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6.1 Diskusjon av resultater

6.1.4 Mestring

A condição infeliz do caos remete a seu oposto, ao mito de uma fusão originária da qual permanece um sentimento nostálgico, pois “Babel é também a invocação e a nostalgia de

algo que existiu nos tempos primordiais do mito.”389

Em SQU o narrador encontra-se justamente no meio hostil da Babel de onde sonha, almeja, rememora seu lar, sua pátria e a centralidade de sua língua.

uma locomotiva dá um apito curto e nos corta o caminho. [...]...um vagão italiano...Subir lá, num canto, bem escondido no meio do carvão, ficar calado e imóvel na escuridão, escutando o ritmo interminável dos trilhos, mais forte do que a fome e o cansaço; até que, de repente, o trem pare, e eu sinta o ar tépido e o cheiro do feno, e possa sair ao sol; então deitar no chão, e beijá-lo, como se lê nos livros, com o rosto na grama. E passaria uma mulher, e perguntaria, em italiano: Chi sei?, eu responderia em italiano, ela compreenderia e me daria comida e abrigo. Ela não acreditaria nas coisas que eu contasse, e então eu mostraria o número tatuado no braço e então [acreditaria].390

388

Ibidem

389 AMATI-MEHLER et al. A Babel do inconsciente, p.48 390

LEVI, p.42-43. O último verbo da citação “acreditaria” foi acrescentado por nós enquanto ausente na

tradução que termina com “Ela não acreditaria nas coisas que eu contasse, e então eu mostraria o número

tatuado no braço e então...”. Porém, consideramos a questão do acreditar tão central que nos parece imprescindível acrescentar mais uma vez o verbo, a partir do momento que o próprio Levi o repete, dando

ênfase ao ato de confiança: “E non crederebbe alle cose che dico, e io le farei vedere il numero che ho sul

Aqui o desejo recompõe um caminho de volta através de vários elementos ligados à viagem, imagens de um verdadeiro nostos: o destino final (o vagão italiano), o ar, os cheiros e o sol que anunciam uma paisagem familiar (longe do cheiro de carvão, da lama e da névoa de Auschwitz), a chegada com o gesto do náufrago que beija a almejada pátria, uma figura feminina, sinal de um mundo humano e doce, que fala a língua materna e pergunta ao viajante sua identidade, como uma Nausicaa conterrânea interessada e cuidadosa, ou como uma Euricléia à qual a marca na pele revela a identidade do sobrevivente. Tudo conflui na imagem da Heimat, de Ítaca-Itália.

Este sonho de olhos abertos é especular ao sonho noturno recorrente do deportado que sonha estar em sua casa, contar e perceber que não acreditam nele. A insistência na língua italiana e sua ligação com o solo pátrio introduzem-nos ao tema que queremos abordar.

Entre os escritores que conheceram algum tipo de exílio linguístico e o tematizaram em sua escrita, a experiência de Primo Levi apresenta-se muito peculiar. A narração do campo de extermínio, como foi ilustrado, destaca o particular estado de vulnerabilidade que um italiano vivenciava na Babel de Auschwitz.

No entanto, a escassa presença do idioma no Lager permitiu que Levi mantivesse com sua língua um relacionamento positivo, ligado a amizades vitais, à memória da terra natal, da família, dos afetos, da vida livre.

Entre as personagens que povoam as páginas de SQU encontramos os amigos fraternos Alberto, Daniele, Walter, Leonardo (assim como Cesare de A trégua391 apenas acenado em SQU com o nome de Piero Sonnino), alguns reencontrados, outros mortos, com os quais o prisioneiro Levi reforça a possibilidade de compartilhar as lembranças comuns, o sentido de pertencer a uma coletividade humana.

Vimos que a comunicação linguística revela-se fundamental para tecer relações que representam fios de luz no breu do Campo. Não é casual que surjam outras amizades com prisioneiros franceses (Jean, Charles, Arthur) graças ao conhecimento deste idioma. Mas o italiano constitui mais do que uma premissa ou uma moldura para uma amizade. Revela-se quase um espaço físico, semelhante a uma casa, um refúgio.

