de atividades, trocas de experiências, foram alguns dos encaminhamentos dados.

De modo geral os encontros do Grupo podem ser divididos em dois momentos distintos: o ano de 2004 e o ano de 2005.