391 Em realidade trata-se de Lello Perugia (1919-2010), cujo regresso é narrado em LEVI, P. O retorno de

Se no caso dos escritores-testemunhas de língua alemã ocorre a transformação da língua- mãe de língua materna-familiar a uma “língua do outro” - e, de fato, uma língua-Lei opressiva e esmagadora -, no caso da relação de Levi com o italiano situamo-nos nos antípodas. Efetivamente, a língua “do outro” pode ser analisada a partir do “outro” do qual gradativamente nós nos destacamos: a mãe. Apesar de “não escolhida”, tanto a língua como a mãe, como eventualmente a pátria e a casa, podem pertencer-nos (e revelar algo de nós, como nas palavras de Kluger) independentemente e anteriormente à presença de uma lei externa percebida como imposta e violenta. Hélène Cixous declara:

“Há uma arte do “não escolher” que deixa as coisas se imprimirem segundo sua maneira,

a matéria [...] toma formas em suas línguas, antes que a gramática tenha-lhes imposto

suas leis.”392

“Minha casa” é um breve texto que abre a coletânea de L´altrui mestiere. Seu incipit

remete à idéia de Cixous: “Habito desde sempre (com involuntárias interrupções) a casa

em que nasci: meu modo de habitar não foi, portanto, objeto de uma escolha”.393

De fato Levi nasceu, cresceu, voltou e morreu no mesmo apartamento394, peculiar condição sobre a qual ele mesmo ironiza: “Creio que o meu seja um caso extremo de sedentarismo, comparável ao de certos moluscos, por exemplo, a Patella Vulgata que, após um breve estágio larval no qual nada livremente, fixa-se a um rochedo, secreta uma concha e não se mexe mais durante toda a vida.” 395

E ainda afirmou: “Habito em minha casa como habito no interior de minha pele”.396

Apesar de conhecer o exílio extremo, o sentimento de estar exilado apareceria numa

392 CIXOUS, Hélène. DERRIDA, Jacques. La lingua che verrà. Roma: Meltemi editore, 2008, p.149,

tradução nossa da ed.italiana.

393“Abito da sempre (con involontarie interruzioni) nella casa in cui sono nato: il mio modo di abitare non

è stato quindi oggetto di una scelta” (LEVI, L´altrui mestiere, p. 3, tradução nossa)

394

Como nota Franco Ferrucci, a morte do escritor ocorreu com a caída no vão interno – e não externo - do edifício. Ver: FERRUCCI, Franco. La casa di Primo Levi. In Primo Levi as Witness: proceedings of a Symposium held at Princeton University: April 30-May 2, 1989. Fiesole: Casalini Libri, 1990,p. 53

395

“Credo che il mio sia un caso estremo di sedentarietà, paragonabile a quello di certi molluschi, ad esempio le patelle, che dopo un breve stadio larvale in cui nuotano liberamente, si fissano ad uno soglio, secernono un guscio e non si muovono più per tutta la vita.” (LEVI. La mia casa. In L´altrui mestiere, p.3, tradução nossa)

396“Abito a casa mia come abito all´interno della mia pelle”. E ainda: “so di pelli più belle, più ampie, più

situação imaginária bem mais simples: “se eu fosse arrancado, mesmo para me mudar para uma moradia mais bonita, mais moderna e mais confortável, sofreria como um exilado, ou como a planta que é transplantada num terreno ao qual não está

acostumada.”397

Além do dado biográfico, a idéia de casa possui um peso especial em SQU.Na epígrafe

a palavra “casa” é repetida já três vezes. Trata-se da poesia – publicada também na

coletânea poética com o título de Shemá -onde o autor pede ao leitor para compartilhar o conhecimento do que ocorreu:

Vós que viveis tranquilos Nas vossas casas398 aquecidas

Vós que encontrais regressando à noite Comida quente e rostos amigos: Considerai se isto é um homem Quem trabalha na lama Quem não conhece paz Quem luta por meio pão

Quem morre por um sim ou por um não Considerai se isto é uma mulher Sem cabelos e sem nome Sem mais força para recordar Vazios os olhos e frio o regaço Como uma rã no inverno. Meditai que isto aconteceu Recomendo-vos estas palavras. Esculpi-as no vosso coração. Estando em casa andando pela rua

bonitas, mais amplas, mais resistentes, mas me pareceria inatural trocá-las com a minha”, ibidem, p.7). Ferrucci ainda sugere uma comparação com o conto de Kafka, A toca, com a idéia de um aprisionamento voluntário provedor de segurança dentro de uma casa que é ao mesmo tempo pele e alma. Ver: Franco Ferrucci, op.cit., p. 51.

397“se ne fossi divelto, anche per trasferirmi in un‟abitazione più bella, più moderna e più comoda, soffrirei

come un esule, o come una pianta che venga trapiantata in un terreno a cui non è avvezza”(Ibidem, trad. nossa)

Ao deitar-vos e ao levantar-vos; Repeti-as aos vossos filhos.

Ou então que desmorone a vossa casa Que a doença vos entreve,

Que os vossos filhos vos virem a cara 399

Como observou Franco Ferrucci, “a casa aquecida que desmorona na desgraça parece

um concentrado de apocalipse” 400. Em seguida, no primeiro capítulo, a primeira imagem doméstica que encontramos coincide com a última situação vivida pelos deportados, no campo italiano de Fossoli, estágio intermediário de aprisionamento à espera da deportação para os Lager, não mais casa e ainda território italiano:

As mães, porém, ficaram acordadas para preparar com esmero aas provisões para a viagem, deram banho nas crianças, arrumaram as malas, e, ao alvorecer, o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar. Elas não esqueceram as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, nem todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem. 401

As imagens e palavras casa e mãe apresentam-se frequentemente juntas, não apenas aqui. Muitas vezes aparecem ligadas a outros elementos relacionados à pátria: quando os prisioneiros se abandonam às recordações, como no caso de um jovem prisioneiros que

399 http://www.morasha.com.br/edicoes/ed41/primo3.asp, último acesso: 1/06/2012. Preferimos esta

tradução que devolve o laço à atmosfera de uma maldição bíblica graças ao uso do “vós”. É de qualquer maneira indicada como referente a LEVI, P., Se isto é um homem, Editora Rocco, Rio de Janeiro 2000 (enquanto a edição que utilizamos é de 1988 e a tradução difere em alguns aspectos, principalmente pelo

uso mais informal e moderno de “vocês”). Em original: “Voi che vivete sicuri / Nelle vostre tiepide case /

Voi che trovate tornando a sera / Il cibo caldo e visi amici: / Considerate se questo è un uomo, / Che lavora nel fango / Che non conosce pace / Che lotta per mezzo pane / Che muore per un sì o per un no. / Considerate se questa è una donna, / Senza capelli e senza nome / Senza più forza di ricordare / Vuoti gli occhi e freddo il grembo / Come una rana d‟inverno. / Meditate che questo è stato: / Vi comando queste parole. / Scolpitele nel vostro cuore / Stando in casa andando per via, / Coricandovi alzandovi: / Ripetetele ai vostri figli. / O vi si sfaccia la casa, / La malattia vi impedisca, / I vostri nati torcano il viso da voi. i sfaccia la casa, / La malattia vi impedisca, / I vostri nati torcano il viso da voi.” Todavia (mas pe de minor relevância) o primeiro adjetivo “sicuri” é traduzido com “tranquilos” enquanto a edição de 1988 utiliza o

mais fiel “seguros”.

400 FERRUCCI, Franco. La casa di Primo Levi. In Primo Levi as Witness: proceedings of a Symposium

held at Princetown University: April 30-May 2, 1989. Testi in inglese e italiano. Fiesole: Casalini Libri, 1990 ( org. Pietro Frassica), p. 46

havia começado a contar sobre sua casa de Viena e sua mãe402, ou no capítulo “ O canto de Ulisses” onde Levi e seu companheiro alsaciano, Jean, relembram as respectivas terras e falam das mães e das montanhas. Assim, a nostalgia das “lembranças suaves,

cruelmente longínquas”403

leva à súplica dirigida ao amigo: “E as montanhas, quando a gente as vê ao longe, ó Pikolo, Pikolo, diga alguma coisa, fale, não me deixe pensar nas minhas montanha, que me apareciam na penumbra do crepúsculo quando eu retornava de

trem para casa!”404

Aqui também está a Heimweh, a dor pela casa. O Lager define-se em oposição à casa, tanto no sentido de lar, quanto em sentido mais amplo:

Mas cada um reflita sobre o significado que se encerra mesmo em nossos pequenos hábitos de todos os dias, em todos os objetos nossos, que até o mendigo mais humilde possui [...]Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes perde também a si mesmo; transformado em algo tão miserável, que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana [...] Ficará claro, então, o duplo significado da

expressão “Campo de extermínio”, bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no

fundo.405

No original italiano, a citação inicia-se com o verbo “considerare” (“ Ma consideri ognuno, quanto valore, quanto significato è racchiuso anche nelle nostre più piccole abitudini quotidiane”406) novamente ligado a imagens domésticas, desenvolvendo o tema da espoliação já presente na epígrafe.

Onde se perde tudo, para não perder a si mesmo é necessário salvar aparências mínimas de casa, memórias da pátria, palavras que consigam evocar o calor do lar; a tendência

402“Sigi tem dezessete anos e mais fome que todos [...] Começou falando e sua casa em Viena, e de sua

mãe; logo descambou para o tema da comida” (Ibid., p.74)

403 Ibid., p. 115. No original: “dolci cose ferocemente lontane ”.(LEVI, SQU, p. 143) 404 LEVI, p.117

405

Ibid., p.25

humana para “cavar-se uma toca” 407, como nota Levi, reforça-se como instinto que condições de extrema brutalização não conseguem apagar.

A espoliação, a expropriação, a aniquilação da identidade são descritos em todas as etapas, de cuja pregnante dramaticidade a língua não conseguirá dar conta, pois as próprias palavras são objeto da mesma aniquilação:

Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa: a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão – e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubarão até o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos.408

O espaço que separa definitivamente o prisioneiro da casa é escavado nas profundezas da terra e empesteado de fumaças nauseabundas: o fundo de Levi corresponde ao fundo do inferno de Dante.409 Cesare Segre traz à tona a analogia observando que “a maneira para

indicar o alcançar da máxima humilhação é, como em Dante, topológica: uma queda”.

Portanto, como observamos em Levi através da imagem do “fundo” e como vimos se

repetir em Kluger através da palavra “quedas” 410

, casa, habitat, habitar (abitare), Heim, Heimat opõem-se ao Un-heimlich absoluto, ao Lager, ao fundo infernal.

407 LEVI, p. 56. Cf. com o ensaio “La mia casa”. In L´altrui mestiere. 408 Ibid., p.25

409 Cabe aqui notar uma divergência de interpretações de tradução. Na tradução brasileira citada há um

momento em que “Eccomi dunque sul fondo”. (p 42) é traduzido com : “Aqui estou, então, no fundo do poço” (p.35). Discordamos profundamente pela perda e alteração semântica que este lugar comum da

língua (“fundo do poço”) carrega, apagando totalmente a potente ligação com o imaginário dantesco, eixo metafórico e intertextual de SQU.

410

É interessante notar que Kluger termina o capítulo sobre Auschwitz , falando de Primo Levi e com a

palavra “Quedas”, referindo-se à situação concreta e metafórica da saída violenta do trem. (KLUGER,

A casa, como mencionado, aparece no sonho recorrente do deportado e sua imagem é de novo repetida expressando – acompanhamos ainda Franco Ferrucci - a “obsessão alucinada” dos prisioneiros :

Por trás das pálpebras recém-fechadas, brotam violentamente os sonhos, os sonhos de sempre. De estar em nossa casa, numa prodigiosa banheira quente. De estar em casa, sentados à mesa. De estar em casa, narrando este nosso trabalho sem esperança, esta fome de sempre, este sono de escravos.411

.

É interessante salientar alguns elementos: o adjetivo “prodigioso” se destaca no meio da monótona condição escrava marcada pelos sonhos “de sempre”, pela fome “de sempre”; o extra-ordinário se concentra no campo do sonho, na “prodigiosa banheira”, enquanto a iteração do demonstrativo “este” (“este nosso trabalho sem esperança, esta fome de sempre, este sono de escravos”) indica a resignação a uma realidade repetida e infindável já familiar e ordinária: o prisioneiro experimenta a passagem da surpresa inicial a um

modus vivendi estabelecido e sem retorno. De toda forma, novamente a casa ( que aparece como sonho-milagre) se opõe ao Lager (que tornou-se única realidade).

Hannah Arendt, refugiada nos Estados Unidos, afirmava: “Alemanha quer dizer para mim língua-mãe, filosofia e poesia.”412. Segundo Derrida, “Arendt reafirma a língua

materna, isto é uma língua à qual se empresta a qualidade da origem” e “ „recalcada‟ ou

não, esta língua permanece a essência última do solo, a fundação do sentido, a inalienável

propriedade que se carrega junto.” 413

Enquanto Arendt expressa sua vontade de livrar sua

língua da mancha negra da destruição (“Contudo, não deve ser a língua alemã que

411

Ibid., p.69

412 ARENDT apud ZAMBONI, Chiara. Le riflessioni di Arendt, Irigaray, Kristeva e Cixous sulla lingua

materna. In THÜNE, Eva-Maria. All´inizio di tutto la lingua materna . Torino: Rosenberg & Sellier, 1998, p. 138 trad. nossa

413 “Arendt ré-affirme la langue maternelle, c‟est-à- dire une langue à laquelle on prête une vertu

d‟originalité. „Refoulée‟ou non, cette langue reste l‟essence ultime du sol, la fondation du sens, l‟inaliénable propriété qu‟on transporte avec soi. ” ( DERRIDA, Le monolinguisme de l´autre, pp.110-111,

enlouqueceu!”414

), o filósofo comenta esta posição para todavia rejeitá-la: “O que Arendt parece não enxergar [...] é que, por um lado, uma língua pode enlouquecer, tornar-se a própria folia, o lugar da loucura, a loucura na lei.”415 Portanto, define a posição de Arendt

“desarmée, naive et savante”416

. Em suma, o filósofo argelino manifesta sua convicção concernente à responsabilidade da língua alemã em tornar possível a folia do nazismo. Duas posições que se opõem mas denunciam de modo diferente as tensões na relação com a língua quando esta atravessa conflitos dilacerantes.

Ao falar da estudiosa alemã, Chiara Zamboni salienta: “Foi este tesouro que lhe possibilitou não ter saudade dos lugares de outrora e de viver sem remorsos nos Estados Unidos.”417

A língua, portanto, pode representar uma pátria “portátil” e uma preciosidade no exílio. No exílio extremo, representado pelo Campo de extermínio, onde a nostalgia é nostalgia de vida tout court, a língua (o italiano para Levi) também constitui um tesouro, um patrimônio que é possível resguardar e que, por sua vez, pode salvar. Uma ligação com o mundo dos vivos, com a memória e as raízes. Se Celan conheceu o sabor do horror ao beber o Schwarze milch (leite negro)418 da língua – língua “do outro”, língua manchada -, Cixous (que fala de um ponto de vista biograficamente semelhante ao de Derrida) parece aproximar-se à idéia de Arendt quando identifica em “seu” alemão a fonte benéfica e livre da languelait (língua-leite): “Me joguei nos braços da língualeite [...]A língua mãe que eu falo nunca foi submissa à gramática-lobo. Em mim ela canta e brinca, tenho o

414“Ce n‟est tout de même pas la langue allemande qui est devenue folle!” (ARENDT apud DERRIDA,

ibidem, p. 102, em nota)

415“Ce que Arendt semble ne pas envisager du tout [...] c‟est que d‟une part qu‟une langue puisse em

elle-même devenir folle, voire devenir une folie, La folie elle-même, le lieu de la folie, la folie dans la loi.” (Ibidem, p.104, em nota)

416 Ibidem, p.103

417 ZAMBONI, Chiara. Le riflessioni di Arendt, Irigaray, Kristeva e Cixous sulla lingua materna, op. cit., p.

140, tradução nossa

418 Em Todesfuge, célebre poesia de Paul Celan, são repetidos os versos: Schwarze Milch wir drinken und

sotaque correto, mas a voz iletrada. È ela [a língua materna alemã] que torna estrangeiro

o idioma francês.”419

A língua alemã mantém-se, de fato, “salva” em alguns autores que sofreram o exílio, mas não a deportação como Elias Canetti e Hannah Arendt, o primeiro tendo elegido este idioma, não materno nem paterno (que pertencia, porém, à relação afetiva dos pais)420, a

segunda respondendo à pergunta “O que resta?”: “Resta a língua mãe.”421

O idioma italiano para Levi também é uma língua salva, absolvida, que veicula faíscas de humanidade que resistem tanto na comunicação com os outros, quanto nas memórias cultas. Como acenamos, o autor conta ter-se lançado em rememorações escolares e